Coleção 2026

Quintais brincantes: quando o brincar cria raízes

Uma rede formada principalmente por mulheres conecta experiências de educação, natureza e cultura popular e reafirma o quintal como território de escuta, convivência e liberdade.

Percursos Formativos: Natureza como mestra, no festival Maré Delas, no Sesc Bertioga, em parceria com Tapera Brincante @taperabrincante e Coletivo Taboa @coletivo.taboa Fotografia: Dalmir Ribeiro Lima

Um quintal pode ser muito mais do que um espaço ao ar livre. Pode ser chão de descobertas, lugar de encontro, refúgio para a imaginação e território onde as crianças experimentam o mundo com o corpo inteiro.

É em torno dessa compreensão que se articula o Movimento dos Quintais Brincantes, uma rede formada principalmente por mulheres, entre mães, educadoras, terapeutas e artistas, que compartilham práticas e reflexões voltadas à escuta atenta dos brincares, ao respeito pelo tempo das infâncias e à conexão profunda com a natureza e a cultura popular.

Muitas dessas mulheres criaram ou integram quintais educativos em diferentes regiões do Brasil. São experiências diversas, ligadas aos territórios e às comunidades das quais fazem parte, mas aproximadas por uma mesma pergunta: como construir processos de aprendizagem que acolham as crianças em sua inteireza e reconheçam o brincar como dimensão essencial da vida?

Nos Quintais Brincantes, o quintal não é apenas um lugar físico. É também uma maneira de estar com as crianças: observar antes de conduzir, oferecer tempo e espaço para a livre exploração, confiar na potência dos encontros e reconhecer a natureza como mestra. Terra, água, folhas, sementes, galhos, pedras e tantos outros elementos tornam-se matérias de invenção, pesquisa e encantamento.

Uma rede em movimento

Em 2019, três dias de imersão conectaram famílias, brincantes, quintaleiros, educadores e facilitadores no primeiro encontro presencial do movimento, em Atibaia.

O movimento começou a ganhar corpo em 2019, com um encontro presencial entre quintaleiras e famílias. No ano seguinte, promoveu encontros virtuais para a apresentação de experiências brasileiras e a troca de pesquisas sobre infâncias e natureza. Nesse período, realizou também um levantamento que reuniu 52 quintais de diferentes regiões do Brasil e uma experiência do Malawi.

A pesquisa deu origem, em 2021, ao livro digital Quintais Brincantes: sobrevoos por vivências educativas brasileiras. Disponível gratuitamente, a publicação reúne diferentes maneiras de criar espaços educativos nos quais as crianças possam brincar livremente, conviver com a natureza e estabelecer vínculos com seus territórios.

No mesmo ano, a série de encontros virtuais Diálogos de Quintal colocou em circulação reflexões sobre infância, arte, natureza e educação, com a participação de convidados como Renato Nogueira, Adriana Klisys, Grupo Baquetá e Roquinho.

Em 2022, o movimento realizou o Festival de Mestras, encontro dedicado às mestras da cultura popular brasileira, e a Semana Quintaleira, com conversas, oficinas e outras atividades abertas ao público. Também passou a integrar redes e iniciativas voltadas à naturalização dos espaços escolares e à aprendizagem ao ar livre.

Quintais que atravessam o Brasil

Em 2023, o projeto Brasil Quintaleiro chegou a 66 escolas públicas das cinco regiões do país. Cada encontro reuniu a distribuição do livro, uma oficina e uma roda de conversa, ampliando o diálogo com educadores e comunidades escolares. A ação contou com o apoio institucional do Instituto Alana e do programa Criança e Natureza e foi realizada em parceria com o Instituto Brincarte.

Nesse mesmo ano, a instalação Quintais Brasileiros integrou a Conferência Internacional Espaços Naturalizados para as Infâncias, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O movimento também participou da conferência na mesa “Desemparedamento da infância: por territórios educativos e cidades educadoras” e realizou, no Sesc São Caetano, a experiência Brincadeiras de Quintal, convidando crianças e adultos a brincarem livremente em espaços vivos, inspirados na diversidade dos quintais que compõem a rede.

Fotografia: formação no Sesc Brusque – SC do Coletivo Taboa em parceria com Movimento dos quintais brincantes.

Em 2024, novas ações aprofundaram esse percurso. No festival Maré Delas, no Sesc Bertioga, o projeto Pra brincar, pra maré propôs uma formação em torno da natureza como mestra. Em Santa Catarina, Movimento Brincante promoveu percursos de aprendizagem em dez cidades, conduzidos por educadoras quintaleiras de diferentes regiões do Brasil. Já as experiências Brincadeiras de Quintal e Pra lá do meu quintal criaram ambientes de livre brincar em unidades do Sesc de São Paulo.

Entre formações, encontros, publicações, instalações e experiências de brincar, o Movimento dos Quintais Brincantes segue conectando pessoas e territórios. Ao reconhecer o brincar, a natureza e a cultura popular como fundamentos da educação, ajuda a cultivar espaços nos quais crianças e adultos possam aprender juntos com presença, liberdade, curiosidade e encantamento.