
2026
Infância: força regeneradora da vida
Reacender sonhos, cultivar o comum e regenerar a nossa forma de estar no mundo
“… a criança é o universal que nos resta.”*
Ismail Xavier
Ao olhar para a Terra, nossa casa comum, como um sistema vivo e interdependente, a 9ª edição da Ciranda de Filmes propõe um retorno ao essencial: reconhecer que a regeneração não é uma aspiração de futuro, mas uma capacidade intrínseca à vida, que precisa ser compreendida e cuidada com algo de muito valor.
Assim como os seres mais-que-humanos, dotados da capacidade de se adaptar, transformar e evoluir, e que guardam em si a potência da regeneração, essa força também nasce com as crianças: seres inteiros de mundo, de sensibilidade aguçada e que não fazem a separação entre si e a natureza.
As crianças nos convidam a estar, habitar, a crescer e se desenvolver de outra forma, como as plantas que se apoiam em outras sem sufocá-las e estabelecem trocas benéficas com o ecossistema que habitam.
Ao longo de mais de uma década de pesquisa e curadoria, a Ciranda vem confirmando, filme após filme, que a infância não é uma etapa de preparação para a vida adulta, nem uma promessa de futuro ou um tema a ser estudado.
Como afirma Lydia Hortélio, cuja presença, pesquisa e sensibilidade musical atravessam a história da Ciranda: “é preciso saber menino, conhecer o ser humano. E a essência do humano está entocada na criança”. Ao nos aproximar e cuidar da criança que carregamos em nós, temos a oportunidade de ir ao encontro de uma memória profunda daquilo que somos, e do que ainda podemos ser.
Vivemos tempos de violência extrema, guerras, medo e manipulação, marcado pela concentração de poder e pelo enfraquecimento de nossa habilidade de decidir sobre a própria vida. A crise climática se soma à hiperconectividade, ao isolamento e à perda da presença. Submetidos a um fluxo incessante de informações, corremos o risco de nos tornar espectadores apáticos de um mundo conduzido por poucos, como se não nos fosse possível interferir em seus rumos.
Neste mundo ferido em que vivemos, não podemos atribuir às crianças e aos jovens a tarefa de consertar o que as gerações anteriores não souberam cuidar. Cabe a nós, adultos, reconhecer nossos erros e conversar com as crianças com honestidade e respeito à sua inteligência. Afinal, temos muito a reaprender com elas sobre o pisar suave sobre a Terra, como sugere Ailton Krenak, reconhecendo a sua capacidade de adaptação, de criação, a sua presença e conexão com o mundo que habitam.
É nesse pisar mais suave, que as reconhecemos como seres regenerantes por natureza: adaptáveis, criativas, presentes e conectadas aos outros e ao mundo que habitam.
Pertence às crianças e jovens o direito e a capacidade de imaginar e optar por outros modos de convivência, como o das plantas que se apoiam e florescem em equilíbrio com o que as cerca.
O cinema que nos move
Por meio do cinema, linguagem que constitui a identidade da mostra, a curadoria desta edição propõe um mergulho reflexivo nesse tema.
Ao nos permitir habitar outros pontos de vista, o cinema ajuda a romper com a letargia, a nos indignar diante do absurdo. Com suas narrativas, temos a oportunidade de sentir e habitar, ainda que por alguns instantes, outros pontos de vista, outros tempos, outras realidades e maneiras de existir e cultivar a empatia.
Pelo seu potencial transformador, reconhecido como uma poderosa tecnologia de impacto social, cada filme que buscamos trazer para esta roda é um convite para persistirmos, juntos, na capacidade de fazer diferente.
Assistir em companhia, abre espaço afetivo e criativo para que voltemos a imaginar futuros nos quais as crianças, os jovens e vida estejam, de fato, no centro de nossas escolhas e atitudes, devolvendo à esperança a sua força de ação.
Além da permanente pesquisa e cuidado com a filmografia nacional, a 9ª edição marca o retorno dos filmes internacionais à curadoria da mostra. A programação conta com mais de 50 títulos, brasileiros e estrangeiros, entre curtas e longas-metragens e será entremeada por rodas de conversa, oficinas, vivências e exposições. Com isso, a Ciranda reafirma a sua vocação como espaço de encontro, de partilha e convivência, em que os filmes são o ponto de partida.
No evento de abertura, apresentamos a pré-estreia nacional de Papaya, longa de animação de Priscilla Kellen. Sem diálogos, o filme acompanha uma semente de mamão que sonha voar e, ao tentar escapar do enraizamento, descobre a força das próprias raízes. O filme integrou a mostra Generation Kplus do Festival de Berlim e foi selecionado e premiado em diversos festivais ao redor do mundo.
No encerramento, o filme Do Colo da Terra, de Renata Meirelles e David Vêluz, mergulha no cotidiano de crianças “espiritadas” Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva, Baniwa e Kĩsêdjê. Em seus territórios, o cuidado, a brincadeira, a espiritualidade e a vida a comunitária estão intimamente conectadas ao pertencimento à Terra.
Entre esses dois filmes, a curadoria traz para a roda realidades e narrativas muito distintas, entre elas, o documentário Uma casa feita de farpas (A House Made of Splinters), de Simon Lereng Vilmont, que acompanha crianças acolhidas temporariamente em um abrigo no leste da Ucrânia; A chave para a liberdade (La clé des champs), de Claude Nuridsany e Marie Pérennou, criadores de Microcosmos, revela o universo encantado que duas crianças descobrem à beira de um lago; e no superpremiado DJ Ahmet, Georgi M. Unkovski, a música abre passagem para o desejo de um adolescente que questiona os vínculos em sua comunidade conservadora.
A programação revisita ainda alguns clássicos: A língua das mariposas (La lengua de las mariposas), de José Luis Cuerda, que trata do encontro entre um menino e seu professor às vésperas da Guerra Civil Espanhola; Rue Cases-Nègres, da cineasta Euzhan Palcy, em que a relação de um menino com sua avó revela a educação como caminho de emancipação; e Yaaba, do aclamado diretor Idrissa Ouédraogo, de Burkina Fasso, no qual a amizade entre um menino e uma idosa estigmatizada como bruxa desafia os preconceitos e as crenças de sua comunidade.
Experiência ampliada
Alguns filmes seguem depois dos créditos no que chamamos de sessões especiais seguidas de debate. A ficção alemã Babystar, de Joscha Bongard, abre uma conversa sobre a superexposição de crianças e jovens nas plataformas de redes sociais; o documentário Amora, de Ana Petta, ainda inédito nos cinemas, é ponto de partida para uma conversa sobre o direito das crianças à cidade, à natureza e ao brincar; e o chileno Cien niños esperando un tren, de Ignacio Agüero, que registra a oficina de cinema conduzida por Alicia Vega com crianças de um bairro popular de Santiago durante a ditadura de Pinochet.
Fora das salas de exibição, as rodas de conversa abordam as infâncias em tempos de emergência, a potência do brincar e os modos como crianças e jovens são vistos pelo cinema brasileiro. A oficina O cinema como laboratório do sensível, com Cezar Migliorin, realizada em parceria com o CineSesc, aprofunda o diálogo entre cinema e educação.
As vivências lúdicas, conduzidas por Roquinho e Leila Garcia, convidam o público a criar com as mãos e com o corpo. Já as exposições, Tecendo Saberes, de Marie Ange Bordas, e de obras de Renaya Dorea, autora da identidade visual desta edição, que permeiam o saguão do cinema, expandem a experiência além da sala escura.
A programação também circula por Fábricas de Cultura de São Paulo e pelo Centro Cultural Casarão, em Campinas. Depois da etapa presencial, parte da seleção de filmes brasileiros poderá ser vista na plataforma Itaú Cultural Play.
Mais de 50 produções brasileiras e internacionais, entre longas e curtas-metragens, integram a programação, que inclui ainda rodas de conversa, oficinas e vivências.
Mais do que nos indignar diante da distopia ou apenas projetar um futuro melhor, a Ciranda propõe começar a vivê-lo desde agora. Por meio da experiência cinematográfica e dos encontros que compõem a sua programação, convida educadores, mães, pais, artistas, estudantes, cinéfilos e crianças a compartilhar a responsabilidade do cuidado com a infância e a juventude – aquela que está diante de nós e ao nosso redor e aquela que continua viva em nós.
Convida, também, a reacender sonhos, cultivar o comum e imaginar outras formas de viver juntos. Regenerar a vida não é inventar um mundo inteiramente novo, mas reaprender, – a partir de um olhar atento para as crianças e jovens, para as histórias e experiências que partilhamos, os saberes de nossas raízes ancestrais e de todos os seres que compartilham conosco esta existência -, a pisar e habitar suave e coletivamente a nossa casa comum.
Fernanda Heinz Figueiredo e Patricia Durães
* “Inocência? Somente na figura do infante, espécie de reserva do que ainda pode gerar compaixão, encarnar valores, prometer. Ele é, por isto, personagem central no cinema mundial contemporâneo cujo lema parece ser: a criança é o universal que nos resta.” Trecho do artigo “Figuras do ressentimento no cinema brasileiro dos anos 1990″, de Ismail Xavier, publicado na Revista Aniki vol.5, n.º 2 (2018)”
** Ismail Xavier – Formado em engenharia mecânica e comunicação social (com especialização em cinema) pela USP, da qual é mestre e doutor em teoria literária (sob orientação de Antonio Candido), Ismail Xavier é PhD em cinema pela Graduate School of Arts and Science da Universidade de Nova York. Professor da USP, deu aulas na Universidade de Nova Iorque, Universidade de Iowa e na Université Paris III – Sorbonne Nouvelle. É membro do conselho consultivo da Cinemateca Brasileira e do conselho editorial das revistas acadêmicas Novos Estudos e Literatura e Sociedade. Escreveu os seguintes livros: O discurso cinematográfico, A experiência do cinema, O cinema brasileiro moderno, Alegorias do subdesenvolvimento, O olhar e a cena e Sertão mar: Glauber Rocha. (via Artepensamento IMS https://bit.ly/4ydILyE)

