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Era uma vez: “tjamparanjani“!

“Somos poetas, poetisas e artistas do futuro

Cantamos o A B C da nossa alegria, da nossa dor, da nossa saudade”.

O filme “Tjamparanjani” (Miko Meloni, 2016), parte da programação da Mostra Itinerante da Ciranda de Filmes, mostra o primeiro episódio do programa de rádio de mesmo nome. Nele, foram apresentadas as obras de todos os participantes do novo curso de uma oficina de arte, atividade que revela um pouco sobre as crianças, seus gostos e vontades, além da própria comunidade, incluindo suas famílias. Em pinturas, contos e poemas, conhecemos as histórias desses pequenos (grandes) artistas.

As crianças da Escola Primaria Completa de Natite, bairro na cidade de Pemba, ao norte de Moçambique, ficaram surpresas com o pedido do diretor, que passou em cada sala pedindo para que seus alunos estivessem na escola no sábado. “Não nos disse o porquê, só nos disse para vir”, diz a menina Ornilda Eugénio, uma das entrevistadas do “Tjamparanjani” . Ao chegar à escola no final de semana, viu as salas divididas em várias opções de oficinas ‒ quem quer poesia vai para um lado; quem quer pintura, para outro. Ornilda juntou-se com a turma da poesia e lá encontrou professores voluntários que lhe ofertaram materiais e liberdade para poetizar. A garota escolheu homenagear a mãe, que lhe ajudou com o primeiro poema. Depois do incentivo, “comecei a falar lindas palavras, escrever belos poemas”. Durante a entrevista, ela confessa não saber se recitará o poema da maneira como o escreveu, mas, ao fazê-lo para o entrevistador, um dos artistas voluntários da oficina, Ornilda fecha os olhos e seus versos declama com sinceridade e intensidade.

E não é o único momento de integração familiar que acaba sendo promovido com a iniciativa da oficina. Junto de Ornilda, Latifo e Cláudia são poetas mirins convidados a explorar e aprofundar o conhecimento na poesia com suas avós, Avó Helena e Avó Awagi. Sentam-se juntos e ouvem os contos. As avós também são artistas. A poesia, cantada em língua macua, “busca um toque do saber antigo”, como diz o realizador do encontro, numa troca entre gerações.

Com isso, os artistas locais conseguem despertar nas crianças não apenas a sensação de pertencimento, mas um realce e uma afirmação das suas identidades. Cláudia, ou Clau, como chama o entrevistador, conta que em uma das aulas a professora perguntou: “O que é poesia?”, “O que faz um poeta?”, “O que faz uma obra de arte?”. 

Para a primeira pergunta, a poeta responde “a poesia exprime sentimentos”. Para refletir sobre quem é o poeta e sua obra, o que conduz é pensar em quem é Cláudia fora da oficina. Para ela, uma qualquer. “Foi na oficina de arte que eu me senti feliz; quando estou fora, sou uma qualquer”.

O que ouvimos ‒ e vemos ‒ na obra são crianças que passam a poder contar sobre si mesmas e sobre o mundo por meio da arte. Não à tôa, “tjamparanjani”, em língua macua, equivale ao nosso “era uma vez”. Mas as histórias não são individualizadas. A família e os artistas se misturam nesse momento, ouvindo e acompanhando as crianças em suas experimentações. A cada “tjamparanjani!” dito na roda, todos devem responder “shampatteke!”, mantendo o ritmo do conto.

Depois dessas e de outras histórias, o programa Tjamparanjani encerra seu primeiro episódio ‒ e o filme ‒ com uma roda artística em um dos centros culturais de Pemba. O artista que guiou as entrevistas, apresentando os artistas e poetas do futuro em seu programa de rádio e para nós, espectadores do filme, convida as crianças a fazerem um poema de pronto. O tema: descrever em versos o seu bairro, para saber como veem o mundo. As crianças tentam pensar rápido, uma rascunha versos no caderno, outra se mostra nervosa. Mas conseguem dizer com sinceridade, mostrando todo o resultado do projeto: “É no meu mundo que eu aprendo”.

Assista “Tjamparanjani – Era Uma Vez” aqui ou na página oficial do diretor.