Acreditamos que juntar pessoas que fazem do seu trabalho objeto de reconciliação é ato de potência criativa do encontro. Como iniciativa da Oficina de Crítica Cinematográfica, a Ciranda promove com Sérgio Rizzo (responsável pela oficina), José Geraldo Couto e diversos educadores, uma roda de conversa virtual para clarear uma das tantas intenções: a aproximação da arte cinematográfica como experiência coletiva e de comunhão. Quem não conferiu a primeira parte da prosa, clique aqui.
Os convidados dessa segunda parte são:








Ciranda: Com o desafios do trabalho com as crianças e do urgente debate em torno aos processos educativos dedicados a elas, como você avalia a necessidade da formação de críticos especializados na produção de filmes sobre infância, para infância e educação?
José Geraldo Couto: Penso que seria interessante a formação de críticos especializados em filmes sobre e/ou para a infância, dada a especificidade dessa produção e os temas delicados envolvidos nela e em sua recepção. Acho que uma tal formação exigiria alguns conhecimentos na área da psicologia e da educação, além de conhecimentos extensos dessa filmografia específica. Quanto mais filmes o crítico conhecer nesse campo da produção, mais estará apto a estabelecer relações, discernir o que é relevante, detectar novidades etc.
João Pires : Como você acha que o cinema pode contribuir para as discussões sobre identidade de gênero e diversidade sexual na escola? Você poderia compartilhar com a gente alguns filmes e personagens que você acredita que proporcionam isso?
Sérgio Rizzo: Depende muito da idade das crianças e adolescentes com as quais trabalhe o educador. Pensando em adolescentes de Ensino Médio, por exemplo, filmes de Pedro Almodóvar são uma boa referência — e o livro “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar”, de Antonio Carlos Egypto, autor de diversos livros sobre educação sexual, é um bom guia para uso do educador interessado nesses temas.
José Geraldo Couto: Caro João, existem inúmeros filmes que abordam, de forma direta ou indireta, questões ligadas a identidade de gênero e diversidade sexual. Tudo depende da adequação desses filmes ao seu público, levando em conta especialmente a idade e maturidade dos alunos/espectadores. Dou alguns exemplos. Um filme muito interessante e indicado “para todas as idades” é o belga “Minha Vida em Cor-de-Rosa” (1997), de Alain Berliner, sobre um garoto que se identifica com as meninas e sente vontade de ser uma delas. Para um público especificamente mais adolescente, há dois filmes brasileiros que me parecem suscitar boas conversas: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (2014), de Daniel Ribeiro, e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), da Laís Bodanzky. Como se trata de questões complexas e delicadas, tão importante quanto a escolha dos filmes é a sensibilidade do professor ao discuti-los com seus alunos.
Denise Beraldo: Pensando no cinema e nas linguagens que envolvem o processo de cuidar e educar bebês e crianças pequenas, como a linguagem cinematográfica pode contribuir no processo de formação de educadores da primeira infância? Qual é a principal semelhança que você reconhece entre o trabalho do roteirista e do educador da infância? Para você, ambos constroem narrativas?
Sérgio Rizzo: Um educador que trabalhe com a primeira infância encontrará no cinema, em primeiro lugar, um vasto repertório de abordagens da infância, na ficção e no documentário. Refiro-me a inúmeros filmes de curta e longa-metragem que podem ajudar na reflexão sobre os valores e as práticas envolvidas no cuidado com crianças, nos domínios familiar, social e escolar. O cinema pode ser também, como as demais artes, uma instância de desenvolvimento da sensibilidade, algo valioso para todos os educadores, não só os que trabalham com bebês e crianças.
Diferentemente do que imagina o senso comum, roteiristas não são os únicos profissionais de cinema envolvidos na construção de narrativas; dividem essa condição, na pior das hipóteses, com os diretores e os montadores (hoje mais frequentemente tratados como “editores”). A narrativa de todo filme passa obrigatoriamente pela contribuição desses três profissionais. Parece-me que o educador da infância pode se relacionar com as narrativas do cinema da mesma forma que se relaciona com a tradição das narrativas literárias, sobretudo a dos contos de fadas e fábulas, no caso dos educadores da primeira infância: como modos ricos e envolventes de representar o mundo e de convidar a reflexões sobre a nossa presença nele.
Ciranda: Quais desafios e possibilidades você enxerga da Lei 13.006 de Cinema brasileiro nas Escolas, criada pelo Cristovam Buarque? Qual o papel e a importância que os críticos de cinema têm na construção deste novo cenário?
Sérgio Rizzo: Críticos que sejam também educadores e pesquisadores terão certamente contribuição a dar na formulação de políticas e estratégias que, como apontei anteriormente, evitem a “escolarização” do cinema. Alguns dos principais desafios dizem respeito à familiarização de educadores com a linguagem audiovisual, com a presença do audiovisual na sociedade, com os mecanismos de recepção e com as múltiplas possibilidades de aproximação entre o cinema e a educação, que não se restringem, como muitos entendem, a um uso do audiovisual como mera ferramenta paradidática para a ilustração de conteúdos.