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Olhares Olhares 2017

Quando um coração se quebra

A nossa existência neste mundo às vezes é breve; às vezes, longa. Mas o que estamos fazendo com esses anos se ela não for plena de sentido? Em alguns momentos nos sentimos completos. Ao percorrer seu álbum de fotografias e rever a infância, a adolescência e o casamento com Beto, Marina Bitelman, a protagonista narradora de “Verdade Passageira”, conclui que teve muita sorte na vida. Em outros momentos, porém, algo nos falta, e esse significado se esvai. Marina expressa o seu vazio: “De repente, o mundo parou”, ouvimos, entrando na surda escuridão de um túnel na estrada.

Em busca do sentido que recoloque seu mundo em marcha, Beto e Marina partem em uma longa viagem sem data de volta. Eles nos levam a países distantes, como o Marrocos, o Nepal, a China, em um misto de trabalho e de busca espiritual. A casa foi desmontada, a vida em comum dentro de caixas de papelão. As mochilas de viagem voltam a ser apenas duas. Ela se pergunta: “Nós éramos uma família. E agora, o que somos?”.

No Marrocos, ponto de partida dessa jornada, o casal entrevista empreendedores para descobrir como o microcrédito (especialidade de Beto) pode ajudá-los a desenvolver seu potencial, materializar seus sonhos. É assim que eles e nós conhecemos as histórias, as esperanças e as dores de tanta gente diferente. A tapeceira Ellaouat explica como aprendeu sozinha a arte que desde menina a encantou. Ela graceja, conta seu ofício, enxuga lágrimas. Sentadas no chão, ela e Marina se abraçam, entre risos. “Como eu posso me sentir tão próxima de alguém que eu nunca vi na vida — e talvez nunca mais veja?”

O próximo trem parte. “Eu olho pro Beto e me pergunto: será que a gente ainda é uma família?” Da janela, avistamos apenas a calmaria de uma extensa planície, a caminho da Ucrânia, terra dos avós de Marina. De lá, o casal vai à Rússia, ao Quirguistão, ao Vietnã. Cada chegada a um novo país traz à narradora uma sensação de insegurança, de ter perdido tudo o que havia conquistado até aquele momento. Um lento exercício de aceitação da impermanência.

Ela ouve a história da vietnamita Huynh Thi Kim Lien, que vende brinquedos e faz faxina para sustentar a casa, e ainda assim só ganha o suficiente para a comida. Chove, e uma pequena cascata desce do telhado para uma bacia na cozinha. Ela se diz uma mulher azarada: o marido só bebe, não trabalha porque é fraco para os serviços braçais. Seu sonho é ter uma casa sólida. “De onde essa mulher tira força para sustentar a família sozinha?”, reflete a narradora.

Ver o mundo passar pela janela do trem faz Marina entrar em um tempo só dela. E então ela volta para o dia em que sua filha Sofia nasceu, em 2005. O bebê carequinha aparece na tela, no colo do pai, abraçado pela esposa, olhando para nós. O vazio é nomeado. “Como aguentar a dor de perder uma filha?”

Seguindo viagem, o casal conversa com as mulheres de uma sangha indiana, uma espécie de comunidade em que elas trocam experiências para ajudar as outras a realizar o sonho de ter um negócio com o dinheiro que ganham com a prostituição, onde são jogadas para pagar dívidas, às vezes contraídas por seus maridos. A força e a vulnerabilidade dessas mulheres intriga a narradora.

No Nepal, Suntali Tamang, dona de uma avícola e criadora de uma associação comunitária de microcrédito, conta que um filho trabalha na fazenda, o outro acabou de se formar e o mais novo está estudando. Mas a filha não está mais entre eles: foi estuprada e morta em um canal ali perto. No silêncio, a emoção contida de uma dor que Suntali não esqueceu.

No ritmo do barco que desliza rio abaixo, Marina reflete. “Juntos, olhamos pra nossa dor. O caminho não é negá-la, mas deixar ela nos transformar.” Cada uma dessas histórias, para ela, devolveu ao casal a capacidade de sentir e de reestabelecer elos com as pessoas. A dor que marca um período também traz um novo olhar para ressignificar a vida e construir novas verdades, ainda que passageiras. Ao voltar da viagem, Marina e Beto construíram outras carreiras, uma nova família, pois “quando um coração se quebra, ele se abre ainda mais”.

Texto: Bruna Fontes

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Olhares Olhares 2017

Rosa: para transcender a vida e a morte

O cinza reina, o inverno congelante parece eternizar a escuridão, a guerra, o choro, a espera. O início declara a morte. O que o fim vai declarar? Assim começa uma busca à sombra de uma guerra.

“Rauf”, longa-metragem ficcional dirigido por Barış Kaya e Soner Caner, traz a vida dos curdos, um povo que luta por suas autonomia e independências política e territorial há muitos e muitos anos. Eles vivem em pequenas vilas ao redor do Irã, do Iraque, da Síria e da Turquia. Rauf, que vive num desses vilarejos turcos, é menino curdo, uma minoria frágil que sofre grande perseguição, em meio a uma briga invernal entre grandes, pelo petróleo.

Ao anoitecer, os habitantes da sua vila se escondem em suas casas escuras, apagadas, para se protegerem de ataques. O opressor, como uma raposa, não pode ser visto. Ao som de bombas, Rauf é acolhido pelo carinho maternal. Ele dorme e acorda ligeiramente ao som delicado do choro de sua mãe, que sofre por seu filho mais velho, que foi para as montanhas. Dia após dia, uma senhora silenciosa, sua avó, contempla as montanhas, em uma espera sem fim. A esperança e o sonhar sintetizados em uma imagem de loucura.

Uma figura folclórica do lugar, um veterano curdo de uma guerra estrangeira, vai até a escola para contar suas histórias, lembrar como ele perdeu a visão. Rauf é interrompido na escuta e injustamente expulso da classe. Os adultos escondem, querem ser mestres, se esforçam para não explicar, insistem que as crianças não percebem, não entendem, não sentem.

Quando Rauf é expulso da escola, seu pai o leva para o carpinteiro para que possa aprender o ofício do amigo. A ocupação principal do carpinteiro é fazer caixões para os mortos da causa que todos sabem. Na oficina, Rauf conhece Zara, filha do artesão, uma moça dez anos mais velha que ele, pela qual nutre um amor platônico. Em um esforço de se aproximar e encantar a jovem, Rauf se coloca a tarefa de procurar o rosa, cor preferida da enamorada, enquanto aprende o ofício de enterrar os mortos de seu povo.

Onde encontrar a luz e a cor para a intimidade das casas escuras? Como transcender a morte, o cinza, o inverno congelante, a guerra, o choro? O silêncio da espera se rompe, e a aparente loucura se apresenta como ingresso para a escalada primaveril até o rosa. Mesmo onde aparentemente não há, onde ninguém conhece a cor, Rauf não desiste. Depois de várias mortes, ele amadurece e colore de sentido o viver, o crescer e o morrer que habita.

Texto: Vanessa Fort

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Da inanição à imaginação

O que alimenta o corpo também alimenta a alma? É uma pergunta nos ronda em vários momentos do documentário “Banquetes imaginários”, um filme que convoca silêncio, só interrompido pelo ranger de portas e assoalhos, por murmúrios em noites profundas, pelo zunido do vento nos campos de concentração.

Estamos na Alemanha, idos de 1944, e uma voz nos conta que corpos esquálidos tremiam na paisagem branca. E não só pelo frio que cortava a pele. Mas devido à fome. Ali sobreviveram poucos em meio a um exército de homens e mulheres famintos, “desesperadamente famintos”, enfrentando um cruel racionamento de alimento que perdurava meses, com muitas vezes apenas um “líquido preto” (café?) a escorrer pelas paredes do estômago.

Em meio à inanição, a imaginação. Os concentrados, das mais variadas procedências, escreviam receitas familiares em restos de papel e pedaços de tecido, alguns encapados com ferragens de fuselagens de guerra. Verdadeiros banquetes se faziam em palavras e sussurros, uma espécie de reza de muitas vozes. Os cadernos foram guardados em sigilo, alguns preservados no tempo.

O filme de Anne Georget mergulha nesses registros, feitos em campos de concentração e de trabalho na Alemanha, na Rússia e no Japão. A cineasta leva os documentos à leitura de historiadores, filósofos, psicanalistas, neurologistas e chefes de cozinha, que radiografam os ingredientes, as medidas, os métodos. Algumas receitas traziam com precisão o que só habitava as lembranças. “O sofrimento é tangível nessas receitas, a dor é palpável”, comove-se Olivier Roellinger, renomado cozinheiro francês.

Christiane Hingouët, sobrevivente dos campos de concentração nazista, relata o árduo cotidiano vivido, da lida que se estendia por 12 horas ininterruptas, com pequenas rações diárias (um pedaço de pão, uma salsicha, um caldo ralo). “É terrível sentir fome. Não falo de fome antes do café da manhã. Falo de fome depois de dois anos de inanição. Terrível. É o que mais me marcou. Mais do que as surras.”

Ela não sabia cozinhar, sequer fritar um ovo, mas inaugurou um “banquete imaginário” por meio de muitas descrições de como fazer bolos, sopas, pudins. Conseguia se imaginar cozinhando aquelas iguarias coletivamente relembradas, registradas e sonhadas, numa intensa comunhão daquela fantasia glutona. Às vezes, as receitas embalavam as conversas da hora de dormir. A boca salivava.

Alimento simbólico, transmitido de uma pessoa para outra, as receitas pareciam libertar aquelas pessoas da privação. E depois de uma refeição gourmet imaginária, o alívio. Estavam juntos, reunidos, como num almoço de domingo, partilhando coletivamente o momento. Resistiam naquela fantasia em que a comida, expressão social e cultural de um povo, significava fortemente a ideia de pertencimento a algum lugar que não aquele. Representava a própria existência.

Vestígios familiares surgem nas receitas, do primeiro mingau na infância aos banquetes de casamentos. Sopas, bolos, pudins, ensopados e caldos, refeições simbólicas, de algum jeito uniam aqueles que estavam apartados da família, da casa. Da vida.

Por que não falavam de livros, músicas ou pinturas? “Algumas pessoas não ouviam música, outros não tiveram a sorte de apreciar literatura ou ainda a oportunidade de admirar pinturas. Mas todos tiveram o prazer de experimentar uma boa comida”, explica Roellinger, destacando a universalidade do alimento, disparador de lembranças e afetos.

Escrever os cadernos de receitas foi uma forma de sobrevivência, talvez um ato de resistência, revela um dos entrevistados. Uma resistência baseada no encontro, na partilha e no prazer, que de algum modo os libertou naquela vida simbolizada num banquete imaginário.

Texto: Gabriela Romeu

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Olhares Olhares 2017

“A luta deste tamanho é agora”

Em novembro de 2015, estudantes da rede pública de São Paulo surpreenderam o país com uma atitude inusitada. Às vésperas das férias, os secundaristas se trancaram dentro das escolas, deixando professores e diretores do lado de fora. Sua mensagem era clara: não sairiam enquanto o governo estadual não desistisse da reorganização que pretendia fechar 94 escolas e remanejar alunos para outras unidades, na tentativa de cortar gastos com educação.

Essa é a história que todo mundo conhece. Já a que o cineasta argentino Carlos Pronzato nos conta no documentário “Acabou a paz – Isto aqui vai virar o Chile” é outra: a narrativa com a voz dos jovens que se engajaram na ocupação de 200 escolas estaduais durante 26 dias, sem a mediação da mídia ou do governo. Esse é seu segundo filme sobre esse tipo de mobilização: ele já havia acompanhado as ocupações escolares chilenas de 2006 e dirigido o documentário A rebelião dos pinguins (como são chamados os secundaristas chilenos), que inspirou as ações dos estudantes paulistas.

De saída, os jovens deixam claro que gostam, sim, de suas escolas, e não querem estudar longe de casa e dos amigos sem receber mais explicações. “Essa reorganização chegou do nada. A gente não quer sair daqui porque ele acha que é melhor fazer isso. Até porque a gente sabe que não vai melhorar”, diz Ariane, da Escola Estadual Godofredo, referindo-se ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, retratado com chifres em uma caricatura desenhada em papel pardo atrás dela.

Para os estudantes, a fórmula para a melhoria do ensino é ter menos alunos em cada sala, mais professores e melhor estrutura – o que em muitos casos, eles contam, significa apenas abrir a porta de uma biblioteca trancada ou dar acesso a quadras esportivas que já existem. “Eu estudei a minha vida inteira em escola pública. É triste falar, é pesado, mas eu não aprendi nada em 11 anos”, diz Manuela, da Escola Estadual Alberto Conte, em frente a uma pequena montanha de livros jogados em uma grande sala que virou depósito para obras que os alunos nunca leram.

Com a recusa do governo ao diálogo, os secundaristas vão às ruas. De braços dados, vemos os jovens erguendo faixas com as reivindicações e parando o trânsito paulistano levando suas carteiras para as avenidas, num claro pedido de apoio da sociedade. Do outro lado, a fileira de policiais avança batendo ritmadamente o cassetete nos escudos erguidos, um prenúncio da batalha. “Por que vocês estão levando ele preso?”, questiona o jornalista Caio Castor, antes de sua câmera sair de cena com um tapão.

Ir às ruas tampouco surtiu resultado: o governo manteve sua posição. “O grupo foi percebendo que não dava para ficar só pedindo as coisas, a gente ia ter que exigir”, afirma Francisco “Chico”, da Escola Estadual Fernão Dias. Inspirados pelas cartilhas dos “pinguins” chilenos, os alunos resolveram, por fim, ocupar as escolas. No documentário, eles contam como criaram seu próprio modelo de gestão e ensino. Abriram as portas das quadras e bibliotecas, revezaram-se para fazer a comida e a faxina, organizaram saraus e receberam especialistas para aulas-debate sobre temas como maioridade penal, feminismo e exploração do mercado de trabalho. “Esse mês da ocupação foi a escola ideal para muitos. Aqui todo mundo tinha voz, não era uma coisa vertical, que vinha de cima para baixo”, diz Douglas, da Escola Estadual Diadema.

As decisões sobre os próximos passos da ocupação foram sendo tomadas em assembleias que reuniam membros de todas as escolas que participaram do movimento. Juntos e organizados de maneira horizontal, sem lideranças, os estudantes perceberam que a força de transformação partia de dentro de cada um. E que o momento de agir é o presente, não um futuro idealizado. “A luta deste tamanho é agora”, gesticula, enfaticamente, um estudante não identificado da Escola Estadual Maria José. Depois de 26 dias de ocupação, o governo estadual capitulou e suspendeu a reorganização escolar. Os secundaristas não se deram por satisfeitos. “Não colocaria [isso] como uma vitória, e sim uma conquista”, conclui a jovem Thayná.

Texto: Bruna Fontes

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Juventudes (não) sonhadas

Seguindo a linha do trem urbano que corta a paisagem de morros ou a trajetória da bola no futebol da quadra de concreto, conhecemos os anseios e os receios de jovens de oito Estados das cinco regiões do país no longa-metragem “Nunca me sonharam”. Ao aproximar a câmera dos jovens, o cineasta Cacau Rhoden capta alguns desejos, ouve alguns sussurros. Então, aquela nostalgia de liberdade que sopra com o vento que brinca com cabelos azuis e acompanha coloridas meninas em seus skates se esvai na voz do adolescente: “A partir do momento em que o sonho foi tirado de mim, eu desisti dele também”.

A adolescência, idealizada como a idade em que somos mais livres para sonhar, experimentar, começar a escrever em primeira voz a narrativa de uma vida que ainda não tem as amarras do ser adulto, é “tempo de tempestades e trovões”, profere quem já atravessou um portal que parece apartar mundos. Ou já experimentou o rito de passagem que é percorrer os anos do ensino médio nas escolas brasileiras, públicas ou privadas. “Não queria ser jovem, não, queria passar direto para a fase de adulto”, a voz de outro adolescente nos revela. Não sabemos quem o dono da voz, muitos olhares nos miram.Nas juventudes brasileiras, nem todos têm oportunidades iguais. A câmera acompanha a mochila do estudante caminhando para o ponto de ônibus antes do sol nascer. Em casa, a pressão para trabalhar. A gravidez precoce. A sedução do tráfico. Na escola pública, com cara de presídio, uma vida encerrada entre a grade curricular e a da porta. Um modelo de ensino em que não cabem suas aspirações. Só oferecer a escola é abandono.

Na busca pelo primeiro emprego, a dura realização de que o estudante da rede pública, o negro e o pobre não têm as mesmas chances. Sem o apoio de pais e professores, o encurtamento dos sonhos. “Esses adultos também um dia foram jovens que não aprenderam a sonhar, que foram desde cedo colocados em um lugar onde não podiam agir. Então não podem ensinar ao jovem como transcender esses limites”, observa Cacau. Porcos atravessam a rua de terra de uma cidade piauiense em que metade da população é analfabeta.

Alguém observa que até nosso hábito de perguntar aos jovens o que eles querem ser, projetando o futuro, nega seu espaço no presente, limita sua liberdade de reinventar o mundo em que vivem. Sua opinião não é levada em conta, o diálogo não se realiza em casa, na escola, nas ruas. “A sociedade não ouve esses meninos, eles estão absolutamente abandonados”, constata Cacau. “Qual é o futuro de uma nação em que grande parte dos jovens não têm nem a possibilidade de sonhar?”

Um pequeno foguete risca um voo tímido na tela, e atrás dele vêm, sorrindo, os meninos que o construíram na escola. Como eles, muitos ainda vão voar, às vezes com ajuda dos adultos que os sonham. Como o diretor que convence os meninos mais problemáticos a formar um time de futebol para representar a escola, o corpo escolar que manda uma carta para chamar de volta o menino que deixou os estudos para entregar botijões de gás, o professor que leva os alunos para ampliar seus horizontes em uma aula dentro do rio. “É impressionante a diferença que um educador comprometido faz na vida desses jovens. São eles que estimulam o desejo e o sonho e mostram que é possível fazer educação pública de qualidade”, afirma Cacau.Outro grupo surge aos poucos: jovens de olhar determinado falam com ênfase, pintam o rosto e as paredes para reabrir uma biblioteca. Uma brecha. Chamam para si a responsabilidade sobre seu futuro – e querem ser ouvidos. Vão às ruas com seus cartazes, organizam-se em coletivos, contestam o autoritarismo com suas relações horizontais. “Ou é todo mundo junto ou todo mundo perde”, ouvimos ao fundo. “O futuro é agora. Já. Já foi”, manda a menina poeta entre os grafites que disfarçam os duros muros cinza.

Texto: Bruna Fontes

Fotos Divulgação/Nunca me sonharam

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Remédios da alma da infância Yudjá

A floresta acorda com seus muitos sons. À beira do rio, meninos com remos nas mãos adentram uma canoa. “Para onde a gente vai?”, um deles pergunta, em sua língua. A resposta vem na sincronia das remadas pelas águas, início da criação dos Yudjá, “um nome que vem de desde muito tempo”.

É assim que aos poucos vamos amanhecendo em “Waapa”, curta-metragem dirigido por David Reeks, Paula Mendonça e Renata Meirelles, com produção da Maria Farinha Filmes. O filme acorda em nós o que é cres(Ser) uma criança Yudjá, nome que significa “povo do rio” ou “dono do rio”. “É por isso que hoje o Yudjá não consegue ficar longe do rio”, logo revela a liderança Yabaiwa Juruna, que, na aldeia Tuba Tuba, no Parque Indígena do Xingu (MT), narra uma infância envolta em cuidados especiais nesse filme do Território do Brincar. “Waapa”, palavra da medicina do povo Yudjá, é “elemento da natureza que ensina” ou “remédio que cura”. O crescimento da criança Yudjá perpassa muitos remédios que vêm dos bichos, das plantas, das águas. Assim, é a saracura, um pássaro rápido que nunca se cansa, que traz a agilidade; o osso do tatu, bicho da couraça dura, evoca a força, algo difícil de combater; a aranha resgata as origens da habilidade tecelã; as plantas fornecem seus muitos colírios para ver além. São os donos dos remédios os espíritos, clareados pela Lua.

Paula Mendonça, com dez anos de história com os Yudjá e hoje integrante da equipe do Criança e Natureza (Instituto Alana), explica que tal medicina, o Waapa, produz saúde, provendo a criança de habilidades específicas para a vida na floresta e protegendo seu corpo liberto com a força dos elementos naturais.

“Ter força, mira e velocidade, saber tecer, ser bom flechador, escapar de flechas, todo esse universo simbólico trabalhado pelos remédios vem dotar esse corpo, através das produções de afecções, para que seja um corpo preparado para a vida, para ter autonomia.”

No campo da saúde, imbricado com a rede da espiritualidade, a visão de um corpo saudável pelos Yudjá é o de um corpo em movimento, autônomo. “É preciso ter proteção porque a criança aprende-fazendo, se arrisca, circula com liberdade em seu ambiente. Da experiência é que brota o conhecimento.”

Todo o crescer é enredado por esses muitos fazeres da aldeia. Esse viver na floresta “exige uma força para construir uma casa ou arrastar a canoa do mato até a beira da água”. Eles precisam ter uma resistência física e uma força enorme na lida diária. “O dia a dia na aldeia é pura atividade, um dia você está indo para a roça fazer a farinha, ou você está em plena produção de farinha, ou você está indo pegar um peixe. Não tem como ficar parado. Todo o trabalho deles é corporal.” Em muitas temporadas com os Yudjá, Paula ainda se encanta com o lugar que a criança ocupa nessa sociedade. “Não existe uma separação do espaço e do tempo da criança na convivência com os adultos. Ela participa de todos os processos, de todas as atividades. É incluída em todos os fazeres, todos os cotidianos, tudo, tudo. Ela pode muito, tem uma liberdade enorme.”

A cena que abre o filme está impressa na memória da pesquisadora como um retrato de uma infância em sua extrema potência. “Pra mim, o fato de elas irem para a praia sozinhas, sem um adulto, pegar a sua canoa e lá brincar mostra a carga enorme do espírito de liberdade desse povo. Essa liberdade que têm de circulação e de pouca restrição faz com que aprendam sobre sua sociedade.” Esse corpo de uma infância liberta é entidade de toda a vida.

“Waapa” é um filme tecidos por alguns fios: o trajeto dos meninos no rio, os muitos fazeres dos adultos e das crianças na aldeia, o levantar e o deitar do dia, além da narrativa afetuosa de Yabaiwa. Nessa tessitura, a infância Yudjá, potente, livre e autônoma.

Texto: Gabriela Romeu
Fotos: David Reeks/Waapa

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Olhares Olhares 2017

O fio invisível que religa os homens

Os irmãos Daud e Aishah caminham pelas ruas do Brooklyn, Nova York. Ele, um garoto de 11 anos; ela, uma jovem que acaba de passar na faculdade. Ele veste o “thoubh”, traje longo e branco que o difere dos outros meninos não muçulmanos da rua; ela, o “hiyab”, que cobre a sua cabeça, deixando o rosto à mostra. Ao lado, um parque. Adolescentes jogam bola, que escapa e ultrapassa a grade que separa os dois ambientes, caindo ao lado do menino. Ele a devolve. É recompensado com insultos. “Isso é América!”, chega a gritar uma menina, gargalhando. Os irmãos, abraçados, saem apressados.

A cena é parte do longa-metragem “David”, ficção com não atores dirigido pelo americano Joel Fendelman. Dentre os muitos desafios de ser muçulmano na cidade do 11 de Setembro, o diretor optou por uma abordagem outra. Segue por uma trilha permeada de tensões que aos poucos revela aquilo que fortalece as identidades – religiosas ou culturais. Olhar o outro é se ver mais de perto.

O filme marca o encontro entre dois meninos, uma amizade pouco provável, ainda que no contexto multicultural de uma cidade como Nova York. Daud, muçulmano, e Yoav, judeu. Abre os poros das tensões que resistem nas comunidades árabe e judaica de Nova York a partir de um encontro. Acompanhamos a história pelo olhar silencioso de Daud, que parece ilhado por um sentimento de solidão.O menino muçulmano está sempre às voltas com as atividades na mesquita liderada por seu pai, um homem austero que tem que lidar com as questões do tecido da sociedade americana. Aishah, a irmão de Daud, ganha uma bolsa de estudos na Universidade de Stanford, na Califórnia, e tem sua conquista negada pelo pai, que não a quer longe de casa. O embate é entre a tradição e os novos valores por ela incorporados, de que a mulher deve ser livre para estudar e trabalhar. É também entre gerações de uma mesma cultura, que veem o mundo sob diferentes perspectivas. É na relação pai e filha, homem e mulher.

O conflito principal, no entanto, é o do jovem Daud, que, por um engano, acaba adentrando a comunidade judaica. Ele passa a frequentar a escola de Yoav, com quem se vincula, cria uma irmandade que ainda não tinha experimentado. É ali que surge sua identidade dupla, um outro nome: David. Aos 11 anos, o menino passa a ampliar o que entende de si, investigar novos universos a partir do diferente. Das dificuldades surge a oportunidade da descoberta e da jornada pelo autoconhecimento, tão comum nessa fase da vida.

Assim, o cenário que poderia ser a réplica de uma Faixa de Gaza adquire uma atmosfera de aprendizado. O que poderia ser desprezo transforma-se no fascínio de Daud pelo judaísmo, num tom ecumênico. No ritmo pausado em que se desenrola a história, os diálogos acontecem por inteiro, o falar e o escutar.

A tolerância é matéria-prima para a história. Em uma sociedade permeada por diferenças e contradições, encontrar uma maneira de convivência é aquilo que nos faz sobreviver. É, afinal, o que a religião (do latim, religare, unir, ligar) faz: tece o fio que interliga os homens, dá luz à humanidade para suportar a ideia do desconhecido, busca explicar o que permeia o invisível.

Confira vídeo do diretor falando sobre a produção (em inglês).

Texto: Gabriela Romeu e Luísa Cortés

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Olhares Olhares 2017

Trânsitos da infância

Para alcançar sua rota, algumas aves migratórias se orientam durante o dia a partir da topografia de rios, árvores e montanhas e, à noite, seguem extraordinariamente o eixo estelar numa viagem de pouco pouso. As mais jovens, que não têm ainda o senso de orientação tão apurado, perdem-se por vezes do bando. Mas reencontram o rumo e seguem seu destino, que se repete e se renova a cada ciclo.

Essa imagem das aves em migração é a delicada metáfora que o cineasta Olivier Ringer usa para falar dos ritos de passagem na infância. Ou talvez melhor dizendo: sobre os trânsitos na infância. Crescer é mesmo uma longa jornada, cheia de noites de pouca visibilidade em pleno voo, ele nos avisa no longa-metragem de ficção “Os Pássaros Migratórios” (Les oiseaux de passage).

Ele delineia com um leve tom de aventura a história de Cathy, que, em seu aniversário de dez anos, recebe do pai um presente inusitado: um ovo fertilizado. Numa caixinha aquecida, uma incubadora, a menina cuida do ovo e espera ansiosamente o dia da eclosão, pois a ave vai identificar como mãe aquele ou aquela que primeiro mirar seu romper o mundo. Mas é sua amiga Margaux, uma menina cadeirante, quem está lá na hora em que sai da casca. E a história toma outro rumo.O filme traz a saga de crescimento de Margaux, que, com a ajuda de sua fiel amiga Cathy, descobre como ir além dos limites circunscritos por adultos que já deram o veredito de sua condição. Margaux e Cathy, como as jovens aves que se perdem do grupo, têm de encontrar sua verdadeira rota, seguir firmemente seu caminho.

No protagonismo das duas meninas (uma tendo de cuidar da outra, ajudando a amiga a protagonizar), o filme trata do profundo sentido de cuidar, deixar crescer e, principalmente, deixar ser. Cathy, a heroína, assume um certo papel de coadjuvante da história de Margaux. Juntas, vão ter de enfrentar os pais, que antagonizam o belo voo.

Margaux tem pais protetores que subjugam o potencial da filha, que precisa ser cuidada e não pode da ave cuidar. Cathy tem uma mãe que dispensa “coisas sem utilidade” e acha pura bobagem esse presente do pai, seu ex-marido, o único sabedor de que é preciso deixar as duas cumprirem seu percurso e, sozinhas, romper o ovo.

Nesse contexto, exercitam ser “mãe”. A menina que não anda é persistente em ensinar a ave a nadar. Para Cathy, não há caminho (por terra ou por água) que a amiga não possa percorrer naquela relação afetuosa, de pura cumplicidade. “Como seria se fôssemos aves?”, pergunta Margaux. “Seria mais fácil, iríamos pra onde a gente quisesse, quando a gente quisesse”, responde Cathy, uma menina que parece sempre olhar pra dentro. Na água, perto da ilha onde as aves migram, experimentam uma certa liberdade do corpo, numa das cenas de máxima ternura do filme.

Esta é a segunda produção de Olivier Ringer exibida nas edições da Ciranda de Filmes. Em 2016, Na ponta dos pés (A pas de loup; 2012) trouxe a história de uma menina que se sente invisível a seus pais e, para ter certeza, decide desaparecer. No olhar do diretor, a temática parental pela perspectiva infantil rende cenas que nos convocam um profundo pensar. Avoar.

Texto: Gabriela Romeu

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Terreiro, espaço da intimidade

Terreiro é espaço do sagrado, da (con)vivência. É “lugar pra brincar”, “busca do espaço de intimidade”, da tessitura de relações de uma comunidade, todos reunidos num só fazer. É verdadeiro território do brinquedo que transborda as linhas do objeto, transcende, vira folguedo, festa popular.

Como a criança se nutre dessa força que habita os terreiros e seus brinquedos? É uma pergunta que norteia o filme “Terreiros do Brincar”, de David Reeks e Renata Meirelles, com produção da Maria Farinha. Em viagens pelo Brasil durante o projeto Território do Brincar, uma coprodução com o Instituto Alana, o casal de documentaristas vivenciou manifestações populares, como Nego Fugido, Festa do Divino, Bumba Meu Boi e Folia de Reis, em diversas comunidades.

A cultura popular é leite que alimenta a criança, nos diz o músico cearense Alemberg Quindins, uma das vozes que ajudam na tessitura de imagens que evocam os folguedos, da preparação às festas. “As crianças somam ao coletivo e não estão ali para um dia virem a ser um membro participativo, já o são desde que entram para o grupo. Essa maneira de olhar para a criança no presente, considerando todo seu potencial, ao invés de querer suprir o que lhe falta, ou treiná-la para o devir, desperta reflexões e vivências muito importante para nós”, conta Renata, que fez o roteiro em parceria com Soraia Chung Saura.

Nesse percurso, o corpo se fez em festa. “O canto e a dança ficam reverberando e ninguém pode tirar isso de nós. São lembranças de momentos de muita vida. É como se pudéssemos pedir licença para emprestar essa energia e quanto mais você participa, mais ela se torna parte de você. Já éramos encantados com a cultura popular, mas esse intenso contato com tantos grupos mostrou, como diz a Péo, ‘a inteireza da manifestação criadora e criativa’.”

Na entrevista a seguir, é possível desvelar outras imagens por trás das imagens. Como a do Velho Tonho, que lidera um pequeno reisado com brincantes-meninos num vilarejo do litoral do Ceará. Se a entrega é de corpo e alma em dia de folguedo, Velho Tonho vive o resto do tempo a “xingar o vento em um interminável monólogo”, recorda a diretora. Mas, no reisado, em dia de festa, “o Velho e as crianças transcendem o cotidiano e constroem um forte vínculo, um respeito mútuo pelas tradições, pela festa e pela brincadeira”.

Depois das andanças e da montagem de “Terreiros do Brincar”, como definiria que espaço é o terreiro, abordado de várias formas e em diversos momentos no filme?


Renata Meirelles – Entendemos que terreiro é um espaço íntimo, que agrega um coletivo de pessoas que vivem em liberdade. Em alguns cantos do Brasil o terreiro significa quintal, espaço em que acontecem as intensas explorações e descobertas infantis. Nos quintais, vive-se o mistério e o encantamento com a força de transcender o tempo e o espaço. Ali o corpo é meio para se deslocar do concreto e viver o essencial em estado de liberdade. Paulo Dias, entrevistado no filme, nos explica que o terreiro no universo das festas populares é qualquer espaço de intimidade de uma comunidade, principalmente dessas que foram perseguidas ou escravizadas e que precisam dos seus espaços “longe das vistas do controle”. Pode, ou não, ser um espaço religioso, mas o que realmente configura o terreiro é a vivência íntima da comunidade em um local reservado de (para) transcendência. O corpo em movimento canta, dança e brinca em devoção a alguma divindade ou simplesmente na experiência de sentir o corpo (pessoal e comunitário) como o próprio templo. Entendemos que a criança e o adulto vivem o terreiro com essa mesma intimidade coletiva, e foi aí que nasceu o nome do filme.

Poderia contar um pouco suas experiências nas festas, destacar momentos que, como define Péo no filme, mostram “a inteireza da manifestação criadora e criativa”? Depois da vivência das festas, o que ficou impresso no corpo e na alma?


Renata Meirelles – Era um interesse antigo viver festas populares pelos olhares das crianças e do brincar coletivo, portanto, esse tema não poderia ficar de fora do roteiro de viagem do “Território do Brincar”. Ao todo registramos 33 grupos de manifestação popular em 8 Estados brasileiros e percebemos que todos eles incluem a criança em sua força espiritual, corporal e lúdica. As crianças somam ao coletivo e não estão ali para um dia virem a ser um membro participativo, já o são desde que entram para o grupo. Essa maneira de olhar para a criança no presente, considerando todo seu potencial, ao invés de querer suprir o que lhe falta, ou treiná-la para o devir, desperta reflexões e vivências muito importante para nós.

No vilarejo de Tatajuba, no Litoral de Ceará, por exemplo, vimos um reisado liderado pelo Velho Tonho e seu pandeiro solitário. Ele reúne umas 15 crianças, entre 4 e 15 anos de idade, em uma brincadeira de muita inteireza. Ele e seus pequenos brincantes revelam uma entrega de corpo e alma que faz a energia da festa acontecer. No dia a dia, o Velho Tonho carrega questões sociais complicadas, vive sozinho pelas ruas xingando o vento em um interminável monólogo. Mas, no reisado, o Velho e as crianças transcendem o cotidiano e constroem um forte vínculo, um respeito mútuo pelas tradições, pela festa e pela brincadeira. E isso é o que se vê em outros grupos, cada qual com sua intensidade e teores diversos.

Sobre a nossa experiência pessoal, o que fica no corpo é a festa. O canto e a dança ficam reverberando e ninguém pode tirar isso de nós. São lembranças de momentos de muita vida. É como se pudéssemos pedir licença para emprestar essa energia e quanto mais você participa, mais ela se torna parte de você. Já éramos encantados com a cultura popular, mas esse intenso contato com tantos grupos mostrou, como diz a Péo, “a inteireza da manifestação criadora e criativa” e a força que tudo isso tem.

Quais imagens envolvendo as crianças na festa tocaram mais fundo a sua alma? Poderia compartilhar alguns momentos?


Renata Meirelles – Muitas crianças vêm de famílias que fazem parte dessas manifestações há muitas gerações, outras entram nos grupos por motivação pessoal, quando percebem, intuem até, o sentido que os elementos da festa têm. O encontro dessas crianças com as manifestações é revelador. Iniciam-se em uma nova família e tornam-se adotivos de corpo e alma desse coletivo, onde o vínculo é a alegria, os símbolos, a espiritualidade, o corpo, a música. Uma vez dentro de um grupo, há espaços para encontrar o que dá sentido a sua existência, já que fora dela, muitas vezes, sentem-se órfãos de sentidos.

Tem um menino no Nego Fugido que nos marcou muito. Ele tinha uns 6 anos de idade na época em que filmamos, e era um novo membro do grupo. Ele já tinha vários amigos que faziam parte e, portanto, sentia-se confortável entre eles. Mas foi fascinante presenciar como ele tateava, experimentava tudo o que há de  caótico dessa festa e como usufruía dessas emoções. Em um período de 15 minutos dava para vê-lo oscilar entre tantos sentimentos. É uma festa que não tem ensaio, aprende-se fazendo, e tudo para ele era novo. Esforçava-se muito para coordenar e processar os passos da dança, os momentos dramáticos das cenas, o cuspir sangue falso e tremer no chão. Cada momento uma descoberta. Mas, quando parecia confiante, com o corpo finalmente relaxado para fluir, passava um “caçador” com sua saia de bananeira imensa – quase o derrubando. Seu olhar era como o de uma presa em estado de alerta ao predador. Dava para ver o fluxo entre o pânico e a entrega total. Depois de três anos voltamos para apresentar a essa comunidade os nossos materiais editados. Lá estava ele, com seu corpo claramente mais tranquilo, cantando e dançando – dono de si. A benção da repetição anual do ritual tinha formado mais um, ele agora estava totalmente conectado à essência do grupo.

Ao contar uma história, deixamos de contar muitas outras… Quais outras histórias que não foram contadas em “Terreiros do Brincar”?

Renata Meirelles –  Sabemos que um filme é um recorte sobre um tema e há sempre escolhas difíceis de fazer. As histórias de vida das pessoas retratadas nesse filme é algo que ficará dentro de nós, mas fora do filme. Conhecemos muitas pessoas que se nutrem de suas raízes, de suas tradições e usufruem de uma estética riquíssima e bastante diversa, mas pouco valorizada no mundo moderno. Todo conhecimento vivido por essas pessoas é pouco aparente, é uma camada submersa em subjetividades, símbolos, ancestralidade, mas, segundo Agostinho da Silva, estamos atualmente empenhados em “usar o conhecimento como poder” e, assim, viramos as costas para essas pessoas, suas histórias e suas raízes que falam tanto sobre todos nós.

Outro aspecto não contado no filme, mas conversado longamente com um estudioso do assunto, o Roberto Pinho, é reconhecer e apresentar a origem histórica dessas manifestações, para conseguirmos, aos poucos, alcançar o saber primordial vivido dentro delas. Esses grupos estão a duras penas mantendo vivas essas festas, através dessa força extraordinária que vem de dentro da comunidade e de suas tradições. Essa luta alegre, trabalhosa e persistente de manutenção histórica, porém, sempre se atualizando no contexto de hoje, isso não foi possível incluir nesse filme.

O foco desse filme são as crianças e o brincar dentro dessas manifestações populares, esse é o nosso recorte. Todo o registro que fizemos de cada grupo retornou como material bruto e editado para eles, e sempre que foi possível fizemos essa entrega pessoalmente, em gratidão e respeito pela continuidade dos vínculos que criamos. Era fundamental para nós que pudessem receber de volta o material audiovisual produzido pelo “Território do Brincar”, para contribuir nessa manutenção de suas histórias e tradições.

Em termos de narrativa, qual foi a ideia de tessitura do filme? Qual a razão para o encadeamento das festas tal qual tecido?

Renata Meirelles – O filme tem duas camadas narrativas: o arco-dramático do ciclo da própria festa (da preparação ao fim da festa) e a costura dos depoimentos que ampliam nosso olhar para o que habita essas manifestações, mas não se revela de imediato nas imagens.
Esteticamente, escolhemos incluir longas sequências com cenas das festas sem falas em “off”, para convidar o espectador a entrar nos diferentes espíritos de celebração, que são bastante diversos. O Nego Fugido, por exemplo, carrega uma densidade intensa, caótica, já a Festa do Divino é pura elevação, sublimação do tempo e do espaço. Assim, reunir ambas energias em uma linha narrativa de um filme é um grande desafio.

Começar o filme com o Bumba meu Boi situa o espectador no espírito de celebração, cor e ritmo que essa manifestação oferece. Abre a porta para entrar na festa! Seus ciclos são muito bem definidos, começa no nascimento e vai até a morte e precisávamos dessa estrutura para adentrar no filme.

Mergulhar no estranhamento imagético do Nego Fugido chega a ser perturbador para alguns, desloca de um lugar conhecido, confortável e revela obscuridades que são importantes. Carrega dores do passado e do presente vividas na brincadeira coletiva, festiva e coloca a criança como representante dessa transcendência.

A Festa do Divino é uma festa que eleva a alma em uma vibração de esperança, um apontamento para o futuro. Por que coroam crianças? A Péo, em sua entrevista, diz lindamente que a criança é esse ser que traz a pureza, a inocência e a imaginação. A capacidade de se voltar para o que é imprevisível, o que que ainda vem, aquilo que é desconhecido. Segundo ela, a Festa do Divino é prospectiva, propõe um futuro. Não é uma festa do passado, é uma festa que anuncia o novo. E a criança é justamente o símbolo do novo. Ela é o vir a ser. É aquele ser que traz todas as possibilidades dentro de si, de viver com alegria. É a passagem também, onde ao fim ela entrega a coroa para o próximo. Era preciso terminar o filme com essa característica do vir a ser com a abertura para o imprevisível e toda força do imaginário.

A Folia de Reis, o Reisado, o Batuque, Caretas, as Festas da comunidade indígena Panará e o Samba de Roda intercalam essa trama narrativa e celebram a diversidade, a participação da criança em todas elas, o corpo, o sagrado e costuram o passado, presente e futuro do nosso povo com todas as dores, alegrias e as mazelas de sermos quem somos.

Como o aspecto ritualístico das festas repercutem no corpo e na alma das crianças? Poderia dar exemplos a partir do que viu, ouviu, viveu?

Renata Meirelles – Vale dizer aqui que, durante a montagem do filme, percebemos o quanto as crianças desse filme são também os adultos. Porque quando estão dançando, cantando e celebrando eles vivem a essência das crianças. Essa dimensão surge no lúdico. A criança está presente nos adultos, ele sai do contexto cotidiano e vira criança. É uma manifestação da criança também nos adultos. Esse pode ser considerado um aspecto ritualístico importante que repercute em quem participa dessas festas. É viver os ciclos da vida, todos unidos em uma celebração.

Sempre me encanto pela motivação intrínseca que vivem essas pessoas em estado de doação física, espiritual e até financeira. Passam meses em preparos intensos, gastam um dinheiro que não têm para que a festa esteja à altura do que é preciso celebrar, e isso sem o desejo de mostrar para plateias, mas para viverem o terreiro, esse chão de terra circular que carrega a intimidade do coletivo. Uma inspiração profunda para quem se sente desgarrado do tempo, do grupo e das tradições. E a criança lê isso com toda verdade que essas características têm. É a “verdade verdadeira” instaurada a céu aberto e a criança sente isso.

A possibilidade de viver os ciclos anuais é fundamental também. Todo ano a festa é a mesma, mas a criança, não. Quem muda é a criança e não a festa. Assim, ela pode vivenciar seus diferentes aspectos e emoções. Um exemplo claro disso foi o que vivemos em relação as Caretas e Nego Fugido de Acupe. O fato de estarmos com nossos filhos, e o caçula ter 3 anos na época, nos possibilitou perceber com mais clareza as dimensões do pânico vividas pelas crianças nessas manifestações. Os gritos de um filho, seu corpo tremendo, colado ao meu buscando refúgio para o medo descontrolado, foi uma experiência bem forte para mim. Ali as crianças têm a chance de percorrer, na brincadeira, todas as dimensões do medo. A cada ano esse sentimento se dilui, se ameniza até se transformar em coragem e valentia. Fiquei desejando que meu filho vivesse isso com a intensidade que a festa oferece, mas só seria possível se ele tivesse a chance de participar anualmente dessa festa. Agradeço a oportunidade de ter retornado a Acupe três anos depois e poder verificar o corpo e a alma crescidos do meu caçula.A câmera muitas vezes mostra plena devoção, às vezes cai em festa, mistura-se com os brincantes. Tem hora que é sagrada, às vezes é profana. Quais os desafios de filmar nas comunidades em que festejar é o pleno viver?


Renata Meirelles – O desafio inicial é de pedir licença para filmar, não ser invasivo e, principalmente, não perturbar os brincantes e a energia instaurada ali. Recebida a permissão para adentrar com câmeras, o trabalho duro começa ao sacar a câmera e entrar no espaço sagrado do outro. Claro que a câmera invade, mas captando imagens significativas envolve um equilíbrio de atenção e persistência. É preciso aceitar o primeiro choque, transcendê-lo – respeitando os espaços e criando relações para aquele momento. Eventualmente, os brincantes se acostumam com presença da câmera e não mais a percebem. É neste momento que devemos prestar atenção para os detalhes da entrega de cada integrante. O encantamento pelo tema e o vínculo já está estabelecido com essas pessoas começam a mover olhos e mãos no ato de filmar. A entrega nas imagens tem que ter uma dimensão semelhante ao objeto que se está filmando. Assim, vamos transitando pelos sentimentos, gestos, vigor, delicadeza, vibração do todo e de cada um, tentando compor o que acontece ali.

Texto: Gabriela Romeu
Fotos: David Reeks/Território do Brincar

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Olhares Olhares 2017

Abandono, arquétipo da infância

Mas voltando ao filme. Baseado no livro homônimo, traz a história de Abobrinha, um garoto de nove anos que sonha com o pai, simbolizado por um herói mascarado desenhado em uma pipa que insiste em voar alto, e envolto no acidente que mata a sua própria mãe. Órfão, ele é enviado a um orfanato, onde tem de lidar com o sentimento de culpa, o bullying dos colegas, a confusão dos acontecimentos. Por sorte, constrói uma amizade com Raymond, o policial responsável pelo seu caso, e apaixona-se por Camille, uma de suas colegas, a menina de “olhos que dão frio na barriga.”


O tom trágico do filme é elevado pela técnica de stop-motion, inspirada em Arthur Rankin Jr e Jules Bass, produtores do clássico Rudolph, a rena de nariz vermelho (1964). Daí a comparação inevitável de Claude Barras com Tim Burton, que bebeu das mesmas fontes em O estranho mundo de Jack (1993), tanto na temática melancólica quanto em certas características físicas dos personagens, como olheiras acentuadas e tons de pele pálidos.


Toda a história trata de um encontro de exclusões – a começar pela mãe solteira e alcoólatra de Abobrinha, personagem não muito explorada, mas em clara situação de vulnerabilidade social. Ao se ver órfão, o menino é tomado da vida conhecida até então e levado ao encontro de outros excluídos. As vulnerabilidades se amplificam.


O filme também fala da infância como descoberta. A sexualidade, o amor, a identidade. A morte. Os sonhos e as esperanças que são carregados nos primeiros anos de vida, pelos olhos de quem tem motivos para não acreditar em nada. Nesse filme sensível e crítico, com personagens que se constroem em sua imbricada razão de ser, encontram-se a inocência infantil e a crueldade do mundo. 

Mas nem todos os adultos ao redor são impassíveis à vulnerabilidade apresentada. A diretora do orfanato sabe escutar, contrariando clichês de muitos filmes com essa temática. E o próprio lugar busca seus sentidos como casa, acolhida. O policial de voz doce, que cultiva um jardim em seu apartamento, também se diz abandonado e é tocado pelas sagas das crianças. A afetuosidade e a empatia, tanto dos adultos quanto das crianças, alimentam a tessitura das relações.Sob pano de fundo, temas sensíveis ao mundo e à Europa – refugiados, crime, drogas – sob a perspectiva do que toca no mais frágil de nós mesmos – violência, suicídio, amor, família. Desfiada num enredo que se movimenta naturalmente, com momentos de tensão equilibrados com cenas mais leves, a obra é um retrato humano e psicológico de problemas sociais profundos. 

A história de Abobrinha, o menino Icare, que insiste em ser chamado como sua mãe o batizou, revela o quanto a criança contemporânea segue envolta em muitos esquecimentos e solidões. Mas as relações humanas que levam ao abandono também conduzem à força para enfrentá-lo nesse filme, tão dolorido quanto necessário.


Texto: Luísa Cortés

Assista “Minha vida de Abobrinha” aqui ou site do Telecine Play