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A menina que rege o Pelourinho

Uma Rocinha, em Salvador, acomoda-se como quintal do Pelourinho. A comunidade que serve de habitação para uma população que se equilibra na corda bamba para garantir a sobrevivência fica encostada num dos principais pontos turísticos da Bahia e recebeu esse nome justamente por trazer o aspecto de roça à cidade, com árvores frutíferas e chão de barro. É um ponto verde no conglomerado de casas do centro histórico; hoje, refúgio de muitos meninos e meninas percussionistas. De lá, escuta-se o som do mar, o som das árvores, o som dos bichos. É onde a cidade canta. Essa música, orgânica, sempre esteve presente na região, mas anos atrás faltava um projeto que tirasse as pessoas do papel de ouvintes e as incluíssem ativamente no fazer musical.

Foi nesse contexto geográfico, social e cultural que, aos sete anos de idade, uma menina chamada Elem Silva, idealizou um projeto de ensino musical e fundou em 2003 a banda de samba-reggae Meninos da Rocinha do Pelô. E sua trajetória pouco convencional, de como passou a comandar uma banda com tão pouca idade, inspirou outra jovem, a norte-americana Falani Afrika, à época com apenas 18 anos, instigada a produzir o documentário “Maestrina da Favela”, um dos destaques exibidos nas telonas da Ciranda de Filmes deste ano. Elem (ou Elisete, como consta na sua certidão de nascimento) tinha 13 anos quando ocorreu o primeiro contato entre elas. Desde então, as duas passaram a ter encontros anuais durante dez anos, período em que Falani registrou o crescimento de Elem e a evolução de seus processos.

O aprendizado da música, o compartilhamento desse saber com outros adolescentes, a relação da menina com a mãe e a maturidade que tinha para lidar com as adversidades são questões abordadas no filme, que também foca na importância do gênero do samba-reggae para a região, como importante afirmação da identidade afro-brasileira. Sendo Salvador a cidade com a maior população afrodescendente do mundo, o estilo musical relacionado ao candomblé, marcado pelo som de surdos, dobras, repiques e caixas, reforça, claro, a cultura local.

Quando bem pequena, Elem tentava reproduzir o som desse estilo musical já familiar com baldes que pegava de um comércio próximo de casa. Aos cinco anos, ganhou de duas freiras norte-americanas atentas ao talento da menina seu primeiro instrumentos: um pequeno atabaque. Outra grande incentivadora foi a mãe, que, dois anos antes de vir a falecer, usou o dinheiro que conseguiu com a venda de um bar que tinha na Rocinha para comprar para a banda da filha alguns instrumentos, usados até hoje. O episódio da morte da figura materna impactou as gravações do documentário. Era muito difícil conversar sobre um sonho sem ter sua maior apoiadora ao lado.

Numa trajetória cheia de batalhas cotidianas, outro ponto de virada sensível na vida de Elem ocorreu em 2007, quando, aos 13 anos, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral). Após uma série de suspeitas e exames, ela foi diagnosticada com uma doença rara. Em 2015, dois anos depois de seu segundo AVC, como consequência de uma embolização cerebral, outro desafio: teve perda de memória recente. Ao chegar ao Pelourinho depois de deixar o hospital, a jovem que conhecia sua comunidade como a palma da própria mão, de repente, não sabia mais identificar onde estava. Nas caminhadas, esqueceu os nomes das ruas e, na música, algumas batidas. Os meninos da banda, assim, ajudaram a maestrina a relembrar esses ritmos e retomar sua posição de regência.

Autodidata, ela foi com o tempo observando como os donos de bandas regiam seus grupos, analisando cada toque e gesto. E explica quais foram as suas intenções ao adentrar esse universo musical: “O que me impulsionou a sair tocando foi a vontade de ensinar às crianças da minha comunidade, pois elas estavam dentro do Pelourinho, mas eram esquecidas. Muitas pessoas tinham preconceito, até mesmo com a nossa banda, só por ser de uma favela”, diz Elem, sempre preocupada em aliar com maestria educação musical e desempenho escolar.

Os desafios de sua saga tão pessoal quanto vocacional vêm sendo recompensados. Depois da produção do documentário, novas oportunidades relacionadas à música começaram a surgir. Por causa de uma iniciativa da produtora do filme, recebeu a doação de mais 12 instrumentos da escola de música Global Music nos Estados Unidos e, em 2012, foi para Londres participar de um evento no SouthBank Centre para aprender como se organiza um festival. No ano seguinte, a sua banda realizou no Pelourinho um festival com duração de 12 horas, incluindo a participação de 10 jovens multiplicadores de arte, representantes de diferentes projetos.

Há dez anos, a Rocinha está fechada para a conclusão de um projeto de revitalização. Recuperar o contato com esse lugar que serviu de berço para sua musicalidade por enquanto não é mais possível. Apesar disso, mantendo firme seu olhar para no horizonte, os trabalhos com a banda continuam. O instrumental da música Asas de Luedji Luna que havia sido tocado durante depoimentos ao longo do filme, nos créditos, enfim, recebe o acabamento vocal. Em dois versos, deixa clara a potência de Elem: “Para que te quero, asas? / Se eu tenho ventania dentro”. Versos que bem definem uma menina que movimenta tempestades, maestrina.

Texto: Miréia Figueiredo/Estúdio Veredas

Foto: Divulgação e acervo pessoal Elem Silva