Olhares

Criança Brincando

A curadoria como cartografia viva: uma investigação em movimento

28/07/2026

Por: Fernanda Heinz Figueiredo

O modo como os adultos aprendem a escutar e a olhar para as crianças e para os jovens molda tudo o que constroem para elas. As escolas, as políticas, as cidades, os vínculos, o tempo, os cuidados. Ampliar a escuta e formar esse olhar, no entanto, raramente é visto como prioridade. Foi dessa constatação, que nasceu a Ciranda de Filmes: não uma mostra de cinema voltada às crianças, mas um espaço de formação, sensibilização e aprofundamento para quem já atua, ou deseja atuar, em favor das infâncias e das juventudes: educadoras e educadores, gestores escolares, estudantes de pedagogia e educação, artistas, cineastas, profissionais da saúde infantil e juvenil, entre tantos outros que hoje compõem esse público plural e intergeracional. Somos, desde então, a primeira e única mostra de cinema no Brasil dedicada a esse propósito.

Mas antes de tudo, a Ciranda de Filmes nasceu de uma investigação.

Durante os sete anos em que dirigi e produzi o documentário Sementes do Nosso Quintal, retornei, como ex-aluna e acompanhei de perto, como mãe e documentarista, a experiência da infância na Te-Arte, uma escola quintal, espaço para a criatividade infantil, criada em São Paulo pela educadora capixaba Therezita Pagani na década de 1970. A realização do filme me permitiu desenvolver um olhar mais atento para o crescimento das minhas filhas, para as crianças e para o desenvolvimento humano nos seus primeiros anos, e me aproximou de outras práticas educativas, de diferentes percepções sobre a criança e a infância e de uma produção cinematográfica que raramente encontrava espaço nos circuitos de exibição. Filmes que permitiam pensar a educação para além da escola e colocá-la em relação com a cultura, a natureza, as artes, a vida comunitária e as questões sociais do nosso tempo.

Quando o documentário ficou pronto, compreendi que lançá-lo isoladamente não seria suficiente. Queria compartilhar a minha investigação e desejava que ele pudesse conversar com outras obras e experiências, encontrar diferentes públicos e suscitar reflexões que não se encerrassem com o fim da sessão.

Foi desse desejo e do encontro com Patrícia Durães, educadora, musicista e exibidora com ampla trajetória na formação de públicos, na articulação entre cinema e educação e na difusão de filmes para crianças e jovens, que nasceu, em 2014, a primeira edição da Ciranda de Filmes.

O encontro reuniu trajetórias bastante complementares. De um lado, uma pesquisa derivada da realização de um documentário que buscava compreender melhor as crianças e as relações entre elas, com o brincar, a natureza, as artes, a cultura popular, os processos de desenvolvimento e aprendizagem. De outro, uma longa experiência dedicada à circulação das obras, à formação de espectadores, ao diálogo com cineastas e à criação de espaços permanentes de encontro entre filmes e públicos diversos.

Desde então, a mostra se tornou um espaço continuado de investigação sobre as relações entre cinema, infância, juventudes e educação. Nesse percurso, fomos compreendendo a curadoria não só como uma etapa necessária à realização de uma mostra, mas como um método de pesquisa, articulação de pessoas e experiências e criação de encontros.

A palavra “curadoria” tem origem no latim curare: cuidar, zelar, tratar. Com o tempo, passou a designar práticas distintas nas artes, na museologia, nas bibliotecas, na comunicação e na ciência da informação. Em todas essas áreas, no entanto, a curadoria pode ultrapassar o trabalho de reunir ou organizar conteúdos e constituir uma criação orientada por uma visão, uma pesquisa e determinadas escolhas.

Na experiência da Ciranda, curar é pesquisar, escutar, olhar sob outros ângulos, formular perguntas e perceber relações que nem sempre estão evidentes. É acompanhar festivais e a produção cinematográfica com esse foco do mundo todo. Assistir a muitos filmes, conhecer realizadores e experiências de diferentes lugares, conversar com distribuidores, educadores, pesquisadores, artistas e instituições e refletir sobre o encontro que cada obra poderá estabelecer com o público. A seleção dos filmes é essencial, mas é apenas o começo do processo.

A curadoria também envolve pensar como as obras se aproximam, em que ordem serão apresentadas, que contrastes ou continuidades surgem entre elas, quais perspectivas estão presentes e quais ainda precisam ser procuradas. Envolve buscar um equilíbrio entre linguagens, gerações, países, durações e formas de realização, sem transformar a diversidade em uma soma de representações ou em simples cumprimento de categorias.

Trata-se de compor um percurso.

Na Ciranda, procuramos filmes com força estética e narrativa, mas também obras que desloquem o olhar, introduzam perguntas e nos permitam perceber de outra maneira a criança, as infâncias, as juventudes, os processos educativos e os desafios do passado e do presente.

Nos interessa o filme, a narrativa que não toma a criança apenas como assunto, personagem ou público. Buscamos filmes que reconheçam crianças e jovens como sujeitos que já são, que possuem experiências, imaginação, pensamento e cultura singular.

E isso exige atenção. Não apenas ao que é narrado, mas ao modo como cada filme constrói seu olhar e percebe a criança. A partir de que perspectivas se olha para uma criança? Quanto espaço existe para sua voz, seus gestos, suas escolhas, linguagens, necessidades e seu tempo? Ela aparece apenas explicada pelos adultos ou é reconhecida como alguém capaz de interpretar o mundo e de produzir sentidos próprios?

Ao assistir a filmes que nos permitem imersões por diferentes culturas e olhares, aprendemos também que a infância não é um período da vida e que as diversas infâncias são atravessadas por múltiplas e complexas questões e condições sociais, econômicas, políticas, ambientais, afetivas… Da mesma forma, existem maneiras muito distintas de ensinar, aprender, cuidar, brincar, se relacionar com a vida, viver em comunidade.

Cada filme traz consigo uma paisagem, uma memória, uma experiência e uma forma de compreender a vida. Por isso, um filme nunca chega sozinho.

Quando é colocado ao lado de outras obras, de uma conversa, de uma oficina, de uma vivência ou de um convidado, novas relações podem surgir. Uma história íntima pode iluminar uma questão coletiva. Uma experiência realizada em uma pequena comunidade pode dialogar com problemas vividos nas grandes cidades. Uma prática antiga pode oferecer elementos para pensar o presente.

O trabalho curatorial consiste também em criar condições para que essas aproximações aconteçam, evitando a pretensão de determinar previamente o que o público deverá compreender.

Existe uma diferença importante entre oferecer referências e fechar uma interpretação. A curadoria pode sugerir percursos, apresentar contextos e tornar visíveis certas relações, mas precisa preservar aquilo que a experiência cinematográfica tem de aberto, ambíguo e singular. Cuidar de um filme é também evitar que ele seja reduzido ao tema da sessão ou utilizado apenas como ilustração de uma ideia.

Cada edição da Ciranda nasce de uma pergunta, ou de um conjunto delas, que orienta meses de pesquisa, visionamentos, conversas e reflexões. A partir delas, organizamos os filmes e, também, as rodas de conversa, os debates, as oficinas, as vivências, os convidados e os demais elementos da programação.

Ao olhar para as edições já realizadas, podemos perceber ou entender a Ciranda como uma sequência de perguntas que se desdobram umas nas outras.

Em 2014, partimos das relações entre infância, espaços de aprendizagem e transformação, que se tornaram nossos eixos de pesquisa. Na edição seguinte, aproximamo-nos das famílias, da natureza e do protagonismo infantil. Para este interminável período de incertezas, fomos em busca de mestres e referências. Depois, perguntamos o que nos nutre e direcionamos a nossa atenção às poéticas, às humanidades e às subjetividades.

Em 2019, investigamos a música como linguagem da vida. Durante a pandemia, quando os encontros presenciais foram interrompidos, buscamos oferecer através do cinema infantil, na primeira edição da Ciranda cirandinha de Filmes, um “sonhário da gente”, espaço possível para a imaginação e o fortalecimento dos vínculos. Em seguida, inspirados na obra freireana, perguntamo-nos como esperançar de maneira ativa e coletiva. Em 2023, refletimos sobre os cuidados singulares e suas relações com as comunidades e os ecossistemas.

Esses temas nunca foram compartimentos isolados. Cada edição retomou questões anteriores e acrescentou novas camadas à pesquisa.

Foi em uma experiência, realizada durante a quinta edição, que esse modo de trabalhar se tornou visível de uma forma muito especial.

A partir de uma proposta da jornalista, escritora e documentarista Gabriela Romeu, que naquele momento integrava a equipe de comunicação da mostra, criamos uma Cartografia Cirandeira. Ao invés de apresentar os filmes apenas como uma grade de sessões, a cartografia os distribuiu por diferentes trilhas: infância, mestres, resistência, identidade, natureza, cura, escuta e experimentações, e os relacionou a livros, músicas, exposições, espaços culturais, projetos, obras visuais e conteúdos digitais.

Foi um convite para que a experiência cirandeira transbordasse as salas de cinema.

Depois dos filmes, das oficinas, das conversas e das rodas musicais, cada pessoa poderia escolher uma rota e continuar o percurso: ler um livro, ouvir uma canção, visitar uma exposição, acessar um projeto, revisitar uma referência ou descobrir outra. O mapa não indicava uma direção obrigatória. Oferecia caminhos possíveis e permitia que cada visitante montasse seu próprio itinerário.

A cartografia nos ajudou a compreender melhor o que a Ciranda já vinha tentando realizar desde sua origem.

Uma mostra de cinema pode ser mais do que um conjunto de sessões. Pode funcionar como ponto de partida para outras descobertas e como lugar de aproximação entre obras, repertórios, pessoas e saberes. Pode convidar o público não apenas a assistir, mas a continuar procurando, ouvindo, lendo, conversando e experimentando.

Essa compreensão ampliou também nosso modo de pensar a curadoria. Uma programação não precisa ser construída como uma linha única, com começo, meio e fim definidos. Ela pode se organizar como um mapa composto por caminhos que se cruzam, se afastam e voltam a se encontrar.

E o melhor disso, claro, é que cada pessoa percorrem a Ciranda da uma maneira singular.

Uma educadora pode chegar por uma questão pedagógica e encontrar uma obra de arte. Uma criança pode ser atraída por uma animação e descobrir uma música de outro país. Uma pesquisadora pode comparecer a uma conversa e se aproximar de um filme que não conhecia. Um familiar pode entrar na sala por causa de uma história e sair interessado em uma experiência educativa, em uma prática comunitária ou em outra forma de relação com a natureza.

A curadoria tem a capacidade de oferecer novos caminhos e ajudar a realizar essas passagens.

Ao longo dos anos, aproximamos o cinema da educação, da música, da literatura, da filosofia, da saúde, da ciência, da ecologia, das artes, das culturas tradicionais… Não para transformar os filmes em materiais explicativos, mas porque a experiência artística pode revelar aspectos da realidade que nem sempre se apresentam da mesma forma em uma palestra, um estudo ou uma exposição teórica.

O filme preserva sua linguagem, seu ritmo e sua liberdade. Os outros saberes chegam para ampliar a conversa, não para encerrá-la.

Foi esse percurso que nos conduziu ao tema da nona edição: “Infância: força regeneradora da vida — despertar sonhos, cultivar o comum e regenerar nossa forma de estar no mundo”.

A pergunta que orienta esta nova pesquisa reúne muitas das inquietações das edições anteriores. O que as crianças podem nos ensinar sobre outras maneiras de viver, aprender, criar vínculos e cuidar do mundo? O que acontece quando deixamos de pensar a criança como alguém que precisa ser preparada para o futuro e passamos a reconhecê-la como presença capaz de interrogar o mundo e nos transformar? Que capacidades humanas, tão visíveis na infância, precisamos relembrar, preservar ou reaprender ao longo da vida?

Em tempos marcados por crises ambientais, inúmeros conflitos, desigualdades, enfraquecimento dos vínculos comunitários, desesperança e dificuldade de imaginar futuros comuns, interessa-nos olhar para a infância não como promessa abstrata nem como solução idealizada para os problemas produzidos pelos adultos.

Precisamos ter muito cuidado: não cabe às crianças e aos jovens reparar o mundo que receberam!

Diante desse cenário, reconhecer a criança como sujeito que é, e não como salvadora do mundo, nem como tábula rasa a ser preenchida por respostas prontas, é uma escolha política concreta. E os filmes, mais do que o discurso, têm uma capacidade rara de sustentar essa escolha pois não explicam a criança, mas a colocam em cena, com toda a sua complexidade, e nos obrigam a olhar de outro lugar.
O que buscamos é ajudar a sustentar a percepção de que algumas capacidades fundamentais à vida se manifestam com particular intensidade na infância: a curiosidade, a imaginação, a disponibilidade para o encontro e o vínculo, a invenção de linguagens, o brincar, a criação de relações inesperadas e a possibilidade de ver como aquilo que os adultos não enxergam ou muitas vezes já naturalizaram.

Como cuidar dessas potências sem querer controlá-las nem as aprisionar? O que uma sociedade revela sobre si mesma pela forma como acolhe e escuta suas crianças? Que modos de educar favorecem a autonomia, a convivência e as atitudes colaborativas? E o que podemos aprender com diferentes práticas e culturas que não separam de forma tão rígida infância e vida comunitária, conhecimento e experiência, seres humanos e natureza? Como permanecer em estado de indignação e, ao mesmo tempo, cultivar a esperança ativa diante de tantas violências e mundos desmoronando?

A curadoria da nova edição procura reunir filmes que nos ajudem a permanecer e aprofundar essas perguntas. Obras que apresentem as infâncias em sua diversidade e complexidade, de gênero, raça, cultura, ancestralidade, que não as idealizem nem as diminuam, que nos aproximem de experiências de aprendizagem, cuidado, resistência, resiliência, cura, pertencimento e transformação.

Mais de dez anos depois da primeira edição, seguimos acreditando que o cinema não transforma o mundo sozinho. Mas ele pode sim alterar nossa percepção, nos colocando no lugar do outro, aproximando experiências que pareciam distantes e tornando visível aquilo que deixamos de observar e escutar, além de nos mobilizar para tomar atitudes concretas.

Ao longo desses dez anos, já foram mais de 400 filmes exibidos e mais de 96 atividades formativas oferecidas, entre rodas de conversa, vivências lúdicas, oficinas cinematográficas, reunindo mais de 39 mil pessoas, de diferentes idades e lugares. Números que não substituem o que aconteceu em cada sessão, em cada encontro, mas ajudam a medir a extensão de um percurso que começou pequeno e não pretende de se espalhar.

A curadoria pressupõe exercícios de presença e atenção demorada.

Olhar demoradamente para uma obra, compreender o que ela carrega e imaginar as relações que poderá estabelecer. Criar caminhos entre um filme e outro, entre uma sessão e uma conversa, entre uma pergunta e uma experiência. Saber abrir mão de um filme ou ação que imaginamos. Oferecer referências sem decidir o percurso de quem chega.

Acredito que a Ciranda continuará se construindo e refazendo como um mapa que nunca fica pronto.

A cada edição, alguns caminhos se tornam mais nítidos, outros se abrem e novas perguntas aparecem. Os filmes são pontos de partida. As conversas, oficinas, vivências e referências ampliam as rotas. E cada pessoa segue levando consigo aquilo que viu, ouviu e descobriu, dando continuidade à Ciranda por trajetos que não podemos prever.

Se você é educadora, educador, familiar, profissional da cultura ou da saúde, pesquisadora, cineasta, ou apenas alguém que também desconfia das respostas fáceis sobre infância, este é um convite: caminhe com a Ciranda de Filmes. Na 9ª edição, e nas que ainda estão por vir.