Coleção 2026

Auto de Barquinhos: dar corpo ao sonho

Nascida das memórias de infância de Roquinho, a construção de barquinhos com elementos naturais reúne crianças e adultos em torno do brincar, da criação coletiva e dos vínculos com o território.

Nos dias de chuva em Padre Paraíso, no Alto Jequitinhonha, as águas que desciam pelas ruas carregavam também pequenas embarcações. Cascas, sementes, pedaços de madeira e flores transformavam-se em barcos nas mãos de Roquinho e de seus amigos. Depois de lançá-los, os meninos corriam ladeira abaixo, seguindo seu percurso.

Alguns barcos avançavam depressa, levados pela força da correnteza. Outros navegavam devagar, quando a água começava a perder velocidade. Cada um encontrava um caminho e convocava as crianças a acompanhá-lo.

Essa brincadeira atravessou o tempo e permaneceu na trajetória de Roquinho, brincante, pesquisador da cultura da infância, fundador da Carretel Cultural e convidado a participar da Ciranda de Filmes, 9.ª edição. Há cerca de duas décadas, ele desenvolve práticas, reflexões e registros sobre o brincar como expressão da cultura e da identidade de um povo e como dimensão essencial da experiência humana.

Os barquinhos de sua infância passaram a reunir crianças, famílias, educadores e comunidades no Auto de Barquinhos, uma experiência nascida da memória, mas que acontece inteiramente no presente: no encontro com as pessoas, com as histórias de cada lugar e com a natureza que oferece formas, texturas, cores e matérias para a criação.

“Crianças e adultos sonham um barquinho, e suas mãos dão materialidade a esse sonho”, diz Roquinho.

Fotografia: acervo Roquinho

Um encontro conduzido pela alegria de brincar

O Auto de Barquinhos começa antes da construção dos barcos. O espaço é preparado para acolher crianças e adultos com brincadeiras brasileiras, cantigas de roda, versos e histórias. Aos poucos, o corpo desperta, as pessoas se aproximam e o grupo começa a vivenciar uma experiência em comum.

Há também um tempo para conversar sobre o brincar, conhecer barquinhos construídos em outros lugares e compartilhar lembranças. A proposta convida os adultos a reencontrar a infância que continua a habitá-los e a colocá-la em movimento, brincando no tempo presente.

Em seguida, o grupo parte para uma caminhada de imersão e observação da natureza. Pelo caminho, procura materiais que possam se transformar em cascos, mastros, velas, enfeites ou pequenos tripulantes. É preciso olhar com atenção, imaginar e se perguntar o que cada elemento pode vir a ser.

Todo o processo prima pelo cuidado. Nada do que compõe os barcos deve poluir ou ferir a natureza. Entre os materiais utilizados estão flores e folhas secas, sementes, argilas, fibras, talos de embaúba, rolhas e barbantes de algodão. Um dos principais elementos é o caule da piteira, recolhido apenas depois de seco e de ter caído naturalmente.

Na comunidade de Santa Cruz, onde os Autos de Barquinhos acontecem há 6 anos, na celebração do 20 de novembro. Fotografia: Roquinho

Construir junto

Cada participante imagina e constrói seu próprio barco, mas ninguém faz isso sozinho. Materiais, ferramentas, descobertas e conhecimentos circulam entre o grupo. Uma solução encontrada por uma criança pode ajudar outra; uma habilidade trazida por um adulto pode servir a muitas mãos. Assim, o fazer individual se torna também uma experiência coletiva.

Enquanto os barcos tomam forma, surgem cantos, versos e brincadeiras. Aos poucos, o grupo prepara o cortejo que conduzirá as embarcações até o momento da soltura. O caminho passa a fazer parte da obra: crianças e adultos caminham juntos, celebrando o encontro, a imaginação e a alegria de brincar.

Construir um barquinho é dar existência a algo que antes habitava apenas a imaginação de cada um. É descobrir que uma ideia pode ganhar matéria pelas mãos e que o sonho pode se fortalecer quando encontra os sonhos dos outros.

Nos contextos comunitários em que acontece, o Auto de Barquinhos procura colocar as crianças no centro da experiência. Suas invenções, narrativas e maneiras de sentir e se conectar com o seu entorno são parte da identidade do lugar. O brincar permite, assim, conhecer as pessoas, escutar as suas histórias e compreender os desejos, os conhecimentos e as necessidades de uma comunidade.

Quando os barcos finalmente seguem seu caminho, carregam um pouco de tudo o que aconteceu até ali: a memória das águas do Jequitinhonha, os elementos encontrados em cada território, o trabalho compartilhado e a liberdade de imaginar. Pequenas embarcações feitas de natureza tornam visível aquilo que move a brincadeira desde o começo: a possibilidade de sonhar alguma coisa e, junto com outras pessoas, fazê-la existir.

Barquinho de Aline, comunidade de Maquiné, onde atuei por 8 anos e os Autos de Barquinhos nasceram. Fotografia: Roquinho