Coleção 2026

Projeto Tecendo Saberes: Da potência dos encontros-afetos

O projeto Tecendo Saberes é uma extensão natural do projeto colaborativo de arte e mídia Deslocamentos, que desenvolvi a partir de 2001 com pessoas e comunidades em situação de refúgio ou deslocadas forçadamente no continente africano, na Europa e no Sri Lanka. Mais do que um projeto, “Deslocamentos” foi casa para minhas raízes portáteis durante 5 anos e definiu meu estar-ser artivista-ponte no mundo, a partir da convivência, do co-mover, da escuta-presença ativa e da proposição de espaços-seguros de respiro, escuta e reflexão através da práxis artística e do pensamento crítico. Minha prática/estar no mundo desde então firmou-se na crença inexorável do potencial subversivo, disruptivo e congregador da arte e na máxima spinoziana da imanência dos afetos, reconhecendo o conhecimento como o mais potente dos afetos.

Neste sentido, inclusive, a palavra “projeto” parece redutora, pois implica um objetivo e um resultado, e o que me interessa são os processos. De alguns destes processos brotam livros, exposições, vídeos, fotografias, resultados tangíveis e quantificáveis que a “sociedade do desempenho” nos exige. Mas estes nem sempre dão conta da intrincada e potente rede de afetos-efeitos-afetações-subversões-reverberações que se tecem nestes movimentos de “estar com”. Tecer saberes é um estado de espírito e de presença, é o que gosto de chamar da “Pedagogia da Rede”, rede de deitar mesmo, bem analógica! Foi no balanço da rede, deitada, que recebi os melhores presentes das crianças. Presentes-aprendizados na forma de causos, saberes selvagens, descobertas animadas e espontâneas “fora do horário” que dispararam ideias para os livros, que por sua vez instigaram novas atividades e novas descobertas. Pousar minha rede – ou um banquinho! – num lugar é se aprochegar, sem agenda, sem imposições absolutas, disposta a afetar e ser afetada. É estar com os olhos na altura do olhar das crianças, que de pé tornam-se protagonistas do encontro.

No Brasil, a exposição Deslocamentos catalisou organicamente dezenas de encontros e novas amizades, que me abriram as portas para um Brasil fora das grandes cidades, o Brasil dos sertões, cerrados, terreiros, várzeas, chapadas. O Brasil dos quilombolas, indígenas, geraizeiros, ribeirinhos, caiçaras, catingueiros, pescadores tradicionais, ciganos, extrativistas… O Brasil pouco conhecido que, além de todas as suas riquezas e saberes, é responsável pela preservação de grande parte da nossa biodiversidade.

Nas minhas andanças, muitas vezes convidada a colaborar com ONGs atuando em comunidades tradicionais, percebi que as narrativas destes projetos tendiam a representar as crianças destes espaços a partir de um olhar adulto e exógeno, reduzindo-as a uma certa noção de identidade “tradicional”, que não fazia jus a riqueza de seus saberes e na realidade inquestionável de que sua identidade cultural se forjava em uma relação intima com seus territórios. A essa percepção convergiu a demanda de vários professores que reclamavam da falta de materiais didáticos que contemplassem suas realidades, nos quais suas crianças se sentissem representadas. Foi para atender esta demanda que surgiram os livros, para que estas crianças pudessem definir como gostariam de se mostrar para o mundo e para que entrassem nas escolas e livrarias do Brasil “pela porta da frente”, através de seus saberes e fazeres e não apenas como “objetos do estudo da diversidade brasileira”.

Vou contar sobre uma experiência que se repetiu em diversas comunidades rurais pelo interior do Brasil, mas também na Colômbia e na África do Sul. Quando chego para conversar, normalmente os mais velhos reclamam: “as crianças, não querem saber de nada, não ligam para nossa tradição, não querem aprender nosso artesanato, nossas danças…”. Que é o discurso padrão folclorista, que percebe a tradição como algo estanque que precisa ser repassada de maneira idêntica ao passado. Quando você começa a trabalhar com as crianças entende que a identidade cultural delas vai muito além disso: “ah, não danço jongo, mas, eu gosto do ritmo tal e misturo com a música tal; esta folha aqui serve pra fazer chá pra dor de barriga, minha boneca de sabugo, fui eu que fiz”, e por ai vai!

Mas antes de tudo, o livro é feito para comunidade, pertence a ela. Após a temporada convivendo nas comunidades, a temporada editando e costurando os livros, a terceira etapa do projeto, é voltar para as comunidades para lançar e distribuir os livros. Neste momento também realizo oficinas com professores, para discutir o uso do livro em sala de aula, mas também compartilhar as metodologias que podem ser aplicadas a seus projetos locais. Quando lançamos o livro no Mondongo a pequena escola encheu de gente, entre tantos nossa musa, Vó Luzia, aos 95 anos a matriarca do projeto. Ao ver o livro e os vídeos ela chorava, de fato chorava e dizia: ”agora eu posso morrer, está tudo aqui”. Não sei se tudo, mas de fato lá estão os netos dela, suas cantigas, seus vizinhos, sua sabedoria, a riqueza de toda uma vida.

Comunidade quilombola do Mondongo, pequena vila na várzea do Rio Amazonas no Pará. Ao entrar na escolinha local, uma surpresa: nas paredes um colorido abecedário ensinava: M de maçã, U de uva, Z de zebra… Opa!? Minha familiaridade com as ilustrações, contrastava com a completa desconexão da escolha com a realidade local. Ao invés de mostrar e falar de meus livros, convoquei a criançada para criar um “Alfabeto do Mondongo”. Rapidinho maçã virou marajá, uva virou uruá e a zebra foi substituída pelo zangão… Quase dois anos depois, no lançamento do Manual das crianças do Baixo Amazonas, a coordenadora pedagógica do município, encantada com nosso abecedário local, me pediu autorização para distribuí-lo nas outras escolas da região. Autorização prontamente negada e substituída pela proposta de conversar com os professores sobre formas de criar seus materiais a partir da realidade local.

Ao assumir o papel de protagonistas da produção de um repertório local, as crianças fomentam uma dinâmica intergeracional de (re)valorização de seu patrimônio. No processo de construção do livro Histórias da Cazumbinha isso ficou muito claro. Como o Rio das Rãs é uma comunidade pequena, os personagens das histórias eram os avós das crianças que criaram as ilustrações comigo. Por que a Meire Cazumbá, que escreveu, falou de sua infância nos anos 60, e os heróis dela eram os adultos na época que são agora os avós e bisavós dessas crianças e estão lá velhinhos. E de repente, através das histórias, esses “velhinhos” são redescobertos como “o maior vaqueiro da catinga”, ou “a melhor benzedeira do São Francisco”. Depois de quase 2 anos a gente voltou para lá e essas crianças estavam brincando de “Suupeeeer vaqueiroo do sertão”, “super mandacaru espinhudooo”…! Elas haviam expandido seu repertório, digamos assim!

Muito do conteúdo dos livros nasce de situações espontâneas com as crianças. Por exemplo, você está na rede às oito da noite, chega uma criança com uma arraia morta. “Olha tia, achei uma arraia”, “Tu não tinha entendido o que é o esporão, vou te mostrar o que é o esporão da arraia”. Vem um bando junto, ali fotografamos, juntamos histórias de arraia, e dali surge uma página nova sobre “perigos aquáticos”. De repente uma criança me acorda com um desenho. “Tia, eu desenhei tal coisa..” Eu digo “gente, que desenho bacana, como vou deixar isso fora do livro”? Funciona de várias maneiras, esse lado orgânico das coisas que vão vindo e vamos editando in loco. Às vezes as crianças é que vão orientando: “poxa, tem a história do bezerro, vamos lá fotografar o bezerro!” “Ah, a gente tem a história das meninas que se perdem na catinga, onde é que vocês acham que tem uma paisagem assim que representa a catinga…”

Os conteúdos no mundo
Então, esta é uma questão que me é muito cara, pois um dos meus objetivos é de fato subverter a maneira com que a criança da cidade percebe aquela cultura que normalmente ela aprende a reconhecer como “outra”, minoritária ou exótica. A criança que ela vê nestes livros e vídeos é uma criança agenciadora de sua vida, orgulhosa de sua cultura, produtora de saberes que têm muito a lhe ensinar e que apesar de viver em situações distintas divide com ela desejos e rotinas comuns à qualquer infância. Neste sentido tenho ficado muito feliz com a repercussão dos livros nas atividades que fazemos em bibliotecas públicas ou escolas aqui em São Paulo. Passado um primeiro estranhamento, a maioria das crianças fica perplexa com “o tanto de coisas que essas crianças sabem fazer!”. Em alguns lugares, depois de verem os filmes das crianças criando seus brinquedos e artefatos saíram correndo para achar pau para fazer arco e flecha. “Viu como ele faz? Vamos tentar também?”

Para seguir tecendo, o projeto oferece várias atividades que podem ser levadas para escolas e instituições.
De forma lúdica e transitando entre várias disciplinas (ciências naturais, história, geografia) e temas transversais do currículo (sustentabilidade, ecologia, povos tradicionais e indígenas…) as atividades incluem uma exposição modulável, sessões de cineminha comentadas, contações de histórias, palestras e formações para professores. O material expositivo, painéis, banners, vídeos, contação de histórias, palestras, atividades lúdicas segue circulando pelo mundo e disponível para escolas e instituições!

Conheça o portfólio completo de Atividades Tecendo Saberes (PDF)

Depoimento da Profa. Nazaré

Depoimento da Prof.a Nazaré, da Educação Infantil de Cachoeira Porteira, sobre o quanto o Manual da Criança do Baixo Amazonas lhe inspirou a “voltar” para a floresta com as crianças em suas aulas.

Compilado Tecendo Saberes

Vídeo editado com momentos das atividades e criações do projeto Tecendo Saberes.

Marie Ange Bordas e o projeto Tecendo saberes

Marie Ange Bordas

Artivista multimídia, escritora, jornalista e educadora, desenvolve projetos colaborativos de arte, literatura e mídia com jovens e crianças do mundo todo.

Lendas Amazônicas e outras história que você deveria conhecer (com S.Ventura, Ed.Florear), Histórias da Cazumbinha (com M.Cazumbá , Cia das Letrinhas), Manual da criança Caiçara (Ed.Peirópolis), Manual das crianças do baixo Amazonas e Manual das crianças Huni Kuî (projeto Tecendo Saberes), livros foto-ilustrados voltados ao público infanto-juvenil, são alguns dos resultados destes projetos.

O projeto Tecendo Saberes tem por objetivo promover a valorização e a difusão das culturas tradicionais brasileiras através do olhar das crianças e de seus saberes e fazeres. Com uma estrutura de manual lúdico e científico, os livros abordam o patrimônio imaterial – língua, culinária, arte, lendas, crenças, contos, brincadeiras, etc – de cada comunidade, além de estabelecer relações com questões ambientais, geográficas e históricas destacadas.

Por meio de um processo dialógico, o conhecimento é tecido através de atividades lúdicas, muita conversa e troca, estimulando as crianças e jovens dessas comunidades a protagonizar o processo de levantamento, produção e representação dos aspectos de seu cotidiano. Saberes que levam em consideração as tradições dos mais velhos, mas agregam a elas os saberes, fazeres e vivências dessa nova geração.

Mais informações e contato:
www.marieangebordas.org | @marieangebordas