Olhares

Renaya Dorea: a floresta como corpo coletivo
21/08/2026
Entrevista com a artista criadora da ilustração da 9ª edição da Ciranda de Filmes.
Nascida no Rio de Janeiro em 1995 e criada entre a baixada fluminense e a região dos lagos, Renaya Dorea encontrou no desenho uma forma de atravessar deslocamentos, silêncios e memórias afetivas. Hoje sua obra investiga corpos femininos como território, botânica, mistério e ancestralidade afroindígena. Foi ela quem assinou a ilustração da 9ª Ciranda de Filmes, nascida do tema “Infância: força regeneradora da vida” e atravessada por sua primeira residência artística no México. A seguir, ela conta sua trajetória e o processo de criação da obra.
Para começarmos pelas origens: onde você nasceu e cresceu? Que paisagens, pessoas, situações, histórias e imagens marcaram a sua infância?
Eu nasci no Rio de Janeiro, em 1995, fui criada na baixada fluminense, na periferia do Rio, nas margens do rio Pavuna, meu bairro era São Mateus, em São João de Meriti, nessa época era conhecido como o formigueiro das Américas, era um dos lugares mais concentrados de trabalhadores na América Latina. Fui a primeira filha da minha mãe e a terceira filha do meu pai, eles eram funcionários públicos, mas tinham uma paixão especial pelo samba, pagode, carnaval. Além disso, minhas avós tinham uma relação profunda com as religiões de matriz africana.
Cresci numa família numerosa e afetiva, marcada por deslocamentos, porque minha avó sempre falava sobre sentir falta da Bahia. Todos os anos durante o verão minha família viajava para a região dos lagos e, quando eu tinha uns 10 anos, passou a ser nossa casa, buscando um espaço mais seguro, a tranquilidade sonhada do interior e do mar. Foi estranha essa migração regional, mas sempre tive uma relação de amor pelas águas, sempre gostei de desenhar e essa mudança de território me marcou profundamente. Foi uma infância se deslocando entre o mar e o rio Pavuna, comecei a desenhar ainda mais nessa época, porque era uma forma de entender meus sentimentos e as mudanças desse período da minha vida, uma forma de romper limites físicos e criar um lugar seguro para mim mesma.
Do que você gostava de brincar? Que brincadeiras ou atividades te aproximavam do desenho e da sua criação artística?
Quando eu tinha 3 anos minha maior diversão era pintar as paredes de casa sem a autorização da minha mãe, acho que por isso acabei me encontrando no grafite e na arte urbana. Gostava de jogos criativos, era apaixonada pela possibilidade de criar histórias sobre outros mundos, tive amigos imaginários e sempre conversei com a natureza, até hoje converso, foi minha primeira amiga e acho a forma mais bonita de sentir a ancestralidade dentro de nós, depois descobri que também posso chamar essa força de orixá.
O que daquela menina permanece em você hoje? Que elementos da sua infância você reconhece em sua maneira de olhar, criar, perceber e se relacionar com o mundo?
Quando eu era criança eu simplesmente adorava ficar em silêncio e prestar atenção no que as outras pessoas estão fazendo ou falando, hoje em dia gosto de desenhar pessoas desconhecidas, por conseguir ver nelas uma beleza e uma poesia que muitas vezes sinto que passa despercebida pelos olhos desatentos. Eu era uma criança falante que precisou aprender sobre o silêncio, além de lidar com deslocamentos longos entre cidades, me gerou uma relação com a observação e atenção a detalhes bem pequenos, também me gerou uma capacidade de sonhar acordada com as imagens em movimento que saem da minha imaginação e seguem presentes no meu processo criativo. O meu maior sonho de criança era ser artista, me tornar artista, mas no fundo acho que eu já nasci artista e fui aprendendo a escutar e dar forma a esse desejo.

Como nasceu o seu desejo de se tornar artista e quais experiências, encontros ou referências foram importantes para a construção do seu caminho?
Eu não me lembro exatamente qual dia isso aconteceu, não tinha artista na família e também não tive apoio para seguir esse caminho, minha família via esse sonho como o de crianças que falam que querem ser astronautas, era bonito, mas parecia algo muito distante da nossa realidade. Mas minha mãe sempre gostou de eventos culturais, teatros, exposições, cinema e eventos literários, acho que meu primeiro contato veio através dela e dos passeios que fazíamos aos finais de semana, porque ela trabalhava muito. Ela conta que quando eu era criança eu ficava folheando os livros como se soubesse ler, mas eu estava encantada com as imagens, e me lembro de estar tentando entender como poderia fazer algo assim também.
Fui uma criança que assistiu muita TV Cultura, eu não entendia o que significava aquilo, mas eu sabia que ser artista era o maior sonho da minha vida e tive que aprender a lidar com esse sonho e não deixá-lo morrer. Fiz muitas oficinas e comecei com o sonho de ser cantora e atriz, mas eu era uma criança muito tímida e o palco me dava uma vontade gigantesca de chorar ou vomitar. No meu dia a dia continuo sendo uma pessoa muito musical, cantar é um processo de cura e a melhor forma de acalmar meu coração, mas foi desenhando que eu encontrei de verdade a paixão da minha vida, desde que tenho três anos de idade, ou desde que tive minhas primeiras memórias.
Foram importantes os quadrinhos como Turma da Mônica, O Menino Maluquinho, as animações, e em seguida os mangás e animes como Naruto, que foram meu refúgio, minha escola criativa, porque nessa época existiam manuais de como desenhar mangá que vendiam nas bancas de jornal, foi aonde eu comecei. Essas foram minhas inspirações, misturadas com o carnaval do Rio de Janeiro, com as festas de rua, os bailes, as feiras de domingo e sambas de roda, as praias do Rio de Janeiro, o calor da baixada fluminense, os deslocamentos de horas entre as cidades, os filmes da sessão da tarde, e definitivamente ter sido apaixonada por Castelo Rá-Tim-Bum.
Como você descreveria o seu universo artístico e o seu processo de criação? Quais temas, materiais e linguagens aparecem com mais força em seu trabalho?
Eu gosto de criar imagens como um tipo de música, gosto de pensar que essas cores dançam e que existe um ritmo e movimento oculto em um universo que está conectado. A principal são figuras femininas e, principalmente, corpos como a extensão de um território. Gosto muito de investigar a botânica, os biomas, frutos, frutas, gosto de buscar memórias coletivas, o sagrado e o mistério, a magia e as encantarias estão em muitas partes.


Como foi o processo de criação da ilustração para a 9ª Ciranda de Filmes? O que mais mobilizou você a partir do tema “Infância: força regeneradora da vida”?
Fiquei muito feliz com o convite para criar a arte para a Ciranda. O tema me atravessou e eu queria muito sentir uma explosão de cores e, principalmente, muita vida. Em processos dolorosos como a crise climática que estamos atravessando, em paralelo com a crise da própria vida e o fim desse mundo, queria pensar uma arte artesanal que tivesse um convite para replantar nosso futuro mais uma vez, feita com uma técnica híbrida de ilustração entre aquarelas e acrílicas, trazendo essa cosmovisão originária de mundo em que não existe uma separação entre natureza e humanidade, porque somos a mesma coisa.
Então imaginei uma floresta de noite, em um quase amanhecer onde os mistérios do som da serpente e dos ventos não dão medo, podendo conviver e também se complementar, entre sereias, onças e fantasmas que compartilham o mesmo rio, as mesmas águas, e crianças que participam desse mundo mágico, que também brincam de ser planta ou que se transformam nesses seres da floresta, porque a imaginação nos dá a liberdade para ser e acessar o que quisermos, inclusive nossas raízes e o fundo do nosso coração semeado nessa memória-sonho.
Quais escolhas, símbolos, personagens, cores e detalhes da ilustração você considera especialmente importantes? Algum elemento cuja história ou significado você gostaria de compartilhar?
No centro da floresta existe uma criança de braços abertos, ela te convida para entrar nesse mundo, te convida para um abraço, é o começo e o fim da arte. Essa planta, que é uma semente e também uma criança, se mistura entre a fantasia e a representação de um pequeno que ainda habita dentro de nós, entre as outras crianças que estão se divertindo e se disfarçando ao mesmo tempo que passam a fazer parte dessa floresta durante essa noite mágica. A floresta é um corpo coletivo, habitado, vivo e mutante. O sol é uma referência à divindade originária, Nhamandu, e a um novo amanhecer, a onça é o jaguar que compartilhamos entre toda Abya Yala, a sereia é a guardiã desse corpo das águas e das encantarias do sagrado profundo, quanto mais profundo entramos, mais mistérios encontramos.
O encantado azul é uma referência à festa popular mexicana La Tigrada, onde as pessoas se vestem de onça em referência aos guerreiros originários do México, esse país teve uma forte influência na criação: esse ano fiz minha primeira residência artística e foi um mergulho na cultura popular mexicana enquanto buscava conectar com expressões da cultura popular e o sagrado afroindígena do Brasil. Um detalhe importante são os pontinhos que se deslocam, eu imaginei esses pontos como águas da chuva, dos rios flutuantes e ao mesmo tempo sementes que se deslocam por dentro da floresta. Depois essas sementes se transformam em frutos, flores e folhas, que explodem em cor, textura e vida.




De que maneira você percebe a infância como uma força capaz de reacender sonhos, cultivar o comum e regenerar nossas formas de estar no mundo?
Quando me sinto perdida, gosto de me refugiar em memórias como um espaço seguro de cura e cuidado, muitas vezes memórias da infância, acredito que lembrar do nosso olhar enquanto pequenas nos faz olhar pro mundo com mais calma, cuidado, paciência e afeto com nós mesmas e com o mundo. Dizem que temos um processo de nos individualizar durante o amadurecimento e a autoconsciência para sermos adultos, acho que retomar a infância é uma forma de reconectar nosso pensamento e nossa existência com uma coletividade, uma comunidade, uma existência expandida em um mesmo coração.
Em sua opinião, quais são os principais desafios enfrentados hoje pelas crianças e pelas futuras gerações? E o que nós, adultos, precisamos reaprender para cuidar melhor da vida que elas recebem e irão construir?
Me preocupa muito conhecer crianças e jovens que não têm sonhos. Me deixa triste sentir esse vazio e falta de perspectiva. Acredito que precisamos reencantar nosso mundo ou já estaremos todas mortas. Precisamos povoar esse futuro com possibilidades, desejo por mudanças e colaboração, ao mesmo tempo que precisamos seguir sonhando e acreditando nesses sonhos compartilhados, principalmente continuar tentando e experimentando, com esperança e confiança nesse caminho.
Quais são, hoje, na sua visão, os principais desafios para artistas e cineastas que desejam criar com liberdade, sensibilidade e compromisso com as questões do nosso tempo?
São muitos fatores, mas confesso que tenho refletido muito sobre as práticas de bem viver e que caminhos posso trazer para ter qualidade de vida, que na verdade é o que nossas mais velhas já nos diziam, como o manifesto do descansar para resistir de Tricia Hersey, tem sido um desejo de desacelerar, dormir, se recuperar e sonhar. Existe muita instabilidade, desencanto, isolamento, acho que o caminho contrário é um destino sonhado por muitas de nós. Em um mundo da velocidade e das inteligências artificiais, talvez uma resposta digna seja a artesania, a manualidade, o traço imperfeito e uma criação lenta, humana e sincera.
Que lugar a arte pode ocupar na ampliação da imaginação, na formação do olhar e na criação de outros futuros possíveis?
Conhecer outros mundos é também uma forma de aprender outras formas de viver e se relacionar, acho que através da arte cruzamos um portal, um deslocamento como em uma viagem, sair de si e ampliar a perspectiva da realidade, conhecer outras culturas e ter mais empatia com as diferenças.
Existe alguma lembrança, obra, sonho ou aspecto de sua trajetória que não está nas perguntas, mas que você gostaria de compartilhar com o público da Ciranda?
Queria compartilhar um sonho que eu tive, que na verdade é sobre a casa dos meus sonhos e que sempre volto a visitar enquanto durmo, ela tem grandes janelas azuis e quando caminho por dentro dela parece que encontrei o meu lugar no mundo, sinto uma paz, uma tranquilidade e uma felicidade gigantesca. Comecei a buscar por essa casa e ainda não a encontrei, conversei sobre isso com uma amiga, compartilhei esse sonho e essa busca, ela sorriu e me disse que para conseguir encontrar talvez eu tenha que construir essa casa com minhas próprias mãos.
Eu gosto de pensar que isso são os sonhos, um tipo de visão, mas também um tipo de chamado, que pede movimento, ação e caminho. Queria dividir essa busca e lembrar que quando não encontramos, podemos lembrar que podemos criar, construir nossos sonhos, nosso futuro e o nosso destino.


