Olhares

A colorida rebeldia de Papaya

26/08/2026

Uma semente de mamão papaia que sonha em voar transforma a vida de Priscilla Kellen em sua primeira direção de um longa metragem

Eu e Papaya

Eu tinha acabado de me mudar para São Paulo e prometi a mim mesma que finalmente iria consumir toda a cultura que não consegui em Santos durante meus 19 anos. Foi assim que fui à 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pronta para absorver, como uma esponja, a sensação de estar numa sala cheia de pessoas que desejam viver a arte com a mesma intensidade que eu. Li cada filme do catálogo com extremo cuidado e levei, ao todo, nove horas (com pausas para lanchinhos) para montar a programação mais perfeita possível para os meus próximos 15 dias.

Mesmo depois de ler 374 sinopses, houve apenas um filme que me deixou verdadeiramente ansiosa por cada dia que antecedia a sessão. Quem teve a ideia de contar a história de uma semente de mamão papaia que sonha em voar? Isso me perturbava (de um jeito bom): carrego uma ânsia profunda por filmes que fogem do padrão, que ousam ser absurdos e fora do comum. Ao mesmo tempo, havia um grande medo de me sentar na cadeira do cinema e sair decepcionada. Eu estava criando uma expectativa enorme, como se já tivesse uma conexão emocional há muito tempo cultivada. Não era como se eu tivesse descoberto a existência desse filme anteontem.

Enfim, chegou o dia que, sem que eu percebesse, eu já estava tratando como um grande evento. Caminhei até o cinema, mostrei meu ingresso e me sentei. A diretora e parte da equipe estavam naquela mesma sala e, além delas, era possível contar nos dedos todos os espectadores presentes, me incluindo na conta.

As luzes se apagaram. O filme começou. E eu? Completamente vidrada na tela. O traço, as cores, os movimentos, a semente de mamão papaia saltando pela floresta, a trilha sonora, tudo. Tudo transbordava sentimento. Tudo parecia maior do que era. Tudo simplesmente era.

O filme acabou e eu estava soluçando. Meu companheiro, ao meu lado, me olhava confuso. A quantidade de água que eu derramava não condizia com o quanto cabia no meu corpo. Eu estava, naquele momento, quebrando alguma lei da biologia. Sem conseguir parar de chorar, precisei esperar um bom tempo dos créditos até conseguir me levantar e sair da sala.

No caminho até a porta, a diretora do filme, Priscilla Kellen, estava ali, paradinha, esperando que os seis espectadores conversassem com ela. Eu passei por ela me debulhando em lágrimas, querendo parar e falar sobre tudo o que senti, sobre tudo o que aquele filme era, quase pronta para me ajoelhar e a pedir em casamento, mas, ao mesmo tempo, sem saber o que dizer. Até hoje não consigo colocar em palavras o quanto esse filme mexeu comigo, imagina naquele momento.

Eu tinha tanto a dizer e, ao mesmo tempo, não havia palavras suficientes. Saí do cinema sem conseguir falar uma única palavra com ela.

Mas hoje, consegui uma entrevista com a diretora deste filme, que comentou, com muito carinho, que achou o nome do nosso jornal engraçado.


Descrição da primeira imagem

Ilustração do filme Papaya

Priscilla Kellen e Papaya

Para Priscilla Kellen, Papaya representou um passo imenso em sua vida. Ela já havia dirigido, ao lado de Alê Abreu, Vivi Viravento, mas sentia uma necessidade maior de criar algo que fosse inteiramente seu, com suas ideias, com seu estilo e com sua voz. Por conta da idade, a cineasta recebia muitas cobranças externas de que, se não tivesse um filho logo, poderia perder essa oportunidade em pouco tempo.

Foi nesse contexto que engravidou e, durante a gestação, passou a perceber com mais clareza as estruturas de machismo e patriarcado que atravessavam sua vida. Quando seu filho completou um ano, veio também a inquietação de estar afastada do mercado, parada profissionalmente. Então surgiu a oportunidade de dirigir um longa-metragem e, reunindo tudo isso, decidiu fazer Papaya.

Priscilla, já um tanto cansada de lidar com o ego masculino, decidiu realizar o filme com uma equipe majoritariamente feminina e de forma online, já que a pré-produção aconteceu durante a pandemia e fazer uma animação não exige tanto encontros presenciais.

(Atenção: o parágrafo a seguir contém spoilers)

Eu perguntei, logo em seguida, por que o voo de Papaya é representado daquela forma no final do filme. Priscilla explicou que aquele voo é quase uma conquista para a personagem. Ela atravessa diversas situações, vivencia, aprende, e tudo isso constrói esse momento. É uma metáfora sobre o que carregamos ao longo da vida para, no fim, conseguirmos realizar nossos sonhos. Ao passar pela rede de micélios, Papaya vivencia uma troca quase ancestral, que levanta questões sobre o que deixamos para trás, o que levamos adiante e o que transformamos nesse processo.

Papaya não segue o clichê da jornada do herói, em que existe um objetivo claro a ser perseguido até o final. Aqui, é diferente. O filme começa com o desejo de voar, mas, ao longo do caminho, esse sonho vai se transformando diante de tudo o que ela descobre. Priscilla comenta, inclusive, que o filme é bastante autobiográfico nesse sentido.

No final, Papaya voa, mas não da forma que esperamos. Ela se enraíza (algo que, no início, tinha pavor), salva a floresta, cresce como uma árvore e, ao libertar sua família, acaba também se libertando. É nesse processo que surgem suas asas, de um jeito não explicado. E talvez nem precise ser. Como a própria Priscilla disse, a lagarta entra no casulo e sai de lá como uma borboleta, e ninguém questiona isso. Algumas coisas simplesmente não precisam de uma explicação lógica. O sentimento fala mais alto.

(Fim dos spoilers)

A trilha sonora, composta por Talita Del Collado, me encantou profundamente — ao mesmo tempo em que soa completamente brasileira, também é etérea e, em certos momentos, psicodélica. Priscilla contou que, muitas vezes, seu processo criativo acontecia durante a amamentação, em momentos em que se sentia “presa”, sem ter para onde ir. Foi ali que passou a ouvir álbuns de música ambiente, com sons de floresta, chuva e rios.

Nesses momentos, ela escutava trabalhos como Oasis of the Wind II, de Takashi Tokubo, e Green, de Hiroshi Yoshimura, que misturam sons naturais com instrumentos musicais. A partir disso, foi sendo levada a outras recomendações — algumas mais psicodélicas, como Mother Earth’s Plantasia, de Mort Garson, que também alimentaram seu processo criativo. Eram nesses instantes que ela imaginava diversas cenas do filme.

Depois, Priscilla reuniu todas essas referências e as passou para Talita, que adorou as inspirações, mas sentiu que ainda faltava um certo abrasileiramento. Foi a partir desse encontro de ideias que nasceu a grandiosidade da trilha sonora.

Priscilla Kellen tem um repertório enorme, e foram inúmeras as referências que atravessaram a criação de Papaya, além, claro, das que já mencionei. As colagens de Henri Matisse foram uma de suas grandes inspirações, assim como o trabalho do artista plástico e paisagista Roberto Burle Marx. Diferentes expressões de arte indígena e artesanatos como colchas de retalhos que formam paisagens em tecido também somam às inspirações da diretora. Em determinado momento, ela também passou a pesquisar como eram os artesanatos das primeiras civilizações de países onde o mamão papaia era consumido.


Descrição da segunda imagem

Ilustração do filme Papaya

Mas uma das inspirações mais marcantes veio de outro lugar: um DVD que seu filho, ainda pequeno, assistia, chamado Wonder, de Mirai Mizue. O filme é completamente abstrato e deixa a interpretação aberta ao espectador. Seu filho adorava e criava suas próprias leituras a partir do que via. Foi observando esse impacto que Priscilla percebeu o quanto pode ser enriquecedor não entregar uma narrativa totalmente fechada e estruturada.

Além disso, a escolha de não ter falas surgiu da necessidade de tornar o filme mais democrático. A ideia era não só torná-lo acessível para crianças e facilitar sua circulação pelo mundo, mas também permitir que alcançasse, por exemplo, povos indígenas que não falam necessariamente o português.

Priscilla Kellen e ela mesma

Eu, como mulher com um interesse profundo por animação, não pude deixar de perguntar se Priscilla sentia que ainda existia uma grande desigualdade de gênero dentro desse meio. Ela respondeu que sim, uma resposta que, infelizmente, eu já esperava. Ainda vivemos em uma sociedade muito binária, com um sistema hierárquico e patriarcal presente muito nas artes em geral.

Contou que, mesmo sendo diretora, já foi questionada de maneiras que homens dificilmente seriam, algo que vinha, em sua maioria, de homens, mas também de algumas mulheres. Ao mesmo tempo, a experiência de ter uma criança em casa sempre perguntando “por quê? por quê? por quê?” a levou a se questionar mais e a testar suas próprias ideias com mais profundidade, tirando disso um ganho criativo.

Dentro disso, Priscilla comentou que também sentia a necessidade de afastar o filme desse lugar binário de homem e mulher, tentando deixar os arquétipos de lado. Um exemplo é a Mãe Mamoeiro, que é feminina, mas sem carregar os estereótipos do que se espera de uma mulher. A própria Papaya não tem gênero nem características que a encaixem em uma dessas caixas, algo que, para mim, são pequenas rebeldias que ajudam a tornar o mundo um pouquinho melhor.

Durante a entrevista, Priscilla mencionou várias vezes que muitas de suas inspirações vinham de aspectos da maternidade. Perguntei, então, se ela acreditava que, caso não tivesse se tornado mãe, ainda teria feito esse filme. Disse que sim, porque já tinha um apreço muito grande por plantas e se interessava pela ideia de traçar paralelos entre a vida humana e a vida vegetal. Não acredita que seria exatamente o mesmo filme, mas algo muito próximo. Em uma fase da sua vida em que pensava em seguir na área de ilustração botânica, costumava desenhar as etapas de crescimento de uma planta e refletir sobre em qual estágio ela mesma se encontrava.

Muitas motivações da personagem da Mãe vieram, sim, da maternidade, mas uma grande parte também nasceu do seu próprio momento de vida, especialmente como mulher. Da necessidade de fazer aquilo que o mundo dizia que não era para ela.

Para terminar, fingindo ser uma repórter do Letterboxd, pedi que ela listasse seus cinco filmes favoritos. As escolhas foram: Persepolis (2007), de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud; Ponyo (2008), de Hayao Miyazaki; Santo Forte (1999), de Eduardo Coutinho; Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho; e Dançando no Escuro (2000), de Lars von Trier. É impossível dizer que ela não tem um bom gosto.

Não esqueça de seguir o filme e a diretora no instagram: @papaya.filme e @prikellen.silva


Mini bio

Laura Pan é estudante de Cinema e Audiovisual na Belas Artes e redatora da revista Desconhecido Juvenal, onde escreve sobre filmes e mostras de cinema. Também atua como roteirista, cenógrafa e figurinista e, há seis anos, estuda questões de representatividade no cinema e na literatura.