Olhares

Tudo o que é bom para as crianças, é bom para nós também

26/08/2026

TUDO O QUE É BOM PARA AS CRIANÇAS, É BOM PARA NÓS TAMBÉM

Venho repetindo muito essa frase ultimamente. Em aulas para adultas. Presenciais e on line. E também em oficinas para idosos e idosas, educadores e educadoras. Cheguei à conclusão que esse é um eixo primordial do meu trabalho atualmente.

Mas por que? Por que olhar para o bem estar das crianças espelhando benefícios para a vida adulta?

Aqui faço uma primeira citação: ouvi muitas vezes nos meus anos na escola do Ivaldo Bertazzo, dele próprio, essa pergunta: – O que envelhece antes, a pele ou o movimento? O movimento. Como assim? Levando uma vida sedentária. Sem andar, sem dançar, sem subir e descer escadas, sem fazer movimentos largos, muitas horas sentada(o)… Isso envelhece todos os sistemas: o musculoesquelético, o visceral, o respiratório, o circulatório. Envelhecemos também no psiquismo, na emocionalidade, na cognição. E eu não estou dizendo que não devemos envelhecer. Claro que sim. Na hora certa. Lá pelos 80. O caso é que tem sido comum encontrar adolescentes com graves problemas motores e posturais, crianças pequenas com dificuldades de deglutição, adultas de 30 anos que não conseguem sentar no chão.

Muito cedo, hoje em dia até na primeiríssima infância, nem tivemos a oportunidade de nos movimentar. Perdemos quantidade, qualidade e diversidade de movimentos. E hoje já sabemos que a motricidade é o território fundamental para todo o desenvolvimento humano. Um exemplo? Cada movimento que o bebê realiza, envia sinais sensoriais ao cérebro. Esses movimentos repetidos muitas vezes criam e fortalecem conexões sinápticas, permitindo que os circuitos neurais se tornem mais eficientes e especializados. Todos os mecanismos cognitivos se baseiam na atividade motora. O corpo é o centro absoluto de toda aprendizagem.

Ou seja, quando perdemos movimento, quando nossos gestos se tornam apequenados, raros e repetitivos, perdemos capacidade cognitiva e também capacidade de contornar questões psico-emocionais, já que nos faltará criatividade, dinamismo, ginga, malemolência.

Difícil ligar o pé ao sapato? Vamos lá, vou destrinchar:

Antes mesmo de nascer, na vida intra-uterina, o bebê já se movimenta. É através de uma gama infindável de movimentos que o ser humano se desenvolve desde a concepção até o nascimento, e depois, durante toda a infância. É pelo corpo e pelo movimento que a criança conhece a si mesma, exprime as suas necessidades físicas e emocionais, se relaciona com seus familiares e descobre o mundo. Humberto Maturana afirma que “na própria ação, já há cognição, tendo em vista que a aprendizagem emerge do próprio corpo, a partir de suas relações com o entorno”.

Assim, a gestualidade e todas as vivências corporais são modos de conhecimento válidos por si mesmos. São outras ciências – outras modalidades do saber. Na criança, a consciência individual surge com o desenvolvimento da sua consciência corporal, quando ela sente o seu corpo como um território de descobertas e possibilidades. E a consciência social surge se a criança vive plenamente na sua consciência corporal, pois é aprendendo mais sobre si, que é possível compreender o outro.

Diferente do que ainda é a opinião corrente, a atividade psicomotora não é um adendo, um adereço dispensável ou subalterno. Sem ela não conseguiríamos sequer nos transformar em fetos, em bebês e nascer. O movimento é a base da vida, não só humana, mas do planeta.


Descrição da imagem

Observou que estamos falando de movimento, não de ginástica, malhação ou qualquer outra modalidade de prática corporal?

Estamos falando de tudo o que fazemos na vida cotidiana. Sentar, levantar, pegar objetos, andar, correr, girar, escovar os dentes, dançar, comer, mastigar, cantar, desenhar, escalar uma árvore, abraçar, rolar no chão, ninar… Percebeu que tudo isso é movimento? Não há nada que façamos que não envolva movimento. O desafio é manter essa lista sempre diversa, em boa quantidade e sempre pronta para crescer.

Agora, pensa um pouco: Quem você conhece que mantém essa lista em bom estado? Com graça, beleza e fluidez?

As crianças. Podemos dizer sem sombra de dúvida que elas são puro movimento. Bom, se as crianças sabem manter em bom estado um mecanismo fundamental e insubstituível de aprendizagem, temos muito o que aprender com elas, não é mesmo? Nem pensar em te deixar no vácuo agora! Parece uma complicação, mas não é. Lembra que o movimento envelhece antes da pele? Vamos para o movimento! Sentar no chão junto com as crianças, brincar no chão com elas. Rolar, imitar gato, lagartixa, fazer jogos, montar quebra-cabeças. O chão faz um bem danado para as articulações. As mentais inclusive. Ah, mas o chão está sujo… Vamos varrer junto com as crianças!

As possibilidades são infinitas e dependem do contexto, eu sei. Meu foco é reacender o brilho e o entusiasmo, é oferecer conhecimento sobre os nossos remédios endógenos, sabendo que a grande maioria deles é ativada pelo movimento. As crianças merecem encontrar e conviver com adultos e adultas porosas, bem humoradas e criativas. E os adultos e adultas merecem tudo isso, por si só. Porque sim. E porque as crianças merecem. Existem muitas portinholas e janelinhas que podemos abrir para iniciar um processo de vivificação, que começa em nós e irradia para quem está no nosso entorno.

“As outras modalidades do saber, as outras ciências” citadas por Maturana, podem ser traduzidas como ciências moles, aquelas forjadas na experiência e na fricção com a vida. Que dão alegria, que fortalecem. Esse é o método que eu mais gosto, mais uso e com certeza o mais eficiente. Para aprender tem que fazer, sentir por dentro e por fora. Para aprofundar um pouquinho no “como fazer”, eu quero contar que uma outra pesquisa que faço livremente, há muitos anos, são os modos de aprendizagem. Como aprendemos da melhor forma? Como não matar a vontade, a curiosidade de aprender, já que aprender é até o fim da vida? Eu cheguei à conclusão depois de muita leitura e muita prática em grupos diferentes para os quais dava aulas, que o melhor método é a ludicidade.

É aprender no jogo, no desafio, no bom humor, na brincadeira. Isso não significa que é necessário fazer piadas ou números de palhaçaria. Mas significa que a gente pode e deve lançar mão da nossa criatividade para transformar em encontro o momento de ensinagem/aprendizagem. Não tem novidade nisso, é uma premissa até antiga, mas difícil de realizar. Sei disso através de relatos que ouço de mães, cuidadoras e educadoras. Ninguém tem um botãozinho para ligar a ludicidade. É uma potencialidade que precisa virar uma habilidade. Precisa de espaço, tempo, estímulo e prática.

Eu sentipenso (já chamando o grande Eduardo Galeano), que a gente precisa cuidar de nós e não só das crianças. Precisamos ter corpos firmes e maleáveis, dançantes e estruturados, precisos e cremosos. Quando eu digo corpo, eu falo do inteiro que nós somos. Da cabeça aos pés, dos pés à cabeça. Por dentro e por fora, tecidos moles, tecidos duros, emoções e pensamentos. O que vive e reverbera no movimento ressoa em cada canto de nós.

Depois dessa pequena reflexão sobre corpo, movimento, desenvolvimento e envolvimento humano, volto ao título com perguntas: Pisar numa poça de lama é bom para as crianças? Cantar parlendas, trava-línguas e rimas é bom para as crianças? Andar descalça(o) numa superfície irregular é bom para as crianças? Fazer tum-tum-pá batendo palmas e pés no chão é bom para as crianças? E construir mundos com caixas de papelão? E ninar e ser ninada(o)? E isso tudo não é bom para você também?

Finalmente, quero só te dizer que as práticas corporais integrativas são muito importantes. Eu mesma trabalho com uma alquimia de várias linguagens. Se tiver oportunidade, faça com consistência e transformações incríveis surgirão. Porém, nem todo mundo tem oportunidade, por tantos motivos diferentes que nem tem espaço nesse texto para elencar e se debruçar. Por isso venho trabalhando para que as pessoas possam se fortalecer e iniciar suas pequenas curas com poucos, mas certeiros estímulos.

E agora, eu que narro histórias dentro do meu projeto Corp0ralidades-Histórias para todos os sentidos, deixo um conto bem curtinho do enorme Eduardo Galeano. Para mim, esse conto sintetiza de forma belíssima tudo o que escrevi até aqui:

O mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto, pega fogo.