{"id":539,"date":"2019-08-13T12:09:37","date_gmt":"2019-08-13T15:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=539"},"modified":"2021-08-31T15:50:16","modified_gmt":"2021-08-31T18:50:16","slug":"casinhas-habitadas-de-infancias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/casinhas-habitadas-de-infancias\/","title":{"rendered":"Casinhas habitadas de inf\u00e2ncias"},"content":{"rendered":"\r\n<p>A menina Clarisse Alvarenga era uma verdadeira arquiteta. Crescida em Belo Horizonte, ela n\u00e3o montava necessariamente casinhas, mas espa\u00e7os para serem ocupados, habitados, por sua inf\u00e2ncia. Hoje, j\u00e1 adulta, ela constr\u00f3i cuidadosamente os saberes que observa nas inf\u00e2ncias pelo Brasil em filmes como\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/11-O,-de-Casa\">&#8220;\u00d4 de casa&#8221;\u00a0<\/a>(2007), document\u00e1rio que integra a Mostra Itinerante da Ciranda de Filmes, que passa por cinco cidades brasileiras. \u201cAcredito que as brincadeiras s\u00e3o momentos importantes da vida do ser humano, pois \u00e9 quando voc\u00ea experimenta o mundo a partir dos seus sentidos, do seu olhar, do seu paladar, do seu olfato, do seu tato.\u201d<br \/>Quando come\u00e7ou a filmar as crian\u00e7as brincando de casinha, a diretora n\u00e3o tinha certeza se essa era uma brincadeira da qual gostava, ou mesmo se tinha a inten\u00e7\u00e3o de fazer um longa sobre o tema. Enquanto terminava seu outro filme, Umdolasi, para o qual passou um ano filmando as crian\u00e7as numa pra\u00e7a no Alto de Vera Cruz, bairro em Belo Horizonte, a casinha de um grupo chamou a sua aten\u00e7\u00e3o. A intensidade com a qual as crian\u00e7as brincavam impactou a documentarista e inspirou uma pesquisa mais focada nessa brincadeira simb\u00f3lica. Durante o processo, ela foi se deparando com mem\u00f3rias e lembran\u00e7as da pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, que bateram na porta n\u00e3o s\u00f3 pela identifica\u00e7\u00e3o, mas, principalmente, pela diferen\u00e7a.<br \/>Com outros pesquisadores da cultura da inf\u00e2ncia, mestres brincantes e sua equipe, buscou observar, escutar e brincar com as diversas crian\u00e7as que encontrou, convivendo um pouco com elas. Visitou casinhas em quatro regi\u00f5es diferentes: M\u00e9dio Vale do Jequitinhonha (Jenipapo de Minas e Coronel Murta); na aldeia Imbiruss\u00fa, em Carm\u00e9sia, onde vivem os Patax\u00f3 de Minas; em S\u00e3o Sebasti\u00e3o das \u00c1guas Claras e em Belo Horizonte (Alto Vera Cruz). Assim, para investigar esse brincar, fez paradas em aldeia ind\u00edgena, num territ\u00f3rio de uma comunidade quilombola, numa comunidade sertaneja, na periferia de um grande centro urbano.<br \/>Em cada parada, percebia as converg\u00eancias e especificidades das moradas constru\u00eddas por meninas e meninos. \u201cA brincadeira \u00e9 universal no sentido de que todas as crian\u00e7as brincam e podem brincar de casinha e podem construir seu pr\u00f3prio espa\u00e7o no mundo. Mas os mundos que cada uma dessas crian\u00e7as constroem s\u00e3o muito diferentes, porque os territ\u00f3rios s\u00e3o diferentes, as maneiras de habitar esses territ\u00f3rios s\u00e3o diferentes e essa que \u00e9 a grande riqueza.\u201d<br \/>A cineasta n\u00e3o coloca o cinema como uma ferramenta de registro acima da inf\u00e2ncia. Por isso, para ser bem recebida nas casas, tirou os sapatos e pediu licen\u00e7a. Entendeu que partiria das crian\u00e7as e das brincadeiras para chegar ao cinema \u2013 e n\u00e3o de qualquer ideia pr\u00e9-estabelecida sobre as representa\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as, a cena, o roteiro, a montagem, a inf\u00e2ncia, as brincadeiras. Com a c\u00e2mera disposta sempre numa altura baixa, ao alcance das m\u00e3os das crian\u00e7as, n\u00e3o quis captar a brincadeira de um ponto de vista adulto. Permitiu com que as crian\u00e7as interagissem com as lentes e com a equipe num delicado jogo, como se filmar fosse tamb\u00e9m uma maneira de brincar. E com isso as crian\u00e7as dispensavam aos equipamentos o mesmo cuidado que nutriam por seus pr\u00f3prios brinquedos.<br \/>Entre os galhos, folhas de bananeira e materiais de constru\u00e7\u00e3o de segunda m\u00e3o, as casinhas que\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/11-O,-de-Casa\">&#8220;\u00d4 de casa&#8221;\u00a0<\/a>revelam pequenos gestos cotidianos, as viv\u00eancias e os ambientes dessas crian\u00e7as. Carregam consigo narrativas dom\u00e9sticas, familiares, escolares. Tamb\u00e9m tinham visitas indesejadas, bagun\u00e7a e arruma\u00e7\u00e3o, divis\u00e3o de tarefas \u2012 fazer o almo\u00e7o com as meninas e colher palha com os meninos.<br \/>As estruturas dessas casas foram feitas de muito estudo e pesquisa. Sua arquiteta carregou tijolo a tijolo um conhecimento sobre cinema e inf\u00e2ncia que foi sendo montado, empilhado, solidificado. O trabalho de Clarisse na Universidade Federal de Minas Gerais, onde leciona e coordena Laborat\u00f3rio de Pr\u00e1ticas Audiovisuais na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 de dar o material e ensinar a construir. Na institui\u00e7\u00e3o, ela trabalha com estudantes ind\u00edgenas, do campo e professores, sempre pensando no uso que cada um desses grupos faz do cinema: \u201cA ideia \u00e9 possibilitar que o cinema esteja mais pr\u00f3ximo dessas pessoas, seja uma realidade na vida delas, para se expressar e pesquisar por meio do cinema\u201d. Reboca os pilares com uma metodologia de trabalho que parece simples, mas mostra uma invers\u00e3o no pr\u00f3prio trabalho com o cinema. Pinta as paredes com a descren\u00e7a que a inf\u00e2ncia \u00e9 um territ\u00f3rio conhecido, a ser dominado, enquadrado, abrindo janelas para uma arte cinematogr\u00e1fica reinventada em conjunto com as crian\u00e7as.<br \/>H\u00e1 muito o que aprender ao observar as crian\u00e7as ou pensar na constru\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria casinha. A cineasta destaca as muitas formas de viver, cada lugar a partir dos materiais que t\u00eam dispon\u00edveis, da sua geografia e ambiente, cada casa de um jeito singular, espec\u00edfico, pr\u00f3prio. \u201cAs diferen\u00e7as entre as casinhas mostram isso. E \u00e9 uma vida que leva em considera\u00e7\u00e3o a natureza, a floresta, os elementos que est\u00e3o dispon\u00edveis ali, \u00e9 uma vida sustent\u00e1vel, que habita esses espa\u00e7os sem destru\u00ed-los. \u00c9 interessante pensar como as crian\u00e7as criam esses espa\u00e7os sem compromet\u00ea-los. Elas fazem um uso muito ecol\u00f3gico desses lugares, acho que isso \u00e9 algo que podemos aprender olhando para elas e olhando o filme.\u201d A brincadeira pode refletir sobre essa constru\u00e7\u00e3o, evocar as mem\u00f3rias das nossas casinhas.\u201d<br \/>E \u00e9 essa reflex\u00e3o que se faz morada na nossa Mostra Itinerante. \u201cAcho importante a iniciativa da Ciranda de Filmes no sentido de reunir esses filmes que dialogam muito uns com os outros e, ao dialogarem, ampliam os sentidos que s\u00e3o produzidos ali. \u00c9 importante sabermos que existe essa produ\u00e7\u00e3o no Brasil, que existem pessoas que est\u00e3o interessadas em pensar a inf\u00e2ncia e fazendo uso do cinema para isso, abrindo um espa\u00e7o no cinema para a crian\u00e7a e para a inf\u00e2ncia\u201d, diz Clarisse.<br \/>Assista\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/11-O,-de-Casa\">&#8220;\u00d4 de casa&#8221;<\/a>\u00a0aqui ou na p\u00e1gina oficial da\u00a0<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/121780652\">diretora<\/a>.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A menina Clarisse Alvarenga era uma verdadeira arquiteta. 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