{"id":530,"date":"2019-05-20T12:05:41","date_gmt":"2019-05-20T15:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=530"},"modified":"2021-08-31T15:50:54","modified_gmt":"2021-08-31T18:50:54","slug":"de-meninos-e-bois-encantados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/de-meninos-e-bois-encantados\/","title":{"rendered":"De meninos e bois encantados"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Desbravador desde sempre, filho do meio de uma fam\u00edlia de sete irm\u00e3os, as janelas do artista Ti\u00e3o Carvalho se abrem rapidamente em imensas paisagens e profundas sonoridades quando \u00e9 convidado a falar da inf\u00e2ncia, tempo marcado pelas imagens potentes da figura altiva da m\u00e3e, do povo a trabalhar no ro\u00e7ado, do balan\u00e7o das fitas coloridas do chap\u00e9u do pai, da av\u00f3 festeira a botar a Festa do Divino nas ruas. Do rio, das \u00e1guas da lagoa, dos peixes. Da chuva. Do som dos carros de bois. Dos bois, muitos deles. \u201cOs bois sempre foram muito encantados para n\u00f3s\u201d, diz o mestre de capoeira, tamb\u00e9m ator, cantor, m\u00fasico e dan\u00e7arino, ao se lembrar desse tempo de menino em Cururupu, munic\u00edpio do litoral maranhense quase na divisa com o Par\u00e1, num Nordeste de ares amaz\u00f4nicos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Situada em uma rota de antigos quilombos, que passa por Guimar\u00e3es e Frechal, a cidade que tem hoje pouco mais de 30 mil habitantes carrega um hist\u00f3rico de resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra, ber\u00e7o de muitas culturas. Tal aspecto revela as ra\u00edzes e marcas da ancestralidade do artista, fundador do Grupo Cupua\u00e7u, em 1986, e respons\u00e1vel por trazer as festividades e sonoridades populares para S\u00e3o Paulo, onde \u00e9 convidado especial a encerrar a Ciranda de Filmes 2019.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4609\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-1.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-1.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-1-300x166.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Curioso em saber o que existia para al\u00e9m da linha do horizonte, o filho de Floriana, Dona Florzinha, e Feliciano, Seu Pepe, n\u00e3o sofreu quando, aos oito anos, deixou a roceira Cururupu e foi morar com a tia materna, Edite (ou Didi), em S\u00e3o Lu\u00eds. Ao contr\u00e1rio da fam\u00edlia de seu pai, no entanto, que h\u00e1 duas gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 participava e brincava com o boi nas celebra\u00e7\u00f5es da comunidade, sua tia Didi n\u00e3o tinha proximidade com essas tradi\u00e7\u00f5es. Assim, o menino passou uma fase entre a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia um tanto afastado dessas manifesta\u00e7\u00f5es populares. O encantamento do boi, no menino, ficou um tanto adormecido. Por pouco tempo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Com mais ou menos 15 anos, o jovem das peladas de futebol conheceu o capoeirista Anselmo Barnab\u00e9 Rodrigues, o Mestre Sapo, um \u201csegundo pai\u201d. Naquela idade foi decisivo ter a figura de um mestre, um dos primeiros, e ter entrado nesse universo da capoeira permitiu que aos poucos fortalecesse novamente a rela\u00e7\u00e3o com suas ra\u00edzes, que, no seu eu mais profundo, sempre estiveram presentes. Outros mestres viriam depois: Marciano, Tabaco, Chicotinha, Papativa, al\u00e9m do m\u00fasico Arlindo Pipiu e do mestre da dan\u00e7a Klauss Vianna, entre diversos outros.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4610\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-2.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-2.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-2-300x166.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nesses encontros com o passado, o multiartista relembra uma hist\u00f3ria que sua m\u00e3e sempre conta. Quando pequeno, ele e seu irm\u00e3o mais velho imaginavam lugares para conhecer quando crescessem. Ti\u00e3o falava: &#8220;Eu vou para capoeira grande maior&#8221;. Dona Florzinha testava o filho perguntando se o lugar realmente existia. O menino admitia que n\u00e3o. \u00c9 que nas brincadeiras de crian\u00e7a cabem outros mundos. Inclusive aqueles que ainda podem ser imaginados e explorados. Assim, j\u00e1 crescido, foi criando novos universos nas artes das ruas, nas rodas de capoeira, no teatro das esquinas, nas festividades populares, como os bois brincantes espalhados pelo bairro Madre de Deus, localizado na capital maranhense.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Aos 24 anos, em uma viagem a Ouro Preto (MG) com seu grupo de teatro, o Laborarte, conheceu o diretor argentino Ilo Krugli, comandante da trupe do lend\u00e1rio Teatro Ventoforte. Terminado o festival teatral nas terras das Gerais, retornou o artista ao Maranh\u00e3o. Pouco tempo depois, ent\u00e3o, recebeu uma carta do diretor do Ventoforte o convidando a participar de um circuito de apresenta\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos. Ficaram 40 dias por l\u00e1 e, depois, ao chegarem de volta ao Brasil, emendaram um segundo festival, dessa vez, pela Europa. A \u201ccapoeira grande maior\u201d do menino j\u00e1 era o mundo e, assim, decidiu se acomodar em S\u00e3o Paulo, mais especificamente, no Morro do Querosene, zona oeste, onde mora at\u00e9 hoje.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4611\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-3.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-3.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Tiao-3-300x166.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nessas andan\u00e7as de menino desbravador, Ti\u00e3o nunca deixou de trabalhar com aquilo de que mais gosta, a arte. Fundador do Grupo Cupua\u00e7u, promove festas do bumba-meu-boi no Morro do Querosene e, assim, sempre em di\u00e1logo com suas ra\u00edzes e sua gente, disseminou o brinquedo de sua Cururupu em S\u00e3o Paulo. Deu um pouco de cor ao cinza. \u00c9 nesse territ\u00f3rio que o artista trabalha, no terreno do improv\u00e1vel, do surpreendente, onde cabem capoeiras grandes e maiores. &#8220;Quero de uma certa forma ocupar um espa\u00e7o vazio, n\u00e3o quero fazer o que todo mundo est\u00e1 fazendo. Quero fazer diferente&#8221;, comenta. E, na jun\u00e7\u00e3o de artes que permeiam sua vida, qualifica a m\u00fasica como o abre-alas, aquela que desobstrui os caminhos, vai na frente. G\u00eanero musical do boi que tamb\u00e9m encantou S\u00e3o Paulo.<\/p>\r\n<p><em>Texto: Gabriela Romeu e Mir\u00e9ia Figueiredo\/Est\u00fadio Veredas<\/em><\/p>\r\n<p><em>Fotos: Raquel Cat\u00e3o<\/em><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desbravador desde sempre, filho do meio de uma fam\u00edlia de sete irm\u00e3os, as janelas do artista Ti\u00e3o Carvalho se abrem rapidamente em imensas paisagens e profundas sonoridades quando \u00e9 convidado a falar da inf\u00e2ncia, tempo marcado pelas imagens potentes da figura altiva da m\u00e3e, do povo a trabalhar no ro\u00e7ado, do balan\u00e7o das fitas coloridas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":531,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,52],"tags":[],"class_list":["post-530","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2019"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/530","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=530"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/530\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4613,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/530\/revisions\/4613"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=530"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=530"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=530"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}