{"id":521,"date":"2019-05-14T12:01:56","date_gmt":"2019-05-14T15:01:56","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=521"},"modified":"2021-08-31T15:51:25","modified_gmt":"2021-08-31T18:51:25","slug":"musica-comunicacao-que-transcende-a-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/musica-comunicacao-que-transcende-a-lingua\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: comunica\u00e7\u00e3o que transcende a l\u00edngua"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Influenciados em grande parte por refer\u00eancias art\u00edsticas europeias e sob um olhar etnoc\u00eantrico caracter\u00edstico da \u00e9poca, diversos viajantes, cronistas e pesquisadores, dos s\u00e9culos XVI ao in\u00edcio do XX, classificaram de forma pejorativa as manifesta\u00e7\u00f5es culturais ind\u00edgenas.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Sobre a m\u00fasica dos Botocudo (grupo chamado de Krenak ou Borum, hoje em dia, mais concentrado em Minas Gerais), por exemplo, o naturalista e etn\u00f3logo alem\u00e3o Maximilian zu Wied-Neuwied registrou no in\u00edcio de 1800: &#8220;[&#8230;] nos homens, o canto se assemelha a um ru\u00eddo desarticulado, que oscila entre tr\u00eas ou quatro notas, ora subindo, ora descendo, e parece provir do mais fundo do peito [&#8230;] tudo pareceu-me um simples vozear sem palavras&#8221;. Ainda hoje se faz necess\u00e1rio despir-se dessa vis\u00e3o etnoc\u00eantrica. Compreender as sonoridades ind\u00edgenas significa ampliar uma escuta sens\u00edvel, como explicam as musicistas Magda Pucci e Berenice de Almeida no livro Cantos da floresta &#8211; Inicia\u00e7\u00e3o ao universo musical ind\u00edgena, publicado pela editora Peir\u00f3polis.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/_img\/_banco_imagens\/INTERNA-M%C3%BAsicas-Ind%C3%ADgenas.jpg\" alt=\"\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4594\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Mu\u0301sicas-Indi\u0301genas.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Mu\u0301sicas-Indi\u0301genas.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Mu\u0301sicas-Indi\u0301genas-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nesse sentido, um ouvido acostumado, exclusivamente, \u00e0s m\u00fasicas origin\u00e1rias dos padr\u00f5es est\u00e9ticos centro-europeus e a perceber, muitas vezes, a m\u00fasica como distra\u00e7\u00e3o, a exemplo do que acontece com a popula\u00e7\u00e3o urbana-ocidental, encontra dificuldades em entender o significado dessa express\u00e3o para os povos ind\u00edgenas. Os povos ind\u00edgenas, resguardando as particularidades de cada um, compartilham uma rela\u00e7\u00e3o comum a essa pr\u00e1tica: &#8220;A m\u00fasica \u00e9 geralmente considerada parte fundamental da vida, e n\u00e3o complemento ou simples entretenimento, ela quase sempre est\u00e1 imbricada em um caldeir\u00e3o cultural, no qual todos os saberes est\u00e3o muito conectados&#8221;, comenta a educadora musical Berenice de Almeida. O que para muitos \u00e9 grito, para os Guarani, \u00e9 japuka\u00ed,o canto forte e estridente da voz aguda das crian\u00e7as. O que para os mais distra\u00eddos aparenta ser sil\u00eancio na floresta, para os Kaingang, \u00e9 a natureza e seus esp\u00edritos produzindo som e, assim, afirmando estarem vivos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A diversidade da m\u00fasica ind\u00edgena se faz no detalhe. O ex\u00f3tico n\u00e3o tem riqueza musical, \u00e9 visto como massa amorfa. Reitera\u00e7\u00e3o de preconceitos. No territ\u00f3rio brasileiro, existem mais de 250 povos ind\u00edgenas, que, juntos, somam cerca 900 mil habitantes, cada um com sua hist\u00f3ria, seus ritos e sua forma de viver o cotidiano, as suas hist\u00f3rias e sua pr\u00f3pria m\u00fasica. Reunir todos em uma categoria de &#8220;m\u00fasica ind\u00edgena&#8221; \u00e9 reduzir um conjunto plural e ignorar as especificidades de cada grupo. Definir a cultura musical dos ind\u00edgenas como o tocar de tambores oculta a variedade de instrumentos utilizados, que incluem marac\u00e1s e diversos tipos de sopro. S\u00f3 refor\u00e7a estere\u00f3tipos.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/_img\/_banco_imagens\/INTERNA%20-%20M%C3%BAsicas%20Ind%C3%ADgenas%201_2.jpg\" alt=\"\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4596\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Mu\u0301sicas-Indi\u0301genas-1.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Mu\u0301sicas-Indi\u0301genas-1.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Mu\u0301sicas-Indi\u0301genas-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Assim, ao ouvirmos as m\u00fasicas das muitas etnias brasileiras, podemos refletir que \u00a0expressar-se musicalmente \u00e9 universal, mas cada express\u00e3o sonora tem sua singularidade. &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 muito versado nos c\u00f3digos daquela m\u00fasica, voc\u00ea pode criar estranhamento, achar que n\u00e3o est\u00e1 entendendo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela l\u00edngua, mas pela quest\u00e3o musical propriamente dita&#8221;, aponta a etnomusic\u00f3loga Magda Pucci, diretora art\u00edstica do grupo Mawaca. Mas, se existe uma forma de comunica\u00e7\u00e3o que transcende a l\u00edngua, esta se d\u00e1 pela l\u00edngua da m\u00fasica. Como quando em per\u00edodos pr\u00e9-hist\u00f3ricos, do bater de duas pedras faiscava algum lampejo comunicacional, r\u00edtmico, anterior, at\u00e9 mesmo \u00e0 fala.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A cantora Tikuna Djuena pode, enfim, esclarecer um desses v\u00e1rios entrela\u00e7amentos entre m\u00fasica, experi\u00eancia e linguagem: \u201cA m\u00fasica para n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, \u00e9 nativa, tanto quanto o mais velho anci\u00e3o. \u00c9 nativa porque nasce conosco, tem cheiro de fuma\u00e7a, gosto de mapati e \u00e9 pintada de urucum e jenipapo. H\u00e1 m\u00fasica no canto da parteira que acalma a m\u00e3e que vai parir e, do lado de fora da maloca, o paj\u00e9, ao som do marac\u00e1, entoa seus c\u00e2nticos sagrados para afastar o mal e acalantar os esp\u00edritos. O canto faz parte do nosso cotidiano. Cantamos quando nascemos e quando morremos. H\u00e1 cantoria para botar ro\u00e7a, para pescar e para ca\u00e7ar. Quando chove ou faz sol. Cantamos nos rituais de paz e de guerra. Celebramos a vida atrav\u00e9s do canto\u201d, diz a cantora, em trecho do inspirador livro Cantos da floresta.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Texto: Mir\u00e9ia Figueiredo<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Fotos: Renato Soares e Davi Boarato\/Facebook Cantos da Floresta &#8211; A Floresta Canta &#8211; livros<\/em><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Influenciados em grande parte por refer\u00eancias art\u00edsticas europeias e sob um olhar etnoc\u00eantrico caracter\u00edstico da \u00e9poca, diversos viajantes, cronistas e pesquisadores, dos s\u00e9culos XVI ao in\u00edcio do XX, classificaram de forma pejorativa as manifesta\u00e7\u00f5es culturais ind\u00edgenas.\u00a0 Sobre a m\u00fasica dos Botocudo (grupo chamado de Krenak ou Borum, hoje em dia, mais concentrado em Minas Gerais), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":522,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,52],"tags":[],"class_list":["post-521","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2019"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/521","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=521"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/521\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4597,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/521\/revisions\/4597"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}