{"id":518,"date":"2019-05-10T12:00:33","date_gmt":"2019-05-10T15:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=518"},"modified":"2021-08-31T15:51:39","modified_gmt":"2021-08-31T18:51:39","slug":"os-sons-que-vem-do-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/os-sons-que-vem-do-sertao\/","title":{"rendered":"Os sons que v\u00eam do sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"\r\n<p>inda na madrugada de Bodoc\u00f3, no sert\u00e3o pernambucano, v\u00e1rios p\u00e1ssaros cabe\u00e7as-vermelhas cantam escondido no meio de um umbuzeiro. Por ser \u00e9poca de umbu, eles acordam e se juntam para comer o fruto, fazendo uma festa enquanto o dia vem raiando. No nascer da manh\u00e3 registrado no projeto Son\u00e1rio do Sert\u00e3o, a orquestra de sonoridades \u00e9 t\u00e3o bonita quanto a paisagem que se apresenta aos olhos \u2013 e que se apresentar\u00e1 nas instala\u00e7\u00f5es da Ciranda de Filmes 2019.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-soundcloud wp-block-embed is-type-rich is-provider-soundcloud wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/soundcloud.com\/sonario-trotoar\/amanhecer-em-bodoco<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tal son\u00e1rio \u00e9 um acervo de sons gravados pelo interior do pa\u00eds, trazendo tr\u00eas territ\u00f3rios do semi\u00e1rido nordestino brasileiro: V\u00e1rzea Nova (Jacobina, Bahia), V\u00e1rzea Queimada (Ca\u00e9m, Bahia) e Bodoc\u00f3 (Pernambuco). O projeto come\u00e7a com a t\u00e9cnica e desenhista de som Camila Machado ministrando oficinas de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1udio para crian\u00e7as e adolescentes dessas regi\u00f5es. Os sons captados depois se tornaram material para a oficina de edi\u00e7\u00e3o de som e, ent\u00e3o, expostas em instala\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que envolveram toda a comunidade. Nesses encontros, surgiram maneiras diversas de escuta e produ\u00e7\u00e3o de sons. Renderam uma colheita de mil registros sonoros que, aos poucos, v\u00eam sendo classificados e indexados no site.<br \/>A inspira\u00e7\u00e3o para o projeto tem origem nas narrativas da tradi\u00e7\u00e3o oral, aquelas passadas dos mais velhos aos mais novos: \u201cAs hist\u00f3rias t\u00eam no universo sonoro um ponto importante na transmiss\u00e3o de saber e tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio das popula\u00e7\u00f5es sertanejas\u201d. Em parceria com o Movimento dos Pequenos Agricultores,o qual promove uma luta pela perman\u00eancia do campon\u00eas e suas hist\u00f3rias em suas terras, esse acervo de sons valoriza o patrim\u00f4nio imaterial do sert\u00e3o, contribuindo com essa luta. \u00c9 por meio da cultura musical, dos relatos e da mem\u00f3ria, das festas e da paisagem sonora que sertanejos e sertanejas afirmam sua identidade.<br \/>Assim, no atento registro do cotidiano do semi\u00e1rido brasileiro, o sert\u00e3o ecoa no canto dos p\u00e1ssaros, no som de carro\u00e7as em movimento, nas sonoridades do entardecer, no cacarejar do galinheiro, nas ora\u00e7\u00f5es de noitinha, nos cantos de trabalho, nas melodias assoviadas durante a planta\u00e7\u00e3o da mandioca e nas festas religiosas. As hist\u00f3rias narradas pelas anci\u00e3s e pelos anci\u00e3os sinalizam o quanto o contar e o cantar tornam-se uma coisa s\u00f3 nesses territ\u00f3rios. Tudo registrado por seus pr\u00f3prios protagonistas no projeto, que valorizou a participa\u00e7\u00e3o da comunidade,principalmente, crian\u00e7as e jovens, na constru\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria sonora.<br \/>E da mem\u00f3ria, muitos sons ecoaram. \u201cSeu Joaquim \u00e9 um senhor cego, morador e fundador de V\u00e1rzea Queimada que lembra de todos os versos e toda a hist\u00f3ria de sua comunidade. \u00c9 por conta de sua mem\u00f3ria que se conseguiu o registro de comunidade remanescente quilombola, pois sua cabe\u00e7a e suas hist\u00f3rias s\u00e3o mais fortes do que papelada de cart\u00f3rio\u201d, conta Camila. S\u00e3o palavras e vozes que trazem \u201ca hist\u00f3ria da regi\u00e3o, com detalhes que permitem que a gente imagine a vida toda\u201d.\u00a0\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-soundcloud wp-block-embed is-type-rich is-provider-soundcloud wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/soundcloud.com\/sonario-trotoar\/seu-joaquim-conta-sobre-batalhao-e-casa-de-farinha<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O registro dessa pluralidade de representa\u00e7\u00f5es sonoras do patrim\u00f4nio imaterial do sert\u00e3o revela a mem\u00f3ria coletiva de uma comunidade, permitindo, \u201cdesde as subjetividades individuais e suas intersec\u00e7\u00f5es com as respectivas culturas, construir cole\u00e7\u00f5es capazes de expressar esses universos\u201d. Por conta de sua divulga\u00e7\u00e3o emmeio virtual, h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o al\u00e9m daquela dentro da pr\u00f3pria comunidade,permitindo que esses registros sonoros naveguem por outros locais e encontrem ouvidos de fora do sert\u00e3o, sensibilizados pela sonoridade sertaneja.<br \/>Uma escuta atenta que permita ouvir essas paisagens e entender suas riquezas exige tempo, e h\u00e1 sons que nos convidam a entrar no tempo deles: \u201cO que podemos fazer \u00e9 aceitar esse convite e baixar a velocidade do cotidiano para poder escutar os sons ao nosso redor e nos conectarmos com eles. O tempo da escuta \u00e9 um tempo de conex\u00e3o, de uni\u00e3o e encontro\u201d. Respeitar esses encontros \u00e9 fundamental para identificar as riquezas sonoras, entend\u00ea-las e valoriz\u00e1-las \u2013 e, depois, saber dedicar seu tempo ouvindo o entardecer, os grilos, o vento nas palhas do coqueiro&#8230;<br \/>Texto: Carolina Tiemi\/Est\u00fadio VeredasFoto e sons: Son\u00e1rio do Sert\u00e3o<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>inda na madrugada de Bodoc\u00f3, no sert\u00e3o pernambucano, v\u00e1rios p\u00e1ssaros cabe\u00e7as-vermelhas cantam escondido no meio de um umbuzeiro. Por ser \u00e9poca de umbu, eles acordam e se juntam para comer o fruto, fazendo uma festa enquanto o dia vem raiando. 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