{"id":512,"date":"2019-05-09T11:57:04","date_gmt":"2019-05-09T14:57:04","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=512"},"modified":"2021-08-31T15:51:55","modified_gmt":"2021-08-31T18:51:55","slug":"o-cessar-da-fala-a-ascensao-da-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/o-cessar-da-fala-a-ascensao-da-voz\/","title":{"rendered":"O cessar da fala, a ascens\u00e3o da voz"},"content":{"rendered":"<p>O tremor das teclas do piano sendo transportado sobre o asfalto irregular emite som grave, misterioso. O barulho dos carros na rua contrasta com o sil\u00eancio da sala de instrumentos. L\u00e1 dentro sobressai o ru\u00eddo do ventilador ligado, os parafusos sendo afrouxados, as fivelas que prendem o corpo de madeira sendo ajustadas. Escuta-se o tecido. O atrito da pele do dedo nas tiras de couro. Em poucos minutos, uma voz instrumental se destaca nesse universo sonoro, d\u00e1 nome ao filme:\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/261-O-piano-que-conversa\">&#8220;O Piano que Conversa&#8221;<\/a>.\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/_img\/_banco_imagens\/INTERNA%20-%20Taubkin.jpg\" alt=\"\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4620\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Taubkin.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Taubkin.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Taubkin-300x170.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\n<p>Dirigido por Marcelo Machado, o document\u00e1rio sem depoimentos nem \u201ccabe\u00e7as falantes\u201d investe na experi\u00eancia sinest\u00e9sica de assistir \u00e0 m\u00fasica. A fala humana pouco aparece. Em um canto ou outro. Divide a mesma import\u00e2ncia na tela que o som de uma folha sendo rasgada, uma cal\u00e7ada sendo cimentada. Como int\u00e9rprete, para puxar papo com o piano, est\u00e1 o pianista Benjamim Taubkin, que, de S\u00e3o Paulo para o mundo, h\u00e1 tempos \u00e9 mestre nas misturas do erudito e do contempor\u00e2neo. No piano, faz um exerc\u00edcio di\u00e1rio de cria\u00e7\u00e3o. Com a m\u00fasica, percebe a vida.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dos encontros de Taubkin e seu piano (ou, talvez, do piano e seu pianista) com diferentes artistas, de variadas nacionalidades e musicalidades, no Brasil, na Bol\u00edvia e na Coreia do Sul, que acompanhamos esta saga musical. Sensorial, o filme leva o espectador a sentir diferentes tipos de m\u00fasica, criados pelo homem ou pela natureza, em muitas partes do mundo. No percurso, pulsa o cora\u00e7\u00e3o dos instrumentos, observamos em detalhes suas entranhas, percebemos sua pele. A m\u00fasica mais do que narra.<\/p>\n<p>O conceito do filme surgiu para seguir uma dire\u00e7\u00e3o diametralmente oposta ao \u00faltimo trabalho de Marcelo Machado,\u00a0<em>Tropic\u00e1lia<\/em>, de 2012. &#8220;Depois de\u00a0<em>Tropic\u00e1lia<\/em>, um document\u00e1rio ao qual me dediquei por cinco anos com muita pesquisa de arquivos, leitura e esfor\u00e7o de entendimento, queria mudar o registro, mudar a forma de me relacionar com meu objeto. Queria viver a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica em outro plano, menos racional ou apoiado no intelecto que se expressa primordialmente na palavra&#8221;,\u00a0explica o diretor\u00a0que tem abordado diferentes g\u00eaneros,\u00a0movimentos e instrumentos musicais, no cinema\u00a0e na televis\u00e3o, ao longo da carreira.<\/p>\n<p>A escolha do artista a ser representado ocorreu quase como consequ\u00eancia natural \u00e0 escolha do formato: &#8220;Percebia nele [Benjamin Taubkin] caracter\u00edsticas que se encaixavam nessa busca e comecei a gravar alguns ensaios, testes, experimentos que me levaram a essa ideia de um document\u00e1rio sem palavras, um mergulho no universo sensorial. Ele entendeu, aceitou e se colocou totalmente em sintonia com esse objetivo, de forma que hoje considero o Benjamim coautor do document\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>O pianista, por sua vez, conta que o chamado foi um desafio e tanto, \u201cporque fala direto ao lado direito do c\u00e9rebro&#8230;vira uma experi\u00eancia\u201d. Como indica o t\u00edtulo, o protagonista \u00e9 o piano. O seu repert\u00f3rio e o seu fazer musical que prima pelo cuidado com a troca, pela riqueza do diverso, no entanto, \u00e9 o que d\u00e1 subst\u00e2ncia ao registro.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio, Taubkin \u00e9 gravado em momentos de cria\u00e7\u00e3o, conectando-se com outros artistas, como um percussionista israelense, uma cantora mo\u00e7ambicana ou uma violoncelista\u00a0polonesa. Seguindo o tempo da m\u00fasica, algumas cenas evidenciam o piano e o pianista animando em parceria com uma guitarra do Par\u00e1, num estilo de pop tropical, uma festa na periferia da zona sul de S\u00e3o Paulo, criando m\u00fasica ritual\u00edstica numa comunidade tradicional da Bol\u00edvia junto a instrumentos t\u00edpicos da cultura andina, como a tarka e o siku (tipos de flautas), e experienciando momentos mais contemplativos em um palco na Coreia do Sul.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4619\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Taubkin-2.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Taubkin-2.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/INTERNA-Taubkin-2-300x206.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/figure>\n<p>&#8220;Acho que sou uma esp\u00e9cie de ponte entre as v\u00e1rias m\u00fasicas que o filme traz. \u00c9 um pouco como me sinto&#8230; em constante di\u00e1logo com as possibilidades de se criar a partir da experi\u00eancia de cada um. A m\u00fasica permite essa viv\u00eancia, \u00e9 uma am\u00e1lgama do que cada um traz. E dali nasce algo novo, que inclui e preserva o que cada um aportou. Algo que, na vida cotidiana, as pessoas t\u00eam dificuldade em realizar \u2013 e da\u00ed grande parte dos conflitos que temos vivido. Uma esp\u00e9cie de ignor\u00e2ncia das possibilidades.&#8221;<\/p>\n<p>O pianista, que come\u00e7ou seus estudos musicais com 18 anos, recorda que, embora sempre tivesse m\u00fasica na sua casa e sua pr\u00f3pria m\u00e3e tocasse piano, demorou a associar o gosto pela escuta a algo mais pr\u00e1tico como o tocar. Esse desejo surgiu no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, quando ouviu os discos\u00a0<em>Matita Per\u00ea<\/em>, de Tom Jobim, e\u00a0<em>\u00c1gua &amp; vinho<\/em>, de Egberto Gismonti.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, aos poucos, a m\u00fasica foi adquirindo contornos mais definidos em sua vida, apontando para um lugar que pedia por participa\u00e7\u00e3o, por um corpo presente e em movimento (seja em S\u00e3o Paulo, seja em Tongyeong). Ou, como ele mesmo define: &#8220;M\u00fasica como o futuro \u2013 aquilo que a humanidade pode vir a ser e viver, como indiv\u00edduo e sociedade,\u00a0o pr\u00f3ximo est\u00e1gio do ser humano&#8230; no sentido de que cabe tudo, em harmonia, se quisermos as diferen\u00e7as s\u00e3o bem vindas, as possibilidades est\u00e3o todas ali. Dizem que Beethoven foi estudar filosofia na universidade. E ficou pouco tempo, pois, para ele, todas essas quest\u00f5es estavam presentes na m\u00fasica. E eu consigo vislumbrar isso&#8221;.Assim, do encontro desses dois homens, cada um apaixonado por m\u00fasica a sua maneira, o piano foi o convidado que merecidamente ganha aten\u00e7\u00e3o especial na conversa. Um instrumento capaz de dialogar com a natureza e tocar aqueles que falam outros idiomas. Emocionar com uma voz que se estende em oitavas e se arranja entre bem\u00f3is e sustenidos. Filme feito, tal emo\u00e7\u00e3o foi percebida pelo p\u00fablico. Em debates em escolas da periferia de S\u00e3o Paulo, uma jovem falou algo que ecoa na dupla:\u00a0\u201cEla disse que, quando lemos um livro, imaginamos as cenas. Neste filme, imaginamos as falas&#8221;.<\/p>\n<p><em>Texto: Mir\u00e9ia Figueiredo\/Est\u00fadio Veredas<\/em><\/p>\n<p><em>Fotos: Divulga\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tremor das teclas do piano sendo transportado sobre o asfalto irregular emite som grave, misterioso. O barulho dos carros na rua contrasta com o sil\u00eancio da sala de instrumentos. L\u00e1 dentro sobressai o ru\u00eddo do ventilador ligado, os parafusos sendo afrouxados, as fivelas que prendem o corpo de madeira sendo ajustadas. Escuta-se o tecido. 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