{"id":505,"date":"2019-05-02T11:54:32","date_gmt":"2019-05-02T14:54:32","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=505"},"modified":"2021-08-31T15:52:25","modified_gmt":"2021-08-31T18:52:25","slug":"a-menina-que-rege-o-pelourinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/a-menina-que-rege-o-pelourinho\/","title":{"rendered":"A menina que rege o Pelourinho"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Uma Rocinha, em Salvador, acomoda-se como quintal do Pelourinho. A comunidade que serve de habita\u00e7\u00e3o para uma popula\u00e7\u00e3o que se equilibra na corda bamba para garantir a sobreviv\u00eancia fica encostada num dos principais pontos tur\u00edsticos da Bahia e recebeu esse nome justamente por trazer o aspecto de ro\u00e7a \u00e0 cidade, com \u00e1rvores frut\u00edferas e ch\u00e3o de barro. \u00c9 um ponto verde no conglomerado de casas do centro hist\u00f3rico; hoje, ref\u00fagio de muitos meninos e meninas percussionistas. De l\u00e1, escuta-se o som do mar, o som das \u00e1rvores, o som dos bichos. \u00c9 onde a cidade canta. Essa m\u00fasica, org\u00e2nica, sempre esteve presente na regi\u00e3o, mas anos atr\u00e1s faltava um projeto que tirasse as pessoas do papel de ouvintes e as inclu\u00edssem ativamente no fazer musical.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Foi nesse contexto geogr\u00e1fico, social e cultural que, aos sete anos de idade, uma menina chamada Elem Silva, idealizou um projeto de ensino musical e fundou em 2003 a banda de samba-reggae Meninos da Rocinha do Pel\u00f4. E sua trajet\u00f3ria pouco convencional, de como passou a comandar uma banda com t\u00e3o pouca idade, inspirou outra jovem, a norte-americana Falani Afrika, \u00e0 \u00e9poca com apenas 18 anos, instigada a produzir o document\u00e1rio\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/255-Maestrina-da-favela\">&#8220;Maestrina da Favela&#8221;<\/a>, um dos destaques exibidos nas telonas da Ciranda de Filmes deste ano. Elem (ou Elisete, como consta na sua certid\u00e3o de nascimento) tinha 13 anos quando ocorreu o primeiro contato entre elas. Desde ent\u00e3o, as duas passaram a ter encontros anuais durante dez anos, per\u00edodo em que Falani registrou o crescimento de Elem e a evolu\u00e7\u00e3o de seus processos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O aprendizado da m\u00fasica, o compartilhamento desse saber com outros adolescentes, a rela\u00e7\u00e3o da menina com a m\u00e3e e a maturidade que tinha para lidar com as adversidades s\u00e3o quest\u00f5es abordadas no filme, que tamb\u00e9m foca na import\u00e2ncia do g\u00eanero do samba-reggae para a regi\u00e3o, como importante afirma\u00e7\u00e3o da identidade afro-brasileira. Sendo Salvador a cidade com a maior popula\u00e7\u00e3o afrodescendente do mundo, o estilo musical relacionado ao candombl\u00e9, marcado pelo som de surdos, dobras, repiques e caixas, refor\u00e7a, claro, a cultura local.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quando bem pequena, Elem tentava reproduzir o som desse estilo musical j\u00e1 familiar com baldes que pegava de um com\u00e9rcio pr\u00f3ximo de casa. Aos cinco anos, ganhou de duas freiras norte-americanas atentas ao talento da menina seu primeiro instrumentos: um pequeno atabaque. Outra grande incentivadora foi a m\u00e3e, que, dois anos antes de vir a falecer, usou o dinheiro que conseguiu com a venda de um bar que tinha na Rocinha para comprar para a banda da filha alguns instrumentos, usados at\u00e9 hoje. O epis\u00f3dio da morte da figura materna impactou as grava\u00e7\u00f5es do document\u00e1rio. Era muito dif\u00edcil conversar sobre um sonho sem ter sua maior apoiadora ao lado.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/_img\/_banco_imagens\/INTERNA%20-%20Maestrina.jpg\" alt=\"\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4629\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/INTERNA-Maestrina-1.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/INTERNA-Maestrina-1.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/INTERNA-Maestrina-1-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Numa trajet\u00f3ria cheia de batalhas cotidianas, outro ponto de virada sens\u00edvel na vida de Elem ocorreu em 2007, quando, aos 13 anos, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral). Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de suspeitas e exames, ela foi diagnosticada com uma doen\u00e7a rara. Em 2015, dois anos depois de seu segundo AVC, como consequ\u00eancia de uma emboliza\u00e7\u00e3o cerebral, outro desafio: teve perda de mem\u00f3ria recente. Ao chegar ao Pelourinho depois de deixar o hospital, a jovem que conhecia sua comunidade como a palma da pr\u00f3pria m\u00e3o, de repente, n\u00e3o sabia mais identificar onde estava. Nas caminhadas, esqueceu os nomes das ruas e, na m\u00fasica, algumas batidas. Os meninos da banda, assim, ajudaram a maestrina a relembrar esses ritmos e retomar sua posi\u00e7\u00e3o de reg\u00eancia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Autodidata, ela foi com o tempo observando como os donos de bandas regiam seus grupos, analisando cada toque e gesto. E explica quais foram as suas inten\u00e7\u00f5es ao adentrar esse universo musical: &#8220;O que me impulsionou a sair tocando foi a vontade de ensinar \u00e0s crian\u00e7as da minha comunidade, pois elas estavam dentro do Pelourinho, mas eram esquecidas. Muitas pessoas tinham preconceito, at\u00e9 mesmo com a nossa banda, s\u00f3 por ser de uma favela&#8221;, diz Elem, sempre preocupada em aliar com maestria educa\u00e7\u00e3o musical e desempenho escolar.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4630\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/INTERNA-Maestrina-2.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/INTERNA-Maestrina-2.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/INTERNA-Maestrina-2-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Os desafios de sua saga t\u00e3o pessoal quanto vocacional v\u00eam sendo recompensados. Depois da produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio, novas oportunidades relacionadas \u00e0 m\u00fasica come\u00e7aram a surgir. Por causa de uma iniciativa da produtora do filme, recebeu a doa\u00e7\u00e3o de mais 12 instrumentos da escola de m\u00fasica Global Music nos Estados Unidos e, em 2012, foi para Londres participar de um evento no SouthBank Centre para aprender como se organiza um festival. No ano seguinte, a sua banda realizou no Pelourinho um festival com dura\u00e7\u00e3o de 12 horas, incluindo a participa\u00e7\u00e3o de 10 jovens multiplicadores de arte, representantes de diferentes projetos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>H\u00e1 dez anos, a Rocinha est\u00e1 fechada para a conclus\u00e3o de um projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o. Recuperar o contato com esse lugar que serviu de ber\u00e7o para sua musicalidade por enquanto n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. Apesar disso, mantendo firme seu olhar para no horizonte, os trabalhos com a banda continuam. O instrumental da m\u00fasica Asas de Luedji Luna que havia sido tocado durante depoimentos ao longo do filme, nos cr\u00e9ditos, enfim, recebe o acabamento vocal. Em dois versos, deixa clara a pot\u00eancia de Elem: &#8220;Para que te quero, asas? \/ Se eu tenho ventania dentro&#8221;. Versos que bem definem uma menina que movimenta tempestades, maestrina.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Texto: Mir\u00e9ia Figueiredo\/Est\u00fadio Veredas<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o e a<\/em><em>cervo pessoal Elem Silva\u00a0<\/em><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma Rocinha, em Salvador, acomoda-se como quintal do Pelourinho. 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