{"id":502,"date":"2019-04-26T11:53:09","date_gmt":"2019-04-26T14:53:09","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=502"},"modified":"2021-08-31T15:52:32","modified_gmt":"2021-08-31T18:52:32","slug":"cacadores-das-vozes-da-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cacadores-das-vozes-da-natureza\/","title":{"rendered":"Ca\u00e7adores das vozes da natureza"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Nas cidades, recebemos passivamente todos os sinais ao redor, compondo uma esp\u00e9cie de playlist ca\u00f3tica de sonoridades compostas por passos de transeuntes, buzinas de carros, freadas de \u00f4nibus, murmurinho do com\u00e9rcio. J\u00e1 na natureza, uma melodia silenciosa tem cad\u00eancia com o correr das \u00e1guas, o cair das folhas, o som dos p\u00e1ssaros, compondo uma paisagem musical sem interven\u00e7\u00e3o direta do homem. Para conviver nesses arranjos de muitas massas sonoras, nos meios urbano ou rural, \u00e9 preciso, antes de tudo, saber ouvir as notas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cAo inv\u00e9s de ouvir um som, eu simplesmente ou\u00e7o o lugar\u201d, diz Gordon Hempton, um mestre cuja habilidade \u00e9 uma arte que arrefece pouco a pouco: ouvir. Para o m\u00fasico, protagonista do curta-metragem\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/217-Being-hear\">&#8220;Being Hear&#8221;<\/a>\u00a0(Palmer Morse, Matthew Mikkelsen; 2016), um dos destaques da Ciranda de Filmes 2019, a quietude permite que cada som receba sua import\u00e2ncia original. Em busca de lugares livres de polui\u00e7\u00e3o sonora, encontrou na natureza o estado mais bruto dos sons, com conjuntos sonoros inumer\u00e1veis e multifacetados de um ambiente que se comunica de modo t\u00e3o cheio e rico quanto n\u00f3s humanos o fazemos.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4634\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA_beinghear.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA_beinghear.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA_beinghear-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O sil\u00eancio \u00e9 o melhor conselheiro da alma. Numa narrativa subjetiva, em primeira pessoa, a voz de Gordon faz ecoar reflex\u00f5es como essa, dirigidas a uma sociedade que vive em plena era da informa\u00e7\u00e3o, repleta de ru\u00eddos, entre outros tantos excessos. Suas indaga\u00e7\u00f5es tocam as falas constantes e matizadas da natureza, sempre \u00e1vida em comunicar, a alarmante extin\u00e7\u00e3o de lugares n\u00e3o afetados pela atividade humana e o modo como a quietude pode abrir nossos olhos (ou melhor, ouvidos) para renovadas percep\u00e7\u00f5es. Ao gravar sonoridades genu\u00ednas da natureza, seu interesse n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o som ou o sil\u00eancio em si, mas o treino para se tornar um melhor ouvinte.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Outro ca\u00e7ador dessas vozes da natureza \u00e9 o m\u00fasico norte-americano Bernie Krause, reconhecido mestre da bioac\u00fastica (estudo dos sons de animais vivos) que, desde 1960, roda os rinc\u00f5es do planeta, por desertos, p\u00e2ntanos, mares e florestas, entre outros lugares com diminuta interven\u00e7\u00e3o humana, para gravar as sonoridades de uma ampla diversidade de paisagens. Krause, que j\u00e1 fez som com lendas do showbiz como Bob Dylan, George Harrison e Stevie Wonder, coleciona h\u00e1 d\u00e9cadas uma biblioteca de sons abarcando mais de quatro mil horas de grava\u00e7\u00e3o e 15 mil esp\u00e9cies em seu habitat natural. E quantos estamos n\u00f3s atentos a ouvir as muitas falas da flora e da fauna, para al\u00e9m das reverbera\u00e7\u00f5es humanas?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quando menino crescido em Detroit, o m\u00fasico lembra que se deitava \u00e0 noite ao som dos p\u00e1ssaros e dos ventos. De sua janela que se abria para uma ampla paisagem, ficava imaginando que mundos sonoros seriam aqueles distantes e desconhecidos. Mas, criado por pais que inacreditavelmente \u201codiavam\u201d animais, proibidos dentro de casa, isso foi o m\u00e1ximo de aproxima\u00e7\u00e3o que experienciou com o mundo natural na inf\u00e2ncia. J\u00e1 a m\u00fasica chegou bem mais cedo em sua vida: ainda garoto, come\u00e7ou a estudar violino. Ao perceber que com tal instrumento na m\u00e3o n\u00e3o atrairia a aten\u00e7\u00e3o das garotas, decidiu dedilhar o viol\u00e3o. Percorreu um longo caminho at\u00e9 chegar ao estudo da orquestra existente (para quem est\u00e1 aberto a ouvir) na natureza.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00c9 essa m\u00fasica do mundo natural que ouvimos ecoar no curta-metragem documental\u00a0<em>Nature\u2019s orchestra: sounds of our changing planet<\/em>\u00a0(Robert Hillman; 2016), em que o pesquisador ressalta a necessidade da humanidade se desconectar um pouco dos sons das cidades e das m\u00e1quinas. Numa sociedade t\u00e3o orientada pela visualidade, um tanto dispersiva, ele aponta que os sons da natureza nos conectam com que n\u00f3s somos, com o nosso mais profundo interior, num verdadeiro chamado imersivo.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4635\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA_natureo.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA_natureo.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA_natureo-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ao gravar os sons naturais, ele explica, \u00e9 poss\u00edvel interpretar muito rapidamente as consequ\u00eancias da atividade humana no planeta. Os cientistas e ambientalistas estudam geralmente o que veem \u2013 e n\u00e3o o que ouvem. E o que vemos \u00e9 bem diferente do que ouvimos. Os habitats podem parecer o mesmo, mas dificilmente soam o mesmo, ele defende. Cada esp\u00e9cie sussurra algo \u00fanico, singular. \u201cMesmo em uma floresta densa como a da Amaz\u00f4nia, se voc\u00ea cortar apenas algumas \u00e1rvores ali, as consequ\u00eancias ser\u00e3o sentidas em grande escala pelos animais que ocupam esse lugar h\u00e1 muito tempo. Ou seja, um efeito profundo no som que ser\u00e1 sentido muito rapidamente. N\u00f3s temos que pensar nas formas como estamos afetando esses lugares e perguntar a n\u00f3s mesmos se \u00e9 isso o que queremos, o sil\u00eancio do mundo natural\u201d, diz o pesquisador em\u00a0<a href=\"https:\/\/revistagalileu.globo.com\/Ciencia\/noticia\/2015\/03\/especialista-em-sons-da-natureza-adverte-o-mundo-animal-esta-cada-vez-mais-silencioso.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">entrevista<\/a>\u00a0\u00e0 revista Galileu.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No filme desse colecionador de sons naturais, muitos deles captados em terras brasileiras, em cantos da floresta amaz\u00f4nica ou da mata atl\u00e2ntica, escutamos de perto suas buscas numa expedi\u00e7\u00e3o \u00e0s paisagens in\u00f3spitas do \u00e1rtico, nos arredores do Arctic National Wildlife Refuge, uma das \u00faltimas fronteiras do nosso planeta, onde \u00e9 poss\u00edvel andar semanas em qualquer dire\u00e7\u00e3o, norte ou sul, sem ouvir um som de carro na estrada ou o ru\u00eddo do trinco enferrujado de uma porteira. Ao desembarcar l\u00e1 com sua equipe, incluindo sonoplastas, naturalistas e poetas, no fim de primavera, quase ver\u00e3o, registra sons t\u00e3o sutis e impercept\u00edveis quanto o derreter do gelo. \u00c9 que \u201ca m\u00fasica do mundo natural cont\u00e9m os segredos do amor de todas as coisas, especialmente de nossa humanidade\u201d, conclui.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Texto: Carolina Tiemi e Gabriela Romeu\/Est\u00fadio Veredas<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Fotos: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas cidades, recebemos passivamente todos os sinais ao redor, compondo uma esp\u00e9cie de playlist ca\u00f3tica de sonoridades compostas por passos de transeuntes, buzinas de carros, freadas de \u00f4nibus, murmurinho do com\u00e9rcio. 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