{"id":4638,"date":"2019-04-15T18:46:37","date_gmt":"2019-04-15T21:46:37","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4638"},"modified":"2021-08-30T18:49:16","modified_gmt":"2021-08-30T21:49:16","slug":"eduardo-coutinho-canto-no-escuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/eduardo-coutinho-canto-no-escuro\/","title":{"rendered":"Eduardo Coutinho: canto no escuro"},"content":{"rendered":"<p>O cinema de Eduardo Coutinho (1933-2014) se constr\u00f3i em dois tons: o de sua voz e o da voz de seu interlocutor. Assim, a partir de um emaranhado multivocal, um conjunto de poucas notas e acordes descomplicados concebe uma sinfonia. O falar e o ouvir, a voz e o ouvido, aos pares, comandando partes de uma narrativa que tem geralmente como foco as hist\u00f3rias banais de personagens comuns.<\/p>\n<p>Assim como em\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/214-As-cancoes\">&#8220;As Can\u00e7\u00f5es&#8221;<\/a><i>,<\/i>\u00a0filme integrante da Ciranda de Filmes 2019, longa-metragem em que homens e mulheres an\u00f4nimos contam e cantam m\u00fasicas que marcaram suas vidas.<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/INTERNA-dentro-do-texto---Coutinho.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4642\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA-dentro-do-texto-Coutinho.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA-dentro-do-texto-Coutinho.jpg 580w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/INTERNA-dentro-do-texto-Coutinho-300x150.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/p>\n<p>No filme, o pen\u00faltimo filme que dirigiu e o \u00faltimo que finalizou, tr\u00eas anos antes de sua morte, em 2011, o cineasta chega melodicamente a algumas hist\u00f3rias sobre amores, saudades e perdas, depois de uma pesquisa, uma escuta atenta e cuidadosa, envolvendo 237 homens e mulheres, com idades entre 22 e 82 anos, em diferentes localidades do Rio de Janeiro, do Largo da Carioca ao Leblon, do Arpoador ao Morro da Babil\u00f4nia, da Feira de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o a Ipanema.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio, o mesmo j\u00e1 aproveitado em\u00a0<i>Jogo de cena\u00a0<\/i>(2007), o palco de um teatro, \u00e9 pensado para criar uma outra atmosfera, evidenciando uma nova vers\u00e3o de Coutinho. Totalmente em preto, o plano de fundo dos depoimentos p\u00f5e em destaque os entrevistados. Atr\u00e1s das c\u00e2meras, o diretor se coloca mais participativo na narrativa. Nem tanto orientado a contestar a fala dos personagens, permite-se ser envolvido por aquelas palavras, por vezes cantaroladas. \u00c9 como explica F\u00e1bio Andrade em\u00a0<i>O canto dos mortos &#8211; As can\u00e7\u00f5es de Eduardo Coutinho<\/i>: &#8220;O Coutinho de\u00a0<i>As can\u00e7\u00f5es\u00a0<\/i>n\u00e3o mais acentua as lacunas no relato do entrevistado; ao contr\u00e1rio, ele se instala nelas [&#8230;]&#8221;.<\/p>\n<p>Como exemplo poderia ser citado o momento quando ele completa a m\u00fasica de Noel Rosa que a personagem D\u00e9a cantava e da qual esqueceu um trecho da letra. Ou, ainda, quando deixa escapar um canto baixinho de\u00a0<i>Fascina\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0junto com outra personagem, Maria Aparecida. Al\u00e9m delas, outros quinze protagonistas se apresentam no palco, onde compartilham hist\u00f3rias ligadas a grandes amores, relembram o remorso de palavras n\u00e3o ditas. Alguns s\u00f3 cantam, sem ter falas explicativas inclu\u00eddas no corte do diretor. Outros, cantaram desde pequenos, cantam pela vida e cantam mais de uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seus filmes d\u00e3o abrigo para as hist\u00f3rias que s\u00e3o contadas e, desse modo, se exp\u00f5em aos riscos de lidar com subst\u00e2ncia sens\u00edvel, fr\u00e1gil, &#8220;palavras ditas por quem n\u00e3o costuma ser escutado&#8221;. &#8220;Ao criar um cinema t\u00e3o dependente da inven\u00e7\u00e3o narrativa de outros, Coutinho abre m\u00e3o de uma parcela da soberania que lhe pertence como autor. Ao confiar nos seus personagens, renuncia parte de sua autoridade&#8221;, comenta Jo\u00e3o Moreira Salles, no pref\u00e1cio do livro\u00a0<a href=\"https:\/\/zahar.com.br\/livro\/o-documentario-de-eduardo-coutinho\"><i>O document\u00e1rio de Eduardo Coutinho \u2013 televis\u00e3o, cinema e v\u00eddeo<\/i><\/a>, de Consuelo Lins.<\/p>\n<p><i>As can\u00e7\u00f5es\u00a0<\/i>deixa claro a concep\u00e7\u00e3o de um projeto cinematogr\u00e1fico sempre em movimento. E trata de acrescentar camadas a sua personalidade de entrevistador, a de entrega e espontaneidade. Refor\u00e7a a captura do agora. O filme, que tem por inten\u00e7\u00e3o contar mem\u00f3rias das pessoas relacionadas \u00e0 m\u00fasica, transforma o recurso da entrevista, j\u00e1 conhecido pelo diretor, em &#8220;uma verdadeira celebra\u00e7\u00e3o do encontro&#8221;, como evidencia F\u00e1bio Andrade. O presente \u00e9 a mat\u00e9ria do registro e nele cabem celulares tocando no meio da grava\u00e7\u00e3o, choros inesperados e pausas para o pensamento.<\/p>\n<p>Toda a composi\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/214-As-cancoes\">&#8220;As Can\u00e7\u00f5es&#8221;<\/a><i>\u00a0<\/i>tem como objetivo direcionar a aten\u00e7\u00e3o para os personagens e o que eles dizem. A est\u00e9tica minimalista, a loca\u00e7\u00e3o \u00fanica, os enquadramentos est\u00e1ticos. O diretor n\u00e3o aparece e sua voz \u00e9 pontual. Em alguns momentos, como mencionado anteriormente, \u00e9 carregado por suas emo\u00e7\u00f5es e interfere de maneira mais incisiva. Isso, no entanto, s\u00f3 reitera o poder dos discursos, capaz de retirar o entrevistador de sua posi\u00e7\u00e3o de neutralidade. Os discursos orquestram o filme. Coutinho trabalha com a pot\u00eancia das falas e, ao contr\u00e1rio dos m\u00e9todos televisivos de entrevista, valoriza e aproveita os sil\u00eancios.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a m\u00fasica de sua obra, composta por sons e pausas. A tem\u00e1tica do filme, ent\u00e3o, adquire ainda mais for\u00e7a por resgatar as hist\u00f3rias ligadas \u00e0s can\u00e7\u00f5es e ao deixar os entrevistados sem palavras nem notas. A can\u00e7\u00e3o, que seria a representa\u00e7\u00e3o de um momento, n\u00e3o abrange a experi\u00eancia por completo, resta o sil\u00eancio. O document\u00e1rio, como ele mesmo explica, g\u00eanero indefinido, traduz a incapacidade de definir sentimentos e a beleza disso.<\/p>\n<p>No texto\u00a0<i>Um documentarista \u00e0 procura de personagens<\/i>, Cl\u00e1udio Bezerra explica a mudan\u00e7a dos personagens apresentados por Coutinho do per\u00edodo em que ele trabalhou no Globo Rep\u00f3rter (1975-1984) para o que sucedeu\u00a0<i>Cabra marcado para morrer\u00a0<\/i>(1984). O que antes eram personagens atribu\u00eddos a pap\u00e9is de her\u00f3i e v\u00edtima, mais tarde, foram transformados em personagens contradit\u00f3rios. A complexidade desses personagens e a estrutura\u00e7\u00e3o de seus document\u00e1rios na palavra gerada deram liberdade para que as pessoas atuassem em frente \u00e0s c\u00e2meras. Da\u00ed, da exposi\u00e7\u00e3o da natureza perform\u00e1tica, a teatralidade se revela &#8220;como uma segunda natureza humana&#8221;. Uma dessas formas de performar, Bezerra descreve justamente como &#8220;performance musical&#8221;, predominante em\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/214-As-cancoes\">&#8220;As Can\u00e7\u00f5es&#8221;<\/a>, o recurso j\u00e1 havia sido explorado em outros filmes. Como Henrique, Nadir e Paulo Mata que cantam em\u00a0<i>Edif\u00edcio Master;\u00a0<\/i>F\u00e1tima, Paulo S\u00e9rgio, Jorge e Luiz Carlos em\u00a0<i>Babil\u00f4nia 2000<\/i>.<\/p>\n<p>A m\u00fasica, de uma forma ou de outra, sempre esteve presente nos filmes desse que \u00e9 um dos mais emblem\u00e1ticos cineastas brasileiros. Embora tenha elaborado um procedimento, ou um dispositivo, como costumava definir, que prezasse pela captura do som direto, sem adi\u00e7\u00e3o de elementos sonoros na montagem, uma musicalidade marcante e genu\u00edna surgia de seus entrevistados. Era inerente \u00e0 teatralidade deles. Nesse sentido,\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/214-As-cancoes\">&#8220;As Can\u00e7\u00f5es&#8221;<\/a>\u00a0surge como uma esp\u00e9cie de homenagem a essa arte que d\u00e1 t\u00f4nus \u00e0 exist\u00eancia humana. Talvez como forma de afirmar o que seus filmes nunca haviam dito t\u00e3o claramente: a trilha sonora existe e ela importa.<\/p>\n<p><i>Texto: Mir\u00e9ia Figueiredo\/Est\u00fadio Veredas<\/i><\/p>\n<p><i>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema de Eduardo Coutinho (1933-2014) se constr\u00f3i em dois tons: o de sua voz e o da voz de seu interlocutor. Assim, a partir de um emaranhado multivocal, um conjunto de poucas notas e acordes descomplicados concebe uma sinfonia. O falar e o ouvir, a voz e o ouvido, aos pares, comandando partes de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4643,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,52],"tags":[],"class_list":["post-4638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2019"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4638"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4644,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4638\/revisions\/4644"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}