{"id":4579,"date":"2017-03-31T18:34:11","date_gmt":"2017-03-31T21:34:11","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4579"},"modified":"2021-08-27T18:45:25","modified_gmt":"2021-08-27T21:45:25","slug":"transbordar-feito-agua-de-riacho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/transbordar-feito-agua-de-riacho\/","title":{"rendered":"(Trans)bordar feito \u00e1gua de riacho"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">As saben\u00e7as compartilhadas ao p\u00e9 do fog\u00e3o, as brincadeiras nos rios-riachos da inf\u00e2ncia, as mem\u00f3rias desenhadas nas cal\u00e7adas da rua com pedrinhas do fundo dos c\u00f3rregos, entre muitas outras lembran\u00e7as do quintal, alimentam o imagin\u00e1rio do grupo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.matizesdumont.com\/\">Matizes Dumont<\/a>, formado por uma fam\u00edlia mineira que h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es borda intensamente suas narrativas de origens.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o cinco irm\u00e3os: Marilu, Dem\u00f3stenes, \u00c2ngela, Martha e S\u00e1via Dumont, todos descendentes de Ant\u00f4nia, a bordadeira-m\u00e3e que ampliou ainda mais o imagin\u00e1rio dos filhos com as tessituras feitas nas barras de vestido, nos len\u00e7\u00f3is que cobriam \u00e0 noite as crian\u00e7as, nas toalhas de mesa que enfeitavam a casa em dia de visita. Dizem eles que seus sonhos \u201cainda s\u00e3o povoados por p\u00e1ssaros, flores, borboletas, cavalinhos, meninos, barcas, bonecas de pano, carros de boi e noites estreladas\u201d. E \u00e9 esse sonhar cheio de singelezas que nutre as artes da 4\u00aa Ciranda de Filmes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4580\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/FBCIRANDA2017-1REDUZIDA.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/FBCIRANDA2017-1REDUZIDA.jpg 300w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/FBCIRANDA2017-1REDUZIDA-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O bordado fortalece. Transforma o adulto em crian\u00e7a pequena, \u00e1rvore, bicho ou at\u00e9 rio, agigantado como o S\u00e3o Francisco que banhou a inf\u00e2ncia dos Dumont. \u201cAo bordar, a pessoa pode retomar os fios da mem\u00f3ria do vivido, reencontrar espa\u00e7os internos de amorosidade, experienciar situa\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o, perfazer gestos de sensibilidade e, quem sabe, come\u00e7ar de novo um viver na beleza, no reencontro do sentido de vida\u201d, conta Marilu, que cr\u00ea na forma\u00e7\u00e3o humana como um bordado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Cresceu numa fam\u00edlia em que \u201cos adultos bordam brincando e as crian\u00e7as brincam de bordar&#8221;. A inf\u00e2ncia dela e dos irm\u00e3os foi tecida entre os bordados da m\u00e3e e os causos contados pelo pai da varanda de casa. Os \u201calmanaques\u201d, que chegavam sempre que se ouvia o apito do vapor, eram sempre aguardados. As linhas, agulhas e tecidos, primeiros brinquedos dos filhos, eram misturados \u00e0queles feitos de sementes colhidas no quintal. A vida seguia com a batida do pil\u00e3o, o barulho do sino da cabritinha no pasto, a cor das asas da juriti.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Da viv\u00eancia, brotou o saber coletivo do of\u00edcio. \u201cUm galo sozinho n\u00e3o tece uma manh\u00e3\u201d, dizia Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. A bordadeira Marilu concorda: h\u00e1 tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o transmitidos ensinamentos, na \u201cbusca cotidiana de saber ser e saber fazer coletivamente\u201d. E n\u00e3o s\u00f3 dentro de casa. As irm\u00e3s oferecem oficinas de bordado em diversos lugares do Brasil. Assim, o of\u00edcio \u00e9 repassado, ensinado, preservado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Colaborativo, a arte de bordar se assemelha aos fazeres da vida rural. Do mesmo modo se prepara a junta de bois que puxa o carro, para levar todos \u00e0 festa de reis na beira do rio. Um completa a arte do outro, brincando com agulhas e linhas desde a meninice. Sim, o mais \u00edntimo vem das origens: a fazenda habitada em Pirapora, norte de Minas Gerais, nas beiradas do rio S\u00e3o Francisco, o Velho Chico, onde a vida era de repleta encantamentos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Toda inspira\u00e7\u00e3o brota da natureza de l\u00e1, suas cores e suas formas. \u201cAs filigranas das samambaias, as \u00e1rvores encantadas que trocam de roupa a cada dia, a Via L\u00e1ctea escandalosa sobre o c\u00e9u refletido no rio S\u00e3o Francisco, as estrelas como que penduradas no p\u00e9 de jatob\u00e1. Cor de manga rosa, gosto de jabuticaba no p\u00e9, doce quente de buriti no tacho de cobre.\u201d Todos os fazeres manuais, o trabalhar da farinhada ou o preparar do melado para rapadura, s\u00e3o tecidos. E n\u00e3o s\u00f3 no pano, mas em todas as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E as tramas que se iniciaram com os rabiscos dos to\u00e1s \u2013 aquelas pedrinhas de calc\u00e1rios, do fundo dos c\u00f3rregos \u2013 transbordam ainda hoje nos coloridos fios. Assim, bordam bicho, \u00e1rvore, pessoa. Bordam a hist\u00f3ria da vida, a morte e tudo o que h\u00e1 de humano. \u201cTodos os rios t\u00eam uma hist\u00f3ria peculiar. O que a gente vai descobrindo \u00e9 que as narrativas se entrela\u00e7am, e a\u00ed que a gente v\u00ea que todos os rios s\u00e3o mesmo internos.\u201d Gente faz \u00e9 (trans)bordar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Texto: Gabriela Romeu e Lu\u00edsa Cort\u00e9s<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Imagem do bordado: grupo Matizes Dumont<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os bordados da fam\u00edlia Dumont<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4582,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,51],"tags":[],"class_list":["post-4579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2017"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4579"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4583,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4579\/revisions\/4583"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4582"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}