{"id":4572,"date":"2021-04-05T18:25:35","date_gmt":"2021-04-05T21:25:35","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4572"},"modified":"2021-08-27T18:31:32","modified_gmt":"2021-08-27T21:31:32","slug":"o-pao-no-centro-da-transformacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/o-pao-no-centro-da-transformacao\/","title":{"rendered":"O p\u00e3o no centro da transforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div>O p\u00e3o \u00e9 um alimento que passa por uma das mais incr\u00edveis jornadas de transforma\u00e7\u00e3o. Que m\u00e1gica acontece para que um pequeno gr\u00e3o de trigo vire uma bela massa de casca crocante, insuflada de complexos aromas e sabores?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando essa misteriosa transmuta\u00e7\u00e3o acontece, algo tamb\u00e9m muda em quem faz o p\u00e3o. \u201cExiste algo de encantador em misturar a farinha e a \u00e1gua at\u00e9 eles virarem algo diferente. Isso mexe com a gente, desperta a nossa curiosidade e nos d\u00e1 um outro olhar sobre a natureza da vida\u201d, conta a padeira artesanal Vania Carvalho, fundadora do Quintal da Aur\u00e9lia, em S\u00e3o Paulo, e que, durante a 4a Ciranda de Filmes, dar\u00e1 oficinas para quem literalmente quer colocar a m\u00e3o a massa.\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4575\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/quintalaurelia2_corte.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/quintalaurelia2_corte.jpg 768w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/quintalaurelia2_corte-300x177.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/div>\n<div>Come\u00e7amos a sentir essa transforma\u00e7\u00e3o na ponta dos nossos dedos. Afinal, o p\u00e3o s\u00f3 cresce se colocarmos a m\u00e3o na massa, misturando bem a farinha e a \u00e1gua. \u00c9 o que vemos as mulheres fazendo, ajoelhadas no ch\u00e3o, sovando e dobrando longamente a massa do pane carasau, um p\u00e3o achatado t\u00edpico da Sardenha, na It\u00e1lia, no document\u00e1rio \u201cIl Pane dei Pastore\u201d (1962).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse ritual comunit\u00e1rio, elas permanecem em sil\u00eancio, devotando aten\u00e7\u00e3o total ao p\u00e3o. J\u00e1 os alunos de Vania s\u00e3o bem conversadeiros. \u201c\u00c9 interessante como esse fazer junto cria um senso de comunidade. As pessoas compartilham hist\u00f3rias, redescobrem sentimentos e, assim, algumas delas conseguem, por exemplo, superar um momento ruim.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Depois de tanta sova, chega a hora de deixar o fermento agir sobre o trigo, sem pressa. A espera exige paci\u00eancia, pois a massa ganha vida a seu tempo, sem seguir o nosso rel\u00f3gio, que tudo quer apressar. Quem se aventura no universo da longa fermenta\u00e7\u00e3o aprende a controlar a ansiedade, pois um p\u00e3o desses pode levar at\u00e9 36 horas para ficar pronto. E n\u00e3o adianta apressar o processo, sen\u00e3o a massa cresce menos do que deveria e o p\u00e3o desanda de vez.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A longa espera \u00e9 uma oportunidade para desenvolvermos os sentidos e a intui\u00e7\u00e3o, essenciais para saber quando a massa est\u00e1 no ponto para ir ao forno, j\u00e1 que n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula pronta. O padeiro Nicolas Supior, por exemplo, usa as palmas das m\u00e3os para sentir, levemente, a consist\u00eancia da massa que cresce em um grande tacho de madeira na cozinha onde ele prepara seus p\u00e3es artesanais, no interior da Fran\u00e7a, como mostra o document\u00e1rio \u201cLa Passion du Pain\u201d (2007). Pelo tato, ele percebe se a massa est\u00e1 firme e aerada a contento. Enquanto isso, nada de mexer com ela. \u201cA interven\u00e7\u00e3o deve ser a m\u00ednima poss\u00edvel, e sempre no bom momento\u201d, ele ensina, antes de moldar pequenas bolas que repousar\u00e3o em cestos de vime at\u00e9 completar a fermenta\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A experi\u00eancia de observar a fermenta\u00e7\u00e3o nos mostra que at\u00e9 os micr\u00f3bios t\u00eam seu lado bom. Para Vania, acompanhar esse processo \u00e9 bastante educativo para as crian\u00e7as, pois muda sua vis\u00e3o sobre os micro-organismos que tanto combatemos no dia a dia. Sai o nojo, entra a admira\u00e7\u00e3o pelo fermento que vai fazer a massa inflar at\u00e9 virar p\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao convocar as crian\u00e7as para por a m\u00e3o na massa, transformamos tamb\u00e9m a sua rela\u00e7\u00e3o com a comida e com a comunidade. De volta \u00e0 Sardenha, enquanto as mulheres sentam em c\u00edrculo para modelar os discos do pane carasau, meninos e meninas se ajeitam fora da roda e ganham um peda\u00e7o menor de massa para praticar tamb\u00e9m &#8211; segundo o narrador, \u00e9 assim que aprendem a import\u00e2ncia do brincar e do trabalhar. \u201cCom as m\u00e3os, a gente transmite amor para o p\u00e3o. Elas sentem que esse alimento n\u00e3o vai nutrir s\u00f3 o seu corpo, mas tamb\u00e9m seus afetos e tomam gosto por cozinhar\u201d, explica Vania. \u201cQuem n\u00e3o faz sua comida passa a vida toda na m\u00e3o da ind\u00fastria.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O jornalista norte-americano Michael Pollan, autor do livro \u201cCozinhar &#8211; A Arte da Transforma\u00e7\u00e3o\u201d, concorda. Para ele, fermentar p\u00e3es, compotas e iogurtes em casa \u00e9 uma forma de protestar contra a homogeneiza\u00e7\u00e3o imposta pela ind\u00fastria aliment\u00edcia. Quem cria sua receita, portanto, descobre novos e complexos sabores e, assim, torna-se independente de uma l\u00f3gica econ\u00f4mica na qual somos consumidores passivos de produtos padronizados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a nossa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina quando o p\u00e3o sai do forno. Para come\u00e7ar tudo outra vez, n\u00e3o d\u00e1 para esquecer de alimentar o fermento natural, ou levain, avisa o franc\u00eas Supior, mostrando a pequena tigela com a massa onde crescer\u00e3o os novos micro-organismos que dar\u00e3o vida a um novo p\u00e3o. Todo dia \u00e9 preciso renovar a mistura de \u00e1gua e farinha, sen\u00e3o a col\u00f4nia de micr\u00f3bios se consome e morre. Fica a\u00ed a \u00faltima li\u00e7\u00e3o: a disciplina e a serenidade para flertar, todo dia, com o fr\u00e1gil limite entre a exuber\u00e2ncia e a podrid\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Texto: Bruna Fontes<\/i><\/div>\n<div><i>Foto: Quintal da Aur\u00e9lia<br \/>\n<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O p\u00e3o \u00e9 um alimento que passa por uma das mais incr\u00edveis jornadas de transforma\u00e7\u00e3o. Que m\u00e1gica acontece para que um pequeno gr\u00e3o de trigo vire uma bela massa de casca crocante, insuflada de complexos aromas e sabores? 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