{"id":4538,"date":"2017-05-04T19:15:00","date_gmt":"2017-05-04T22:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4538"},"modified":"2021-08-26T19:18:31","modified_gmt":"2021-08-26T22:18:31","slug":"terreiro-espaco-da-intimidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/terreiro-espaco-da-intimidade\/","title":{"rendered":"Terreiro, espa\u00e7o da intimidade"},"content":{"rendered":"<p>Terreiro \u00e9 espa\u00e7o do sagrado, da (con)viv\u00eancia. \u00c9 \u201clugar pra brincar\u201d, \u201cbusca do espa\u00e7o de intimidade\u201d, da tessitura de rela\u00e7\u00f5es de uma comunidade, todos reunidos num s\u00f3 fazer. \u00c9 verdadeiro territ\u00f3rio do brinquedo que transborda as linhas do objeto, transcende, vira folguedo, festa popular.<\/p>\n<p>Como a crian\u00e7a se nutre dessa for\u00e7a que habita os terreiros e seus brinquedos? \u00c9 uma pergunta que norteia o filme<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/181-Terreiros-do-Brincar-\">\u00a0&#8220;Terreiros do Brincar&#8221;<\/a>, de David Reeks e Renata Meirelles, com produ\u00e7\u00e3o da Maria Farinha. Em viagens pelo Brasil durante o projeto Territ\u00f3rio do Brincar, uma coprodu\u00e7\u00e3o com o Instituto Alana, o casal de documentaristas vivenciou manifesta\u00e7\u00f5es populares, como Nego Fugido, Festa do Divino, Bumba Meu Boi e Folia de Reis, em diversas comunidades.<\/p>\n<p>A cultura popular \u00e9 leite que alimenta a crian\u00e7a, nos diz o m\u00fasico cearense Alemberg Quindins, uma das vozes que ajudam na tessitura de imagens que evocam os folguedos, da prepara\u00e7\u00e3o \u00e0s festas. \u201cAs crian\u00e7as somam ao coletivo e n\u00e3o est\u00e3o ali para um dia virem a ser um membro participativo, j\u00e1 o s\u00e3o desde que entram para o grupo. Essa maneira de olhar para a crian\u00e7a no presente, considerando todo seu potencial, ao inv\u00e9s de querer suprir o que lhe falta, ou trein\u00e1-la para o devir, desperta reflex\u00f5es e viv\u00eancias muito importante para n\u00f3s\u201d, conta Renata, que fez o roteiro em parceria com Soraia Chung Saura.<\/p>\n<p>Nesse percurso, o corpo se fez em festa. \u201cO canto e a dan\u00e7a ficam reverberando e ningu\u00e9m pode tirar isso de n\u00f3s. S\u00e3o lembran\u00e7as de momentos de muita vida. \u00c9 como se pud\u00e9ssemos pedir licen\u00e7a para emprestar essa energia e quanto mais voc\u00ea participa, mais ela se torna parte de voc\u00ea. J\u00e1 \u00e9ramos encantados com a cultura popular, mas esse intenso contato com tantos grupos mostrou, como diz a P\u00e9o, \u2018a inteireza da manifesta\u00e7\u00e3o criadora e criativa\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, \u00e9 poss\u00edvel desvelar outras imagens por tr\u00e1s das imagens. Como a do Velho Tonho, que lidera um pequeno reisado com brincantes-meninos num vilarejo do litoral do Cear\u00e1. Se a entrega \u00e9 de corpo e alma em dia de folguedo, Velho Tonho vive o resto do tempo a \u201cxingar o vento em um intermin\u00e1vel mon\u00f3logo\u201d, recorda a diretora. Mas, no reisado, em dia de festa, \u201co Velho e as crian\u00e7as transcendem o cotidiano e constroem um forte v\u00ednculo, um respeito m\u00fatuo pelas tradi\u00e7\u00f5es, pela festa e pela brincadeira\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4539\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros1_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros1_interna.jpg 1000w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros1_interna-300x200.jpg 300w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros1_interna-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><b>Depois das andan\u00e7as e da montagem de <a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/181-Terreiros-do-Brincar-\">&#8220;Terreiros do Brincar&#8221;<\/a>, como definiria que espa\u00e7o \u00e9 o terreiro, abordado de v\u00e1rias formas e em diversos momentos no filme?<\/b><\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0Entendemos que\u00a0<i>terreiro<\/i>\u00a0\u00e9 um espa\u00e7o \u00edntimo, que agrega um coletivo de pessoas que vivem em liberdade. Em alguns cantos do Brasil o terreiro significa quintal, espa\u00e7o em que acontecem as intensas explora\u00e7\u00f5es e descobertas infantis. Nos quintais, vive-se o mist\u00e9rio e o encantamento com a for\u00e7a de transcender o tempo e o espa\u00e7o. Ali o corpo \u00e9 meio para se deslocar do concreto e viver o essencial em estado de liberdade. Paulo Dias, entrevistado no filme, nos explica que o terreiro no universo das festas populares \u00e9 qualquer espa\u00e7o de intimidade de uma comunidade, principalmente dessas que foram perseguidas ou escravizadas e que precisam dos seus espa\u00e7os \u201c<i>longe das vistas do controle<\/i>\u201d. Pode, ou n\u00e3o, ser um espa\u00e7o religioso, mas o que realmente configura o terreiro \u00e9 a viv\u00eancia \u00edntima da comunidade em um local reservado de (para) transcend\u00eancia. O corpo em movimento canta, dan\u00e7a e brinca em devo\u00e7\u00e3o a alguma divindade ou simplesmente na experi\u00eancia de sentir o corpo (pessoal e comunit\u00e1rio) como o pr\u00f3prio templo. Entendemos que a crian\u00e7a e o adulto vivem o terreiro com essa mesma intimidade coletiva, e foi a\u00ed que nasceu o nome do filme.<\/p>\n<p><b>Poderia contar um pouco suas experi\u00eancias nas festas, destacar momentos que, como define P\u00e9o no filme, mostram &#8220;a inteireza da manifesta\u00e7\u00e3o criadora e criativa&#8221;? Depois da viv\u00eancia das festas, o que ficou impresso no corpo e na alma?<\/b><\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0Era um interesse antigo viver festas populares pelos olhares das crian\u00e7as e do brincar coletivo, portanto, esse tema n\u00e3o poderia ficar de fora do roteiro de viagem do\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/181-Terreiros-do-Brincar-\">&#8220;Territ\u00f3rio do Brincar&#8221;<\/a>. Ao todo registramos 33 grupos de manifesta\u00e7\u00e3o popular em 8 Estados brasileiros e percebemos que todos eles incluem a crian\u00e7a em sua for\u00e7a espiritual, corporal e l\u00fadica. As crian\u00e7as somam ao coletivo e n\u00e3o est\u00e3o ali para um dia virem a ser um membro participativo, j\u00e1 o s\u00e3o desde que entram para o grupo. Essa maneira de olhar para a crian\u00e7a no presente, considerando todo seu potencial, ao inv\u00e9s de querer suprir o que lhe falta, ou trein\u00e1-la para o devir, desperta reflex\u00f5es e viv\u00eancias muito importante para n\u00f3s.<\/p>\n<p>No vilarejo de Tatajuba, no Litoral de Cear\u00e1, por exemplo, vimos um reisado liderado pelo Velho Tonho e seu pandeiro solit\u00e1rio. Ele re\u00fane umas 15 crian\u00e7as, entre 4 e 15 anos de idade, em uma brincadeira de muita inteireza. Ele e seus pequenos brincantes revelam uma entrega de corpo e alma que faz a energia da festa acontecer. No dia a dia, o Velho Tonho carrega quest\u00f5es sociais complicadas, vive sozinho pelas ruas xingando o vento em um intermin\u00e1vel mon\u00f3logo. Mas, no reisado, o Velho e as crian\u00e7as transcendem o cotidiano e constroem um forte v\u00ednculo, um respeito m\u00fatuo pelas tradi\u00e7\u00f5es, pela festa e pela brincadeira. E isso \u00e9 o que se v\u00ea em outros grupos, cada qual com sua intensidade e teores diversos.<\/p>\n<p>Sobre a nossa experi\u00eancia pessoal, o que fica no corpo \u00e9 a festa. O canto e a dan\u00e7a ficam reverberando e ningu\u00e9m pode tirar isso de n\u00f3s. S\u00e3o lembran\u00e7as de momentos de muita vida. \u00c9 como se pud\u00e9ssemos pedir licen\u00e7a para emprestar essa energia e quanto mais voc\u00ea participa, mais ela se torna parte de voc\u00ea. J\u00e1 \u00e9ramos encantados com a cultura popular, mas esse intenso contato com tantos grupos mostrou, como diz a P\u00e9o, &#8220;a inteireza da manifesta\u00e7\u00e3o criadora e criativa&#8221; e a for\u00e7a que tudo isso tem.<\/p>\n<p><b>Quais imagens envolvendo as crian\u00e7as na festa tocaram mais fundo a sua alma? Poderia compartilhar alguns momentos?<\/b><\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0Muitas crian\u00e7as v\u00eam de fam\u00edlias que fazem parte dessas manifesta\u00e7\u00f5es h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es, outras entram nos grupos por motiva\u00e7\u00e3o pessoal, quando percebem, intuem at\u00e9, o sentido que os elementos da festa t\u00eam. O encontro dessas crian\u00e7as com as manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 revelador. Iniciam-se em uma nova fam\u00edlia e tornam-se adotivos de corpo e alma desse coletivo, onde o v\u00ednculo \u00e9 a alegria, os s\u00edmbolos, a espiritualidade, o corpo, a m\u00fasica. Uma vez dentro de um grupo, h\u00e1 espa\u00e7os para encontrar o que d\u00e1 sentido a sua exist\u00eancia, j\u00e1 que fora dela, muitas vezes, sentem-se \u00f3rf\u00e3os de sentidos.<\/p>\n<p>Tem um menino no Nego Fugido que nos marcou muito. Ele tinha uns 6 anos de idade na \u00e9poca em que filmamos, e era um novo membro do grupo. Ele j\u00e1 tinha v\u00e1rios amigos que faziam parte e, portanto, sentia-se confort\u00e1vel entre eles. Mas foi fascinante presenciar como ele tateava, experimentava tudo o que h\u00e1 de\u00a0 ca\u00f3tico dessa festa e como usufru\u00eda dessas emo\u00e7\u00f5es. Em um per\u00edodo de 15 minutos dava para v\u00ea-lo oscilar entre tantos sentimentos. \u00c9 uma festa que n\u00e3o tem ensaio, aprende-se fazendo, e tudo para ele era novo. Esfor\u00e7ava-se muito para coordenar e processar os passos da dan\u00e7a, os momentos dram\u00e1ticos das cenas, o cuspir sangue falso e tremer no ch\u00e3o. Cada momento uma descoberta. Mas, quando parecia confiante, com o corpo finalmente relaxado para fluir, passava um \u201cca\u00e7ador\u201d com sua saia de bananeira imensa \u2013 quase o derrubando. Seu olhar era como o de uma presa em estado de alerta ao predador. Dava para ver o fluxo entre o p\u00e2nico e a entrega total.\u00a0Depois de tr\u00eas anos voltamos para apresentar a essa comunidade os nossos materiais editados. L\u00e1 estava ele, com seu corpo claramente mais tranquilo, cantando e dan\u00e7ando \u2013 dono de si. A ben\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o anual do ritual tinha formado mais um, ele agora estava totalmente conectado \u00e0 ess\u00eancia do grupo.<\/p>\n<p><b>Ao contar uma hist\u00f3ria, deixamos de contar muitas outras&#8230; Quais outras hist\u00f3rias que n\u00e3o foram contadas em\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/181-Terreiros-do-Brincar-\">&#8220;Terreiros do Brincar&#8221;<\/a>?<\/b><\/p>\n<p><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0 Sabemos que um filme \u00e9 um recorte sobre um tema e h\u00e1 sempre escolhas dif\u00edceis de fazer. As hist\u00f3rias de vida das pessoas retratadas nesse filme \u00e9 algo que ficar\u00e1 dentro de n\u00f3s, mas fora do filme. Conhecemos muitas pessoas que se nutrem de suas ra\u00edzes, de suas tradi\u00e7\u00f5es e usufruem de uma est\u00e9tica riqu\u00edssima e bastante diversa, mas pouco valorizada no mundo moderno. Todo conhecimento vivido por essas pessoas \u00e9 pouco aparente, \u00e9 uma camada submersa em subjetividades, s\u00edmbolos, ancestralidade, mas, segundo Agostinho da Silva, estamos atualmente empenhados em \u201cusar o conhecimento como poder\u201d e, assim, viramos as costas para essas pessoas, suas hist\u00f3rias e suas ra\u00edzes que falam tanto sobre todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Outro aspecto n\u00e3o contado no filme, mas conversado longamente com um estudioso do assunto, o Roberto Pinho, \u00e9 reconhecer e apresentar a origem hist\u00f3rica dessas manifesta\u00e7\u00f5es, para conseguirmos, aos poucos, alcan\u00e7ar o saber primordial vivido dentro delas. Esses grupos est\u00e3o a duras penas mantendo vivas essas festas, atrav\u00e9s dessa for\u00e7a extraordin\u00e1ria que vem de dentro da comunidade e de suas tradi\u00e7\u00f5es. Essa luta alegre, trabalhosa e persistente de manuten\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, por\u00e9m, sempre se atualizando no contexto de hoje, isso n\u00e3o foi poss\u00edvel incluir nesse filme.<\/p>\n<p>O foco desse filme s\u00e3o as crian\u00e7as e o brincar dentro dessas manifesta\u00e7\u00f5es populares, esse \u00e9 o nosso recorte. Todo o registro que fizemos de cada grupo retornou como material bruto e editado para eles, e sempre que foi poss\u00edvel fizemos essa entrega pessoalmente, em gratid\u00e3o e respeito pela continuidade dos v\u00ednculos que criamos. Era fundamental para n\u00f3s que pudessem receber de volta o material audiovisual produzido pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/181-Terreiros-do-Brincar-\">&#8220;Territ\u00f3rio do Brincar&#8221;<\/a>, para contribuir nessa manuten\u00e7\u00e3o de suas hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4540\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros2_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros2_interna.jpg 1000w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros2_interna-300x191.jpg 300w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros2_interna-768x488.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><b>Em termos de narrativa, qual foi a ideia de tessitura do filme? Qual a raz\u00e3o para o encadeamento das festas tal qual tecido?<\/b><\/p>\n<p><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0O filme tem duas camadas narrativas: o arco-dram\u00e1tico do ciclo da pr\u00f3pria festa (da prepara\u00e7\u00e3o ao fim da festa) e a costura dos depoimentos que ampliam nosso olhar para o que habita essas manifesta\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o se revela de imediato nas imagens.<br \/>\nEsteticamente, escolhemos incluir longas sequ\u00eancias com cenas das festas sem falas em \u201coff\u201d, para convidar o espectador a entrar nos diferentes esp\u00edritos de celebra\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o bastante diversos. O Nego Fugido, por exemplo, carrega uma densidade intensa, ca\u00f3tica, j\u00e1 a Festa do Divino \u00e9 pura eleva\u00e7\u00e3o, sublima\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o. Assim, reunir ambas energias em uma linha narrativa de um filme \u00e9 um grande desafio.<\/p>\n<p>Come\u00e7ar o filme com o Bumba meu Boi situa o espectador no esp\u00edrito de celebra\u00e7\u00e3o, cor e ritmo que essa manifesta\u00e7\u00e3o oferece. Abre a porta para entrar na festa! Seus ciclos s\u00e3o muito bem definidos, come\u00e7a no nascimento e vai at\u00e9 a morte e precis\u00e1vamos dessa estrutura para adentrar no filme.<\/p>\n<p>Mergulhar no estranhamento imag\u00e9tico do Nego Fugido chega a ser perturbador para alguns, desloca de um lugar conhecido, confort\u00e1vel e revela obscuridades que s\u00e3o importantes. Carrega dores do passado e do presente vividas na brincadeira coletiva, festiva e coloca a crian\u00e7a como representante dessa transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>A Festa do Divino \u00e9 uma festa que eleva a alma em uma vibra\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a, um apontamento para o futuro. Por que coroam crian\u00e7as? A P\u00e9o, em sua entrevista, diz lindamente que a crian\u00e7a \u00e9 esse ser que traz a pureza, a inoc\u00eancia e a imagina\u00e7\u00e3o. A capacidade de se voltar para o que \u00e9 imprevis\u00edvel, o que que ainda vem, aquilo que \u00e9 desconhecido. Segundo ela, a Festa do Divino \u00e9 prospectiva, prop\u00f5e um futuro. N\u00e3o \u00e9 uma festa do passado, \u00e9 uma festa que anuncia o novo. E a crian\u00e7a \u00e9 justamente o s\u00edmbolo do novo. Ela \u00e9 o vir a ser. \u00c9 aquele ser que traz todas as possibilidades dentro de si, de viver com alegria. \u00c9 a passagem tamb\u00e9m, onde ao fim ela entrega a coroa para o pr\u00f3ximo. Era preciso terminar o filme com essa caracter\u00edstica do vir a ser com a abertura para o imprevis\u00edvel e toda for\u00e7a do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>A Folia de Reis, o Reisado, o Batuque, Caretas, as Festas da comunidade ind\u00edgena Panar\u00e1 e o Samba de Roda intercalam essa trama narrativa e celebram a diversidade, a participa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a em todas elas, o corpo, o sagrado e costuram o passado, presente e futuro do nosso povo com todas as dores, alegrias e as mazelas de sermos quem somos.<\/p>\n<p><b>Como o aspecto ritual\u00edstico das festas repercutem no corpo e na alma das crian\u00e7as? Poderia dar exemplos a partir do que viu, ouviu, viveu?<\/b><\/p>\n<p><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0Vale dizer aqui que, durante a montagem do filme, percebemos o quanto as crian\u00e7as desse filme s\u00e3o tamb\u00e9m os adultos. Porque quando est\u00e3o dan\u00e7ando, cantando e celebrando eles vivem a ess\u00eancia das crian\u00e7as. Essa dimens\u00e3o surge no l\u00fadico. A crian\u00e7a est\u00e1 presente nos adultos, ele sai do contexto cotidiano e vira crian\u00e7a. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a tamb\u00e9m nos adultos. Esse pode ser considerado um aspecto ritual\u00edstico importante que repercute em quem participa dessas festas. \u00c9 viver os ciclos da vida, todos unidos em uma celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sempre me encanto pela motiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca que vivem essas pessoas em estado de doa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, espiritual e at\u00e9 financeira. Passam meses em preparos intensos, gastam um dinheiro que n\u00e3o t\u00eam para que a festa esteja \u00e0 altura do que \u00e9 preciso celebrar, e isso sem o desejo de mostrar para plateias, mas para viverem o terreiro, esse ch\u00e3o de terra circular que carrega a intimidade do coletivo. Uma inspira\u00e7\u00e3o profunda para quem se sente desgarrado do tempo, do grupo e das tradi\u00e7\u00f5es. E a crian\u00e7a l\u00ea isso com toda verdade que essas caracter\u00edsticas t\u00eam. \u00c9 a \u201cverdade verdadeira\u201d instaurada a c\u00e9u aberto e a crian\u00e7a sente isso.<\/p>\n<p>A possibilidade de viver os ciclos anuais \u00e9 fundamental tamb\u00e9m. Todo ano a festa \u00e9 a mesma, mas a crian\u00e7a, n\u00e3o. Quem muda \u00e9 a crian\u00e7a e n\u00e3o a festa. Assim, ela pode vivenciar seus diferentes aspectos e emo\u00e7\u00f5es. Um exemplo claro disso foi o que vivemos em rela\u00e7\u00e3o as Caretas e Nego Fugido de Acupe. O fato de estarmos com nossos filhos, e o ca\u00e7ula ter 3 anos na \u00e9poca, nos possibilitou perceber com mais clareza as dimens\u00f5es do p\u00e2nico vividas pelas crian\u00e7as nessas manifesta\u00e7\u00f5es. Os gritos de um filho, seu corpo tremendo, colado ao meu buscando ref\u00fagio para o medo descontrolado, foi uma experi\u00eancia bem forte para mim. Ali as crian\u00e7as t\u00eam a chance de percorrer, na brincadeira, todas as dimens\u00f5es do medo. A cada ano esse sentimento se dilui, se ameniza at\u00e9 se transformar em coragem e valentia. Fiquei desejando que meu filho vivesse isso com a intensidade que a festa oferece, mas s\u00f3 seria poss\u00edvel se ele tivesse a chance de participar anualmente dessa festa. Agrade\u00e7o a oportunidade de ter retornado a Acupe tr\u00eas anos depois e poder verificar o corpo e a alma crescidos do meu ca\u00e7ula.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4541\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros3_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"864\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros3_interna.jpg 864w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros3_interna-203x300.jpg 203w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros3_interna-691x1024.jpg 691w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/terreiros3_interna-768x1138.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 864px) 100vw, 864px\" \/><b>A c\u00e2mera muitas vezes mostra plena devo\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes cai em festa, mistura-se com os brincantes. Tem hora que \u00e9 sagrada, \u00e0s vezes \u00e9 profana. Quais os desafios de filmar nas comunidades em que festejar \u00e9 o pleno viver?<\/b><\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><b>Renata Meirelles \u2013<\/b>\u00a0O desafio inicial \u00e9 de pedir licen\u00e7a para filmar, n\u00e3o ser invasivo e, principalmente, n\u00e3o perturbar os brincantes e a energia instaurada ali. Recebida a permiss\u00e3o para adentrar com c\u00e2meras, o trabalho duro come\u00e7a ao sacar a c\u00e2mera e entrar no espa\u00e7o sagrado do outro. Claro que a c\u00e2mera invade, mas captando imagens significativas envolve um equil\u00edbrio de aten\u00e7\u00e3o e persist\u00eancia. \u00c9 preciso aceitar o primeiro choque, transcend\u00ea-lo \u2013 respeitando os espa\u00e7os e criando rela\u00e7\u00f5es para aquele momento. Eventualmente, os brincantes se acostumam com presen\u00e7a da c\u00e2mera e n\u00e3o mais a percebem. \u00c9 neste momento que devemos prestar aten\u00e7\u00e3o para os detalhes da entrega de cada integrante. O encantamento pelo tema e o v\u00ednculo j\u00e1 est\u00e1 estabelecido com essas pessoas come\u00e7am a mover olhos e m\u00e3os no ato de filmar. A entrega nas imagens tem que ter uma dimens\u00e3o semelhante ao objeto que se est\u00e1 filmando. Assim, vamos transitando pelos sentimentos, gestos, vigor, delicadeza, vibra\u00e7\u00e3o do todo e de cada um, tentando compor o que acontece ali.<\/p>\n<p><i>Texto: Gabriela Romeu<br \/>\n<\/i><i>Fotos: David Reeks\/Territ\u00f3rio do Brincar<\/i><\/p>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terreiro \u00e9 espa\u00e7o do sagrado, da (con)viv\u00eancia. \u00c9 \u201clugar pra brincar\u201d, \u201cbusca do espa\u00e7o de intimidade\u201d, da tessitura de rela\u00e7\u00f5es de uma comunidade, todos reunidos num s\u00f3 fazer. \u00c9 verdadeiro territ\u00f3rio do brinquedo que transborda as linhas do objeto, transcende, vira folguedo, festa popular. Como a crian\u00e7a se nutre dessa for\u00e7a que habita os terreiros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4544,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,51],"tags":[],"class_list":["post-4538","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2017"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4538"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4538\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4542,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4538\/revisions\/4542"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}