{"id":4530,"date":"2017-08-26T19:01:17","date_gmt":"2017-08-26T22:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4530"},"modified":"2021-08-30T16:58:37","modified_gmt":"2021-08-30T19:58:37","slug":"slam-a-poesia-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/slam-a-poesia-da-resistencia\/","title":{"rendered":"Slam: a poesia da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>\u201cOs meninos passam liso pelos becos e vielas. Voc\u00eas, que falam \u2018becos e vielas\u2019, sabem quantos cent\u00edmetros cabem em um menino?\u201d, provoca a poeta Luz Ribeiro, o olhar firme seguindo o ritmo das m\u00e3os que serpenteiam como quem se esgueira para abrir caminho para suas palavras. Ela vai em frente, narrando a vida das crian\u00e7as da periferia, a vida \u00e0 margem, invis\u00edvel a quem vem de fora: \u201cN\u00e3o tem prest\u00edgio, n\u00e3o tem respeito, \u00e9 sempre suspeito de qualquer situa\u00e7\u00e3o\u201d. Suas faltas, seus sonhos \u2013 \u201cTudo coisa de cent\u00edmetros: um pirulito, um picol\u00e9, um pai, uma m\u00e3e, um chinelo que lhe caiba no p\u00e9\u201d. Luz encerra o poema, dedo riscando a garganta: \u201cQuanto mais retinto o menino, mais f\u00e1cil ser extinto. Seus cent\u00edmetros n\u00e3o suportam nove mil\u00edmetros. Esses meninos sentem metros.\u201d Entre palmas e gritos, quem assiste vai \u00e0 loucura.<\/p>\n<p>Essa performance po\u00e9tica \u00e9 a alma do slam, um tipo de poesia falada, ritmada \u00e0 semelhan\u00e7a do rap, s\u00f3 que livre da cad\u00eancia musical. O que vale \u00e9 a for\u00e7a da palavra, crua e direta, sem adere\u00e7os nem firulas; sem figurino nem m\u00fasica, e \u00e0s vezes at\u00e9 sem microfone. Sozinho no centro, o poeta interpreta um depoimento pessoal, em geral sobre quest\u00f5es sociais que o incomodam, mas vale falar de tudo: de amor, de feminismo, de pol\u00edtica, da vida fora dos padr\u00f5es sociais dominantes. S\u00f3 n\u00e3o vale se restringir ao formalismo de seguir regras e m\u00e9tricas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um estilo muito livre e democr\u00e1tico, qualquer um pode participar\u201d, explica a MC atriz Roberta Estrela D\u2019Alva, precursora da modalidade no Brasil e curadora de uma batalha de slams nesta quarta edi\u00e7\u00e3o da Ciranda Filmes, que contar\u00e1 com as presen\u00e7as da poeta Mel Duarte e da dupla composta pela poeta surda Catharine Moreira e por Cau\u00ea Gouveia, do Slam do Corpo, o primeiro slam entre surdos e ouvintes da Am\u00e9rica Latina.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4531\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/slam_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/slam_interna.jpg 700w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/slam_interna-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/>\u201cA ideia do slam \u00e9 devolver a poesia \u00e0s pessoas, fazer com que elas sejam ouvidas.\u201d Assim, na rua, na pra\u00e7a ou no teatro, os encontros de slam t\u00eam um car\u00e1ter de arena, uma eletrizante competi\u00e7\u00e3o entre poetas. Cada um tem tr\u00eas minutos para falar; quando terminam a performance, jurados escolhidos na plateia exibem suas notas. \u00c9 assim que se define o vencedor, que geralmente leva um pr\u00eamio cultural, como livros. Esse aspecto de jogo cria um interesse imediato no p\u00fablico. \u201cA competi\u00e7\u00e3o deixa a performance mais intensa, mais din\u00e2mica. O slam \u00e9 uma poesia que s\u00f3 faz sentido porque existe um p\u00fablico que se envolve. A performance implica presen\u00e7a, ouvido, sentidos, emo\u00e7\u00e3o. \u00c9 um encontro verdadeiramente humano.\u201d<\/p>\n<p>O slam nasceu nos anos 80, em Chicago, mas os primeiros encontros s\u00f3 come\u00e7aram a ser organizados no Brasil em 2008. A cena est\u00e1 crescendo: hoje existem mais de 50 grupos em dez Estados. Al\u00e9m das disputas locais promovidas por esses grupos, existem competi\u00e7\u00f5es de n\u00edvel nacional. Com os versos de \u201cMenimel\u00edmetros\u201d, que abrem este texto, a poeta Luz Ribeiro foi campe\u00e3 do Slam BR 2016, interpretando tamb\u00e9m outras de suas cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao dar espa\u00e7o para a voz a quem em geral n\u00e3o tem lugar de fala na sociedade \u2013 adolescentes, mulheres, negros, gays, da periferia ou do centro \u2013, o slam \u00e9 considerado uma poesia de resist\u00eancia. Numa primeira camada, essa resist\u00eancia \u00e9 evidente como a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: o poema como uma maneira diferente de manifestar a insatisfa\u00e7\u00e3o social. \u201cA poesia abre horizontes, e nesse momento o slam vira um exerc\u00edcio de cidadania. A pol\u00edtica partid\u00e1ria est\u00e1 esgotada em sua linguagem viciada. O campo da po\u00e9tica \u00e9 o novo campo pol\u00edtico\u201d, diz Roberta, citando o fil\u00f3sofo Paulo Arantes.<\/p>\n<p>Mas o que est\u00e1 em jogo nessa arena n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o falar. Participar de um encontro \u00e9 fazer sil\u00eancio em meio a uma cidade barulhenta. Abrir os ouvidos e a mente a vis\u00f5es de mundo diferentes, praticar a escuta emp\u00e1tica, resistir \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o unilateral das redes sociais. Nas palavras de Roberta, \u00e9 manter viva a tradi\u00e7\u00e3o de uma oralidade que nos confere um sentido de comunidade. \u201cO slam abre espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o de uma nova coletividade. De certa maneira, os encontros recuperam essa necessidade social de nos juntarmos em comunidade para ouvir e contar as nossas hist\u00f3rias.\u201d<\/p>\n<p><i>Texto: Bruna Fontes<\/i><\/p>\n<p><i>Foto: Renato Nascimento<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs meninos passam liso pelos becos e vielas. 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