{"id":4497,"date":"2017-05-18T14:25:03","date_gmt":"2017-05-18T17:25:03","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4497"},"modified":"2021-08-26T14:27:10","modified_gmt":"2021-08-26T17:27:10","slug":"da-inanicao-a-imaginacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/da-inanicao-a-imaginacao\/","title":{"rendered":"Da inani\u00e7\u00e3o \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O que alimenta o corpo tamb\u00e9m alimenta a alma? \u00c9 uma pergunta nos ronda em v\u00e1rios momentos do document\u00e1rio\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/197-Banquetes-Imaginarios--\">&#8220;Banquetes imagin\u00e1rios&#8221;<\/a>, um filme que convoca sil\u00eancio, s\u00f3 interrompido pelo ranger de portas e assoalhos, por murm\u00farios em noites profundas, pelo zunido do vento nos campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos na Alemanha, idos de 1944, e uma voz nos conta que corpos esqu\u00e1lidos tremiam na paisagem branca. E n\u00e3o s\u00f3 pelo frio que cortava a pele. Mas devido \u00e0 fome. Ali sobreviveram poucos em meio a um ex\u00e9rcito de homens e mulheres famintos, \u201cdesesperadamente famintos\u201d, enfrentando um cruel racionamento de alimento que perdurava meses, com muitas vezes apenas um \u201cl\u00edquido preto\u201d (caf\u00e9?) a escorrer pelas paredes do est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 inani\u00e7\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o. Os concentrados, das mais variadas proced\u00eancias, escreviam receitas familiares em restos de papel e peda\u00e7os de tecido, alguns encapados com ferragens de fuselagens de guerra. Verdadeiros banquetes se faziam em palavras e sussurros, uma esp\u00e9cie de reza de muitas vozes. Os cadernos foram guardados em sigilo, alguns preservados no tempo.<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/banquetes_interna.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4499\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes_interna.jpg 1000w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes_interna-300x210.jpg 300w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes_interna-768x538.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<p>O filme de Anne Georget mergulha nesses registros, feitos em campos de concentra\u00e7\u00e3o e de trabalho na Alemanha, na R\u00fassia e no Jap\u00e3o. A cineasta leva os documentos \u00e0 leitura de historiadores, fil\u00f3sofos, psicanalistas, neurologistas e chefes de cozinha, que radiografam os ingredientes, as medidas, os m\u00e9todos. Algumas receitas traziam com precis\u00e3o o que s\u00f3 habitava as lembran\u00e7as. \u201cO sofrimento \u00e9 tang\u00edvel nessas receitas, a dor \u00e9 palp\u00e1vel\u201d, comove-se Olivier Roellinger, renomado cozinheiro franc\u00eas.<\/p>\n<p>Christiane Hingou\u00ebt, sobrevivente dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazista, relata o \u00e1rduo cotidiano vivido, da lida que se estendia por 12 horas ininterruptas, com pequenas ra\u00e7\u00f5es di\u00e1rias (um peda\u00e7o de p\u00e3o, uma salsicha, um caldo ralo). \u201c\u00c9 terr\u00edvel sentir fome. N\u00e3o falo de fome antes do caf\u00e9 da manh\u00e3. Falo de fome depois de dois anos de inani\u00e7\u00e3o. Terr\u00edvel. \u00c9 o que mais me marcou. Mais do que as surras.\u201d<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o sabia cozinhar, sequer fritar um ovo, mas inaugurou um \u201cbanquete imagin\u00e1rio\u201d por meio de muitas descri\u00e7\u00f5es de como fazer bolos, sopas, pudins. Conseguia se imaginar cozinhando aquelas iguarias coletivamente relembradas, registradas e sonhadas, numa intensa comunh\u00e3o daquela fantasia glutona. \u00c0s vezes, as receitas embalavam as conversas da hora de dormir. A boca salivava.<\/p>\n<p>Alimento simb\u00f3lico, transmitido de uma pessoa para outra, as receitas pareciam libertar aquelas pessoas da priva\u00e7\u00e3o. E depois de uma refei\u00e7\u00e3o gourmet imagin\u00e1ria, o al\u00edvio. Estavam juntos, reunidos, como num almo\u00e7o de domingo, partilhando coletivamente o momento. Resistiam naquela fantasia em que a comida, express\u00e3o social e cultural de um povo, significava fortemente a ideia de pertencimento a algum lugar que n\u00e3o aquele. Representava a pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4500\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes2_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"701\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes2_interna.jpg 1000w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes2_interna-300x210.jpg 300w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/banquetes2_interna-768x538.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/>Vest\u00edgios familiares surgem nas receitas, do primeiro mingau na inf\u00e2ncia aos banquetes de casamentos. Sopas, bolos, pudins, ensopados e caldos, refei\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, de algum jeito uniam aqueles que estavam apartados da fam\u00edlia, da casa. Da vida.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o falavam de livros, m\u00fasicas ou pinturas? \u201cAlgumas pessoas n\u00e3o ouviam m\u00fasica, outros n\u00e3o tiveram a sorte de apreciar literatura ou ainda a oportunidade de admirar pinturas. Mas todos tiveram o prazer de experimentar uma boa comida\u201d, explica Roellinger, destacando a universalidade do alimento, disparador de lembran\u00e7as e afetos.<\/p>\n<p>Escrever os cadernos de receitas foi uma forma de sobreviv\u00eancia, talvez um ato de resist\u00eancia, revela um dos entrevistados. Uma resist\u00eancia baseada no encontro, na partilha e no prazer, que de algum modo os libertou naquela vida simbolizada num banquete imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><i>Texto: Gabriela Romeu<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que alimenta o corpo tamb\u00e9m alimenta a alma? \u00c9 uma pergunta nos ronda em v\u00e1rios momentos do document\u00e1rio\u00a0&#8220;Banquetes imagin\u00e1rios&#8221;, um filme que convoca sil\u00eancio, s\u00f3 interrompido pelo ranger de portas e assoalhos, por murm\u00farios em noites profundas, pelo zunido do vento nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. 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