{"id":4474,"date":"2017-05-23T14:01:59","date_gmt":"2017-05-23T17:01:59","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4474"},"modified":"2021-08-26T14:05:45","modified_gmt":"2021-08-26T17:05:45","slug":"o-ritmo-esta-em-todo-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/o-ritmo-esta-em-todo-lugar\/","title":{"rendered":"O ritmo est\u00e1 em todo lugar"},"content":{"rendered":"<p>O som seco e alternado das mulheres batendo seus bast\u00f5es nos pil\u00f5es para fazer farinha atravessa uma aldeia Malink\u00ea na Guin\u00e9, na pontinha oeste da \u00c1frica. No embalo desse apiloar, acompanhamos a percuss\u00e3o do cotidiano: o peneirar da massa, os secos passos das mulheres que cruzam a savana carregando gravetos na cabe\u00e7a, o tempo da menina puxando a corda para trazer a \u00e1gua do fundo do po\u00e7o. \u201cTodas as coisas s\u00e3o o ritmo\u201d, diz um veterano Malink\u00ea na abertura do curta-metragem\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/179-Foli---Nao-ha-movimento-sem-ritmo\">&#8220;Foli &#8211; N\u00e3o existe movimento sem ritmo&#8221;<\/a>, dos holandeses Thomas Roebers e Floris Leeuwenberg.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4476\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/foli2_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/foli2_interna.jpg 700w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/foli2_interna-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/foli2_interna.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/>Do outro lado do oceano Atl\u00e2ntico, o percussionista Nan\u00e1 Vasconcelos passeia por Salvador (BA) captando essa cad\u00eancia da vida: os m\u00faltiplos sons que nascem dos estreitos corredores do mercado popular, a remada no rio, o trem em seu trilho, o talher triscando o prato, a onda do mar que bate na pedra. No document\u00e1rio<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/204-Diario-de-Nana-\"><i>\u00a0<\/i>&#8220;Di\u00e1rio de Nan\u00e1&#8221;<\/a>, de Paschoal Samora, as crian\u00e7as escutam atentas o que o mestre tem a dizer.<\/p>\n<p>\u201cO primeiro instrumento \u00e9 a voz. E o melhor instrumento \u00e9 o corpo\u201d, diz Nan\u00e1, que das palmas das m\u00e3os tira o som de um pandeiro imaginado. O ritmo \u00e9 a m\u00fasica que nasce da escuta do corpo, e n\u00e3o da abstra\u00e7\u00e3o da alma, inspirado pela aten\u00e7\u00e3o ao compasso do mundo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4478\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/lingua_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/lingua_interna.jpg 700w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/lingua_interna-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p>Para dois jovens irm\u00e3os portugueses, o ritmo est\u00e1 nas cordas do viol\u00e3o e do violino. J\u00e1 para o menino angolano, sai dos bra\u00e7os, dos quadris e da cabe\u00e7a, acompanhando a m\u00fasica que toca. E, para o brasileiro, corre com a bola de futebol no quintal de terra de uma casa que ficar\u00e1 pronta a seu tempo. No \u00f4nibus, a caminho do ensaio, at\u00e9 tabuada vira can\u00e7\u00e3o para os estudantes de Ceil\u00e2ndia (DF). Seus sotaques e vidas t\u00e3o diferentes entrar\u00e3o em compasso quando os meninos de Portugal, Angola e Brasil se encontrarem para cantar junto com Nan\u00e1 e o maestro Gil Jardim em Bras\u00edlia (DF), a jornada que acompanhamos em\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/filme\/152-Lingua-Mae\">&#8220;L\u00edngua M\u00e3e&#8221;<\/a>, de Fernando Weller e Leo Falc\u00e3o.<\/p>\n<p>No filme, o berimbau de Nan\u00e1 faz a ponte entre essas culturas. A primeira batida espanta e encanta os alunos portugueses. Um menino faz uma entrevista com ele e quer saber como aprendeu a tocar o berimbau. Nan\u00e1 diz que desde crian\u00e7a foi seduzido pelos encantos do instrumento. \u201cFiquei fascinado porque o som dele \u00e9 aqui perto do corpo. \u00c9 tudo aqui perto do cora\u00e7\u00e3o, d\u00e1 uma emo\u00e7\u00e3o muito forte.\u201d<\/p>\n<p>Na toada do cora\u00e7\u00e3o, o pulsar ritmado que nos move. Da cave escura ouvimos um canto em uma l\u00edngua africana, um lamento profundo que nos transporta a tempos ancestrais, como um feiti\u00e7o marcado para evocar o nosso divino. Desacelera o tempo, at\u00e9 que o grande gongo de Nan\u00e1 soe, grave, aquiescendo a dor e nos trazendo de volta ao compasso presente. \u00c0 luz do dia, ele canta sozinho na pra\u00e7a: \u201cM\u00e3e minha, \u00f4, m\u00e3e minha \/ ai que dor no cora\u00e7\u00e3o.\u201d As m\u00e3os largam os chocalhos e acolhem a cabe\u00e7a baixa. Mas o ritmo \u00e9 tamb\u00e9m altern\u00e2ncia. Logo ele est\u00e1 aos risos com o amigo \u00e0 beira de uma palafita fincada no oceano. Com um pequeno chocalho e algumas palmas, a conversa logo vira m\u00fasica. Eles param. \u201cSe atravessar esse mar vai dar na \u00c1frica?\u201d<\/p>\n<p>Na tribo Malink\u00ea, o sil\u00eancio nos mostra que, para o ouvido, tudo tem uma cad\u00eancia: o machado que golpeia a \u00e1rvore at\u00e9 ela cair, as pancadas que moldam o ferro do agog\u00f4, as m\u00e3os que esculpem e forram um futuro tambor. O trabalho de virar m\u00fasica. Os meninos batem latas na beira do rio, aprendendo o som dos homens. De volta a Salvador, outros meninos tiram sua percuss\u00e3o da sucata, transformando latas de tinta e bombas pl\u00e1sticas em seus instrumentos.<\/p>\n<p>O trabalho tamb\u00e9m vira m\u00fasica. Foi nos quilombos baianos que a enxada perdeu o cabo para ser batucada e puxar o som do tambor e da cu\u00edca &#8212; \u201ccapinasom\u201d, define Nan\u00e1. Em Cachoeira (BA), dona Damiana, veterana do samba de roda, conta como aprendeu a compor seus ritmos nos intervalos do of\u00edcio de charuteira, batendo as tabuinhas de madeira que usava para fazer charutos. \u201cOlhe, gente, o samba \u00e9 a vida, \u00e9 alegria\u201d, sorri. Para ela, o fim do nosso pulsar n\u00e3o \u00e9 o fim do ritmo. \u201cAt\u00e9 os mortos levantam da sepultura\u201d, diz, ouvindo a levada acelerada de seu samba de roda.<\/p>\n<p><i><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4479\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/diario_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/diario_interna.jpg 700w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/diario_interna-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/i><i><\/i><i>Texto: Bruna Fontes<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O som seco e alternado das mulheres batendo seus bast\u00f5es nos pil\u00f5es para fazer farinha atravessa uma aldeia Malink\u00ea na Guin\u00e9, na pontinha oeste da \u00c1frica. 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