{"id":4463,"date":"2017-05-25T13:45:52","date_gmt":"2017-05-25T16:45:52","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4463"},"modified":"2021-08-26T13:58:25","modified_gmt":"2021-08-26T16:58:25","slug":"o-cinema-e-a-construcao-da-subjetividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/o-cinema-e-a-construcao-da-subjetividade\/","title":{"rendered":"O cinema e a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade"},"content":{"rendered":"<p>Ver um filme \u00e0s vezes \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o que fazemos para escapar um pouco da vida real. Mas ser\u00e1 que \u00e9 isso que acontece quando a tela do cinema captura por completo a nossa aten\u00e7\u00e3o? Na verdade, a narrativa apresentada como fic\u00e7\u00e3o nos faz olhar com mais profundidade para a nossa subjetividade e para os nossos caminhos de transforma\u00e7\u00e3o, aponta o psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo e organizador da Cole\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Cinema e Psican\u00e1lise\u00a0<\/i>(editora nVersos) e\u00a0<i>Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma<\/i>\u00a0(Boitempo).<\/p>\n<p>O cinema \u201cfaz parte das redes discursivas que criam a nossa verdade em estrutura de fic\u00e7\u00e3o\u201d, diz o psicanalista, que esteve na Roda de Conversa Subjetividades, da Ciranda de Filmes. Para ele, filmes s\u00e3o essenciais, e servem como um bom ponto de partida para conversar com os jovens sobre seus sonhos e sofrimentos \u2013 mas nunca como substitutos do di\u00e1logo. \u201cFilmes em vez da palavra, sem media\u00e7\u00e3o, conversa ou reflex\u00e3o s\u00e3o a pior bab\u00e1 que pode haver, porque passam a ser um signo da displic\u00eancia e demiss\u00e3o dos pais em termos de cultura e educa\u00e7\u00e3o. Como dizia Goya, o sono da raz\u00e3o cria monstros.\u201d<\/p>\n<p>Leia mais no bate-papo a seguir.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4467\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/dunker1_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/dunker1_interna.jpg 700w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/dunker1_interna-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p><b>Como o cinema nutre a subjetividade e o sonhar dos jovens?<\/b><\/p>\n<p>De muitas maneiras, mas vou salientar duas. A primeira \u00e9 criando narrativas que nos ensinam como nos transformamos. Isso inclui desde a constru\u00e7\u00e3o de alteridades at\u00e9 o suporte para fantasias, inclusive a sexualidade e o amor. O cinema ensina qual sofrimento devemos aceitar, qual convoca um processo transformativo em n\u00f3s e qual imp\u00f5e uma modifica\u00e7\u00e3o do mundo ou dos outros. Ele faz parte das redes discursivas que criam a nossa verdade em estrutura de fic\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o cinema \u00e9 tamb\u00e9m a arte do real, como pensavam tanto Bazin como Badiou, em sentidos diversos. Ele funciona como um ponto de unifica\u00e7\u00e3o e converg\u00eancia de linguagens, como dramaturgia, fotografia, literatura, m\u00fasica, que a cada momento criam e fixam o que pode ser dito, o que n\u00e3o deve ser dito e o que \u00e9 imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Qual \u00e9 a influ\u00eancia do cinema na constru\u00e7\u00e3o da intimidade, do aprender a amar, a separar?<\/b><\/p>\n<p>De onde surgem as solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para problemas nunca antes enfrentados? De formas m\u00edticas, narrativas ou discursivas que estavam l\u00e1, encostadas no fundo do ba\u00fa, justamente porque quando foram inventadas ningu\u00e9m sabia muito bem para que elas serviam. \u00c9 a arte, como inven\u00e7\u00e3o de linguagens para um mundo que ainda n\u00e3o existe, mas um dia, \u00e0s vezes, ele chega.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea acha que os jovens de hoje t\u00eam menos espa\u00e7o para essa constru\u00e7\u00e3o da intimidade?<\/b><\/p>\n<p>Sim, porque a rela\u00e7\u00e3o entre a experi\u00eancia p\u00fablica e a privada sofreu uma muta\u00e7\u00e3o. O avan\u00e7o da individualiza\u00e7\u00e3o baseada no contrato, a judicializa\u00e7\u00e3o, a intoler\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es de diferen\u00e7a e a padroniza\u00e7\u00e3o narrativa das formas de falar de si tornaram o fundamento da intimidade, ou seja, compartilhar uma experi\u00eancia produtiva de indetermina\u00e7\u00e3o, algo cada vez mais raro e mais dif\u00edcil, portanto mais precioso. Falar de si autenticamente para um outro \u00e9 um risco que nossa \u00e9poca tolera muito mal. Preferimos fazer outras coisas, por outros meios: escrever, beber, rir, trabalhar, trocar interesses ou sensa\u00e7\u00f5es corp\u00f3reas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Na vida real eles se sentem mais reprimidos?<\/b><\/p>\n<p>Tendemos a achar que a repress\u00e3o \u00e9 um processo inerentemente ruim e a ser evitado, porque limita a liberdade e a emancipa\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 mais verdadeiro quando pensamos em formas culturais est\u00e1veis e em reprodu\u00e7\u00e3o. Mas a repress\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o processo pelo qual ocorre o que antigamente chamava-se o \u201cprogresso da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Em certos momentos de transi\u00e7\u00e3o aguda, anomia ou crise das formas reprodutivas de vida, ou seja, trabalho, linguagem e desejo, percebemos que \u00e9 mais f\u00e1cil e importante deixar coisas para tr\u00e1s, negar pr\u00e1ticas institu\u00eddas ou reprimir formas expressivas do que inventar novas formas de vida, at\u00e9 porque neste momento n\u00e3o sabemos como e por onde isso pode ser feito. Quando isso acontece, surgem efeitos curiosos, como os de hoje, nos quais os jovens aparecem como moralistas, vigilantes reprimindo costumes e imagens, de si e dos outros, apegando-se \u00e0 lei, transformando em bullying o que for poss\u00edvel, \u201cesquecendo\u201d a revolu\u00e7\u00e3o sexual que nos precedeu. A responsabilidade sexual, como desejo subversivo e inven\u00e7\u00e3o de novos mundos, transforma-se assim apenas em err\u00e2ncia de sensa\u00e7\u00f5es sem consequ\u00eancia, um exemplo de repress\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A fic\u00e7\u00e3o que aborda problemas como bullying e suic\u00eddio, como a s\u00e9rie\u00a0<i>13 Reasons Why<\/i>, ajuda ou confunde o jovem?<\/b><\/p>\n<p>De um lado ajuda, porque\u00a0<i>narrativiza<\/i>\u00a0o problema, coloca a contradi\u00e7\u00e3o, mostra o conflito. Por outro atrapalha, porque desencadeia o desamparo, a ang\u00fastia e o cont\u00e1gio identificat\u00f3rio por via da retomada de solu\u00e7\u00f5es regressivas. A s\u00e9rie\u00a0<i>13 Reasons Why<\/i>\u00a0\u00e9 desesperadora para os psicanalistas, pois mostra o deserto da aus\u00eancia de escuta, mas tamb\u00e9m a indiferen\u00e7a e desist\u00eancia subjetiva da personagem para falar de si. \u00c9 lindo que quando ela o fa\u00e7a isso ocorra por meio de um \u201cinstrumento\u201d antigo, que s\u00e3o as fitas cassete, da d\u00e9cada de 1980. \u00c9 did\u00e1tico como isso acontece, reeditando um pouco a fun\u00e7\u00e3o dos antigos di\u00e1rios \u00edntimos. Ela se abre para o risco de falar com algu\u00e9m, o psic\u00f3logo da escola. E a\u00ed a coisa fica ainda mais exasperante para os psicanalistas, porque o que vemos \u00e9 uma aula de \u201csurdez cl\u00ednica\u201d, uma li\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de tudo o que n\u00e3o fazer nesta situa\u00e7\u00e3o. Sim, at\u00e9 mesmo n\u00f3s, os psic\u00f3logos, desaprendemos a pot\u00eancia da escuta e da fala, preocupados em manter os interesses de imagem funcional e contribuir para nosso \u201cbelo quadro social\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Por que voc\u00ea acha que o jovem de hoje enfrenta suas experi\u00eancias de modo mais individualizado?<\/b><\/p>\n<p>Acho que a individualiza\u00e7\u00e3o requerida por nossa \u00e9poca inventou a figura do empreendedorismo narc\u00edsico, pelo qual rapidamente a crian\u00e7a aprende a import\u00e2ncia de administrar sua imagem e seus interesses, individualizados, de modo a amplificar seus ganhos em termos de capital cultural e capital social. Aquele que n\u00e3o sabe capitalizar seu sofrimento, de modo a torn\u00e1-lo produtivo \u2013 por exemplo, expondo-o na rede, transformando-o em \u00f3dio que o faz trabalhar mais, fortificando sua identidade e seu lugar de fala \u2013 ser\u00e1 percebido como fracassado, exclu\u00eddo ou perdedor. Isso padroniza o sofrimento no la\u00e7o social, destr\u00f3i a pot\u00eancia da intimidade e isola as pessoas, o que obviamente aumenta o sofrimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Como essa intimidade precisa ser reinventada, ent\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Outro amor \u00e9 preciso. Intimidade \u00e9 conflito, e n\u00e3o s\u00f3 zona de conforto e seguran\u00e7a. Estamos encalhados entre uma forma debilizante, infantil e incondicional de amor \u2013 que quando d\u00e1 certo, d\u00e1 errado, por exemplo: o casal vira um par de irm\u00e3os colaborativos e sem sexo \u2013 e um amor funcional tipo Tinder, que enquanto estiver \u201cpagando bem continua, sen\u00e3o fecha\u201d, que justamente por dar errado, d\u00e1 certo, por exemplo: casais que s\u00e3o verdadeiras holdings jur\u00eddicas, unidades de combate e preda\u00e7\u00e3o orientadas para resultados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Texto: Bruna Fontes<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ver um filme \u00e0s vezes \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o que fazemos para escapar um pouco da vida real. Mas ser\u00e1 que \u00e9 isso que acontece quando a tela do cinema captura por completo a nossa aten\u00e7\u00e3o? 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