{"id":4456,"date":"2017-05-25T13:37:07","date_gmt":"2017-05-25T16:37:07","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4456"},"modified":"2021-08-26T13:45:30","modified_gmt":"2021-08-26T16:45:30","slug":"beth-beli-o-pertencimento-do-tambor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/beth-beli-o-pertencimento-do-tambor\/","title":{"rendered":"Beth Beli: o pertencimento do tambor"},"content":{"rendered":"<p>Nascida na Brasil\u00e2ndia, zona norte de S\u00e3o Paulo, Elisabeth Belis\u00e1rio cresceu ouvindo do pai militar, um homem rigoroso, que era preciso batalhar para \u201cser algu\u00e9m na vida\u201d. S\u00f3 entendeu melhor o que o conselho significava quando seu mundo foi se expandindo, para al\u00e9m das quebradas. Numa sociedade de profundas ra\u00edzes racistas, a menina negra da periferia tinha que provar que \u201cera mais\u201d, que podia ir al\u00e9m. E escolheu seu instrumento de luta, inicialmente a contragosto do pai. Virou Beth Beli, forte refer\u00eancia feminina nos tambores.<\/p>\n<p>Aluna de col\u00e9gio militar na juventude, hoje ela lidera um outro ex\u00e9rcito. S\u00f3 de mulheres (trezentas!), atentas a seus sinais para fazer ecoar os sons de agog\u00f4s, xequer\u00e9s, alfaias e djemb\u00eas. Sua farda \u00e9 tamb\u00e9m outra. De camisa colorida e chap\u00e9u adornado, ela comanda o bloco afro Il\u00fa Ob\u00e1 de Min, nome iorub\u00e1 que significa \u201cm\u00e3os femininas que tocam tambor para Xang\u00f4\u201d. Sua batalha \u00e9 pelo empoderamento feminino, pela for\u00e7a da cultura negra, pelo direito de ocupar os espa\u00e7os p\u00fablicos. \u201cAqui as mulheres podem cantar, podem dan\u00e7ar e podem tocar\u201d, anuncia ao microfone durante uma apresenta\u00e7\u00e3o do grupo em S\u00e3o Paulo. Seu comando \u00e9 o da \u201csuavidade\u201d.<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/beth_interna.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4460\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/beth_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"1029\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/beth_interna.jpg 600w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/beth_interna-175x300.jpg 175w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/beth_interna-597x1024.jpg 597w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Era jovem quando conheceu sua mestra, uma amiga inspiradora: Girlei Luiza Miranda, filha de bamba, um mestre de bateria, criada nas batidas de escolas paulistanas como Peruche e Rosas de Ouro. Num dia, batucando num balde por brincadeira, Girlei logo percebeu que na menina pulsava um ritmo. Foi sua primeira incentivadora e juntas passaram a frequentar muitos barr\u00f5es. Tempos depois, criaram com uma turma de amigos a Banda-L\u00e1, sendo esse \u201cl\u00e1\u201d a \u00c1frica e todo o seu legado ancestral. \u201cNessa \u00e9poca s\u00f3 tocava xequer\u00e9, n\u00e3o me deixavam tocar tambor\u201d, lembra. \u201cAinda n\u00e3o era o meu tempo\u201d, diz sabiamente com um jeito doce, sorriso nos olhos.<\/p>\n<p>Era uma banda de ativistas negros, um total de 22 pessoas, entre m\u00fasicos e dan\u00e7arinos, que reverenciavam os orix\u00e1s. Nessa \u00e9poca, foi iniciada nos terreiros de candombl\u00e9, onde ouvia atentamente o som dos tambores, que batia fundo na jovem, em seus vinte e poucos anos. Mas revela que o som era tamb\u00e9m recebido com um certo temor, algo origin\u00e1rio l\u00e1 na inf\u00e2ncia. \u201cN\u00e3o sei bem por que, mas eu tinha medo de mar e de tambor\u201d, lembra. Seu medo virou sua mat\u00e9ria-prima. \u201cEu n\u00e3o escolhi o tambor, foi o tambor que me escolheu\u201d, afirma, ciente de sua miss\u00e3o espiritual \u2013 e tamb\u00e9m social, feminista e art\u00edstica.<\/p>\n<p>A Banda-L\u00e1 durou uma d\u00e9cada. Depois muitos dos seus integrantes decidiram ocupar lugar nas universidades. Beth e Girlei herdaram os tambores \u2013 e seguiram em busca de suas pr\u00f3prias batidas. Depois vieram a passagem pelo bloco Ori Ashe, grupo afro-sampista, com a participa\u00e7\u00e3o de homens e mulheres, e os trabalhos teatrais com Z\u00e9 Celso, Renato Borghi e Ligia Veiga. Tamb\u00e9m se enveredou pelos caminhos da arte-educa\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o demorou muito e reverberou um novo chamado. \u201cMuita gente dizia que eu devia voltar com o trabalho de percuss\u00e3o ecoando a cultura negra. Ent\u00e3o eu disse: \u2018Eu volto, mas s\u00f3 se for para trabalhar para Xang\u00f4, o orix\u00e1 da justi\u00e7a. E que seja um grupo s\u00f3 mulheres: no pensar, no dizer, no cantar, no tocar, no dirigir. Em tudo. Queria inverter os acessos\u201d, diz a filha de Ox\u00f3ssi com Ians\u00e3.<\/p>\n<p>Foi nesse per\u00edodo em que o grupo estava em gesta\u00e7\u00e3o, ainda sem nome, que encontrou uma de suas parceiras at\u00e9 hoje: a sambadeira do Rec\u00f4ncavo Baiano Nega Duda, filha de Xang\u00f4. Muitas outras filhas do orix\u00e1 surgiram em seu caminho. Era um sinal. O Il\u00fa Ob\u00e1 de Min, explica Beth, \u00e9 regido por Xang\u00f4 e Ians\u00e3, \u201co casal mais quente do Orum\u201d, o pante\u00e3o dos orix\u00e1s. O grupo, que teve tamb\u00e9m em suas origens a participa\u00e7\u00e3o de Adriana Arag\u00e3o, completou 12 anos em 2016. 12 \u00e9 o n\u00famero de Xang\u00f4. \u201cEstamos no momento de olhar para essa filha e esse filho que est\u00e1 com 12 anos\u201d, diz a fundadora.<\/p>\n<p>O trabalho cresceu, desdobrou-se em muitos projetos, que levam o pensar para a roda (Il\u00fa na Mesa), com encontros entre mulheres da tradi\u00e7\u00e3o oral e da academia, e tamb\u00e9m para as escolas (Tenda Afro-L\u00fadica), com atividades que trabalham a Lei 10.639, sobre o ensino das culturas afro-brasileira e africana na sala de aula.<\/p>\n<p>Nessa trajet\u00f3ria, j\u00e1 cantaram a hist\u00f3ria de muitas mulheres, Leci Brand\u00e3o, Elza Soares, Raquel Trindade, Maria Carolina de Jesus e Rainha Nzinga, que nem de longe passou em suas aulas no col\u00e9gio militar. \u00c9 cantando a saga dessas personagens femininas inspiradoras, muitas delas esquecidas dos livros escolares, que segue na sua miss\u00e3o de desconstruir 500 anos de hist\u00f3ria. \u201cFa\u00e7o isso nas brechas que eu tenho, com os meus alunos nas aulas de arte-educa\u00e7\u00e3o, com as m\u00e3es dos meus pacientes [faz h\u00e1 tempos um trabalho com crian\u00e7as com c\u00e2ncer em hospitais], com as mulheres no Il\u00fa, nas palestras.\u201d<\/p>\n<p>Beth Beli \u00e9 percussionista, regente, compositora, arte-educadora e cientista social, sua forma\u00e7\u00e3o mais recente, depois de muito frequentar escolas informais nos barrac\u00f5es, nos teatros e nas ruas. \u00c9 a ca\u00e7ula de sua fam\u00edlia. E tamb\u00e9m seu esteio. Foi ela quem levou a cultura negra de volta para casa e dialogou com os seus sobre velados processos de silenciamento e branqueamento, historicamente enraizados na nossa sociedade. \u201cMinha m\u00e3e me liga pra falarmos de tudo, todas as quest\u00f5es. De algum modo, materializo o que estou fazendo. Quando boto meu paramento, n\u00e3o sou mais a Beth, estou sob o comando de Ox\u00f3ssi, a for\u00e7a da ca\u00e7adora, aquela que ca\u00e7a para nutrir a fam\u00edlia em todos os aspectos\u201d, diz, ainda vibrante depois de reger uma apresenta\u00e7\u00e3o. \u201cOnde meu pai estiver ele deve estar contente.\u201d<\/p>\n<p><i>Texto: Gabriela Romeu<\/i><\/p>\n<p><i>Foto: Vanderlei Yui<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascida na Brasil\u00e2ndia, zona norte de S\u00e3o Paulo, Elisabeth Belis\u00e1rio cresceu ouvindo do pai militar, um homem rigoroso, que era preciso batalhar para \u201cser algu\u00e9m na vida\u201d. 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