{"id":4438,"date":"2017-10-09T13:19:55","date_gmt":"2017-10-09T16:19:55","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4438"},"modified":"2021-08-26T13:20:54","modified_gmt":"2021-08-26T16:20:54","slug":"a-complexidade-da-vida-nas-narrativas-infantis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/a-complexidade-da-vida-nas-narrativas-infantis\/","title":{"rendered":"A complexidade da vida nas narrativas infantis"},"content":{"rendered":"<p>Bonnie, uma menina de 9 anos apaixonada por elefantes, est\u00e1 desolada com a morte da av\u00f3. \u00c0 noite, enquanto a av\u00f3 permanecia im\u00f3vel, no quarto ao lado, ela tentava dormir quieta. Mas logo se lembrou de como agem os elefantes numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil: nunca deixam os seus \u201cparentes\u201d para tr\u00e1s. Foi quando decidiu ir ao encontro da av\u00f3 morta, sobre a cama. Deitou-se ao lado dela, sem receio do corpo inerte. A m\u00e3e de Bonnie, que viu a cena ao entrar no recinto, n\u00e3o hesitou em (estranhamente) cobrir com um len\u00e7ol as duas, filha e m\u00e3e morta, aconchegando ambas em um terno abra\u00e7o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gtkdDxpbhro\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Quem escreveu essa cena t\u00e3o inquietante quanto afetuosa foi a roteirista holandesa Mieke de Jong, autora de dezenas de s\u00e9ries e filmes para crian\u00e7as. Premiada por suas cria\u00e7\u00f5es cheias de personagens densos, em situa\u00e7\u00f5es intrigantes, tais como a descrita acima, ela ministrou em fins de setembro uma\u00a0<i>master class<\/i>\u00a0no F\u00f3rum Pensar a Inf\u00e2ncia, do 15<sup>o\u00a0<\/sup><a href=\"http:\/\/www.festivaldecinemainfantil.com.br\/saopaulo2017\/\">FICI<\/a>\u00a0(Festival Internacional de Cinema Infantil), em S\u00e3o Paulo. Numa sala repleta de realizadores e educadores, dif\u00edcil quem n\u00e3o saiu inspirado com a fala potente sobre como escrever obras que n\u00e3o consideram a crian\u00e7a \u201cpequena\u201d, assim como define a roteirista. Uma aula e tanto.<\/p>\n<p>\u201cComo fazer filmes s\u00e9rios de um jeito divertido?\u201d, questionou de pronto. \u00c9 que \u201csem humor, a vida fica insuport\u00e1vel\u201d, completou na sequ\u00eancia. Nos filmes da roteirista, os personagens infantis enfrentam desafios da vida real, como abandono, conflitos familiares, preconceito e pais dif\u00edceis, como a m\u00e3e bipolar de Bonnie, ao mesmo tempo em que t\u00eam um elefante no quintal, podem ganhar asas para voar ou ter um professor que se transforme em sapo. A fantasia, no entanto, nunca \u00e9 uma fuga. \u201cUm bom filme, assim como um bom livro, ajuda a gente a entender um pouco mais o mundo que habitamos\u201d, diz Mieke, que sabe abarcar a estranheza em suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias com temas desafiadores, que levam seus personagens ao extremo, est\u00e1 na busca por entend\u00ea-los. \u201cEm tempos dif\u00edceis, voc\u00ea conhece seus personagens. Eles se mostram. S\u00f3 nesses momentos vemos quem realmente s\u00e3o, como se sentem, o que desejam\u201d, conta Mieke, que prop\u00f5e filmes cr\u00edticos e reflexivos \u00e0s crian\u00e7as. S\u00e3o obras que falam da vida em sua mais pulsante verdade. \u201cGosto de lev\u00e1-los a s\u00e9rio. Gosto de filmes com personagens complexos que me surpreendam, fazendo o que voc\u00ea nunca esperaria que eles fizessem, mas que entenda quando os veja fazendo.\u201d Dif\u00edcil n\u00e3o se comover (e tamb\u00e9m se divertir) intensamente com seus personagens, que, acredita, v\u00eam antes da narrativa.<\/p>\n<p>\u201cDo ponto de vista das crian\u00e7as, d\u00e1 para contar todas as hist\u00f3rias, abordar todos os temas\u201d, diz Mieke, que fala inclusive de sexo, ainda um tabu nos dias de hoje, na hist\u00f3ria da menina Bonnie. Tal preceito, que faz parte da b\u00edblia de qualquer profissional empenhado em produzir para crian\u00e7as, raras vezes \u00e9 aplicado com tamanha habilidade. Em<i>\u00a0Mr. Frog\u00a0<\/i>(<i>Professor Sapo<\/i>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), por exemplo, ela conta a hist\u00f3ria de um professor que se transforma em sapo, em uma alegoria ao tema da homossexualidade. Tudo \u00e9 contado pelo ponto de vista de uma de suas alunas, uma menina solit\u00e1ria, sem pai e cuja m\u00e3e vive ocupada. \u00c9 ela quem o ajuda na tarefa de entender diferente. Mieke nos descortina o mundo infantil em seus filmes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/t9iXCAt2bgs\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cQuanto de tristeza podemos mostrar \u00e0s crian\u00e7as?\u201d, questiona Mieke, convidando a plateia de produtores a pensar. Uma de suas produ\u00e7\u00f5es mais recentes \u00e9 uma s\u00e9rie de TV (20 epis\u00f3dios de 10 minutos cada um) intitulada\u00a0<i>Sem fam\u00edlia\u00a0<\/i>(<i>Nobody\u2019s Boy<\/i>, em ingl\u00eas), inspirada num tradicional livro franc\u00eas do s\u00e9culo 19, escrito por Hector Malot \u2013 v\u00e1rias outras produ\u00e7\u00f5es nasceram dessa hist\u00f3ria. A s\u00e9rie traz as desventuras de um menino \u00f3rf\u00e3o pelas ruas da Holanda dos dias de hoje para encontrar sua t\u00e3o sonhada fam\u00edlia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/meLHZ5exUy0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escrever para meninas e meninos \u00e9 tarefa de grande responsabilidade, j\u00e1 que as crian\u00e7as ainda est\u00e3o em processo de conhecer o mundo que lhes est\u00e1 sendo narrado. Na tela de cinema s\u00e3o expostas a diferentes realidades, diz a roteirista. \u201cVoc\u00ea pode viver a vida de outra pessoa por um tempo. Voc\u00ea descobre o que ela sente, pensa e fala, pode se tornar uma pessoa mais compreensiva.\u201d Para atender a essa miss\u00e3o, busca uma conex\u00e3o com a crian\u00e7a que um dia foi. O universo infantil est\u00e1 ali, em cada espectador. Todos j\u00e1 passamos pela experi\u00eancia de ser crian\u00e7a, e \u00e9 isso que busca resgatar.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o defende finais felizes em suas hist\u00f3rias, mas destaca que nunca escreveria um filme sem esperan\u00e7a. Nem sempre seus personagens conseguem necessariamente o que buscam. \u201cMas conseguem outra coisa. Algo que precisavam at\u00e9 mais.\u201d<\/p>\n<p>Em\u00a0<i>Tony Ten<\/i>, o protagonista faz de tudo para manter unidos os pais que vivem em desaven\u00e7as. Diferentemente do esperado, n\u00e3o vence no final, quando descobre que o melhor \u00e9 que se separem de vez. \u00c9 o que ela chama de \u201cmoral winner\u201d, uma esp\u00e9cie de vencedor moral. \u201cNos meus filmes, as crian\u00e7as sempre vencem, mas nem sempre conseguem o que sonhavam inicialmente\u201d, conclui a roteirista, que bem sabe abarcar a tristeza e a estranheza numa mesma receita recheada de empatia. Traz a vida como ela \u00e9, com todas as suas complexidades, enredada com poesia, humor e fantasia de um jeito suave, tal como o voo da menina-passarinha do longa-metragem\u00a0<i>Iep!<\/i>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bjCkWwdhXC0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para saber mais,\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.bol.uol.com.br\/folhaonline\/ilustrada\/2010\/09\/16\/mieke-de-jong-que-escreveu-o-filme-iep-conversa-sobre-infancia-e-cinema.jhtm\">leia entrevista<\/a>\u00a0que Mieke de Jong deu \u00e0 jornalista e roteirista Gabriella Mancini h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p><i>Texto: Gabriela Romeu e Luisa Cort\u00e9s<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com humor, poesia e fantasia, a roteirista holandesa Mieke de Jong traz as complexidades da vida em potentes narrativas voltadas \u00e0s crian\u00e7as<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4440,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,50],"tags":[],"class_list":["post-4438","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2016"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4438"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4438\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4441,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4438\/revisions\/4441"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}