{"id":4432,"date":"2017-12-05T13:13:25","date_gmt":"2017-12-05T15:13:25","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4432"},"modified":"2021-08-26T13:19:26","modified_gmt":"2021-08-26T16:19:26","slug":"quando-o-cinema-vai-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/quando-o-cinema-vai-a-escola\/","title":{"rendered":"Quando o cinema vai \u00e0 escola"},"content":{"rendered":"<p>A data era junho do ano 2000. Na Fran\u00e7a, o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o Jack Lang decidiu reunir uma s\u00e9rie de consultores para um projeto cultural, denominado\u00a0<i>Mission<\/i>. Queria trazer educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a\u00e7\u00e3o cultural \u00e0s escolas de seu pa\u00eds. Um desses convidados foi o cineasta, cr\u00edtico de cinema e professor universit\u00e1rio Alain Bergala, que garantiu a resson\u00e2ncia da iniciativa pelo mundo, mesmo que a experi\u00eancia francesa se mostrasse, anos depois, inacabada.<\/p>\n<p>Nas escolas, o cineasta europeu sempre buscou desviar o foco de uma leitura anal\u00edtica e cr\u00edtica dos filmes. Acreditava que seria mais proveitoso o que chama de leitura criativa, &#8220;que coloque o espectador no lugar do autor; que o leve a acompanhar, em sua imagina\u00e7\u00e3o, as emo\u00e7\u00f5es de todo o processo criativo, suas escolhas e incertezas.&#8221; \u00c9 o que explica a pesquisadora Adriana Fresquet ao comentar o trabalho de Bergala. Ela teve uma experi\u00eancia semelhante com escolas p\u00fablicas do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Com a consultoria do cineasta franc\u00eas, coordenou a a\u00e7\u00e3o que criaria escolas de cinema em seis institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do Rio de Janeiro, entre 2011 e 2013. Tudo isso como parte de seu estudo na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde leciona na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e coordena o projeto de pesquisa Curr\u00edculo e Linguagem Cinematogr\u00e1fica na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e o Programa de Extens\u00e3o Cinema para Aprender e Desaprender (CINEAD). Reuniu suas impress\u00f5es no livro\u00a0<i>Cinema e educa\u00e7\u00e3o: reflex\u00f5es e experi\u00eancias com professores e estudantes de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, dentro e fora da escola<\/i>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4435\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/CIRANDA3_8397671597_c288a36e17_b.jpg\" alt=\"\" width=\"999\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/CIRANDA3_8397671597_c288a36e17_b.jpg 999w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/CIRANDA3_8397671597_c288a36e17_b-300x210.jpg 300w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/CIRANDA3_8397671597_c288a36e17_b-768x538.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 999px) 100vw, 999px\" \/><\/p>\n<p>A obra traz levantamentos sobre o lugar do cinema na escola. Um dos pontos levantados \u00e9 o da pot\u00eancia art\u00edstica de despertar a imagina\u00e7\u00e3o, plano essencial \u00e0 inf\u00e2ncia. Cita Vygotsky ao assumir a esfera imaginativa n\u00e3o como \u00a0um &#8220;divertimento caprichoso do c\u00e9rebro\u201d, mas sim &#8220;uma fun\u00e7\u00e3o vitalmente necess\u00e1ria\u201d, j\u00e1 que n\u00e3o parte apenas de nossos acervos mnem\u00f4nicos, relativos \u00e0s mem\u00f3rias, mas tamb\u00e9m \u00e9 capaz de sonhar e projetar um futuro. O cinema traria, ent\u00e3o, o que ela chama de uma transforma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da realidade. Desta vez citando Migliorin, relembra que &#8220;o que talvez o cinema tenha para ensinar seja a sua essencial ignor\u00e2ncia sobre o mundo, ponto exato em que cria\u00e7\u00e3o e pensamento se conectam&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a imagina\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 alteridade. A uma crian\u00e7a que nunca esteve na Amaz\u00f4nia ou at\u00e9 no antigo Egito, o conhecimento de outras realidades pode &#8220;alargar as possibilidades do conhecimento&#8221;. Isso porque a arte faz pensar, sim, mas tamb\u00e9m faz sentir. Vale-se de afetos, sensa\u00e7\u00f5es; nos faz intuir, adivinhar, suspeitar. Parte na contram\u00e3o do chamado conhecimento formal para nos apresentar o conhecimento sens\u00edvel. &#8220;Trata-se de um conhecimento que, como as imagens do cinema, fica tensionado entre a cren\u00e7a e a d\u00favida, pelo que nos oculta e revela de seu processo&#8221;, explica em seu livro.<\/p>\n<p>Esse tipo de conhecimento valoriza a experi\u00eancia (em alem\u00e3o,\u00a0<i>erfahrung<\/i>), aquilo que &#8220;se acumula, que se prolonga, que se desdobra, como numa viagem (viajar em alem\u00e3o \u00e9<i>fahren<\/i>)&#8221;. Vai al\u00e9m da viv\u00eancia do conhecimento formal (<i>erlebnis<\/i>), a &#8220;impress\u00e3o forte que precisa ser assimilada \u00e0s pressas, que produz efeitos imediatos&#8221;, rela\u00e7\u00e3o cada vez mais presente entre as crian\u00e7as e as velozes imagens \u00e0s quais t\u00eam acesso.<\/p>\n<p>Escolher um jeito de ensinar em detrimento de outro \u00e9, por fim, um ato pol\u00edtico, como percebeu a documentarista Anita Leandro. &#8220;E se a longa hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre cinema e pedagogia n\u00e3o passasse de uma feliz coincid\u00eancia de pontos de vista, ou seja, uma conflu\u00eancia de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na escolha do lugar a partir do qual se constr\u00f3i uma imagem do mundo?&#8221;, questiona. &#8220;As dimens\u00f5es \u00e9ticas e est\u00e9ticas desse processo ficam insepar\u00e1veis, e desse modo, viram uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, particularmente da escola, que, como o cinema, precisa lidar com os problemas de organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, da rela\u00e7\u00e3o com o tempo e do questionamento do poder discursivo&#8221;.<\/p>\n<p>Leia abaixo entrevista completa com Adriana Fresquet, que atua no grupo de pesquisa e extens\u00e3o Cinema para Aprender e Desaprender (CINEAD), e destaca projetos de educa\u00e7\u00e3o audiovisual pelo pa\u00eds, espa\u00e7os onde um filme \u201cpode emocionar, tocar uma mem\u00f3ria, sensibilizar, ativar um pensamento\u201d.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea participa do grupo de pesquisa e extens\u00e3o\u00a0<i>Cinema para Aprender e Desaprender<\/i>\u00a0(CINEAD).\u00a0Poderia contar um pouco sobre o grupo e seus estudos? Em quais pesquisas est\u00e3o trabalhando no momento?<\/b><\/p>\n<p>O grupo de pesquisa e extens\u00e3o CINEAD nasceu em 2006, com uma forte voca\u00e7\u00e3o para aproximar o cinema da educa\u00e7\u00e3o, articulando nessa ponte a Universidade com a Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, seus professores e estudantes. Os projetos de pesquisa chamam\u00a0<i>Curr\u00edculo e linguagem cinematogr\u00e1fica na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Cinema no hospital?<\/i>\u00a0Em ambos, procuramos identificar a pot\u00eancia do encontro do cinema com professores e estudantes, uma pot\u00eancia que \u00e9 pedag\u00f3gica, \u00e9tica, est\u00e9tica, pol\u00edtica.<\/p>\n<p><b>Poderia explicar o que denomina \u201cdesaprender\u201d em seu conceito de Cinema para Desaprender, falar um pouco sobre a complexidade desse termo?<\/b><\/p>\n<p>Desaprender \u00e9 lembrar de aprendizagens antigas e escov\u00e1-las a contrapelo, isto \u00e9, identificar aprendizagens que hoje carregamos transformadas em (des)valores, quase cren\u00e7as, por t\u00ea-las aprendido em contextos afetivos importantes dos quais \u00e9 dif\u00edcil dissoci\u00e1-las sem arriscar alguma destrui\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o onde nasceram. Aprendemos (quase) sem defesas quando confiamos no\/a outro\/a. Nessas aprendizagens v\u00eam misturadas todas as mis\u00e9rias, preconceitos e gestos de discrimina\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios da incompletude e imperfei\u00e7\u00e3o \u00a0da condi\u00e7\u00e3o humana e inclusive das coisas, como afirma Passolini, ao afirmar que h\u00e1 uma pot\u00eancia pedag\u00f3gica das coisas que vemos desde que nascemos que nos ensina de modo quase irrevog\u00e1vel uma determinada classe social, perspectivas do mundo, modos de estar e ser.Desaprender \u00e9 fazer o esfor\u00e7o cotidiano e coletivo de revisar os nossos aprendizados, coloc\u00e1-los sob suspeita, aderir a alguns, rejeitar outros, como se fosse poss\u00edvel arranc\u00e1-los de debaixo da pele. Desaprender \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para reaprender com os outros, com o mundo, renovando significados e sentidos do conhecimento.<\/p>\n<p><b>Parece que esse termo implica em uma no\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o e de inf\u00e2ncia que vai al\u00e9m de seu conte\u00fado pedag\u00f3gico. Est\u00e1 mais relacionada a uma experi\u00eancia. H\u00e1 espa\u00e7o para esse tipo de viv\u00eancia nos dias de hoje? Como o cinema pode contribuir pra isso?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Desaprender constitui tamb\u00e9m uma parcela da educa\u00e7\u00e3o e da inf\u00e2ncia que habita em n\u00f3s. Se analisamos etimologicamente, educa\u00e7\u00e3o vem do termo latino\u00a0<i>educare<\/i>, \u00e9 composto pela uni\u00e3o do prefixo\u00a0<i>ex<\/i>, que significa \u201cfora\u201d, e\u00a0<i>ducere<\/i>, que quer dizer \u201cconduzir\u201d ou \u201clevar\u201d. E efetivamente hoje entendemos a educa\u00e7\u00e3o como esse espa\u00e7o\/tempo dedicado a endere\u00e7ar a aten\u00e7\u00e3o ao mundo. No sentido de sair um pouco de si, e da tend\u00eancia autocentrada e self-man\u00edaca que volta para n\u00f3s mesmos at\u00e9 os celulares a cada nova fotografia. O termo escola vem de skol\u00e9, \u201ctempo livre\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente esse espa\u00e7o escolar o cen\u00e1rio principal para ela dedicar um tempo para orientar a aten\u00e7\u00e3o para o mundo, afastando-na um pouco dos pr\u00f3prios desejos individuais, singulares, t\u00e3o infelizmente produzidos pelo mercado e pelo capital. Entendemos tamb\u00e9m a inf\u00e2ncia como gesto, como nascimento, como pergunta. Nesse sentido, o cinema, seja na tela da proje\u00e7\u00e3o ou no display de uma c\u00e2mera quando fazemos produ\u00e7\u00f5es na escola, nos convida a expandir esse \u201ctempo livre\u201d, para olhar atrav\u00e9s delas para o mundo, um mundo que est\u00e1 a\u00ed, dado de uma determinada maneira aqui e agora, mas que \u00e9 produto de infinitas escolhas e \u00e1vido de altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao ver uma imagem do tr\u00e2nsito no Rio de Janeiro, por exemplo, podemos ter uma no\u00e7\u00e3o dessa realidade, mas tamb\u00e9m podemos imaginar como poderia ser diferente e ativar o pensamento para mudar, para inventar um outro modo de distribui\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito na cidade. Entender que o plano que vemos resulta de uma c\u00e2mera que foi colocada a uma certa altura, a uma certa dist\u00e2ncia, a uma certa hora do dia, que ativou uma determinada paleta de cores na montagem, mixando camadas de som gravadas em diferentes dias&#8230; significa imaginar que o mundo (ou a imagem que vemos dele) tamb\u00e9m poderia ser outra. E o melhor, que cabe tamb\u00e9m a n\u00f3s a possibilidade de altera\u00e7\u00e3o. Desse modo, o cinema e a educa\u00e7\u00e3o acabam coincidindo na sua mat\u00e9ria-prima: a realidade. E na sua maior aposta: olhar para ela visando imagin\u00e1-la como sonhada. Sonhada com os olhos bem abertos.<\/p>\n<p>Para o velho Vygotsky, cada gera\u00e7\u00e3o sonha a pr\u00f3xima e a acorda no ato de sonh\u00e1-la, assim a transforma\u00e7\u00e3o (da realidade, do mundo) parece ser a promessa que traz por efeito focar no desenvolvimento da aten\u00e7\u00e3o ao mundo, objetivo fundamental da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Existem experi\u00eancias em escolas que compreendem o cinema como uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cultural, e n\u00e3o como um simples instrumento?<\/b><\/p>\n<p>Bom, eu acredito que nas escolas onde se v\u00ea cinema e se faz cinema (entendendo o cinema na escola como um tipo de cinema expandido), ele entra de maneira perturbadora, alterando os espa\u00e7os e tempos escolares, um certo\u00a0<i>status quo<\/i>. Provocando a imagina\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria para ver, rever e transver o mundo, assim como queria o poeta Manoel de Barros.<\/p>\n<p>Agora bem, o cinema reduzido a \u201csimples instrumento\u201d, o filme utilizado como \u201crecurso did\u00e1tico\u201d pode ter efeitos independentemente da intencionalidade do professor. Isto \u00e9, mesmo que um professor projete o filme\u00a0<i>Vidas Secas<\/i>\u00a0para falar de Graciliano Ramos, numa aula de literatura, ou para falar da seca no Nordeste, o encontro dos estudantes e de outros professores e funcion\u00e1rios que eventualmente tamb\u00e9m o assistam tem um espa\u00e7o de autonomia totalmente emancipado dos objetivos docentes. Uma cena pode emocionar, tocar uma mem\u00f3ria, sensibilizar, ativar um pensamento, contagiar a urg\u00eancia de dar a ver esse filme a familiares, entre outras possibilidades n\u00e3o previstas necessariamente pelo professor. E acho que \u00e9 a\u00ed onde radica a brecha principal que fura toda opacidade da rela\u00e7\u00e3o do cinema com a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Como o educador hoje pode criar um repert\u00f3rio maior da arte cinematogr\u00e1fica, al\u00e9m de, claro, assistir aos filmes? Quais os desafios de formar educadores preparados para trabalhar a linguagem audiovisual nas escolas?<\/b><\/p>\n<p>Hoje \u00e9 mais f\u00e1cil pensar na amplia\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rios que outrora. Haja vista que muitos filmes est\u00e3o dispon\u00edveis na rede e de modo gratuito. Acredito que boas curadorias de cinematecas, museus de imagens e sons, cineastas, professores de cinema, cin\u00e9filos, cineclubistas podem ser dicas v\u00e1lidas para quem est\u00e1 iniciando os primeiros passos. Depois, as conex\u00f5es rizomaticamente o levar\u00e3o a desviar-se do caminho, que n\u00e3o \u00e9 outra coisa, segundo Kafka, que o desvio, do desvio do desvio. A amplia\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio \u00e9 sempre a outra cara da moeda que reconhece a cultura do estudante, do professor. Mas como o tempo das artes \u00e9 t\u00e3o curto na escola, efetivamente privilegiamos as a\u00e7\u00f5es que visam ampliar repert\u00f3rio. O melhor modo que temos encontrado de reconhecer a cultura do aluno ou do professor nos cursos de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 trabalhar com motivos visuais do cinema. Por exemplo, um adulto falando com uma crian\u00e7a. Quantos filmes apresentam uma situa\u00e7\u00e3o como essa? Se solicitarmos aos estudantes trazer fragmentos de filmes onde haja planos com essa situa\u00e7\u00e3o, podemos projet\u00e1-los juntos dos que n\u00f3s mesmos estejamos propondo e ponderar a multiplicidade de possibilidades que uma filmagem de uma determinada situa\u00e7\u00e3o pode gerar.<\/p>\n<p>Acredito tamb\u00e9m que \u00e9 preciso multiplicar experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o dos professores de pedagogia e licenciaturas em experi\u00eancias mudas coletivas de assistir filmes juntos, coment\u00e1-los, ouvindo de prefer\u00eancia an\u00e1lises de pessoas que entendem da linguagem para n\u00e3o ficar em simples an\u00e1lises cr\u00edticas de conte\u00fado, em lugar de fazer an\u00e1lises criativas, aprofundando conceitos de hist\u00f3ria, linguagem e est\u00e9tica. Paralelamente considero necess\u00e1rio que novas licenciaturas em cinema continuem a surgir para ampliar e aprofundar os conhecimentos dos profissionais que trabalhem com essa tem\u00e1tica nas escolas, inclusive junto dos professores sem forma\u00e7\u00e3o ou com uma forma\u00e7\u00e3o mais b\u00e1sica.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea tem not\u00edcias de experi\u00eancias ricas de cinema na escola? Poderia dar exemplos?<\/b><\/p>\n<p>N\u00f3s tentamos fazer experi\u00eancias ricas em cinema, em primeiro lugar, com o Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o, onde come\u00e7amos refletindo sobre a inf\u00e2ncia no cinema, assistindo a filmes e desenvolvendo semin\u00e1rios de leituras, depois sugerimos \u00e0s pr\u00f3prias crian\u00e7as, estudantes, agir como co-pesquisadores, refletindo juntos sobre esses filmes e a partir de 2008, convidamos a crian\u00e7as e adolescentes a fazer seus pr\u00f3prios filmes inspirados no cinema.<\/p>\n<p>Desse piloto, surgiu um processo de cria\u00e7\u00e3o de escolas de cinema em escolas p\u00fablicas do Rio de Janeiro. Entre 2011 e 2013 o grupo\/programa CINEAD da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro criou seis escolas de cinema em escolas p\u00fablicas de Ensino Fundamental no Rio de Janeiro. O projeto contou com a consultoria do cineasta e professor Alain Bergala e promoveu um ano de forma\u00e7\u00e3o e um ano de acompanhamento dos trabalhos desenvolvidos nas escolas. Bergala acompanhou a elabora\u00e7\u00e3o do curso, assistiu \u00e0s produ\u00e7\u00f5es dos professores e no ano seguinte os primeiros trabalhos dos estudantes. No final, gravamos um abeced\u00e1rio de cinema para compartilhar seus saberes e pr\u00e1ticas com qualquer interessado em ouvir suas reflex\u00f5es sobre cinema e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios antecedentes muito importantes de cinema na escola, por exemplo, o\u00a0<i>CINEDUC<\/i>, no Rio de Janeiro, que h\u00e1 quase 50 anos vem desenvolvendo atividades de forma\u00e7\u00e3o de professores e de oficinas de produ\u00e7\u00e3o audiovisual. Dez anos tamb\u00e9m tem j\u00e1 o maior projeto audiovisual de um Estado: o\u00a0<i>Programa de Alfabetiza\u00e7\u00e3o Audiovisual<\/i>, em Porto Alegre, que coordena a\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio de Cultura, Educa\u00e7\u00e3o, da FaE\/UFRGS, da Cinemateca Capit\u00f3lio e ainda dialoga com as secretarias do Estado e do munic\u00edpio, \u00e9 \u00fanico no pa\u00eds com essas caracter\u00edsticas. Mais recentemente, encontramos um projeto de grande capilaridade em todo o pais que \u00e9 o projeto\u00a0<i>Inventar com a Diferen\u00e7a <\/i>(IACS\/UFF). Um outro projeto maravilhoso que faz parte do projeto internacional franc\u00eas \u00e9\u00a0<i>Cinema: 100 anos de juventude<\/i>, coordenado pela cinemateca francesa. Na UFMG, o grupo Mutum tamb\u00e9m vem desenvolvendo atividades potentes inclusive em espa\u00e7os s\u00f3cioeducativos.<\/p>\n<p>Na Bahia, destaco o projeto\u00a0<i>Janela Indiscreta<\/i>\u00a0com mais de 30 anos de caminhada levando o cinema nacional e oficinas de produ\u00e7\u00e3o desde a terra de Glauber, Vit\u00f3ria da Conquista, at\u00e9 infinitos pontos do sert\u00e3o baiano. Na Para\u00edba, projetos como Cinest\u00e9sico tem feito uma enorme contribui\u00e7\u00e3o ao cinema nacional. Correndo o risco de ser injusta por estar omitindo projetos importantes no pa\u00eds, apenas destaco alguns que conhe\u00e7o mais e melhor por fazer parte da REDE KINO e para poder responder essa pergunta tentando abarcar alguns exemplos no pais, cada vez mais \u00e9 imposs\u00edvel ter n\u00e3o esse conhecimento de modo acabado.<\/p>\n<p><b>\u201cA pedagogia do cinema frequentemente esbarra no modo como se apropria de seu objeto. Ora, importa muito mais, diante deste objeto complexo, vivo e ind\u00f3cil, ter uma atitude justa do que se agarrar a um saber tranquilizador.\u201d Poderia comentar essa cita\u00e7\u00e3o de Alain Bergala? Ela se relaciona com a sua ideia do Cinema para Desaprender?<\/b><\/p>\n<p>Para Bergala, \u00e9 prefer\u00edvel trabalhar com um professor que n\u00e3o sabe nada de cinema do que com professor que acha que sabe porque sabe um pouco, algo apenas. Saber algo pode tranquilizar o professor e deix\u00e1-lo passivo. O professor que sabe que n\u00e3o sabe e est\u00e1 interessado n\u00e3o para de querer saber, de procurar, de estar alerta a tudo o que pode ser uma aprendizado. O conceito de desaprender, como respondi na segunda pergunta, refere-se mais a necessidade de colocar d\u00favidas nas nossas certezas, de manter uma rela\u00e7\u00e3o viva com o conhecimento do mundo, sem consider\u00e1-lo como acabado, pronto, inalter\u00e1vel. Suspeitar da veracidade dos pr\u00f3prios valores para assim, ratificar ou retific\u00e1-los a cada dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Orson Welles era c\u00e9tico quanto ao ensino de aprecia\u00e7\u00e3o das artes nas escolas. Defendia que mesmo que um jovem soubesse todos os poemas de Shakespeare, n\u00e3o necessariamente se tornaria um poeta. O que o professor poderia fazer \u00e9 o que chamou de \u201ccomunicar entusiasmo\u201d, deixando o aluno com as suas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Poderia comentar essa afirma\u00e7\u00e3o de Welles? Afinal, \u00e9 poss\u00edvel ensinar a aprecia\u00e7\u00e3o da arte nas escolas?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Como ouvi uma vez dizer, as artes se contaminam, se contagiam, se h\u00e1 uma forma de ensinar, realmente \u00e9 por cont\u00e1gio, por comunica\u00e7\u00e3o de uma inspira\u00e7\u00e3o fundamentalmente. Bergala faz uma cr\u00edtica do ensino das artes, especialmente quando ela parte da linguagem. Quando uma certa \u201cgram\u00e1tica do cinema\u201d predomina sobre a experi\u00eancia sens\u00edvel das imagens e sons.<\/p>\n<p>Mas, no nosso caso, temos sim uma defesa do ensino de artes na escola, porque \u00e9 um espa\u00e7o conquistado pelos professores de Artes Visuais, depois de muitos anos das artes serem consideradas algo inferior em termos curriculares, sem a categoria de disciplina. Hoje Artes j\u00e1 \u00e9 uma disciplina escolar \u201chierarquizada\u201d, mas paga esse direito tendo que se ajustar a formas e formatos t\u00edpicos de disciplinas como Matem\u00e1tica ou Portugu\u00eas, tais como fazer prova, por exemplo. O conceito de desaprender consiste em revisar as aprendizagens tentando situ\u00e1-las cronologicamente, identificando preconceitos e\u00a0<i>desvalores<\/i>\u00a0que foram aprendidos em outros momentos, um gesto ou um esfor\u00e7o por questionar permanentemente as pr\u00f3prias cren\u00e7as, fundamentos, h\u00e1bitos, valores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A data era junho do ano 2000. Na Fran\u00e7a, o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o Jack Lang decidiu reunir uma s\u00e9rie de consultores para um projeto cultural, denominado\u00a0Mission. Queria trazer educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a\u00e7\u00e3o cultural \u00e0s escolas de seu pa\u00eds. Um desses convidados foi o cineasta, cr\u00edtico de cinema e professor universit\u00e1rio Alain Bergala, que garantiu a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4436,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,50],"tags":[],"class_list":["post-4432","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2016"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4432"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4432\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4437,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4432\/revisions\/4437"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}