{"id":4269,"date":"2016-08-10T19:36:05","date_gmt":"2016-08-10T22:36:05","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4269"},"modified":"2021-08-25T19:36:49","modified_gmt":"2021-08-25T22:36:49","slug":"o-voo-da-infancia-no-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/o-voo-da-infancia-no-cinema\/","title":{"rendered":"O voo da inf\u00e2ncia no cinema"},"content":{"rendered":"<p><i>\u201cQuando saio com ele, algu\u00e9m diz:<br \/>\n\u2018\u00c9 Billy Casper e seu falc\u00e3o de estima\u00e7\u00e3o\u2019.<br \/>\nEu fico doido. Ele n\u00e3o \u00e9 um bicho de estima\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOu quando vem algu\u00e9m \u00e9 pergunta: \u201c\u00c9 domesticado?\u201d<br \/>\nFalc\u00f5es n\u00e3o podem ser domesticados.<br \/>\nEles s\u00e3o ferozes e selvagens.\u201d<\/i><\/p>\n<p>Cabelos desgrenhados, fala por vezes sussurrada e olhar perdido no horizonte, Billy Casper \u00e9 um menino franzino, amiudado por um entorno hostil, tanto em casa como na escola, um \u201cverdadeiro inferno\u201d. Num intenso desejo de se libertar de sua condi\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, mira da janela da sala de aula os rasantes dos p\u00e1ssaros no c\u00e9u. At\u00e9 que certo dia captura um filhote de falc\u00e3o, que \u00e9 alimentado e treinado com afinco pelo menino, que projeta no voo da ave o voo da pr\u00f3pria inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u00c9 a arte do vis\u00edvel, o cinema, que nos introduz no mundo invis\u00edvel de Billy Casper, protagonista de \u201cKes\u201d (1969), filme de Ken Loach, que traz uma representa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica da inf\u00e2ncia que se rebela da domestica\u00e7\u00e3o empreendida pelo mundo adulto. \u201cFalc\u00f5es n\u00e3o podem ser domesticados\u201d, nos alerta o menino ingl\u00eas, em meio a uma paisagem insistentemente cinzenta.<\/p>\n<p>Esse universo-menino vulner\u00e1vel \u00e9 desvelado pelo cineasta brit\u00e2nico por meio de gestos, olhares e sil\u00eancios (nada esvaziados de dizeres, falares ou pensares). O filme nos coloca cara a cara com um \u201ccomportamento de inf\u00e2ncia, seu movimento, sua corporalidade, sua gestualidade\u201d, segundo o educador e fil\u00f3sofo Jorge Larossa. \u00c9 que o cinema \u00e9 a verdadeira \u201cescritura do gesto\u201d, nas palavras do fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben.<\/p>\n<p>Essa \u00e2nsia por liberdade \u00e9 tema recorrente nos filmes que retratam a inf\u00e2ncia ou o universo infantil. Assim, Billy Casper vem de uma linhagem de meninos que desejam romper com uma inf\u00e2ncia carcer\u00e1ria, ou as masmorras do mundo adulto. S\u00e3o meninos como o emblem\u00e1tico Antoine Doinel, de \u201cOs Incompreendidos\u201d (1959), obra de Fran\u00e7ois Truffaut, cineasta para quem \u201cnada \u00e9 pequeno no que se refere \u00e0 inf\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Sim, o cinema tem muito a nos contar sobre a inf\u00e2ncia, a crian\u00e7a e o universo infantil em diferentes \u00e9pocas, nacionalidades e culturas, com temas, perspectivas e concep\u00e7\u00f5es diferentes. S\u00e3o muitos os filmes que revelam o olhar genu\u00edno das crian\u00e7as e sua persist\u00eancia po\u00e9tica diante da aridez do mundo, al\u00e9m de situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, como abandono e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Desde os prim\u00f3rdios do cinema, as crian\u00e7as sempre estiveram presentes na telona. O menininho \u00f3rf\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/280-O-Garoto\">\u201cO Garoto\u201d<\/a>\u00a0(1921) e o beb\u00ea abandonado no carrinho que desce a escadaria em \u201cO Encoura\u00e7ado Potemkin\u201d (1925) s\u00e3o s\u00f3 alguns exemplos da presen\u00e7a infantil nas narrativas cinematogr\u00e1ficas das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Ao longos dos tempos, as crian\u00e7as foram ganhando espa\u00e7o e protagonizando suas hist\u00f3rias. Ainda assim, vemos muitos filmes em que meninos e meninas protagonistas figuram mais como uma \u201cpaisagem de inf\u00e2ncia\u201d. Daria para dizer que est\u00e3o t\u00e3o grandes na telona quanto distantes da ess\u00eancia infantil.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os cineastas que nos levaram ao universo da inf\u00e2ncia pelas aventuras e desventuras de pequenos protagonistas \u2013 Carlos Saura, Abbas Kiarostami, Fran\u00e7ois Truffaut, Louis Malle, Theodoros Angelopoulos, Roberto Rossellini, Walter Salles, Guillermo Del Toro, Ingmar Bergman, Wes Anderson e tantos outros. Ou, como diria Andrei Tarkovski, diretor dos cl\u00e1ssicos \u201cA Inf\u00e2ncia de Ivan\u201d (1962) e \u201cO Espelho\u201d (1975), n\u00e3o \u00e9 exatamente um retorno \u201cao territ\u00f3rio perdido da inf\u00e2ncia\u201d, pois \u201ctalvez nunca tenhamos sa\u00eddo dele\u201d.<\/p>\n<p>Retorno ou n\u00e3o ao \u201cterrit\u00f3rio perdido da inf\u00e2ncia\u201d, o cinema estabelece pontes entre o universo adulto e o mundo da crian\u00e7a. \u00c9 a arte que nos desafia a ver o quanto nos distanciamos desse outro que tamb\u00e9m j\u00e1 fomos. Lan\u00e7a um olhar atento para a crian\u00e7a, que tamb\u00e9m nos olha. Para o cr\u00edtico Andr\u00e9 Bazin, o olhar da crian\u00e7a \u201cnos enfrenta (&#8230;), nos interroga, nos interpela, pede resposta muitas vezes\u201d. E diz isso muitas vezes entre sil\u00eancios.<\/p>\n<p>Segundo Sonia Krammer, no pref\u00e1cio do livro \u201cA Inf\u00e2ncia Vai ao Cinema\u201d, encontramos na telona \u201cora um outro modo de conhecer as crian\u00e7as, ora a express\u00e3o do mundo da maneira como as crian\u00e7as veem, escutam e experimentam, ora um olhar infantil que pode ajudar a compreender o mundo e a subvert\u00ea-lo\u201d.<\/p>\n<p>Subverter o mundo. Eis uma das imagens mais fortes da inf\u00e2ncia no cinema. Um filme que bem ilustra tal quest\u00e3o \u00e9 \u201cZero de Conduta\u201d (1933), uma poesia selvagem do cineasta franc\u00eas Jean Vigo que virou maldito e ficou proibido de ser exibida na Fran\u00e7a at\u00e9 1946. Emblem\u00e1tico, o filme \u00e9 considerado uma das poucas obras com olhar realmente subversivo para a inf\u00e2ncia; dificilmente seria feito nos dias de hoje. E tem as cenas de mais pura poesia subversiva da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O filme traz um grupo de quatro meninos \u2013 Caussat, Bruel, Colin e Tabard, alter ego de Vigo \u2013 que se rebela contra o sistema repressivo e as r\u00edgidas regras de um col\u00e9gio interno franc\u00eas em um dia festivo. Numa atmosfera surreal, os meninos s\u00e3o bem sucedidos na rebeli\u00e3o e triunfam no telhado, numa cena que parece que v\u00e3o al\u00e7ar voo. O mesmo voo que representa a \u00e2nsia de de liberdade de Billy Casper, protagonista de \u201cKes\u201d.<\/p>\n<p><center><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/92987708?byline=0&amp;portrait=0\" width=\"900\" height=\"675\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/center>Que o cinema continue nos \u201cemprestando\u201d os olhos das crian\u00e7as para que a gente possa enxergar melhor o mundo \u2013 e, claro, a subvert\u00ea-lo.<\/p>\n<div><i>Texto: Gabriela Romeu, que, em parceria com Adriana Costa, desenvolveu a oficina Imagen\u00e1rio da Inf\u00e2ncia, que estreou na Ciranda de Filmes, em 2016, e segue circulando com outras discuss\u00f5es sobre cinema e inf\u00e2ncia. Nas imagens abaixo, um registro do encontro.<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/oficina1.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/oficina2_1.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intensa \u00e2nsia por liberdade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4272,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,50],"tags":[],"class_list":["post-4269","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2016"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4269"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4269\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4273,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4269\/revisions\/4273"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}