{"id":4266,"date":"2016-08-10T19:30:49","date_gmt":"2016-08-10T22:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4266"},"modified":"2021-08-25T19:34:01","modified_gmt":"2021-08-25T22:34:01","slug":"representacoes-infantis-nas-artes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/representacoes-infantis-nas-artes\/","title":{"rendered":"Representa\u00e7\u00f5es infantis nas artes"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, s\u00e9culo 18. Entre a popula\u00e7\u00e3o escrava que crescia com os navios negreiros que incessantemente cruzavam o Atl\u00e2ntico, as crian\u00e7as representavam dois entre cada dez cativos. Algumas eram doadas ao nascer; outras, j\u00e1 no fim da inf\u00e2ncia, vendidas. Com alt\u00edssima taxa de mortalidade infantil, a maioria morria antes de completar cinco anos de idade. E aquelas que persistiam enfrentavam a orfandade.<\/p>\n<p>Se em muitos estudos as crian\u00e7as s\u00e3o n\u00fameros, ainda que contextualizados, na exposi\u00e7\u00e3o \u201cHist\u00f3rias da Inf\u00e2ncia\u201d, no Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (Masp), meninos e meninas ganham corpo, cara e tamb\u00e9m voz, em diferentes tempos e espa\u00e7os. Numa incurs\u00e3o por muitas inf\u00e2ncias \u2013 a das crian\u00e7as do per\u00edodo Colonial, de povos ind\u00edgenas, dos far\u00f3is das cidades grandes \u2013, a exposi\u00e7\u00e3o constr\u00f3i uma ideia de inf\u00e2ncia por meio da arte e mostra como as crian\u00e7as foram representadas ao longo de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Assim como Philippe Ari\u00e8s, pesquisador franc\u00eas que fez uma radiografia da inf\u00e2ncia a partir da Idade M\u00e9dia a partir das imagens (ou falta delas) representadas na arte pict\u00f3rica, a exposi\u00e7\u00e3o leva o espectador a tecer ideias de inf\u00e2ncia por meio das 200 obras expostas, organizadas por sete eixos tem\u00e1ticos \u2013 maternidade, escola, fam\u00edlia, brincadeiras e morte, por exemplo \u2013 e dispostas na altura do olhar das crian\u00e7as visitantes, estabelecendo um di\u00e1logo entre inf\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Fotografias, pinturas, v\u00eddeos e esculturas de artistas diversos como Renoir, Van Gogh e Portinari s\u00e3o misturadas a desenhos feitos pelas crian\u00e7as, \u201cdesrespeitando hierarquias e territ\u00f3rios\u201d, como bem define um dos textos curatoriais. Tal postura rapidamente nos remete a uma l\u00facida provoca\u00e7\u00e3o do modernista Mario de Andrade, que n\u00e3o s\u00f3 colecionou desenhos infantis, como fez importantes leituras a partir dessas cria\u00e7\u00f5es: \u201cPrimeiro: n\u00f3s n\u00e3o damos import\u00e2ncia ao que o menino faz. Acha-se gra\u00e7a e apenas. Segundo: damos import\u00e2ncia por demais ao que os g\u00eanios catalogados fazem. Acha-se importante e guarda-se.\u201d<\/p>\n<p>A ideia de inf\u00e2ncia \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social e varia conforme a \u00e9poca e a sociedade. Segundo Ari\u00e8s, at\u00e9 o s\u00e9culo XII, a arte medieval desconhecia a inf\u00e2ncia. Homens miniaturizados, sem nenhum tra\u00e7o de inf\u00e2ncia, muitas vezes faziam as vezes das crian\u00e7as nas obras, num tempo em que nasciam e morriam, \u201cn\u00e3o sem tristeza, mas sem desespero\u201d, como escreveu d\u00e9cadas depois o humanista Montaigne (1533-1592). A ordem, definiu o fil\u00f3sofo, era \u201cn\u00e3o reconhecer nas crian\u00e7as nem movimento na alma, nem forma reconhec\u00edvel no corpo\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3 l\u00e1 pelo s\u00e9culo XIII \u00e9 que surgem representa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as um pouco mais pr\u00f3ximas do sentimento moderno. Como a teologia acompanhar\u00e1 a representa\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia por muito tempo, um dos modelos mais recorrentes na arte pict\u00f3rica \u00e9 o do Menino Jesus, \u201cancestral de todas as crian\u00e7as pequenas na hist\u00f3ria da arte\u201d. Vestido com camisolas ou enrolado em cueiros, tal representa\u00e7\u00e3o ganha tamb\u00e9m destaque na exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali, entre as imagens que tratam dos temas natividade e maternidade, est\u00e3o tamb\u00e9m fotografias que trazem as amas de leite negras com crian\u00e7as brancas no colo, \u201cuma face supostamente rom\u00e2ntica das escravid\u00e3o\u201d, da \u201cm\u00e3e negra dadivosa\u201d. S\u00e3o retratos an\u00f4nimos, pouco sabemos quem s\u00e3o essas mulheres que cuidam de pequenos senhores cujas identidades s\u00e3o geralmente reveladas.<\/p>\n<p>Ao adentrar a exposi\u00e7\u00e3o, a contraposi\u00e7\u00e3o de obras provoca o olhar do espectador. Assim, uma pintura de duas meninas brancas, bochechas rosadas e vestidos de babados est\u00e1 disposta ao lado de uma fotografia de dois meninos negros, descal\u00e7os e trajando sungas num piscin\u00e3o.<\/p>\n<p>Com gritante dist\u00e2ncia social entre as crian\u00e7as retratadas, a primeira imagem \u00e9 \u201cRosa e Azul\u201d, as irm\u00e3s Alice e Elizabeth, filhas do banqueiro Cahen d\u2019Anvers, representadas com do\u00e7ura na pintura de Renoir. J\u00e1 a fotografia (Sem T\u00edtulo, da s\u00e9rie Bras\u00edlia Teimosa), com os dois meninos de olhares convincentes, \u00e9 de B\u00e1rbara Wagner. Apartadas de modo temporal, as duas imagens t\u00eam muito a revelar sobre o exerc\u00edcio de ser crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Percorremos a inf\u00e2ncia do nascimento \u00e0 morte, tema que traz a emblem\u00e1tica obra \u201cCrian\u00e7a Morta\u201d (1944), de C\u00e2ndido Portinari, al\u00e9m de \u201cO Enterro\u201d, de Jose Pancetti, e \u201cCemit\u00e9rio Cai\u00e7ara\u201d (1989), do fot\u00f3grafo Araqu\u00e9m Alc\u00e2ntara. Mais uma vez dialogando com o vi\u00e9s hist\u00f3rico da obra de Ari\u00e8s, representa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as mortas, em retratos colocados em t\u00famulos, come\u00e7am a surgir por volta do s\u00e9culo XVI. \u00c9 um marco na hist\u00f3ria dos sentimentos relacionados \u00e0 inf\u00e2ncia, cujos altos \u00edndices de mortalidade banalizavam sua (in)exist\u00eancia por muito tempo.<\/p>\n<p>A partir do s\u00e9culo XVII, as crian\u00e7as passam a ser retratadas sozinhas, como na obra \u201cRetrato de John Walter [ou Wharton] Tempest\u201d (1779-80), de George Romney, que traz um menino-cavaleiro com vestes nobres. Ao seu lado, um outro menino, de um outro tempo, uma outra inf\u00e2ncia: a fotografia de \u201cVendedor de Amendoim\u201d (1990), de Luiz Braga. S\u00e3o muitos os retratos que nos revelam as crian\u00e7as em poses que encaram o espectador, \u00e0s vezes de forma mais pueris, \u00e0s vezes mais inquisidoras.<\/p>\n<p>No eixo educa\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o, ganha destaque a obra \u201cO Escolar\u201d (1888), de Van Gogh, mas nosso olhar \u00e9 facilmente atra\u00eddo para uma fotografia em preto e branco que tem um menino de cal\u00e7as curtas de castigo, virado para um canto da sala de aula. A escola nasce com o surgimento da inf\u00e2ncia, e a representa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o escolar como lugar das regras e das puni\u00e7\u00f5es se contrap\u00f5em aos momentos livres, de brincar, nos espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as ind\u00edgenas, com corpos nus pintados, sendo \u201ceducadas\u201d (\u201cdomesticadas\u201d?) na mesma ideia de escola, com carteiras, cadernos e l\u00e1pis, parecem pouco se encaixar ao sistema na fotografia \u201cEscola Kayap\u00f3\u201d (1991), de Milton Guran.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as nos fitam. Est\u00e3o na s\u00e9rie \u201cCrian\u00e7as de A\u00e7\u00facar\u201d, de Vik Muniz, feitas com filhos de trabalhadores das planta\u00e7\u00f5es de cana do Caribe; na on\u00edrica \u201cMenino-anjo\u201d (1963), de Maurren Bisilliat; num retrato an\u00f4nimo de Dom Pedro II, imobilizado pelas vestes nada apropriadas para seu corpo de menino.<\/p>\n<p>Numa das paredes da exposi\u00e7\u00e3o, entre obras de dimens\u00f5es agigantadas e entre uma diversidade de olhares para a inf\u00e2ncia, uma caixinha de Rochelle Costi, \u201cIntimidades \u2013 A Vesga Sou Eu\u201d (1984), pode passar despercebida. Mas ela sintetiza de forma po\u00e9tica e metaf\u00f3rica esse tempo-menino de muitas representa\u00e7\u00f5es. \u00c9 um invent\u00e1rio de pequenos restos e nadas \u2013 bot\u00f5es, fotografias, fitas de cetim \u2013 da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><i>Texto: Gabriela Romeu<\/i><\/p>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/Untitled-2.png\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mostra &#8220;Hist\u00f3rias da Inf\u00e2ncia&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4268,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,50],"tags":[],"class_list":["post-4266","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2016"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4266","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4266"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4267,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4266\/revisions\/4267"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}