{"id":4263,"date":"2016-09-29T19:23:38","date_gmt":"2016-09-29T22:23:38","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4263"},"modified":"2021-08-25T19:24:19","modified_gmt":"2021-08-25T22:24:19","slug":"mestres-de-muitos-cantos-todos-de-um-so-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/mestres-de-muitos-cantos-todos-de-um-so-rio\/","title":{"rendered":"Mestres de muitos cantos, todos de um s\u00f3 rio"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 tem um tempo que a terceira Ciranda girou, soprando not\u00edcias de mestres em tempos de incerteza. Mestres versados de muitos saberes \u2013 do ch\u00e3o e do sil\u00eancio, do gesto e do brincar, do barro e do tempo, da palavra e da imagem. Eram artes\u00f5es, estudiosos, gri\u00f4s, cineastas, cantadores, educadores, meninos e av\u00f3s, todos juntos, numa roda s\u00f3. Vieram de muitos cantos, falando muitas l\u00ednguas, mas todos navegando por um mesmo rio que margeia mem\u00f3rias, gentes e cidades.<\/p>\n<p>E chegaram com o vento do mais tenebroso inverno, no document\u00e1rio-di\u00e1rio\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/92-Todo-o-Tempo-do-Mundo\">\u201cTodo o Tempo do Mundo\u201d<\/a>, avisando que a natureza ensina na pedagogia da solid\u00e3o. Brotaram na rela\u00e7\u00e3o afetuosa entre crian\u00e7as e velhos, no singelo curta\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/94-Ba\">\u201cBa\u201d<\/a>. Nasceram nas m\u00e3os de saberes ancestrais das ceramistas do Vale do Jequitinhonha (MG), retratadas em\u00a0<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/96-Do-Po-da-Terra\">\u201cDo P\u00f3 da Terra\u201d<\/a>. Viajaram pelas paisagens folcl\u00f3ricas, em expedi\u00e7\u00f5es etnogr\u00e1ficas empreendidas pelo modernista Mario de Andrade (<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/140-Mario-e-a-Missao\">\u201cM\u00e1rio e a Miss\u00e3o\u201d<\/a>).<\/p>\n<p>Entre as diversas sess\u00f5es de longas e curtas, de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, a Ciranda girou em viv\u00eancias que tinham como suporte a lousa, deslocada de sua posi\u00e7\u00e3o vertical tradicional, ou que tinha como linguagem o barro, mestre de saberes ancestrais. Na extensa programa\u00e7\u00e3o, as inspira\u00e7\u00f5es emergiram de uma delicada instala\u00e7\u00e3o com mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia do p\u00fablico, assim como tamb\u00e9m da singela exposi\u00e7\u00e3o com brinquedos de Seu Paulo, \u201cdaqueles meninos que insiste em envelhecer o corpo carregando sua inf\u00e2ncia pelo tempo\u201d.<\/p>\n<p>As incertezas feitas em ensinamentos tamb\u00e9m giraram nas tr\u00eas rodas de conversa, que elegeram o homem, a natureza, a cidade e a arte como pot\u00eancias de maestria. E assim, em tardes em que o ouvir pediu licen\u00e7a ao olhar, j\u00e1 t\u00e3o encantado pelas imagens refletidas nas telonas, reuniram-se mestres de saberes ancestrais, tradicionais e contempor\u00e2neos, incluindo lideran\u00e7a ind\u00edgena, artes\u00e3 da palavra cantada, coletivo que faz arte no meio urbano, educador-questionador e artistas de m\u00faltiplas linguagens.<\/p>\n<p>Ailton Krenak inaugurou a roda de conversa \u201cMediador de Mundos\u201d lembrando que a palavra \u201cciranda\u201d j\u00e1 \u00e9 uma \u201cgrande convocat\u00f3ria\u201d. E Krenak, nesse chamado do cirandar, evocou seu maior mestre, \u201ca intang\u00edvel entidade que \u00e9 a natureza\u201d, for\u00e7a manifesta das correntezas aos corguinhos (no seu jeito mineiro de dizer c\u00f3rrego pequeno). \u201cA natureza me ensinou o sentido de liberdade\u201d, disse com sua voz maviosa a lideran\u00e7a ind\u00edgena, que iniciou a prosa com um pequeno \u201cflash de sua alma de menino\u201d, assim como os demais proseadores da Ciranda, como a artes\u00e3 mineira Lira Marques e o educador portugu\u00eas Jos\u00e9 Pacheco.<\/p>\n<p>Os mestres todos \u2013 a natureza, as artes, as gentes \u2013 foram sendo lembrados nas rodas como numa grande colcha de pensamentos tecidos e entrela\u00e7ados. Assim, a ancestralidade do povo de Krenak (hoje, 350 indiv\u00edduos) foi relembrada pela pot\u00eancia de Beatriz Goulart, mais que urbanista e arquiteta, durante a prosa \u201cMaestria do Ch\u00e3o\u201d. \u201cEssa ancestralidade a gente vai perdendo na cidade. Como eu escuto o som do rio que passa enterrado?\u201d, disse Beatriz, que aprendeu a ouvir o ch\u00e3o em perguntas como \u201cpara onde venta?\u201d e \u201conde \u00e9 que chove?\u201d.<\/p>\n<p>Ch\u00e3o de asfalto, a \u201ccidade \u00e9 a maior obra humana\u201d, complementou Joana Zatz, do coletivo Contrafil\u00e9, que sempre transita entre a pr\u00e1tica e a reflex\u00e3o no entrecruzar do urbano, da arte e da pol\u00edtica. \u201cA cidade \u00e9 viva. A maior obra de arte do homem \u00e9 a cidade, que \u00e9 uma obra que a gente faz para viver dentro. Ent\u00e3o, nesse sentido, a cidade n\u00e3o est\u00e1 pronta, n\u00e3o est\u00e1 acabada. O urbano \u00e9 o l\u00e1 fora, \u00e9 o asfalto, \u00e9 o pr\u00e9dio? N\u00e3o. O urbano \u00e9 uma for\u00e7a viva, somos n\u00f3s produzindo o urbano, assim como o espa\u00e7o p\u00fablico.\u201d<\/p>\n<p>Nesse di\u00e1logo tramado entre rodas, a bailarina e core\u00f3grafa Georgia Lengos lembrou que gente \u00e9 tamb\u00e9m natureza. E o rio evocado l\u00e1 no come\u00e7o nas palavras de saberes remotos de Krenak desaguou tamb\u00e9m em sua fala: \u201cTemos que pensar que a gente \u00e9 barro e que l\u00e1 dentro tem um rio\u201d. Diretora da companhia Balangandan\u00e7a, ela falou do ser humano como um c\u00edrculo vibrat\u00f3rio de movimento, \u201cessa forma circular que est\u00e1 presente no sol e na lua\u201d, e que nasce no \u201cmovimento el\u00e9trico de um espermatozoide\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que em tr\u00eas rodas, os nove proseadores estavam todos na mesma ciranda. A crian\u00e7a estava sempre l\u00e1, no centro. Uma das proseadoras, a mais que urbanista Beatriz Goulart, em suas reflex\u00f5es sobre cidade, escola e crian\u00e7a, definiu trouxe uma defini\u00e7\u00e3o certeira sobre inf\u00e2ncia: \u201cs\u00edmbolo da afirma\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cmet\u00e1fora da cria\u00e7\u00e3o do pensamento\u201d, \u201csem temporalidade linear\u201d, a partir da perspectiva do fil\u00f3sofo argentino Walter Cohan.<\/p>\n<p>Poeticamente, a Ciranda terminou com uma despedida da inf\u00e2ncia. Da inf\u00e2ncia de Maria Fabrislene, rainha do reisado em seu \u00faltimo ano de reinado em<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/98-Meninos-e-Reis\">\u00a0\u201cMeninos e Reis\u201d<\/a>, e de um menino que sonha intensamente em ser palha\u00e7o e trapezista debaixo da lona armada em seu quintal (<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/br\/filme\/123-Jonas-e-o-Circo-Sem-Lona\">\u201cJonas e o Circo\u201d<\/a>). Dois filmes que retratam ritos de passagem. Mas era fim e tamb\u00e9m recome\u00e7o, tal qual anunciado nos versos de Ferreira Gullar para \u201cO Trenzinho Caipira\u201d (Heitor Villa Lobos), m\u00fasica tema desta terceira edi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<div>\u201cL\u00e1 vai o trem com o menino<\/div>\n<div>L\u00e1 vai a vida a girar<\/div>\n<div>L\u00e1 vai ciranda e destino<\/div>\n<div>Cidade noite a girar<\/div>\n<div>L\u00e1 vai o trem sem destino<\/div>\n<div>Pro dia novo encontrar<\/div>\n<div>Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar<\/div>\n<div>Cantando pela serra do luar<\/div>\n<div>Correndo entre as estrelas a voar<\/div>\n<div>No ar, no ar, no ar&#8230;\u201d<\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Texto: Gabriela Romeu<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<p><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/_T02.png\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center>&nbsp;<\/p>\n<p><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/_T03_1.png\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><br \/>\n<i>Fotos: Aline Arruda<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E a terceira Ciranda girou&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4265,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,50],"tags":[],"class_list":["post-4263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2016"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4263"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4264,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4263\/revisions\/4264"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}