{"id":4238,"date":"2015-05-25T18:39:45","date_gmt":"2015-05-25T21:39:45","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4238"},"modified":"2021-08-25T18:40:09","modified_gmt":"2021-08-25T21:40:09","slug":"sobre-instancias-criadoras-da-imaginacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/sobre-instancias-criadoras-da-imaginacao\/","title":{"rendered":"Sobre inst\u00e2ncias criadoras da imagina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div>Gandhy Piorski \u00e9 uma dessas pessoas dedicadas ao profundo infantil. Artista, escritor e pesquisador das inf\u00e2ncias, de suas linguagens, s\u00edmbolos e imagin\u00e1rio, ele tem uma experi\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o de anos nesta pesquisa. Al\u00e9m de diversos projetos, ele est\u00e1 escrevendo um livro que ser\u00e1 publicado em breve e outro que j\u00e1 est\u00e1 em produ\u00e7\u00e3o. Gandhy tamb\u00e9m colabora em diferentes iniciativas, como o Projeto\u00a0<a href=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/br\/filme\/76-Territorio-do-Brincar\">Territ\u00f3rio do Brincar<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Fizemos uma prosa com ele sobre a inf\u00e2ncia, o seu sentido de corporeidade e moradia, a rela\u00e7\u00e3o da natureza como interioridade e pot\u00eancia criativa, a express\u00e3o pol\u00edtica e cultural da inf\u00e2ncia, espa\u00e7os compartilhados e muitas outras coisas. Compartilhamos aqui a preciosidade dos pensamentos e reflex\u00f5es do nosso querido convidado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Gandhy participou da Roda de conversa: Crian\u00e7a e Natureza, na Ciranda 2015,\u00a0com a Rita Mendon\u00e7a e o Ricardo Ghelman.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Ciranda:<\/b>\u00a0Conte um pouco de sua pesquisa e dedica\u00e7\u00e3o em torno da inf\u00e2ncia e suas linguagens. Quais s\u00e3o seus novos planos e produ\u00e7\u00f5es como artista pl\u00e1stico, pesquisador e escritor?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Gandhy Piorski\u00a0<\/b>\u00a0<b>:\u00a0<\/b>Por um per\u00edodo estive inteiramente voltado para crian\u00e7as e natureza. No universo natural. Estive em diversos lugares do interior, em comunidades tradicionais, em litorais, serras e sert\u00e3o. Assim alguns anos transcorreram. Isso tudo se transformou em uma exposi\u00e7\u00e3o inaugural sobre os 4 elementos no brincar. Tamb\u00e9m semin\u00e1rios, palestras e caminhos est\u00e9ticos outros como colabora\u00e7\u00e3o com o cinema, com o filme\u00a0<a href=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/br\/filme\/76-Territorio-do-Brincar\">Territ\u00f3rio do Brincar<\/a>\u00a0(Renata Meirelles e David Reeks) e as artes visuais com curadoria de exposi\u00e7\u00f5es e colabora\u00e7\u00e3o com companhias de dan\u00e7a como a Balangandan\u00e7a (projeto Ninhos \u2013 Georgia Lengos) e etc.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas crian\u00e7a e natureza inquieta muito as pessoas. A pergunta recorrente, era e \u00e9: como ficam as crian\u00e7as das grandes cidades? Essa inquieta\u00e7\u00e3o n\u00e3o para de nascer entre as pessoas que acompanham o trabalho. Assim voltei-me para um projeto em busca de apontamentos sobre a natureza, a crian\u00e7a e a cidade. Ent\u00e3o esse \u00e9 o trabalho mais recente. Estamos atuando em diversas camadas de narrativas das crian\u00e7as na cidade de Fortaleza. At\u00e9 agora s\u00e3o dois projetos. No primeiro trabalhamos por um per\u00edodo de 3 meses com 1200 crian\u00e7as. Chamamos de Sal\u00e3o de Artes da Crian\u00e7a. Uma esp\u00e9cie de ateli\u00ea livre, aberto, angariando o dizer das crian\u00e7as da cidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/img-ciranda-01.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><\/div>\n<div><\/div>\n<div><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/img-ciranda-02.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><\/div>\n<div><\/div>\n<div><center><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/img-ciranda-03.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/center><\/p>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O segundo est\u00e1 acontecendo de agora at\u00e9 outubro. Estamos atuando em 6 regi\u00f5es da cidade, junto a escolas p\u00fablicas e periferias. S\u00e3o festivais de ludicidade, cria\u00e7\u00e3o livre e constru\u00e7\u00e3o. Sair\u00e1 da\u00ed um outro amplo acervo de narrativas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com isso temos constru\u00eddo novos caminhos de discuss\u00e3o. Esse novo repert\u00f3rio j\u00e1 virou exposi\u00e7\u00e3o, semin\u00e1rio, palestra, e outros novos caminhos que est\u00e3o a surgir. O pr\u00f3ximo projeto \u00e9 sempre uma emenda do anterior. \u00c9 sempre um caminho de rastrear coisas de crian\u00e7a. Essa arqueologia n\u00e3o tem fim. Tudo indica que ser\u00e1 por mais interiores do Brasil e das crian\u00e7as.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De escritos tem um livro pronto para ser publicado em breve e um segundo em constru\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Ciranda:\u00a0<\/b>Voc\u00ea acha que a rela\u00e7\u00e3o do adulto com a inf\u00e2ncia tem um sentido de respeito, mas tamb\u00e9m de controle? A prote\u00e7\u00e3o absoluta adv\u00e9m deste sentido de controle? Como poder\u00edamos colocar a inf\u00e2ncia no centro de uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e s\u00edmb\u00f3lica, com sua gra\u00e7a e pot\u00eancia, como sujeito e for\u00e7a de si mesmo? Como a arte e o l\u00fadico pode ter rela\u00e7\u00e3o com isso?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Gandhy:\u00a0<\/b>O controle tornou-se o sentido hegem\u00f4nico de nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Haja visto toda a prioridade dada \u00e0 vis\u00e3o, \u00e0 visualidade, \u00e0 visibilidade desde o advento da chamada modernidade. O olhar hegem\u00f4nico e toda enxurrada de imagens artificiais que vivemos \u00e9 anseio de controle.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Imaginemos ent\u00e3o: o que transborda disso para uma cultura da educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as? Dimens\u00f5es \u00e9ticas e cognitivas sofreram dr\u00e1sticas mudan\u00e7as neste percurso do culto \u00e0 visualidade. Enfraquecemos o senso de moradia, de corporeidade, de espacialidade, de tato, de natureza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Imaginemos novamente: o que \u00e9 a crian\u00e7a sem senso de moradia, de corporeidade, de espacialidade (cidade, comunidade), de tato e de natureza?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o se sabe mais do que se protege as crian\u00e7as. Se da vida ou de amea\u00e7as. N\u00e3o se sabe mais o que \u00e9 amea\u00e7a e o que \u00e9 vida. Vida \u00e9 lida muitas vezes como amea\u00e7a; amea\u00e7a est\u00e1 confundida com vida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Certamente a participa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e pol\u00edtica das crian\u00e7as n\u00e3o poder\u00e1 ser no \u00e2mbito discursivo e institucional. Est\u00e1 mais para a po\u00e9tica das mat\u00e9rias in\u00fateis (Manoel de Barros),do fazer livre, para uma ontologia do brincar, mais para uma meta-cultura dos gestos e onomatopeias.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A arte \u00e9 vernacular na crian\u00e7a. Usada sem pudor. Como que silvestre, livre. Usada n\u00e3o como arte, pois a crian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 interessada em fazer arte, mas usada como seu c\u00f3digo natural de express\u00e3o. A sem\u00e2ntica da crian\u00e7a tem aura est\u00e9tica. Justamente por ser sem\u00e2ntica do ser.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Gilbert Durand em sua antropologia do imagin\u00e1rio diz que toda mem\u00f3ria de inf\u00e2ncia \u00e9 imediatamente uma obra de arte, pois \u00e9 nostalgia do ser. E a linguagem do ser \u00e9 cometida perenemente do simb\u00f3lico, do intuitivo, do premonit\u00f3rio, da anuncia\u00e7\u00e3o de novos caminhos. As crian\u00e7as, em especial at\u00e9 os 5 anos de idade, s\u00e3o como os grandes artistas, premonizam o mundo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O mais perigoso nisso tudo \u00e9 que em quase totalidade de nossa civiliza\u00e7\u00e3o, com poucas exce\u00e7\u00f5es, pode-se encontrar muitas coisas nos pedagogos, mas uma coisa que pouco se encontra \u00e9 senso e fazer est\u00e9tico desenvolvidos. Raro \u00e9 encontrar nesses trabalhadores que carregam pesados fardos, percep\u00e7\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o simb\u00f3licas apuradas e imagina\u00e7\u00e3o criadora nutrida. Eis um dos abcessos!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. A cultura midi\u00e1tica a todo vapor fazendo coisas como bem entende para crian\u00e7as, o entretenimento como o inquestion\u00e1vel intorpecente e as pobres fam\u00edlias exauridas de correr atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo, ou da salsicha dependurada no final da esteira.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Contudo, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver que novos caminhos est\u00e3o nascendo&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Ciranda:<\/b>\u00a0Comente um pouco sobre sua pesquisa e o como ela est\u00e1 profundamente ligada na rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com a natureza. a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de significados, a for\u00e7a do imagin\u00e1rio da natureza que potencializa o sujeito, a sua produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e de significados&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Gandhy<\/b>: As pessoas costumam perguntar: seu trabalho \u00e9 sobre o que as crian\u00e7as fazem na natureza, mas e as crian\u00e7as da cidade? Essa pergunta \u00e9 muito fortemente vinculada ao n\u00f3 dos tempos do fabrico, da t\u00e9cnica, da ind\u00fastria, da desmaterializa\u00e7\u00e3o do fazer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o sabemos mais, n\u00e3o reconhecemos mais que somos natureza. A natureza \u00e9 um l\u00e1 fora.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E justamente \u00e9 esse o objetivo do meu estudo, aproximar as crian\u00e7as daquilo que somos. E o que somos pode ser uma resposta vasta (do tamanho de tudo o que se fez at\u00e9 hoje), ou talvez nem ter resposta. Entretanto, antes de tudo, somos natureza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Assim, nessa pesquisa, a busca das fontes do reino animal, vegetal e mineral no homem, na crian\u00e7a, tem uma base. Est\u00e1 naquilo que Bachelard chamou do quarto reino da natureza: a imagina\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nela as potencialidades da vida natural est\u00e3o gravadas, o que precisamos aprender \u00e9 acion\u00e1-las. E resolvi aprender como acion\u00e1-las com as crian\u00e7as. Elas sabem muito bem viver a capacidade que a imagina\u00e7\u00e3o tem de criar caminhos de ordenamento interior e reequil\u00edbrio. Deixam a imagina\u00e7\u00e3o trabalhar, deixam essa cogni\u00e7\u00e3o e sensitividade an\u00edmica modular estados de ser.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Estas modula\u00e7\u00f5es podem se materializar em brinquedos, em mat\u00e9rias primas retiradas do mundo natural. Ganham forma, podem ser lidas. Podem at\u00e9 ser mapeadas. Tenho percebido apontamentos para uma cartografia da imagina\u00e7\u00e3o no brincar. Uma pedagogia de horm\u00f4nios simb\u00f3licos despertos pelo contato com as mat\u00e9rias da natureza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Brinquedos livres, constru\u00eddos pelas crian\u00e7as, s\u00e3o tratados dos estados de interioridade. S\u00e3o rastros de tatilidade ancestra, de anseios primitivos, de sonhos recorrentes desde o mais antigo rumor de humanidade na terra. Nosso corpo tem mem\u00f3ria, nossas c\u00e9lulas, nosso psiquismo. Mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 biogr\u00e1fica, mas mem\u00f3ria dos antepassados que n\u00e3o conhecemos, mem\u00f3ria geol\u00f3gica, cosmol\u00f3gica. Nosso corpo necessita de espa\u00e7o e lugar para tudo isso habitar e sentir. Isso dizem esses pequenos ensaios de materialidade do brincar com a natureza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o eles espelhos de ranhuras inscritas na crian\u00e7a, em sua interioridade e biologia, em sua tessitura de mem\u00f3rias, em sua corporeidade. Podem ser ativadas pelo brincar. S\u00e3o pot\u00eancias guardadas em inst\u00e2ncias criadoras da imagina\u00e7\u00e3o. S\u00e3o dep\u00f3sitos de expans\u00e3o e abertura do ser. Janelas novas de conhecimento, valora\u00e7\u00e3o, cogni\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para acompanhar o trabalho de Gandhy,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pages\/Gandhy-Piorski\/1403737743171439?fref=ts\">o acompanhe no facebook.<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espa\u00e7os po\u00e9ticos da inf\u00e2ncia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4239,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,49],"tags":[],"class_list":["post-4238","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2015"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4238","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4238"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4238\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4240,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4238\/revisions\/4240"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}