{"id":4209,"date":"2015-08-11T18:14:58","date_gmt":"2015-08-11T21:14:58","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/?p=4209"},"modified":"2021-08-25T18:17:06","modified_gmt":"2021-08-25T21:17:06","slug":"para-saber-passarinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/para-saber-passarinhos\/","title":{"rendered":"Para saber passarinhos"},"content":{"rendered":"<div><i>por Gabriela Romeu<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div>A tarde virou uma \u201cmanh\u00e3 desabrochada a p\u00e1ssaros\u201d. A plateia, um coro de passarinhos. O palestrante, um brincante \u2013 ou maestro de um concerto de corujas, cucos, gralhas, quero-queros e bem-te-vis. Assim foi inaugurada a segunda roda de conversas da Ciranda de Filmes, que reuniu o educador Marcos Ferreira Santos (nosso maestro), a artista pl\u00e1stica e curadora Stela Barbieri, a tamb\u00e9m educadora Maria Am\u00e9lia Pereira, a P\u00e9o, e a cineasta Fernanda Heinz Figueiredo para uma prosa sobre espa\u00e7os de aprendizagem.<\/div>\n<p>A imagem dos p\u00e1ssaros bem sintetiza o encontro, que rompeu os muros da escola j\u00e1 nas lembran\u00e7as e experi\u00eancias do aprender-viver dos quatro palestrantes \u2013 leia mais na biografia escolar (ou contra-escolar) descrita abaixo. A natureza, como espa\u00e7o de aprendizagem fundamental \u00e0 inf\u00e2ncia, foi uma constante em toda a prosa (e em muitos versos). De que adiantam os conte\u00fados escolares se j\u00e1 n\u00e3o sabemos mais passarinhos?<\/p>\n<p>Ainda evocando os p\u00e1ssaros, o professor de mitologia comparada tirou da mochila sua flauta andina e espalhou na sala uma sonoridade que parece ao mesmo tempo t\u00e3o longe e t\u00e3o perto de todos n\u00f3s. Resgatou as imagens de um dos filmes exibidos no festival \u2013 \u201cO Menino e o Mundo\u201d. Na premiada anima\u00e7\u00e3o de Al\u00ea Abreu, um menino pequenino e saltitante segue o som de uma flauta que foi plantado em seu quintal e em seu cora\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 em busca da figura paterna. \u201cEssa flauta tamb\u00e9m me acompanha por muito tempo\u201d, conta Marcos, que foi alfabetizado pelo pai na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do sonho foi instaurada e tamb\u00e9m percorreu todas as falas. \u201cTodas as comunidades tradicionais amer\u00edndias ou afro-brasileiras se pautam pelo sonho. O sonho define quem voc\u00ea vai ser, o que vai fazer na comunidade. Qual \u00e9 o \u00fanico povo que n\u00e3o se pauta pelo sonho? O ocidental. Pra mim, o \u2018dream is over\u2019 n\u00e3o \u00e9 over nada. Tudo come\u00e7a com um sonho\u201d, enfatizou o educador. \u201cA grande d\u00edvida que temos com a ancestralidade \u00e9 sermos n\u00f3s mesmos.\u201d<\/p>\n<p>Como que nos embalando em sua cadeira de balan\u00e7o, Stela Barbieri teceu imagens sobre cinema, imagina\u00e7\u00e3o e aprendizagem. A cadeira de balan\u00e7o surge algo singular na inf\u00e2ncia de Stela, que brinca ao dizer que o melhor que sabe fazer \u00e9 \u201cbalan\u00e7ar\u201d. No delicado balan\u00e7o de sua voz maviosa, falou do mist\u00e9rio do cinema. \u201cQuando a gente senta nessa cadeira e mergulha no filme, o tempo para, voc\u00ea entra num outro tempo. O cinema \u00e9 a arte que mais se aproxima da imagina\u00e7\u00e3o, a gente imagina em movimento. O cinema nos embala e alimenta nossa imagina\u00e7\u00e3o e nosso sonho.\u201d<\/p>\n<p>A aprendizagem, segundo Stela, tem um balan\u00e7o entre o \u201cdeixar ser e ao mesmo tempo ajudar a ser\u201d. \u201cTalvez tenham assistido ao filme\u00a0<a href=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/br\/filme\/7-Birth-Story-Ina-May-Gaskin-And-The-Farm-Midwives\">\u2018Birth Story\u2019<\/a>\u00a0[exibido na Ciranda de Filmes]. Fico pensando que a parteira deixa o nen\u00ea nascer e ao mesmo tempo o ajuda a nascer. O educador tamb\u00e9m tem esse papel.\u201d<\/p>\n<p>O educador, segundo Maria Am\u00e9lia Pereira, a P\u00e9o, necessita beber na fonte da poesia. Fundadora da Casa Redonda, \u00e9 nesse espa\u00e7o de viver a inf\u00e2ncia que P\u00e9o diz se formar dia a dia como educadora. \u00c9 uma eterna aprendiz. \u201cQuem vem me formando como educadora s\u00e3o na verdade os poetas, que est\u00e3o mais perto dos sonhos e das crian\u00e7as. As crian\u00e7as s\u00e3o tamb\u00e9m pequenos poetas porque, diante delas, a cada dia um mist\u00e9rio se revela.\u201d<\/p>\n<p>P\u00e9o enfatizou que o ser humano \u00e9 um aprendiz nato. \u201cHerdamos esse mundo para uma grande aventura, que \u00e9 a aventura da consci\u00eancia. O trajeto humano se inicia na crian\u00e7a, no qual o brincar \u00e9 a linguagem primeira. O brincar \u00e9 a linguagem da espontaneidade, da imprevisibilidade, da disponibilidade, de um movimento de a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tem nenhum car\u00e1ter utilit\u00e1rio, um tem que, um fa\u00e7o isso para que\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Atenta observadora da alma infantil, a educadora conta que no cotidiano com as crian\u00e7as os aprendizados brotam em cada gesto, em muitos encontros e di\u00e1logos. S\u00e3o incr\u00edveis relatos de percep\u00e7\u00f5es de vida, como a hist\u00f3ria de uma crian\u00e7a que, quieta e envolta na areia do tanque da Casa Redonda, disse aos amigos que a importunavam: \u201cSer\u00e1 que n\u00e3o posso nem morrer tranquila?\u201d. P\u00e9o nos leva por suas reflex\u00f5es: \u201cAquela crian\u00e7a estava entregue a sua ess\u00eancia misteriosa. Por isso \u00e9 preciso ter cuidado, respeito a essas horas sagradas do brincar. E s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es que a gente pode interferir de uma forma inadequada se n\u00e3o descobre o sil\u00eancio diante da crian\u00e7a que brinca\u201d.<\/p>\n<p>Numa fala contundente, a educadora chamou aten\u00e7\u00e3o para o erro de separar o espa\u00e7o da natureza de um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o do humano. \u201cEstamos vivendo um momento de profunda desconex\u00e3o com a natureza e por isso estamos adoecendo. O problema do homem foi se desconectar da natureza, ali est\u00e1 o ch\u00e3o da crian\u00e7a.\u201d E deixou seu recado para os educadores: \u201c\u00c9 preciso dar \u00e0 inf\u00e2ncia o direito humano de brincar e de pisar na terra com tranquilidade. A falta da natureza \u00e9 uma viol\u00eancia contra o ser humano\u201d.<\/p>\n<p>Foi numa escola que potencializa tamb\u00e9m o humano que cresceu brincando e aprendendo a documentarista Fernanda Heinz Figueiredo, diretora do filme\u00a0<a href=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/br\/filme\/27-Sementes-do-Nosso-Quintal\">\u201cSementes do Nosso Quintal\u201d<\/a>. No corpo vivido na Te-Arte, como Fernanda costuma dizer, dialogou intensamente com a natureza. A cineasta conta que, quase tr\u00eas d\u00e9cadas depois de estudar (ou melhor, brincar) na Te-Arte, retorna \u00e0 escola carregando sua filha ca\u00e7ula, Gaia, aos oito meses, no colo. Na m\u00e3o, uma c\u00e2mera. Queria fazer um filme que resgatasse tamb\u00e9m sua hist\u00f3ria de menina.<\/p>\n<p>Foram quatro anos para produzir o longa-metragem, que teve pr\u00e9-estreia na Ciranda de Filmes. Nesse processo, descobriu que o desafio era mostrar que muitos paradigmas a serem derrubados na educa\u00e7\u00e3o eram j\u00e1 exercitados e vividos na sua escola de inf\u00e2ncia. \u201cNo roteiro, a gente tentou refletir um processo de experi\u00eancia. Falamos de paradigmas que precisamos quebrar, como o de seguran\u00e7a, que bloqueia a apropria\u00e7\u00e3o do corpo, e o de higiene, que impede que a gente tenha contato com a natureza.\u201d<\/p>\n<p>No dizer de Marcos, a documentarista mostrou forte voca\u00e7\u00e3o tecel\u00e3, uma verdadeira Ariadne, \u201cessa senhora do labirinto\u201d. \u201cEla nos d\u00e1 o fio narrativo para que agente entre no cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. E n\u00e3o h\u00e1 como negar, o cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia est\u00e1 no centro do labirinto, tem um minotauro l\u00e1 dentro. Voc\u00ea \u00e9 quem tem que enfrentar esse minotauro, com suas fraquezas e idiossincrasias. E a Fernanda faz isso ao retratar a vida das crian\u00e7as com um cine-olho respeitoso, que n\u00e3o olha de cima, e cheio de cumplicidade\u201d, aponta o educador.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Abaixo, um breve biografia escolar dos palestrantes dessa roda de conversa.<\/p>\n<p><b>Marcos Ferreira Santos<\/b><br \/>\n<i>(Professor de mitologia comparada da USP, pedagogo e arte-educador)<\/i><br \/>\nEm sua \u201cbiografia contra-escolar\u201d, Marcos Ferreira Santos conta que foi alfabetizado pelo pai. Come\u00e7ou a ler aos seis anos nos livros escolhidos pelo pai meio que por intui\u00e7\u00e3o \u2013 S\u00f3crates, literatura chinesa, mitologia, socialismo. Ao chegar \u00e0 escola, logo aprendeu a primeira li\u00e7\u00e3o: deveria ficar calado. Seguiu calado pelas s\u00e9ries seguintes. Descobriu outros espa\u00e7os de aprendizagem na vida \u2013 no teatro, no movimento anarquista, na m\u00fasica andina de imigrantes chilenos e bolivianos, em muitos sebos. O ch\u00e3o da f\u00e1brica no ABC paulista, onde come\u00e7ou a trabalhar aos nove anos, foi outra escola. Com um mestre chileno, descobriu Pablo Neruda e Violeta Parra, ouviu falar sobre temas como autonomia ind\u00edgena, repress\u00e3o, ditaduras militares. Com tal \u201chist\u00f3rico escolar\u201d, ele conta que talvez, por vingan\u00e7a, seja hoje uma tentativa de educador.<\/p>\n<p><b>Stela Barbieri<\/b><br \/>\n<i>(Artista pl\u00e1stica, curadora educacional da Funda\u00e7\u00e3o Bienal de S\u00e3o Paulo, escritora e contadora de hist\u00f3rias)<\/i><br \/>\nL\u00e1 na Araraquara da inf\u00e2ncia da Stela Barbieri, existia uma cadeira de balan\u00e7o. Stela balan\u00e7ava em sua cadeira e fazia bolos de terra. Balan\u00e7ava em sua cadeira e corria atr\u00e1s das galinhas. Balan\u00e7ava em sua cadeira e constru\u00eda cabanas e muitos outros mundos. O mundo todo passava ali, s\u00f3 naquele balan\u00e7o. Mais do que a escola, parece que essa cadeira de balan\u00e7o foi uma verdadeira incubadora de ideias, pra toda uma vida.<\/p>\n<p><b>Maria Am\u00e9lia Pereira (P\u00e9o)<\/b><br \/>\n<i>(Pedagoga, fundadora e orientadora do Centro de Estudos Casa Redonda)<\/i><br \/>\nCriada na Salvador dos anos 40 e 50, teve o mar como um grande brinquedo. A praia, com todas as suas gentes, como um importante espa\u00e7o de aprendizagem, um horizonte aberto. A escola, ainda jardim da inf\u00e2ncia, ficava pertinho do mar. Pura sorte da menina e de seus castelos de areia. Hoje, na Casa Redonda, a areia do brincar vem da praia \u2013 e n\u00e3o do rio. \u00c9 que areia do mar tem sal, d\u00e1 liga. Areia de rio \u00e9 escorregadia. Sabe quem vivenciou no corpo. Assim, h\u00e1 tempos define a natureza como espa\u00e7o de aprendizagem fundamental para a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><b>Fernanda Heinz Figueiredo<\/b><br \/>\n<i>(Diretora do filme\u00a0<a href=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/br\/filme\/27-Sementes-do-Nosso-Quintal\">\u201cSementes do Nosso Quintal\u201d\u00a0<\/a>e cocuradora da Ciranda de Filmes)<\/i><br \/>\nFernanda Heinz Figueiredo conta que tudo sendo tecido e acreditado. Na ch\u00e1cara do av\u00f4, no viveiro de plantas dos pais, na sua primeira escola, a Te-arte. Quando perguntavam qual era sua religi\u00e3o, sempre respondia com convic\u00e7\u00e3o: a natureza. Essa certeza vem da paz ao cuidar das plantas, das brincadeiras com girinos e barquinhos nos laguinhos de escalava as \u00e1rvores da ch\u00e1cara, de ouvir o sil\u00eancio absoluto preenchido pela sinfonia dos sapos e insetos not\u00edvagos, de se enlamear no campinho da te-arte ou pelo fasc\u00ednio exercido pelo sangue das galinhas rec\u00e9m-sacrificadas para as festas juninas da escola. N\u00e3o sabe ao certo, mas tudo ficou ali guardado de maneira intensa. Continua respondendo que sua religi\u00e3o \u00e9 a natureza. Sementes do Nosso Quintal, seu primeiro longa, comunga com essa ideia.<\/p>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>Na foto,\u00a0Maria Am\u00e9lia Pereira, a P\u00e9o\u00a0na Ciranda de 2014 &#8211; fotografia de: Aline Arruda<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cirandadefilmes1.hospedagemdesites.ws\/_img\/_banco_imagens\/destaque-home_para-saber-passarinhos_1000.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ciranda 2014: Espa\u00e7os de aprendizagem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4213,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,48],"tags":[],"class_list":["post-4209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2014"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4209"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4214,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4209\/revisions\/4214"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}