{"id":3617,"date":"2020-10-28T12:03:11","date_gmt":"2020-10-28T15:03:11","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/?p=3617"},"modified":"2021-08-30T18:53:21","modified_gmt":"2021-08-30T21:53:21","slug":"a-magia-nao-pode-ser-reproduzida-em-serie-diz-o-cineasta-helvecio-ratton","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/a-magia-nao-pode-ser-reproduzida-em-serie-diz-o-cineasta-helvecio-ratton\/","title":{"rendered":"\u201cA magia n\u00e3o pode ser reproduzida em s\u00e9rie\u201d, diz o cineasta Helv\u00e9cio Ratton"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Renata Penzani<\/p>\n\n\n\n<p><em>Homenageado da Ciranda Cirandinha de Filmes, o pai do Menino Maluquinho das telonas defende o cinema anticonsumo e as hist\u00f3rias que tratam as crian\u00e7as de igual para igual&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Franz Kafka, Walt Disney, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. O que esses nomes t\u00eam em comum? A voca\u00e7\u00e3o para contar hist\u00f3rias. Na cabe\u00e7a de Helv\u00e9cio Ratton, eles se tornam ingredientes de uma mistura sempre urgente: a fic\u00e7\u00e3o e a vida. &#8220;O que me interessa no fant\u00e1stico \u00e9 quando ele se encontra com o cotidiano&#8221;, ele afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 verdade que a arte \u00e9 aquilo que \u201cnunca termina de dizer o que tem para dizer\u201d &#8212; como bem disse o escritor \u00cdtalo Calvino &#8211;, Ratton, do alto de seus 71 anos e uma extensa trajet\u00f3ria f\u00edlmica, est\u00e1 a\u00ed para testemunhar esse fato. Ou melhor, aqui. O diretor e roteirista \u00e9 o homenageado da Ciranda Cirandinha de Filmes 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, que afirma estar bastante feliz com a homenagem, a honra dessa celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 sua obra est\u00e1 no fato de que tanto a mostra quanto os trabalhos que ele j\u00e1 produziu compartilham a mesma opini\u00e3o sobre a crian\u00e7a: o de que ela precisa ser respeitada em sua intelig\u00eancia, sua sensibilidade, seus medos e fragilidades. Para falar sobre isso, ele cunhou dois termos que se contrap\u00f5em: \u201cespectador de luxo\u201d e \u201cconsumidor de lixo\u201d. Para ele, a crian\u00e7a est\u00e1 no primeiro grupo, mas muitas vezes \u00e9 tratada como se fosse o segundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Autor de um dos cl\u00e1ssicos infantis mais incontorn\u00e1veis da filmografia brasileira, o longa \u201cO menino maluquinho\u201d (1995) de obras memor\u00e1veis do audiovisual brasileiro, como Dan\u00e7a dos bonecos (1986) e \u201cUma onda no ar\u201d (2002), ele conversou com a gente sobre fazer cinema no Brasil pand\u00eamico, sobre o fant\u00e1stico, a fic\u00e7\u00e3o e a inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua fala, entrecortada pela ang\u00fastia de todo artista que se v\u00ea incumbido do desafio de reinventar meios para existir em meio ao desmonte do aparato cultural do pa\u00eds, o cineasta continua criando, e se apega ao essencial: \u201ctoda obra \u00e9 sonho, n\u00e9?\u201d, ele confabula. A resposta s\u00f3 poderia ser sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma sensibilidade en\u00e9rgica que celebra a arte sem deixar de criticar o que dela perdemos quando nos condicionamos a um olhar mercadol\u00f3gico, ele afirma que \u201ccinema infantil n\u00e3o \u00e9 para vender nada para a crian\u00e7a, \u00e9 para contar uma hist\u00f3ria\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de mais nada, o problema est\u00e1 no nome, segundo o diretor. Ele rejeita o pr\u00f3prio termo \u201cinfantil\u201d na hora de categorizar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica dirigida \u00e0s crian\u00e7as. \u00c0 frente da produtora Quimera Filmes, ao lado de sua parceira Simone Matos, conhecida por realizar o que ele chama de \u201ccinema para todos\u201d, ele parece concordar em tudo com a escritora Ana Maria Machado, quando ela defendia que, quando o assunto \u00e9 arte, o que importa mesmo \u00e9 o substantivo, e n\u00e3o o adjetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu tenho muito pouca atra\u00e7\u00e3o pelos adjetivos. O Drummond dizia isso sempre, quando ficava na d\u00favida entre um adjetivo e outro, colocava um substantivo. E eu penso assim tamb\u00e9m\u201d, diz. Assim, o que se convencionou chamar de &#8220;cinema infantil&#8221; seria, na verdade, aquele cinema que inclui tamb\u00e9m a crian\u00e7a, mas n\u00e3o s\u00f3. \u201cQuem faz um filme, tem que se relacionar com a plateia inteira, para que aquele filme seja uma viagem compartilhada entre o adulto e a crian\u00e7a. Por isso eu sempre pensei mais em filmes para ver com as crian\u00e7as do que em filmes para crian\u00e7as\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cinema para sonhar, n\u00e3o para consumir<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das cria\u00e7\u00f5es mais famosas de Helv\u00e9cio, e tamb\u00e9m seu primeiro filme, \u00e9 o longa-metragem \u201cA dan\u00e7a dos bonecos\u201d (1986). Produzido pelo Grupo Novo de Cinema e TV, o filme \u00e9 um marco na carreira do cineasta, n\u00e3o s\u00f3 por ter sido premiado no Brasil e no exterior dentre as melhores produ\u00e7\u00f5es para a inf\u00e2ncia e a juventude, mas tamb\u00e9m por representar a preocupa\u00e7\u00e3o de quem come\u00e7ou a fazer cinema dito \u201cinfantil\u201d para oferecer \u00e0s filhas ainda pequenas alternativas ao audiovisual norte-americano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu sentia que eram produ\u00e7\u00f5es mal cuidadas, que tinham muito mais interesse em vender produtos derivados dos filmes para as crian\u00e7as do que de fato contar uma hist\u00f3ria para elas. Isso deixa de tratar a crian\u00e7a como um espectador de luxo para trat\u00e1-la como consumidora de lixo\u201d, explica o diretor.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria do longa em quest\u00e3o, tr\u00eas bonecos de uma menina chamada Ritinha s\u00e3o roubados por um artista saltimbanco, at\u00e9 que acabam indo parar nas m\u00e3os de um fabricante de brinquedos. Estava j\u00e1 a\u00ed uma das fa\u00edscas que acendem o trabalho de Ratton: a preocupa\u00e7\u00e3o em colocar o cinema como arte, ou seja, como produto da fantasia e do sonho de algu\u00e9m, e n\u00e3o do sistema econ\u00f4mico-capitalista. \u201cA magia n\u00e3o pode ser reproduzida em s\u00e9rie, n\u00e3o se fabrica industrialmente\u201d, defende Ratton.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu entrei no realismo fant\u00e1stico por causa dos meus filmes infantis&#8221;, conta o cineasta. \u201cA magia \u00e9 algo que me encanta. Mas eu gosto dela integrada a um contexto realista, de cotidiano da gente. Acho que ela surpreende muito mais quando funciona dessa maneira. Por isso eu me sinto mais pr\u00f3ximo do universo do Kafka do que de Garc\u00eda M\u00e1rquez. Um lugar onde n\u00e3o \u00e9 o absurdo que choca, mas sim a condi\u00e7\u00e3o do absurdo naquele contexto\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um Brasil de meninos imposs\u00edveis<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cMaluquinho estreou h\u00e1 25 anos e nunca mais parou de ser visto\u201d. \u00c9 assim que Helvecio define a pot\u00eancia da hist\u00f3ria do \u201cmenino que tinha o olho maior que a barriga, fogo no rabo e vento nos p\u00e9s\u201d, como diz o texto de Ziraldo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quarent\u00e3o, o personagem foi conquistando novas gera\u00e7\u00f5es de forma ininterrupta, e est\u00e1 mais jovem do que nunca, nesses tempos que parecem clamar por um retorno \u00e0 simplicidade das ruas de paralelep\u00edpedo onde se pode brincar de bente altas. Com sua caracter\u00edstica panela na cabe\u00e7a, o que o menino mais famoso do cinema brasileiro teria a nos dizer hoje?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma das primeiras cenas do filme, quando o pai e a m\u00e3e do personagem s\u00e3o convocados \u00e0 escola por conta de uma travessura de Maluquinho, o zelador e a varredora do p\u00e1tio parecem anunciar essa tal de inf\u00e2ncia e sua eterna rela\u00e7\u00e3o com o bagun\u00e7ar das coisas. \u201cAinda n\u00e3o se acostumaram com as artes do menino\u201d, ela diz. \u201c\u00c9 por isso que ele \u00e9 assim: um menino imposs\u00edvel\u201d &#8211; responde o zelador. Triste \u00e9 pensar que, hoje em dia, as crian\u00e7as no Brasil ainda precisam guardar em outro lugar sua impossibilidade de ser: na viol\u00eancia urbana, no trabalho infantil, no retrato da desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O filme \u201cO menino Maluquinho\u201d ser\u00e1 exibido n<a href=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandinha\/home\/\">a Ciranda Cirandinha de Filmes<\/a>. Ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 um bate-papo com o diretor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Inspirado no livro hom\u00f4nimo do escritor Ziraldo &#8212; cuja primeira edi\u00e7\u00e3o, publicada em 1980, completa 40 anos em 2020 &#8211;, o filme \u00e9 um marco afetivo e um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional. O longa atravessou gera\u00e7\u00f5es, mantendo firme sua atualidade como um s\u00edmbolo do \u201cmenino que todos sonhamos em ter sido\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 as quatro d\u00e9cadas de vida do Maluquinho de Ziraldo ser\u00e1 celebrada em grande estilo, com uma <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CGpqIGGgLsm\/\">reedi\u00e7\u00e3o especial<\/a> do livro pela editora Melhoramentos, com textos sobre o livro, curiosidades sobre o autor e sobre a trajet\u00f3ria internacional da obra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"754\" height=\"566\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/menino_maluquinho_foto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3627\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/menino_maluquinho_foto.jpg 754w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/menino_maluquinho_foto-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 754px) 100vw, 754px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Tanta comemora\u00e7\u00e3o em torno de um enredo t\u00e3o aparentemente prosaica n\u00e3o \u00e9 sem motivo. Se f\u00f4ssemos investigar os porqu\u00eas, chegar\u00edamos n\u00e3o a uma, mas a m\u00faltiplas justificativas, como a universalidade do tema, a simplicidade da narrativa, o humor, a identifica\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com os personagens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De todos os diversos motivos metidos a explicadores, no entanto, ficamos aqui com a afirma\u00e7\u00e3o que Helv\u00e9cio soltou nesta entrevista \u00e0 Cirandinha: \u201cEssa inf\u00e2ncia de anos atr\u00e1s se transformou numa esp\u00e9cie de inf\u00e2ncia imagin\u00e1ria. A for\u00e7a do filme vem da\u00ed tamb\u00e9m, em situar a inf\u00e2ncia no lugar da imagina\u00e7\u00e3o\u201d. Isso porque o Maluquinho retratado no cinema representa uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo da crian\u00e7a ideal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, Maluquinho tem uma fam\u00edlia presente, um teto seguro, acesso \u00e0 escola, conv\u00edvio social saud\u00e1vel e, principalmente, liberdade de ser. Essa realidade protegida e confort\u00e1vel ainda \u00e9 privil\u00e9gio de minorias no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Helv\u00e9cio, \u00e9 como se essa inf\u00e2ncia que pode brincar na rua, descer ladeiras de carrinho de rolem\u00e3 e contar com o olhar atento dos vizinhos para zelar pelo seu bem-estar tivesse ficado congelada em uma utopia poss\u00edvel apenas em outros tempos. Como diz a can\u00e7\u00e3o-tema do filme, de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, \u201co tempo do Menino Maluquinho \u00e9 um tempo que existe s\u00f3 na inf\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ideia principal dessa hist\u00f3ria \u00e9 mostrar que o Maluquinho se tornou um adulto legal porque teve uma inf\u00e2ncia feliz, ent\u00e3o, o que o filme faz \u00e9 contar como foi essa inf\u00e2ncia. Mais do que uma adapta\u00e7\u00e3o do livro, o filme \u00e9 um complemento dele\u201d, afirma Helv\u00e9cio, abrindo as brechas para pensar que crian\u00e7a \u00e9 essa que encontramos neste Brasil 2020, t\u00e3o marcado por viol\u00eancias de diversas naturezas contra a inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, a viol\u00eancia sexual infantil est\u00e1 no centro do projeto que Helv\u00e9cio estava desenvolvendo pr\u00e9-pandemia. Ainda em fase de desenvolvimento, trata-se da adapta\u00e7\u00e3o de uma novela gr\u00e1fica chilena chamada \u201cNo abuses de este libro\u201d, de autoria de Natichuleta. O enredo \u00e9 sobre uma menina abusada sexualmente pelo padrasto dos 8 aos 12 anos. Ap\u00f3s process\u00e1-lo na justi\u00e7a, contra a vontade m\u00e3e, ela consegue dar a volta por cima, e resolve se vingar dele contando a hist\u00f3ria em uma HQ. \u201cEla cria uma super-hero\u00edna que invoca nos momentos de abuso. Ou seja, na imagina\u00e7\u00e3o, ela tem o problema resolvido, mas, na realidade, n\u00e3o\u201d, conta o cineasta. Ratton trabalhou na roteiriza\u00e7\u00e3o do projeto baseado no livro, chamado \u201cS\u00f3 n\u00e3o posso dizer o nome\u201d. O filme ainda n\u00e3o foi rodado.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o mais recente de Helv\u00e9cio Ratton est\u00e1 em cartaz na <a href=\"https:\/\/44.mostra.org\/\">Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo<\/a>, o longa-metragem \u201c<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CGsyipKlNZ0\/\">O lodo<\/a>\u201d, realizado pela Quimera Filmes. Dirigido ao p\u00fablico adulto, o filme trabalha a linguagem do realismo fant\u00e1stico para acompanhar a jornada de um homem sozinho e sem filhos que se v\u00ea mergulhado na pr\u00f3pria banalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para 2021, a plataforma de streaming Netflix anunciou uma <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/Bwu9B7rg7v8\/\">s\u00e9rie animada<\/a> com novas aventuras do personagem Menino Maluquinho, com realiza\u00e7\u00e3o da produtora Chatrone.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A literatura e o cinema<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje a proximidade de Helv\u00e9cio Ratton com a literatura. Al\u00e9m de \u201cO menino Maluquinho\u201d, outros trabalhos seus s\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es de obras liter\u00e1rias. \u00c9 o caso de \u201cAmor &amp; Cia\u201d, baseado no livro \u201cAlves &amp; Companhia\u201d, de E\u00e7a de Queir\u00f3s, e at\u00e9 mesmo de \u201cBatismo de sangue\u201d, inspirado no livro de mesmo nome de Frei Betto &#8211; este \u00faltimo mais um relato de experi\u00eancia do que uma leitura liter\u00e1ria; um retrato da ditadura militar brasileira nos anos 60 e 70.<\/p>\n\n\n\n<p>Colecionador de hist\u00f3rias em quadrinhos, ele se diz um apaixonado por essa outra forma de arte sequencial, diferente do cinema, e deposita na literatura a exclusividade de contar algumas hist\u00f3rias. Para ele, algumas adapta\u00e7\u00f5es, mais do que dif\u00edceis, s\u00e3o mesmo imposs\u00edveis, como Guimar\u00e3es Rosa, que ele exemplifica. \u201cTem algo espec\u00edfico da linguagem da literatura que \u00e9 intraduz\u00edvel. H\u00e1 o lugar da literatura, e ele \u00e9 \u00fanico\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAt\u00e9 mais do que o cinema, a literatura \u00e9 a melhor forma de contar hist\u00f3rias. O que a crian\u00e7a acha que est\u00e1 faltando ali, \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o dela que completa. Isso vale tamb\u00e9m para os filmes: n\u00e3o podemos preencher completamente a imagina\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, mas sempre deixar um espa\u00e7o para que ela possa continuar no imagin\u00e1rio dela\u201d, diz Helv\u00e9cio. Questionado sobre qual \u00e9 o seu filme infantil preferido de todos os tempos, ele cita \u201cO m\u00e1gico de Oz\u201d (1939), adapta\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico liter\u00e1rio infantil de Frank Baum, \u201cThe wonderful wizard of Oz\u201d (1900).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"620\" height=\"466\" src=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/oz.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3628\" srcset=\"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/oz.jpg 620w, https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/oz-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A pandemia que empobrece a inf\u00e2ncia<\/h2>\n\n\n\n<p>Pai e av\u00f4, Helv\u00e9cio conclui a conversa com a Ciranda de Filmes mencionando o impacto da pandemia no processo de socializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento das crian\u00e7as. Do alto de quem j\u00e1 viu de perto uma inf\u00e2ncia que brinca solta na cal\u00e7ada de casa, ele se preocupa com as consequ\u00eancias desses primeiros anos de vida vividos entre telas e aparatos tecnol\u00f3gicos. \u201cO isolamento tem sido muito duro para as crian\u00e7as. A perda do brincar junto \u00e9 algo muito s\u00e9rio. O fato de que elas s\u00f3 t\u00eam usado tablets, celulares e computador para se relacionar com os outros est\u00e1 empobrecendo muito a vida\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia a que se refere Helv\u00e9cio parece ser inimiga da fabula\u00e7\u00e3o e da magia, que tanto engrandecem a nossa humanidade adormecida. Quando o assunto \u00e9 o v\u00edrus que parou o mundo todo em 2020, n\u00e3o custa lembrar que \u201cvirulento\u201d, dentro e fora dos dicion\u00e1rios, continua sendo sin\u00f4nimo do que tamb\u00e9m \u00e9 violento. Apesar de tudo, \u201cO Menino Maluquinho\u201d, \u201cA Dan\u00e7a dos Bonecos\u201d e muitos outros de seus filmes-convite continuam em seu eterno posto de inventores de futuro na Hist\u00f3ria viva do audiovisual brasileiro. S\u00e3o eles que nos lembram que, se hoje as coisas n\u00e3o est\u00e3o como gostar\u00edamos, bom mesmo \u00e9 continuar sonhando. E \u201ctudo o que \u00e9 bom \u00e9 brincadeira\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renata Penzani Homenageado da Ciranda Cirandinha de Filmes, o pai do Menino Maluquinho das telonas defende o cinema anticonsumo e as hist\u00f3rias que tratam as crian\u00e7as de igual para igual&nbsp; Franz Kafka, Walt Disney, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. O que esses nomes t\u00eam em comum? A voca\u00e7\u00e3o para contar hist\u00f3rias. Na cabe\u00e7a de Helv\u00e9cio Ratton, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4073,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mo_disable_npp":"","footnotes":""},"categories":[2,9],"tags":[],"class_list":["post-3617","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2020"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3617"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4198,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3617\/revisions\/4198"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4073"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/cirandacirandinha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}