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Meu primeiro cinema: uma conversa com Alemberg Quindins

Por Mayara Penina

Você se lembra da primeira vez que foi ao cinema? Alemberg Quindins, fundador da Fundação Cultural da Casa Grande, contou sua relação com a arte desde criança.

“Meu nome é Alemberg Quindins, eu nasci no Cariri, uma região entre Pernambuco, Paraíba, Piauí e o Ceará, ao sul da Chapada do Araripe. Um território que chamamos de Cariri porque existia um povo chamado Cariri”, assim se apresenta Francisco Alemberg Quindins, produtor cultural, multiartista e fundador da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem do Kariri. Nesta conversa com a Ciranda Cirandinha de Filmes, ele compartilhou sua história com a sétima arte, como a primeira vez em que viu um filme nas telonas e como criou seu próprio cinema em sua cidade, aos nove anos. 


Foi com uma vizinha em Nova Olinda (CE), contadora de lendas e histórias, que Alemberg aprendeu a imaginar. “Ela era descendente de Cariri e me levava pra casa dela, ou melhor, eu ia até a casa dela porque eu gostava de ir lá. Ela pegava uma estatueta de madeira e começava a contar a história do povo Cariri”, relembra. Ali, Alemberg tinha certeza que conseguia ver o que a vizinha contava. Para ele, o cinema começou aí: por meio de “uma boca falando e uma língua imaginando”. Desde aquela época, o menino Alemberg Quindins aprendeu a sonhar.

De Nova Olinda, se mudou com o pai e o irmão em busca de outro chão e foi parar em Miranorte (TO), entre o rio Tocantins e o rio Araguaia. No novo endereço, a família conheceu o Cine Bandeirante, onde iam aos fins de semana. Ir ao cinema era um evento importante, que exigia uma preparação: “Meu pai botava música na vitrola enquanto a gente ficava tomando banho. A trilha ia tocando enquanto as crianças da cidade iam tomar banho”.

Foi no Cine Bandeirantes, em 1974, a primeira vez que Alemberg passou pela experiência mágica de estar numa sala escura cheia de imaginação. E tudo parecia realmente mágico: “o dinheiro do pai pra gente comprar um suspiro, que era docinho e que derretia na boca, a banquinha que a família botava pra vender bombom, a fila pra entrar com ingresso, uma parede onde tinha uns cartazes, aqueles posterzinhos promocionais mostrando cenas do filme que você via antecipadamente, as cortinas vermelhas com as franjas bordadas, as luzes ao lado e duas placas vermelhas assim dizendo ‘Não Fume’ e ‘Silêncio’. Aquilo era o cinema!”.

“O primeiro filme que assisti foi em 3D”

Naquele dia, o filme exibido no Cine Bandeirantes, visto por Alemberg foi “Sansão e Dalila” com Victor Mature, Angela Lansbury e Hedy Lamarr, um clássico do cinema hollywoodiano. “Quando abriu a cortina e começou aquela imagem rodando, eu me transportei para dentro do cinema. O primeiro filme que eu assisti foi em 3D. Por que eu digo que foi em 3D? Porque quando muito mais pra frente apareceu o cinema 3D, eu constatei isso e digo: foi isso que eu vi! E nunca mais parei de sonhar!”.

Desde aquele dia, o encantamento não acabou, nem a vontade do Alemberg Quindins de descobrir o audiovisual mais e mais. Depois de um tempo, ele passou a ver os filmes de um jeito diferente. Enquanto os meninos olhavam pra tela, Alemberg via de costas. Ele queria entender como funcionava aquela mágica e de onde saía o jato de cor. Passou a investigar com os olhos de análise que só uma criança tem. “Eu comecei a observar que era um jato de luz que saía forte, que passava por uma tirinha de fotografia. No jato de luz, eu via aqueles fragmentos de poeira. Era como se fossem aqueles pontos de poeira que levassem a imagem daquela fita para tela. E também tinha o som. Ele ficava por de trás de uma cortina, a cortina não fechava toda porque fechava só pra descobrir a tela. Quando abriu aquilo ali, pra mim abriu o mágico, o portal do encantado. Eu disse pra mim mesmo: “Eu vou fazer cinema!”.

Meu próprio cinema, o cineminha do Beg

Foi ainda com nove anos que começaram os estudos autônomos de Alemberg em busca do sonho de ter o próprio cinema. Em casa, foram realizados vários testes com materiais diversos. Plástico, durex, desenhos de cenas em pincel, lanterna, e ainda não estava dando certo. Até que um dia, à noite, com o lampião aceso, percebeu sua imagem refletida na parede de frente para o objeto. “Eu me vi bem grande como se fosse a minha grande sombra. E aí eu vi que, quando eu mexia no lampião, a minha imagem se mexia sem mexer. Quando eu me aproximava da parede, eu diminuía. Quando eu me distanciava da parede e me aproximava do lampião, eu ficava maior. Aí eu disse: “É o cinema!”.

Foi numa caixa de madeira, com personagens, falas e trilha sonora criada por ele,  que nasceu o Cineminha do Beg. Muitos clássicos foram exibidos lá, como “Sansão e Dalila”, “O Ouro de Mackenna” e “O Dólar Furado”. As crianças vibravam! “Eu fico pensando hoje como era que eu prendia a meninada durante uma sessão de cinema todo”, relembra.

“Eu sempre quis ter um quarto de brinquedos quando era criança, esse quarto de brinquedos é a ‘Casa Grande’. Eu criei uma instituição em que as crianças são  gerentes, são diretores, é toda gerida por crianças. Isso foi o cinema que me deu. Essa é minha história”.


Clique aqui para conhecer melhor a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri. Veja também este papo em que Alemberg Quindins conta mais histórias do seu cineminha

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A escuta da Ciranda Cirandinha

por Luciana Ferreira Tavares, psicóloga e psicopedagoga, atua como psicóloga escolar e terapeuta colaboradora do Instituto Gestalt de Vanguarda Cláudio Naranjo

“Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias.” Eduardo Galeano

Como uma grande espectadora escutei as narrativas das crianças e adolescentes na mostra Ciranda Cirandinha de Filmes, uma iniciativa da Ciranda de filmes. Adentrei na proposta um pouco com o pé atrás de como seria conduzir essa roda de conversa de forma virtual e, para minha surpresa, foi lindo de se ver e de ouvir.

Afinal, criança é criança, adolescente é adolescente e cinema é sempre cinema. E com a mesma vivacidade, leveza, autenticidade, as trocas aconteceram, com direito a tudo o que envolve quando estamos imersos no universo do cinema e da infância.

Na primeira roda de conversa, com crianças até 6 anos, o curta escolhido foi Mitos indígenas em travessia. Apresentamos a temática e passamos o curta, solicitamos para as crianças fazerem um desenho do que mais chamou a atenção e abrimos espaço para a fala. Um espaço aberto, fenomenológico e sem roteiros.

Da narrativa das crianças, a forma como cada uma interagiu com as imagens e a história foi mágico: dos animais gigantes, do menino que virou peixe, as crianças disseram quais animais escolheriam ser: onça, peixe, tartaruga, gato, dragão entre tantos outros possíveis. Um imaginário a céu aberto, que contempla o mundo com olhos de infância. A cada fala, adentrávamos um pouco na visão de mundo de cada criança, das construções que estão tecendo em relação a vida, ao que escutam e ao que elaboram: do menino que queria ser peixe veio a crítica de como o ser humano não cuida da natureza, do tanto de plástico que jogam nos oceanos e de como as tartarugas estão morrendo. E do descontentamento, um manifesto foi sendo construído: Não joguem plástico nos rios, nós somos os oceanos! Os adultos, ou melhor dizendo, eu, fiquei tocada com a sabedoria das crianças e suas infinitas possibilidade de vir a ser já sendo, simplesmente crianças.

Desenho de Vinicius Matheus

No curta Dona Cristina perdeu a memória, fiquei sem palavras e uma lágrima escorreu imperceptivelmente na minha face. O curta por si só já é profundo e lindo, somado a narrativa trazida pelo grupo de adolescentes foi de uma poética avassaladora. Iniciaram suas narrativas timidamente, falando da memória e da saudade dos avós que já partiram, para adentrar a reflexões profundas sobre perdas, dores, cicatrizes e das superações que contribuíram para o que eles são hoje. Falaram das suas histórias de vida, dos fatos marcantes e das cicatrizes que são relíquias da memória. Os adolescentes foram tocados pela narrativa do curta e abriram suas memórias afetivas e nos presentearam como quem confia um tesouro a alguém. Guardei cada pérola recebida na minha memória, como uma relíquia, assim como Dona Cristina fez com suas histórias de vida. Fizemos do espaço da cirandinha uma grande roda da memória, com alegrias e tristezas, relembrando o que nos atravessa e nos transforma.

No terceiro curta, Viagem na chuva, mesmo que com um grupo menor de adolescentes, foi de uma riqueza cultural costurada com os sonhos das jovens. De imediato, a adolescente faz uma releitura do curta relacionando com um outro com uma riqueza de detalhes que me fez calar e ouvir. E ao falar do que o curta tocou, adentramos no campo dos sonhos que sonhamos e dos processos que acontecem neste universo interior que mora na cabeça de cada um de nós. Falar de sonhos sonhados e de sonhos desejados transcende qualquer discurso racional e promove a conversa para outro patamar imagético: da jornada do herói para a jornada do eu, falando do que cada uma sonhava para a vida. É sempre uma novidade onde as narrativas podem caminhar, não dá para prever aonde que vamos chegar, o final tem infinitas possibilidades de ser e a jornada é a grande delícia de vivenciar.

Agradecida pelo convite e pela jornada vivida, me sinto inspirada e nutrida pelo encontro entre as narrativas costuradas pelo eu, cinema e imaginário.

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A escuta-cura: curadores, curadorinhos, curandeirinhos

por Ataliba Benaim, gestalt-terapeuta, roteirista, documentarista e colaborador da Ciranda de Filmes

Como seria uma mostra de filmes curada pelo olhar das crianças? A indagação surgiu lá atrás, quando eu e minha comadre Fernanda Heinz (idealizadora e realizadora da Ciranda de Filmes, junto com Patricia Durães) nos encantamos pela obra de Javier Naranjo, poeta e mestre colombiano que se dedica a investigar e estimular a filosofia nata e sem filtros das crianças da escola onde é professor.

Entre outras publicações, Javier organizou a pérola literária “Casa das Estrelas”, na qual compilou afirmações espontâneas, poéticas e filosóficas de seus alunos (entre 4 e 12 anos) sobre os mais diversos temas.

Empolgadas com a ideia de construir esta edição da Mostra em parceria com as crianças, Fernanda e Patricia me convidaram para elaborar dinâmicas em que adolescentes e crianças pudessem testar algumas obras da programação antes de seu início oficial. E que, sobretudo, fossem estimulados a expressar as correlações entre os filmes e suas vidas.

Honrado com o desafio, propus que a ação (batizada de “Escuta Cirandinha”) fosse a terceira parceria entre a Ciranda de Filmes e o Instituto Gestalt de Vanguarda Cláudio Naranjo, que vem ampliando sua atuação em atendimentos sociais com adultos, adolescentes e crianças. Com isso, recebi de presente o reforço mais que especial da Luciana Tavares, que além de psicóloga especializada em terapia com crianças e adolescentes, é também uma das gestalt-terapeutas do Instituto, assim como eu.

Juntos e com a ajuda indispensável de educadores e responsáveis, propusemos às crianças e aos adolescentes três dinâmicas riquíssimas, cada uma com uma turma de idades, cidades e regiões diferentes do país. Nelas, todxs soltaram o verbo e a imaginação. (Conto mais detalhes dessas “Escutas” abaixo).

Tenho certeza que plantamos sementes que poderão ser germinadas em outras experimentações nos próximos anos.  Assim, seguimos praticando o exercício de escuta atenta às crianças, para podermos nos reconectar com a sabedoria perdida e avançar para o começo.

Cito e disponibilizo aqui outra experiência que fiz, também inspirada pela admiração que tenho no trabalho de Javier Naranjo: o curta metragem “Pequenos Filósofos, Grandes Verdades” –

1.ª Escuta_Criança e natureza, um pleonasmo evidente.

Já imaginou o que o realismo fantástico das lendas indígenas brasileiras podem nos ensinar sobre como nos relacionamos com a natureza?  Como toda mitologia que se desdobra no tempo, cabem nessas histórias toda a sorte de interpretações e analogias, que poderiam resultar em publicações interessantes e cabeçudas.

Mas e se a gente substituir antropólogos, indigenistas e mitólogos por crianças de 4 a 6 anos? Imagine. Sim, as subjetividade dos pequenos sobre essas lendas as fazem ainda mais instigantes e amplas.

Foi o que fizemos nesse primeiro encontro da “Escuta Cirandinha”, pautados pela deliciosa tarefa de ouvir os mais novos curadores, reunidos pela Maria de Lourdes Gomes da Silva, coordenadora do CEI Agostinho Pattaro de Campinas, SP

Diante da síntese infantil , meu vício pela elaboração racional é confrontado de forma aguda e sou convidado a lembrar que a intelectualização deveria exercer um papel coadjuvante se eu quiser viver e sentir mais a vida do que tentar entendê-la. 

Joaquim, Sol, Helena, Elisa, Felipe, Sophi, Bárbara, Maria Luisa e Giovana assistiram atentas as três primeiras histórias da animação “Mitos Indígenas em travessia” : “EMA – do  Kadiweu, o Menino-Peixe, do povo Kuikuru e As Mulheres Sem Rosto, do povo Javaé, todos da região centro-oeste do Brasil.

O resultado dessa prosa foi um caleidoscópio hipnotizante que me deixou num vazio fértil onde só brotou a convicção de que, se quero me reconectar verdadeiramente com a natureza, preciso avançar para o começo.

*Mitos indígenas em travessia

Animação, Brasil, 2019, 22 min. Dir. Julia Vellutini, Wesley Rodrigues

2a Escuta_Dona Cristina perdeu a memória e nós ganhamos esperança.

O segundo filme posto à prova dos olhares atentos dos pequenos curadores foi um curta-metragem que tem nada menos que Jorge Furtado como um de seus roteiristas.

“Dona Cristina Perdeu a memória” foi assistido e debatido pela turma de 12 a 14 anos da professora Neimara Ramos Américo dos Santos, da Escola Estadual Ivens Vieira, da cidade de Angatuba-SP.

A síntese entre complexidade e simplicidade que o roteiro do filme propõe, foi captada em cheio pela Corina, Luana, Mariana, Vinicius, Karolina, Tiago, Vinicius Matheus e Bruno Henrique, que teceram várias observações sobre a história de amizade entre uma senhora com Alzheimer e um garoto curioso de 8 anos.

O curta da Casa de Cinema de Porto Alegre joga com a construção e a perda de memória, com o começo e o final da vida e sugere como esse espelhamento entre infância velhice pode se refletir em símbolos que nos questionam em qual fase da vida estamos e o que estamos fazendo desta fase.

Me marcou bastante quando, por exemplo, Vinicius percebeu-se equilibrando alegria e tristeza ao mesmo tempo durante o filme e esta experiência o conectou com histórias de superação pelas quais passou em sua breve vida de 13 anos. Pra mim, foi um recado de como sentimentos contraditórios são férteis se pudermos aceitar o diálogo entre eles.

*Dona Cristina Perdeu a Memória.

Drama, Brasil, 2002, 13 min. Dir. Ana Luiza Azevedo

3a Escuta_Viagens oníricas com meninas do Cariri.

O terceiro encontro da “Escuta Cirandinha” foi uma viagem com as meninas Ana Letícia e Ana Luísa, da Fundação Casa Grande, do Cariri, Ceará. A viagem-filme-conversa, organizada com a ajuda do educador Aécio Diniz, me fez lembrar que a psicodelia é inata e pode ser acessada gratuitamente, todos os dias.

Assistimos juntos ao curta de animação “Viagem na Chuva”, que conta a história de um menino, ou de um velho que vê a passagem da chuva ou de um circo. Que está feliz ou triste, que morre ou renasce, que sou eu ou você. Ou não.

Nessa dinâmica fiquei encantado com as falas reflexivas dessas meninas de 15 e 11 anos, que me mostraram que entendem muito mais de sonhos do que eu, que sou terapeuta e muitas vezes faço deles ferramentas do meu trabalho.

Talvez porque sonhos não sejam mesmo de “entender”, pelo menos da forma como me acostumei a significar (ou limitar) este verbo. Sonhos são muito mais de se deixar viver do que de se esforçar para entender.

Passamos um terço da vida neste estado onírico que nos arrebata todas as noites em um viver de emoções fortes, gostosas ou assustadoras, com pouca lógica e muita criatividade.   Quem tem a sorte de lembrar dos sonhos e reproduzi-los, tem à disposição um professor que ensina a ampliar a consciência transcender as possibilidades do viver.

Agradeço pela experiência de escutar essas meninas como se eu estivesse escutando uma outra parte de mim mesmo. De fato escutei.

*Viagem na Chuva

Animação, Brasil, 2014, 12 min. Dir. Wesley Rodrigues

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Veoveo: é preciso aumentar nosso repertório

por Renato Nery e Vicky Romano, fundadores da Veoveo

Ludo tinha 4 anos quando viu pela primeira vez a Patrulha Canina. Depois de alguns meses quase enlouquecemos! A música de abertura insistia e quando menos esperávamos surgia em looping em nossas cabeças. Naquele momento, em 2017, ficou claro que, no meio de tantos brinquedos, livretos para colorir e todos os produtos transmídia lançados, que a série era um chiclete com grande poder de persuasão. O fascínio estético induzia a hipnose, a trama flat com sua confortante e controlada modulação baseada em causa e efeito criava uma sensação de que não existia conflito. Aqueles personagens fofos e estereotipados escondiam uma estrutura hierárquica velha que reforçava junto com o combo padrões de preconceito que não queríamos!

Pela primeira vez ficamos incomodados com todo aquele desejo. Afinal, até então foram alguns anos dedicados aos conteúdos para crianças. E agora com a audiência ali, bem pertinho, tínhamos que desenvolver todo tipo de estratégia para resgatá-lo daquele poço sem fim. A ironia era que quase 80% dos temas da série se referiam a algum tipo de resgate e para resgatá-lo começamos a buscar e catalogar conteúdos diferentes, alternativos, uma luta contra o algoritmo da rede que insistia em não mostrá-los. Aquela internet dos anos 90 já não existia mais, toda aquela promessa de acesso livre tinha sido subvertida pelo hábito e exploração econômica. Tudo está automatizado. O algoritmo reforça apenas o padrão. Este discurso “smart”, na verdade, esconde um usuário pouco inteligente. Então, se o seu filho sabe mexer em um sistema de navegação intuitiva, num smartphone, não significa que ele esteja desenvolvendo o cérebro, significa que ele está funcionando dentro do padrão, sendo condicionado a não pensar. Foi justamente pensando  numa alternativa a isso que começamos a desenhar Veoveo

O primeiro passo foi observar e comparar. Em nossa infância tinha o que tinha, no tempo que tinha. Hoje temos muito do mesmo, em grandes quantidades, em qualquer momento, e de qualquer jeito. A escassez de antes exigia momentos de compartilhamento e espera. Duas qualidade importantes para serem desenvolvidas numa criança, a generosidade e a paciência. Sem paciência e acostumados ao mundo do seu jeito, dizer não ganhou peso. Muitos adultos, querendo evitar o conflito e silenciar a infância delegam a missão de educar a uma tela. Só que a tela não educa, a tela forma, ou informa, cria os contornos, que não são percebidos pelo indivíduo como contorno ou a impressão de conhecimento, o recheio. Portanto, a tela não cria o conjunto de experiência que o mundo real e as relações criam, que uma educação viva e dialética cria.

Dizer não virou um desafio, principalmente para os adultos que cada vez mais distantes dos universos das crianças e dos conteúdos infantis não conseguem oferecer o diferente. Mas, como diria o alto executivo daquele famoso canal – “ as crianças são exigentes e sabem o que querem, por isso elas gostam do meu canal”. Sim! Elas querem chocolate, e é missão dos pais, mães e adultos minimamente atentos ofertarem o diferente. Não é à toa que estamos vivendo um tempo de fome e obesidade.

Com isso, desenvolver o olhar é preciso, conhecer minimamente a linguagem parece ser o caminho para perder o medo de se aventurar em acervos e conteúdos não navegados. Perceber que o conceito de qualidade não pode ficar preso ao ultra realismo dos 3Ds ou aos movimentos frenéticos e gags bem construídas dos cartoons. Para resgatar as crianças das mesmices é preciso aumentar nosso repertório e a capacidade de reconhecer e perceber as muitas maneiras de se contar histórias.

Arrisque-se! As crianças gostam do que os pais gostam, se você descobriu um conteúdo diferente e sente prazer ao assisti-lo a criança irá perceber e sentirá também.

A indústria do audiovisual, como qualquer indústria corre atrás da fórmula do sucesso e encontrou nos sistemas da internet um perigoso aliado. O mapeamento dos hábitos e a constatação do consumo automático aprofunda a oferta de conteúdos preocupados apenas em atender expectativas. O resultado é o que estamos vendo, conteúdos ordinários, e um sistema viciado que nivela a criação por baixo. Conseguimos algum respiro garimpando conteúdos fora das grande plataformas de streaming, dos grandes circuitos de salas de cinema, ou dos grandes canais. Em Veoveo buscamos por criadores que expressam em seus conteúdos seus anseios, inquietudes e sua visão de mundo. Não são muitos, mas os poucos que persistem fazem toda a diferença e irão enriquecer o olhar das nossas crianças.

Por último, a chave não é o radicalismo e criar a criança numa bolha de conteúdos “cabeça”.  Os conteúdos de sucesso criam um código e a sensação de pertencimento típico da comunicação de massa. A chave é assistir juntos, ritualizar, tornar o ato de assistir uma experiência de surpresa, encantamento e conversa.

Esperamos que desfrutem de Veoveo, nós adoramos todos os filmes que estão aqui.

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“A magia não pode ser reproduzida em série”, diz o cineasta Helvécio Ratton

Por Renata Penzani

Homenageado da Ciranda Cirandinha de Filmes, o pai do Menino Maluquinho das telonas defende o cinema anticonsumo e as histórias que tratam as crianças de igual para igual 

Franz Kafka, Walt Disney, Gabriel García Márquez. O que esses nomes têm em comum? A vocação para contar histórias. Na cabeça de Helvécio Ratton, eles se tornam ingredientes de uma mistura sempre urgente: a ficção e a vida. “O que me interessa no fantástico é quando ele se encontra com o cotidiano”, ele afirma.

Se é verdade que a arte é aquilo que “nunca termina de dizer o que tem para dizer” — como bem disse o escritor Ítalo Calvino –, Ratton, do alto de seus 71 anos e uma extensa trajetória fílmica, está aí para testemunhar esse fato. Ou melhor, aqui. O diretor e roteirista é o homenageado da Ciranda Cirandinha de Filmes 2020.

Para ele, que afirma estar bastante feliz com a homenagem, a honra dessa celebração à sua obra está no fato de que tanto a mostra quanto os trabalhos que ele já produziu compartilham a mesma opinião sobre a criança: o de que ela precisa ser respeitada em sua inteligência, sua sensibilidade, seus medos e fragilidades. Para falar sobre isso, ele cunhou dois termos que se contrapõem: “espectador de luxo” e “consumidor de lixo”. Para ele, a criança está no primeiro grupo, mas muitas vezes é tratada como se fosse o segundo. 

Autor de um dos clássicos infantis mais incontornáveis da filmografia brasileira, o longa “O menino maluquinho” (1995) de obras memoráveis do audiovisual brasileiro, como Dança dos bonecos (1986) e “Uma onda no ar” (2002), ele conversou com a gente sobre fazer cinema no Brasil pandêmico, sobre o fantástico, a ficção e a infância. 

Na sua fala, entrecortada pela angústia de todo artista que se vê incumbido do desafio de reinventar meios para existir em meio ao desmonte do aparato cultural do país, o cineasta continua criando, e se apega ao essencial: “toda obra é sonho, né?”, ele confabula. A resposta só poderia ser sim.

Com uma sensibilidade enérgica que celebra a arte sem deixar de criticar o que dela perdemos quando nos condicionamos a um olhar mercadológico, ele afirma que “cinema infantil não é para vender nada para a criança, é para contar uma história”. 

Antes de mais nada, o problema está no nome, segundo o diretor. Ele rejeita o próprio termo “infantil” na hora de categorizar a produção artística dirigida às crianças. À frente da produtora Quimera Filmes, ao lado de sua parceira Simone Matos, conhecida por realizar o que ele chama de “cinema para todos”, ele parece concordar em tudo com a escritora Ana Maria Machado, quando ela defendia que, quando o assunto é arte, o que importa mesmo é o substantivo, e não o adjetivo.

“Eu tenho muito pouca atração pelos adjetivos. O Drummond dizia isso sempre, quando ficava na dúvida entre um adjetivo e outro, colocava um substantivo. E eu penso assim também”, diz. Assim, o que se convencionou chamar de “cinema infantil” seria, na verdade, aquele cinema que inclui também a criança, mas não só. “Quem faz um filme, tem que se relacionar com a plateia inteira, para que aquele filme seja uma viagem compartilhada entre o adulto e a criança. Por isso eu sempre pensei mais em filmes para ver com as crianças do que em filmes para crianças”, afirma.

Cinema para sonhar, não para consumir

Uma das criações mais famosas de Helvécio, e também seu primeiro filme, é o longa-metragem “A dança dos bonecos” (1986). Produzido pelo Grupo Novo de Cinema e TV, o filme é um marco na carreira do cineasta, não só por ter sido premiado no Brasil e no exterior dentre as melhores produções para a infância e a juventude, mas também por representar a preocupação de quem começou a fazer cinema dito “infantil” para oferecer às filhas ainda pequenas alternativas ao audiovisual norte-americano. 

“Eu sentia que eram produções mal cuidadas, que tinham muito mais interesse em vender produtos derivados dos filmes para as crianças do que de fato contar uma história para elas. Isso deixa de tratar a criança como um espectador de luxo para tratá-la como consumidora de lixo”, explica o diretor.

Na história do longa em questão, três bonecos de uma menina chamada Ritinha são roubados por um artista saltimbanco, até que acabam indo parar nas mãos de um fabricante de brinquedos. Estava já aí uma das faíscas que acendem o trabalho de Ratton: a preocupação em colocar o cinema como arte, ou seja, como produto da fantasia e do sonho de alguém, e não do sistema econômico-capitalista. “A magia não pode ser reproduzida em série, não se fabrica industrialmente”, defende Ratton. 

“Eu entrei no realismo fantástico por causa dos meus filmes infantis”, conta o cineasta. “A magia é algo que me encanta. Mas eu gosto dela integrada a um contexto realista, de cotidiano da gente. Acho que ela surpreende muito mais quando funciona dessa maneira. Por isso eu me sinto mais próximo do universo do Kafka do que de García Márquez. Um lugar onde não é o absurdo que choca, mas sim a condição do absurdo naquele contexto”, explica.

Um Brasil de meninos impossíveis

“Maluquinho estreou há 25 anos e nunca mais parou de ser visto”. É assim que Helvecio define a potência da história do “menino que tinha o olho maior que a barriga, fogo no rabo e vento nos pés”, como diz o texto de Ziraldo. 

Quarentão, o personagem foi conquistando novas gerações de forma ininterrupta, e está mais jovem do que nunca, nesses tempos que parecem clamar por um retorno à simplicidade das ruas de paralelepípedo onde se pode brincar de bente altas. Com sua característica panela na cabeça, o que o menino mais famoso do cinema brasileiro teria a nos dizer hoje? 

Em uma das primeiras cenas do filme, quando o pai e a mãe do personagem são convocados à escola por conta de uma travessura de Maluquinho, o zelador e a varredora do pátio parecem anunciar essa tal de infância e sua eterna relação com o bagunçar das coisas. “Ainda não se acostumaram com as artes do menino”, ela diz. “É por isso que ele é assim: um menino impossível” – responde o zelador. Triste é pensar que, hoje em dia, as crianças no Brasil ainda precisam guardar em outro lugar sua impossibilidade de ser: na violência urbana, no trabalho infantil, no retrato da desigualdade.

O filme “O menino Maluquinho” será exibido na Ciranda Cirandinha de Filmes. Após a exibição, haverá um bate-papo com o diretor.

Inspirado no livro homônimo do escritor Ziraldo — cuja primeira edição, publicada em 1980, completa 40 anos em 2020 –, o filme é um marco afetivo e um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional. O longa atravessou gerações, mantendo firme sua atualidade como um símbolo do “menino que todos sonhamos em ter sido”. 

Já as quatro décadas de vida do Maluquinho de Ziraldo será celebrada em grande estilo, com uma reedição especial do livro pela editora Melhoramentos, com textos sobre o livro, curiosidades sobre o autor e sobre a trajetória internacional da obra.

Tanta comemoração em torno de um enredo tão aparentemente prosaica não é sem motivo. Se fôssemos investigar os porquês, chegaríamos não a uma, mas a múltiplas justificativas, como a universalidade do tema, a simplicidade da narrativa, o humor, a identificação das crianças com os personagens. 

De todos os diversos motivos metidos a explicadores, no entanto, ficamos aqui com a afirmação que Helvécio soltou nesta entrevista à Cirandinha: “Essa infância de anos atrás se transformou numa espécie de infância imaginária. A força do filme vem daí também, em situar a infância no lugar da imaginação”. Isso porque o Maluquinho retratado no cinema representa uma espécie de símbolo da criança ideal. 

Nascido em uma família de classe média, Maluquinho tem uma família presente, um teto seguro, acesso à escola, convívio social saudável e, principalmente, liberdade de ser. Essa realidade protegida e confortável ainda é privilégio de minorias no Brasil. 

Para Helvécio, é como se essa infância que pode brincar na rua, descer ladeiras de carrinho de rolemã e contar com o olhar atento dos vizinhos para zelar pelo seu bem-estar tivesse ficado congelada em uma utopia possível apenas em outros tempos. Como diz a canção-tema do filme, de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, “o tempo do Menino Maluquinho é um tempo que existe só na infância”.

“A ideia principal dessa história é mostrar que o Maluquinho se tornou um adulto legal porque teve uma infância feliz, então, o que o filme faz é contar como foi essa infância. Mais do que uma adaptação do livro, o filme é um complemento dele”, afirma Helvécio, abrindo as brechas para pensar que criança é essa que encontramos neste Brasil 2020, tão marcado por violências de diversas naturezas contra a infância. 

Não por acaso, a violência sexual infantil está no centro do projeto que Helvécio estava desenvolvendo pré-pandemia. Ainda em fase de desenvolvimento, trata-se da adaptação de uma novela gráfica chilena chamada “No abuses de este libro”, de autoria de Natichuleta. O enredo é sobre uma menina abusada sexualmente pelo padrasto dos 8 aos 12 anos. Após processá-lo na justiça, contra a vontade mãe, ela consegue dar a volta por cima, e resolve se vingar dele contando a história em uma HQ. “Ela cria uma super-heroína que invoca nos momentos de abuso. Ou seja, na imaginação, ela tem o problema resolvido, mas, na realidade, não”, conta o cineasta. Ratton trabalhou na roteirização do projeto baseado no livro, chamado “Só não posso dizer o nome”. O filme ainda não foi rodado.

A produção mais recente de Helvécio Ratton está em cartaz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa-metragem “O lodo”, realizado pela Quimera Filmes. Dirigido ao público adulto, o filme trabalha a linguagem do realismo fantástico para acompanhar a jornada de um homem sozinho e sem filhos que se vê mergulhado na própria banalidade. 

Para 2021, a plataforma de streaming Netflix anunciou uma série animada com novas aventuras do personagem Menino Maluquinho, com realização da produtora Chatrone.

A literatura e o cinema

Não é de hoje a proximidade de Helvécio Ratton com a literatura. Além de “O menino Maluquinho”, outros trabalhos seus são adaptações de obras literárias. É o caso de “Amor & Cia”, baseado no livro “Alves & Companhia”, de Eça de Queirós, e até mesmo de “Batismo de sangue”, inspirado no livro de mesmo nome de Frei Betto – este último mais um relato de experiência do que uma leitura literária; um retrato da ditadura militar brasileira nos anos 60 e 70.

Colecionador de histórias em quadrinhos, ele se diz um apaixonado por essa outra forma de arte sequencial, diferente do cinema, e deposita na literatura a exclusividade de contar algumas histórias. Para ele, algumas adaptações, mais do que difíceis, são mesmo impossíveis, como Guimarães Rosa, que ele exemplifica. “Tem algo específico da linguagem da literatura que é intraduzível. Há o lugar da literatura, e ele é único”, defende.

“Até mais do que o cinema, a literatura é a melhor forma de contar histórias. O que a criança acha que está faltando ali, é a imaginação dela que completa. Isso vale também para os filmes: não podemos preencher completamente a imaginação da criança, mas sempre deixar um espaço para que ela possa continuar no imaginário dela”, diz Helvécio. Questionado sobre qual é o seu filme infantil preferido de todos os tempos, ele cita “O mágico de Oz” (1939), adaptação do clássico literário infantil de Frank Baum, “The wonderful wizard of Oz” (1900). 

A pandemia que empobrece a infância

Pai e avô, Helvécio conclui a conversa com a Ciranda de Filmes mencionando o impacto da pandemia no processo de socialização e desenvolvimento das crianças. Do alto de quem já viu de perto uma infância que brinca solta na calçada de casa, ele se preocupa com as consequências desses primeiros anos de vida vividos entre telas e aparatos tecnológicos. “O isolamento tem sido muito duro para as crianças. A perda do brincar junto é algo muito sério. O fato de que elas só têm usado tablets, celulares e computador para se relacionar com os outros está empobrecendo muito a vida”, diz.

A violência a que se refere Helvécio parece ser inimiga da fabulação e da magia, que tanto engrandecem a nossa humanidade adormecida. Quando o assunto é o vírus que parou o mundo todo em 2020, não custa lembrar que “virulento”, dentro e fora dos dicionários, continua sendo sinônimo do que também é violento. Apesar de tudo, “O Menino Maluquinho”, “A Dança dos Bonecos” e muitos outros de seus filmes-convite continuam em seu eterno posto de inventores de futuro na História viva do audiovisual brasileiro. São eles que nos lembram que, se hoje as coisas não estão como gostaríamos, bom mesmo é continuar sonhando. E “tudo o que é bom é brincadeira”.

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O lugar do sonho na literatura infantil

Alexandre Rampazo, Lúcia Hiratsuka, Aline Abreu e outros escritores, ilustradores e profissionais do livro dividem suas histórias preferidas sobre sonhos

Imagem do Livro “Os convidados da senhora Olga”

Por Renata Penzani, jornalista especialista em literatura infantil

“ – Acorde, querida Alice – dizia sua irmã – mas que sono pesado você teve!

– Ah, eu tive um sonho tão esquisito! – disse Alice. E pôs-se a contar à irmã, até quanto podia se lembrar, todas essas estranhas Aventuras que vocês acabaram de ler. E quando terminou, sua irmã beijou-a, dizendo:

– Foi um sonho bem curioso, sem dúvida, minha querida , mas agora corra, é hora do chá, e já está ficando tarde.

Alice levantou-se e saiu correndo, pensando, enquanto corria, que sonho maravilhoso tinha sido aquele.

O diálogo acima faz parte de uma obra mística, mágica e  – por que não? – algo lisérgica da literatura para crianças. Estamos falando de “Alice no País das Maravilhas”, uma das narrativas oníricas mais conhecidas do repertório literário mundial. Até os dias de hoje, mesmo passado mais de um século de sua publicação, o livro ainda é um símbolo histórico de resistência contra o conservadorismo cultural. 

Na história, uma menina chamada Alice está entediada folheando um livro sem figuras quando de repente avista um coelho branco e adentra um mundo desconhecido. Tudo acontece depois que ela dorme debaixo de uma árvore na companhia da irmã. 

Publicada pela primeira vez em 1865, a viagem-sonho de Alice atravessou os tempos com uma espantosa atualidade, e se transformou em referência quando o assunto é a relação entre a literatura e o universo onírico. 

Afinal, um texto do século XIX não perder sua força é indício de que sonhar continua sendo ao longo dos tempos uma possibilidade universal de superação do real. Como diria a canção de Milton Nascimento, “sonhos não envelhecem” e nem têm pavio. Sua inacabável chama acesa parece ser, sempre, a necessidade humana de ir além da realidade.

Aqui, vamos refletir um pouco mais de perto sobre esse ponto de contato entre a ficção e o sonho, a partir de uma pergunta: qual o lugar do sonho na literatura dita “para crianças”? (e aqui as aspas envolvendo o adjetivo não são por acaso, afinal, a delimitação etária não deve limitar a quem serve uma história). 

Infância e sonho

Em “Alice no país das maravilhas”, um detalhe logo no início do livro faz toda a diferença na interpretação do que se passa: dentre as duas irmãs, uma delas vai, enquanto a outra fica. Uma está com os pés fincados na realidade, que lhe parece tão insuficiente quanto passível de ser superada, enquanto a outra passa a seguir um despropositado coelho falante e apressado. Ou seja, quais são as bases que nos prendem a experiência concreta, e como elas dialogam com as visões do sonho?

Se pensarmos na função social do ato de ouvir e contar histórias, podemos entender que o gesto de imaginar outros mundos além deste é uma forma de não sucumbir à ideia de que isto que vemos é tudo o que existe. Não é à toa que, desde o nascimento, estamos sempre contando coisas uns aos outros. “O universo é feito de histórias, não de átomos”, já diria a poeta Muriel Rukeyser, em “The speed of darkness”.

No célebre livro “O círculo dos mentirosos”, Jean-Claude Carrière compartilha sua ideia de que as narrativas que ouvimos na infância são a nossa primeira catapulta rumo ao além-mundo. “É por meio do ‘era uma vez’ que o ato de ir além do mundo, em outras palavras, a metafísica, é introduzida na infância de cada indivíduo, e talvez também na dos povos, a ponto de muitas vezes fazer se aprofundar ali uma raiz tão forte que nos faz tomar nossas invenções humanas, toda nossa vida, por uma realidade que não admite nenhuma discussão.”

Da mesma forma como o fazem as histórias, o ato de sonhar nos coloca em contato com outras narrativas de nós e dos nossos mundos individuais e coletivos, ao juntar e sintetizar imagens e aprendizados vividos quando estamos acordados. Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, no livro “Oráculo da noite”, “a matéria dos sonhos é a memória; ninguém sonha sem ter vivido”. Para ele, “o sonho é um simulacro da realidade feito de fragmentos de memórias”. Nesse sentido, sonhos parecem se mover com a mesma engrenagem das histórias: o desejo de nos imaginarmos outros. “O sonho é a imaginação sem freio nem controle, pronta para temer, criar, perder e achar”, diz o pesquisador.

“A matéria dos sonhos é a memória; ninguém sonha sem ter vivido”

Sidarta Ribeiro

No final do livro de Lewis Caroll, é a vez de a irmã de Alice passar a sonhar, momento em que ela própria passa a tornar concreta a imensa quantidade de maravilhas vivenciada pela protagonista. “E enquanto escutava – ou pensava escutar, todo o espaço em torno dela tornava-se povoado das estranhas criaturas do sonho de sua irmãzinha”, escreve Carroll. 

Por que o escritor escolheu esse desfecho, e não outro? Por que em uma das histórias mais conhecidas da literatura clássica infantil a realidade é apresentada como aquilo que acontece no espaço entre duas dimensões? Ao leitor, fica a dúvida de qual delas é a verdadeira, se tudo de fato não passou de sonho ou se, ao contrário, o que chamamos de realidade na verdade talvez não passe de uma mal ajambrada ilusão. 

Parte daí a pergunta que move este texto e a própria edição 2020 da Ciranda de Filmes: afinal, qual o papel do sonho na vida das gentes desse mundo?

A jornalista Cristiane Rogerio, em um texto publicado em seu site Esconderijos do tempo, faz pensar na proximidade entre brincar e reinventar a vida – portanto, sonhar. 

“Certa vez, Lewis Carroll escreveu numa carta para uma criança sua amiga: “Você costuma brincar de vez em quando? Ou a ideia que você faz da vida é ‘café da manhã, fazer lições, almoço, fazer lições e assim por diante?… Essa seria uma forma muito organizada de viver, e seria tão interessante quanto ser uma máquina de costura ou um moedor de café”.

A ciência tem numerosas e diferentes respostas à pergunta “por que sonhamos?”. Mas afinal, na melhor das hipóteses, sonhamos e imaginamos outros mundos para escapar de viver como máquinas. Não por acaso, tudo o que existe foi, antes, o sonho de alguém.

Vamos à lista de livros!

Para fazer coro à famosa ideia de que sonho sonhado junto é quase realidade, convidamos 13 profissionais do livro para repercutir suas noções do que é, como é, e onde aparece o sonho nos livros para crianças. A lista abaixo foi produzida coletivamente, e cada obra foi sugerida por um profissional diferente ligado ao livro e à infância.

Aproveite as dicas e boa leitura!

Os convidados de senhora Olga, de Eva Montanari
(Jujuba)

“As imagens delicadas são muito divertidas e apresentam cenas com um nonsense que reforçam toda a atmosfera de um tipo especial de sonho: o sonhar acordado da imaginação. A escritora e ilustradora italiana Eva Montanari cria imagens luminosas e emprega a técnica do pastel seco de modo que cada elemento das cenas parece brotar do papel. Nessa história, Eva nos conta sobre uma senhora que vive sozinha no alto de uma colina. A senhora Olga não vê com os olhos mas sabe muito bem quem vem para jantar todas as noites, sempre um convidado diferente, cada um com suas manias. Eva Montanari apresenta uma série de convidados que são personagens de outras obras literárias bastante conhecidas e, ao final, quando descobrimos um segredo… as ilustrações mais uma vez mostram o poder mágico da imaginação. São muitos os livros que nos fazem sonhar com coisas que nunca vimos, viajar para muito longe ou bem para dentro, de olhos fechados ou abertos. É bom demais estar perto desses livros”.

Aline Abreu, escritora e ilustradora

“Hora de sair da banheira, Shirley!”, de John Burningham (Cosac & Naify)

“Tem este sonhar que habita na criança, esteja ela dormindo profundamente e navegando em seus sonhos mais profundos ou, o que é mais fascinante, quando a criança está desperta dentro da possibilidade que brota na poesia que percebe na vida, e ainda assim, se permite sonhar. A menina Shirley, na hora do banho, na contramão dos pedidos da mãe, sonha que, naquele momento que só à ela pertence, outros mundos são possíveis. O encantamento que há no livro é justamente esse: percebermos que para a criança, não há constrangimentos em habitar outras realidades e possibilidades do sonhar a todo momento, mesmo que estes sonhos aconteçam longe do travesseiro.”

Alexandre Rampazo, escritor e ilustrador

“A casa da madrinha”, de Lygia Bojunga
(Casa Lygia Bojunga)

“‘A casa da madrinha’, de Lygia Bojunga. Essa casa é o lugar do sonho que dá sentido à vida dura do personagem Alexandre, menino pobre, que vende sorvete na praia para ajudar a família. É um texto recheado de simbologias e fiquei impressionada pela forma como a autora conseguiu mesclar realidade e fantasia para falar de emoções tão profundas. Os diálogos ágeis também me encantaram.”

Lúcia Hiratsuka, escritora e ilustradora

A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki
(Pallas)

“Eu não sei andar de bicicleta. Parece bobo, mas é um sonho que estou tentando realizar mesmo depois de virar “gente grande”. É por isso que indico o livro “A bicicleta que tinha bigodes”, obra infanto-juvenil do escritor angolano Ondjaki, que trouxe para mim a conexão com um sonho antigo. Esta é uma história que nos conduz a ver leveza e encanto na vida, mesmo diante de um cenário conturbado. Mostra também o papel da criança como símbolo de esperança e fonte de inspiração para a literatura em tempos difíceis.”

Kemla Baptista, contadora de histórias, educadora e autora

“Mandela, o africano de todas as cores”, de Alain Serres; Zaü
(Pequena Zahar)

“Quem sonha um país? Como viveriam as pessoas no país dos seus sonhos? O que fazer para se tornar realidade? Estas são algumas perguntas que o livro ‘Mandela, o africano de todas as cores’, de Alain Serres e Zaü desenha em texto, projeto e imagens um sonho que podemos chamar de coletivo e que passa por pesadelos descoloridos (ou sonhos reprimidos?) até uma conquista que muitos acreditavam ser apenas utopia da África do Sul de então! E como sonhos realizados inspiram novos sonhos!”

Magno Rodrigues Faria, educador, contador de histórias, e coordenador pedagógico do Instituto Acaia

Sulwe, de Lupita Nyong’o – (Rocco Pequenos Leitores)

“Sulwe é a história de uma menina negra retinta que vive com a mãe, o pai e a irmã, negros de pele mais clara. Com o tempo, ela se vê diferente da família e de todos que a cercam.  A menina quase não têm amigos, ao contrário da irmã, que vive sendo elogiada por sua beleza e claridade. Sulwe começa a viver infeliz com a sua aparência; triste pelos cantos. Sua mãe, ao perceber, explica sobre as diferentes belezas que há no mundo. Ela entende com a cabeça, mas não com o coração. Certa noite, uma estrela cadente aparece em seu quarto e lhe conta uma história. Através do sonho,  a menina compreende o encanto da sua pele, escura como a noite. Nessa fábula, percebemos o sonho, não como uma experiência cotidiana, mas como um exercício de busca por orientação para as escolhas da vida. Há quem encontre nos sonhos a cura, a inspiração e a resolução de questões práticas. Por vezes, o que não discernimos racionalmente, se manifesta e se resolve através dos nossos sonhos.” 

Anderson Barreto, ator, performer e contador de histórias

“Barriga de Baleia”, de António Jorge Gonçalves
(MOV Palavras)

“Comecei distraidamente, lendo para o meu filho Benjamin, numa noite qualquer de uns 3 anos atrás, minha relação com esse livro do português António Jorge Gonçalves. Adultos que dormem. Uma criança – Sari – que pode ser inteira enquanto os adultos se entregam ao sono/sonho. Sari também pode sonhar, desobedecer os limites da “própria casa”  para avançar rumo a uma experiência do litoral da paisagem até o mar bravio das vontades. Engolida por uma baleia, como Jonas, Gonçalves ilustra as emoções oceânicas da personagem. Os adultos despertam quando tudo pode ser devolvido a alguma normalidade. E esse será o retorno da menina ao aconchego da própria cama. Talvez só haja repouso para uma criança, quando sua parentalidade encontra a justa medida entre o sono e a vigília.” 

Giuliano Tierno, educador, contador de histórias e gestor da A Casa Tombada

O Cântico dos Cânticos, de Ângela-Lago
(Sesi-SP)

“Em que lugar seria possível encontrar reunidos um poema de amor escrito há 3 mil anos, labirintos, espirais, o dia e a noite, as obras do artista Escher, iluminuras medievais e islâmicas, encontros e desencontros, o fim e o começo? Em um sonho, é claro! Quando abrimos o livro ‘O Cântico dos Cânticos’, da incrível artista Ângela Lago, é como se estivéssemos entrando em um sonho. Ele traz aquela sensação de deslumbramento e mistério tão própria do universo onírico. Como é próprio de uma obra de arte, ‘O Cântico dos Cânticos’ se abre para uma infinidade de leituras, possibilitando que o leitor viva de fato uma experiência, bastando apenas que sejam sensíveis às delicadezas da arte e do amor.”

Amanda Miorim, professora e contadora de histórias

O meu amigo pintor, de Lygia Bojunga
(Casa Lygia Bojunga)

“Em ‘O meu amigo pintor’, meu texto preferido de Lygia Bojunga, dois sonhos do menino Cláudio, devastado pelo suicídio do seu melhor Amigo, são verdadeiras encruzilhadas que misturam memória e arte, vida e morte. Neles, o menino traz à vida um quadro abstrato do seu Amigo — a obra de um artista é, afinal, uma chave para sua vida e, às vezes, para sua morte. No primeiro sonho, Cláudio se assombra com o Amigo no papel de fantasma, deslocado no teatro da vida, perdido no palco da morte, quase arrependido de tê-la escolhido, num limbo que é dele e também do menino. No segundo, mais conciliador, as três grandes paixões do pintor em vida (a pintura, a política e Clarice) asseguram a Cláudio que seu Amigo vai viver feliz e em paz para sempre na morte. Tal qual uma tinta incorpora outra, seu amor pelo Amigo toda-a-vida absorve, aos poucos, seu luto e incompreensão, e então uma paz muito pequena, muito grande, abraça Cláudio e o leitor.”

Guilherme Semionato, escritor

Histórias de índio, de Daniel Munduruku
(Companhia das Letrinhas)


“Meu primeiro livro, ‘Histórias de índio’, tem um conto intitulado “O menino que não sabia sonhar”. O conto narra como um curumim, que nasceu com o dom para ser pajé, teve que aprender a arte do sonhar para poder seguir seu caminho como curandeiro dentro de sua comunidade.”

Daniel Munduruku, escritor e professor

Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll – (Clássicos Zahar)

“Difícil escolher uma única obra sobre sonhos, acredito que o motivo da viagem à mundos oníricos esteja na própria raíz de se contar histórias. ‘Alice no país das maravilhas’, de Lewis Carroll e “A menina do narizinho arrebitado” de Monteiro Lobato são marcos da literatura infantil que bebem dessa fonte. Mas vamos lá: logo de saída me vem ao coração ‘Little Nemo in Slumberland’, do genial Winsor McCay, um dos pais do cinema de animação. Seu traço elegante e maravilhosas aquarelas narravam as aventuras insólitas, cheias de beleza e toques de surrealismo no reino de Morfeu. Histórias que sempre terminavam com o menino Nemo despertando em sua cama. O mestre Maurice Sendak, em seu ‘In the Night Kitchen’ faz reverência ao pequeno Nemo. Em meu trabalho, ilustrei algumas histórias tendo sonhos como matriz, uma delas é ‘Sonhe-me!’, livro com bonito texto da escritora Padmini. Para narrar em imagens esta história, busquei abrigo nesses gigantes e também no querido Eduardo Galeano com seu ‘O livros dos abraços’ e seus sonhos de Helena.”

Mateus Rios, ilustrador

Harvey – Como me tornei invisível, de Hervé Bouchard e Janice Nadeau
(Pulo do Gato)

“É um livro em que o sonho se contrapõe à realidade para que o personagem possa sobreviver psiquicamente à morte súbita do pai. Para tentar elaborar a dor, proteger-se dos sentimentos desconhecidos que o invadem, ele recorre ao “sonho” acordado, resgatando o herói de um filme que assistiu escondido, em que, inexplicavelmente, o personagem vai encolhendo até se tornar invisível. Scott Carré é Harvey, Harvey é Scott Carré, um elo metafórico em que a identificação com outro dá recursos pra nomear o que está vivendo”.

Márcia Leite, escritora e publisher da Pulo do Gato

Coragem de sonhar, de Maria Dinorah
(Moderna)

“O livro é delicado e traz os sonhos não apenas no título, como no delicado conteúdo da obra que marcou minha infância. Nele – e a partir dele -, me percebi encorajado a tornar os sonhos de infância realidade, enfrentar os desafios do mundo e da (futura) vida adulta com brilho nos olhos e esperança no coração, apesar das provocações do destino e das limitações de uma cidade pequena. Foi através dessa coragem que, aos 17 anos, coloquei uma mochila nas costas e decidi ganhar o mundo, saindo de uma cidade pequena no Rio Grande do Sul para a capital de concreto em São Paulo, há quase 20 anos atrás.”

Diego de Oxóssi, babalorixá e editor-chefe na Arole Cultural

Contos de Lugares Distantes, de Shaun Tan
(Cosac Naify) 

O livro é uma espécie de série de cartas sonhadas. Começa meio sem começo e termina sem um final. Inicia-se na consulta a um sábio búfalo incompreendido e se finda  com um amoroso salvamento. Entre a sabedoria e o gesto, o australiano Shaun Tan nos eleva a possibilidades de mundos que, ao mesmo tempo que nos parece estranho soa familiar. Entre os 15 contos, ou nestas cartas de imaginar lugares, tem um tantinho ali que é um presente: a preservação da utopia. “Preservação” mesmo, como um cultivo: história a história, a acreditarmos mais em nós mesmos e no viver comum. É tudo assim. Cartas de sonhos entre o fantástico e o possível, nos confirmando que ambos andam mais de mãos dadas do que imaginamos.

Cristiane Rogerio, jornalista  e coordenadora do curso O livro para a infância na Casa Tombada

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Memórias da infância

Quando menina, em Manaus, nós gostávamos de correr na beira do rio. Na beira desse rio, nós pescávamos os peixinhos e tratávamos como as mães faziam… tinha água, tinha fogo, tinha terra… tinha tudo que a gente tinha de direito. Nádia Tobias Yanim

*depoimento concedido à “Ciranda de Memórias “, 2014. 

A matéria dos sonhos é a memória; ninguém sonha sem ter vivido.” Sidarta Ribeiro

Desde o seu início, em 2014, a Ciranda de Filmes se dedica a reunir materiais e coletar depoimentos de memórias de infância, que acabaram por se constituir parte do nosso repertório de inspiração.

Nesse mosaico de histórias, participantes da Ciranda e pessoas ligadas a projetos parceiros que deram origem à este encontro, como o Território do Brincar e o Sementes do Nosso Quintal, revisitados nesta primeira edição da Ciranda Cirandinha de Filmes, dividem suas lembranças e afetos que sempre têm os mestres, a música, a brincadeira e a natureza na sua essência. Estas histórias e memórias nos ajudam a descobrir, a experimentar e a criar as nossas próprias narrativas e sentido da vida.

Acreditamos que para manter vivo o sentimento de compromisso de cuidar das crianças e jovens, do mundo e de nós mesmos, através de uma educação de qualidade em espaços co-criados e compartilhados, passa inevitavelmente pelo resgate, pela escuta e pelo acolhimento da nossa própria criança interior, valorizando seus sonhos, dores e afetos.

Seriam essas lentes, da memória, das artes e dos sonhos que nos permitirão criar e enxergar horizontes mais saudáveis, inclusivos e significativos?

Assista aos vídeos e navegue por algumas dessas memórias.

Escute outras na playlist “Memórias de infância” no canal Ciranda de Filmes no Youtube.

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Dez filmes para crianças

ou melhor,

DEZ FILMES PARA VER COM AS CRIANÇAS

por Helvécio Ratton

Imagem do filme “O balão vermelho”

O grande desafio dos filmes infantis, ou filmes dirigidos a todos os públicos como prefiro chamá-los, é serem capazes de entreter tanto às crianças quanto aos adultos que assistem o filme com elas. São raros os filmes que conseguem a proeza de fazer o público infantil mergulhar em sua fantasia ou aventura e, ao mesmo tempo, seduzir os adultos com sutilezas e referências que só nós compreendemos, o que nos faz sentir co-autores da própria narrativa. Assistir filmes assim com as crianças enriquece a elas e a nós, e possibilita uma troca de opiniões e emoções que transforma o tempo que passamos frente à tela em um momento mágico. Nos tornamos companheiros de uma mesma viagem.

Mas não é fácil encontrar filmes assim. A grande maioria são histórias mal contadas e mal cuidadas, que muitas vezes funcionam apenas como vitrines de produtos dirigidos ao público infantil. Nesses filmes a criança não é tratada como espectador de luxo, mas como consumidor de lixo.

Na lista abaixo estão filmes que assisti na infância  ou anos mais tarde com minhas filhas. São filmes de épocas e estéticas diferentes, mas que ficaram gravados na retina e no coração. São dez filmes que atiçam a inteligência das crianças e tocam seus sentimentos. Dez filmes com alma.

O MÁGICO DE OZ, Victor Fleming (1939)

Um clássico do cinema americano, o musical O MÁGICO DE OZ conta a história da menina Dorothy e seus três companheiros de jornada: um espantalho sem cérebro, um homem de lata sem coração e um leão medroso,  que buscam algo que não sabem que já possuem. Produzido há mais de 60 anos, O MÁGICO DE OZ não envelhece, como os verdadeiros contos de fada.  

ET – O Extra-Terrestre,  Steven Spielberg  (1982)

Um pequeno ser extra-terrestre cai em nosso planeta e é acolhido por um menino que o esconde em sua casa. A moderna fábula de Spielberg trata de sentimentos de abandono e rejeição e traz uma das cenas mais emocionantes da história do cinema, quando a bicicleta do menino, com o ET a bordo, começa a voar e se recorta contra a lua.

MEU TIO, Jacques Tati (1958)

Com a cumplicidade do sobrinho, um tio excêntrico e um tanto desligado bagunça a vida de uma família rica que vive rodeada de modernidades inúteis. Dirigido e interpretado pelo genial comediante francês Jacques Tati, o filme é uma sátira bem humorada dos costumes burgueses, onde se dá mais importância às aparências do que aos verdadeiros valores humanos. 

DUMBO, Walt Disney (1941)

DUMBO, além de ser um dos melhores filmes de animação da Disney, o que não é pouco, é um dos melhores filmes de todos os tempos. A história do pequeno elefante de grandes orelhas, ridicularizado por todos e depois idolatrado por sua capacidade de voar, é uma fábula sobre a superação de obstáculos e o amor entre mãe e filho. Algumas cenas são antológicas, como o delírio alcoólico de Dumbo e o ratinho Timóteo e quando os urubus o ensinam a voar.

PELE DE ASNO, Jacques Demy (1970)

Adaptação do célebre conto de fadas de Perrault, tem uma jovem e linda Catherine Deneuve como a princesa com quem o pai quer se  casar e por isso é obrigada a fugir dele. A direção refinada de Jacques Demy soube utilizar bem os castelos e cenários da França para dar um clima de realidade à fantasia. Assim como o conto que lhe deu origem, o filme se mantem sempre atual, expondo sentimentos que parecem não mudar com o tempo.

BRANCA DE NEVE, Walt Disney (1937)

Primeiro desenho animado de longa-metragem dos estúdios Disney, BRANCA DE NEVE estabeleceu um padrão de animação que poucos filmes puderam acompanhar, mesmo os realizados depois pela própria Disney. A cena em que a madrasta se transforma em bruxa é de uma força dramática impressionante, uma das melhores representações do mal mostradas até hoje no cinema. 

O BALÃO VERMELHO,  Albert Lamorisse  (1956)

Uma pequena obra prima, este filme de curta-metragem conta a relação inesperada entre um menino e um balão que teima em segui-lo pelas ruas de Paris. Utilizando recursos simples, mas de forma muito engenhosa, o filme nos convence de que o balão realmente tem vida própria para extrair daí humor e poesia. O final é belíssimo, com milhares de balões voando no céu de Paris.

A GUERRA DOS BOTÕES, Yves Robert (1962)

No interior da França, dois bandos de meninos combatem entre si e os troféus das batalhas são os botões das roupas dos perdedores. Nessa guerra de meninos, como nas outras,  há fracos e fortes, corajosos e covardes, e os valores do grupo levam as crianças a entrarem em conflito com suas famílias e com a escola. Um ótimo roteiro que deu origem a um filme humanista e bem realizado.

UM DIA, UM GATO, Vojtech Jasny (1963)

O personagem central do filme é um gato que tem o dom de enxergar o caráter dos homens. Aos olhos desse gato, as pessoas ganham cores diferentes segundo suas virtudes ou defeitos. Os invejosos ficam amarelos, os apaixonados vermelhos e o filme vai por aí afora, falando do comportamento humano de forma leve e divertida, mas crítica ao mesmo tempo. Produzido na Tchecoslováquia socialista dos anos 60, no final vencem os bons e os falsos são desmascarados, como nas boas fábulas do gênero.

TOY STORY, John Lasseter  (1995)

Primeiro filme de longa-metragem totalmente criado no computador, conta a história dos brinquedos de um menino que têm medo de serem abandonados quando seu dono ganha brinquedos novos. Sentimentos como ciúme e rejeição, tão conhecidos das crianças, são muito bem trabalhados no filme. TOY STORY surpreende pelo poder de comunicação dos personagens e pela alta qualidade da animação. Foi um salto enorme, um marco  em relação às experiências anteriores de animação via computador. Os outros dois filmes que vieram na sequência mantem a qualidade no alto, o terceiro da série TOY STORY é ótimo.