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Um convite para ouvirmos a música do silêncio

or Mauro Muszkat

Levantei algumas reflexões para podemos trocar em um diálogo aberto inspirado por este documentário delicado de Mariam Chachia, da Georgia: Ouça o silêncio(Listen to the silence). O filme é, para mim, um convite para que ouçamos o silêncio, ouçamos atentamente a música do silêncio. Mas de que silêncio esse filme tão tocante e sensível nos fala?

Aquele que contrasta com a tagarelice ruidosa de nosso época, cheia de palavras sem qualquer ressonância com emoções verdadeiras? O silêncio daqueles que, como Luka [protagonista do filme], não têm as palavras como veículo para suas emoções e aprendizagem? O silêncio, necessário da nossa mente, para estarmos atentos para os sinais e ritmos sutis do nosso corpo?

A busca silenciosa e a resiliente necessidade de pertencimento das crianças, mesmo diante de tantas singularidades como o protagonista: surdo, hiperativo, impulsivo, as vezes aparentemente agressivo e desconcertante, mas essencialmente encantador, humano e comovente.

“Ouça o silêncio”não é apenas um convite, mas, acima de tudo, um chamado, é um chamado para todos nós: 1) Pais, que não compreendem a linguagem, o código ou o comportamento dos próprios filhos, mas não desistem de empreender afetivamente novas possibilidades de aproximação. 2) Educadores, que não apenas insistem nas regras e nos métodos formatados, que podem ser moldes ou ferramentas, mas que não servem para todos. Os passos síncronos da dança georgeana não possibilitam que Luka expresse sua individualidade e concretize seu verdadeiro sonho. Pelo contrário, a formatação o coloca diante de suas dificuldades, que quase o faz desistir. Não somos todos iguais. Somos essencialmente diversos e únicos, como Luka.

Despertarmos para o poder libertador da arte na emergência dessa singularidade é trazer a importância da experiência estética na educação das crianças, fundamental, pois elas nos libertam também dos muitos condicionamentos, dos enquadramentos limitantes que não permitem a expressão da nossa verdadeira identidade. Neste sentido, a arte, a dança e a música são ferramentas poderosas de expressão das crianças, já que orquestram comportamentos únicos e grupais enquanto linguagem universal de múltiplos significados que é, em sua essência, intrinsicamente emocional e compartilhada.

A música é talvez a mais subjetiva e humana das artes, pois ela é essencialmente emoção e consciência do tempo: “Além de se desenvolver em um suposto tempo, a música é o próprio tempo, e como acontecimento temporal, algumas vezes marca, delimita, e dá o tempo; outras vezes, pode trazer diferentes ideias, ora de coexistência, ora de suspensão, ora de ausência do tempo” (Craveiro de Sá; 2003).

A música é também o resultado da incrível transformação de vibrações de ar em um sistema subjetivo complexo, que traduz estados de tensão, expectativa e expressão da nossa identidade corporal e da nossa imaginação.

Quando Luka compreende a natureza da vibração da música na expressão tátil das ondas dos aparelhos de áudio – para ele, silenciosas mas orgânicas –, consegue também expressar sua identidade em um jogo orgânico de ritmo, emoção, sombra e imagem. Conectar-se com a música significa para ele ser livre para efetivar o sonho de pertencimento e de equidade.

Essa experiência foi essencial para que Luka pudesse reconhecer e abrir-se por inteiro para compartilhar com o outro, reconhecer-se com seus pais orgulhosos, seus pares e educadores e, assim, fortalecer sua cognição como ser social. Nossas crianças são extremamente carentes de experiências estéticas que as libertem de condicionamentos que aprisionam os sentidos e que possibilitem transcender e ocupar o espaço da singularidade essencial para o reconhecimento individual e social de sermos livres e espontâneos para compartilhar com o outro a nossa verdade e nossas diferenças. 

Hoje, em neurociência, fala-se de ‘“embody cognition” (ou cognição corporificava) enfatizando a importância das sensações corporais, dos sentidos para a aprendizagem efetiva. Isso vai no contrafluxo desta era digital, em que o corpo é cada vez mais negligenciado, inerte, em detrimento das enxurrada de imagens e palavras e do tempo vertiginoso, rápido de máquina, que é tão diferente do tempo real, tempo com sentido e sentimentos, tempo simbólico, veículo de emoções e sentimentos compartilhados. 

A música organiza basicamente as emoções, que não são necessariamente emoções utilitárias, como o medo, a raiva, o nojo, mas emoções estéticas que, além do prazer ou desconforto, envolvem dimensões transcendentes de maravilhamento, paz, sublimidade, poder e nostalgia. Precisamos , tanto na  escola quanto na vida, de maneira geral, mais de arte do que de tecnologia. Devemos nos questionar em que medida a introdução precoce de tecnologia não cria alienados digitais, que estão, na verdade, treinando, reforçando redes neurais, já que o cérebro tem plasticidade, de como não reconhecer o outro, como treinar o imediatismo, como alienar o própria corpo da aprendizagem. Diante da máquina o corpo está amortecido, enquanto a mente é poluída por imagens potentes e intrusivas que bloqueiam a reflexão, o silêncio e o compartilhamento de emoções. 

Nesse sentido o poder transformador da arte pode ser um antídoto potente para essa alienação. A música, enquanto aliada da educação e da vida das crianças, também deixa a sua zona hedonista de conforto, enquanto díade ouvir prazer, para tornar-se um veículo de inclusão, transformador da nossa consciência, fundamental para nos mantermos empáticos e essencialmente humanos em nossa natureza complexa corporal, singular, social e transcendente.

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Era uma vez: “tjamparanjani“!

“Somos poetas, poetisas e artistas do futuro

Cantamos o A B C da nossa alegria, da nossa dor, da nossa saudade”.

O filme “Tjamparanjani” (Miko Meloni, 2016), parte da programação da Mostra Itinerante da Ciranda de Filmes, mostra o primeiro episódio do programa de rádio de mesmo nome. Nele, foram apresentadas as obras de todos os participantes do novo curso de uma oficina de arte, atividade que revela um pouco sobre as crianças, seus gostos e vontades, além da própria comunidade, incluindo suas famílias. Em pinturas, contos e poemas, conhecemos as histórias desses pequenos (grandes) artistas.

As crianças da Escola Primaria Completa de Natite, bairro na cidade de Pemba, ao norte de Moçambique, ficaram surpresas com o pedido do diretor, que passou em cada sala pedindo para que seus alunos estivessem na escola no sábado. “Não nos disse o porquê, só nos disse para vir”, diz a menina Ornilda Eugénio, uma das entrevistadas do “Tjamparanjani” . Ao chegar à escola no final de semana, viu as salas divididas em várias opções de oficinas ‒ quem quer poesia vai para um lado; quem quer pintura, para outro. Ornilda juntou-se com a turma da poesia e lá encontrou professores voluntários que lhe ofertaram materiais e liberdade para poetizar. A garota escolheu homenagear a mãe, que lhe ajudou com o primeiro poema. Depois do incentivo, “comecei a falar lindas palavras, escrever belos poemas”. Durante a entrevista, ela confessa não saber se recitará o poema da maneira como o escreveu, mas, ao fazê-lo para o entrevistador, um dos artistas voluntários da oficina, Ornilda fecha os olhos e seus versos declama com sinceridade e intensidade.

E não é o único momento de integração familiar que acaba sendo promovido com a iniciativa da oficina. Junto de Ornilda, Latifo e Cláudia são poetas mirins convidados a explorar e aprofundar o conhecimento na poesia com suas avós, Avó Helena e Avó Awagi. Sentam-se juntos e ouvem os contos. As avós também são artistas. A poesia, cantada em língua macua, “busca um toque do saber antigo”, como diz o realizador do encontro, numa troca entre gerações.

Com isso, os artistas locais conseguem despertar nas crianças não apenas a sensação de pertencimento, mas um realce e uma afirmação das suas identidades. Cláudia, ou Clau, como chama o entrevistador, conta que em uma das aulas a professora perguntou: “O que é poesia?”, “O que faz um poeta?”, “O que faz uma obra de arte?”. 

Para a primeira pergunta, a poeta responde “a poesia exprime sentimentos”. Para refletir sobre quem é o poeta e sua obra, o que conduz é pensar em quem é Cláudia fora da oficina. Para ela, uma qualquer. “Foi na oficina de arte que eu me senti feliz; quando estou fora, sou uma qualquer”.

O que ouvimos ‒ e vemos ‒ na obra são crianças que passam a poder contar sobre si mesmas e sobre o mundo por meio da arte. Não à tôa, “tjamparanjani”, em língua macua, equivale ao nosso “era uma vez”. Mas as histórias não são individualizadas. A família e os artistas se misturam nesse momento, ouvindo e acompanhando as crianças em suas experimentações. A cada “tjamparanjani!” dito na roda, todos devem responder “shampatteke!”, mantendo o ritmo do conto.

Depois dessas e de outras histórias, o programa Tjamparanjani encerra seu primeiro episódio ‒ e o filme ‒ com uma roda artística em um dos centros culturais de Pemba. O artista que guiou as entrevistas, apresentando os artistas e poetas do futuro em seu programa de rádio e para nós, espectadores do filme, convida as crianças a fazerem um poema de pronto. O tema: descrever em versos o seu bairro, para saber como veem o mundo. As crianças tentam pensar rápido, uma rascunha versos no caderno, outra se mostra nervosa. Mas conseguem dizer com sinceridade, mostrando todo o resultado do projeto: “É no meu mundo que eu aprendo”.

Assista “Tjamparanjani – Era Uma Vez” aqui ou na página oficial do diretor.

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Casinhas habitadas de infâncias

A menina Clarisse Alvarenga era uma verdadeira arquiteta. Crescida em Belo Horizonte, ela não montava necessariamente casinhas, mas espaços para serem ocupados, habitados, por sua infância. Hoje, já adulta, ela constrói cuidadosamente os saberes que observa nas infâncias pelo Brasil em filmes como “Ô de casa” (2007), documentário que integra a Mostra Itinerante da Ciranda de Filmes, que passa por cinco cidades brasileiras. “Acredito que as brincadeiras são momentos importantes da vida do ser humano, pois é quando você experimenta o mundo a partir dos seus sentidos, do seu olhar, do seu paladar, do seu olfato, do seu tato.”
Quando começou a filmar as crianças brincando de casinha, a diretora não tinha certeza se essa era uma brincadeira da qual gostava, ou mesmo se tinha a intenção de fazer um longa sobre o tema. Enquanto terminava seu outro filme, Umdolasi, para o qual passou um ano filmando as crianças numa praça no Alto de Vera Cruz, bairro em Belo Horizonte, a casinha de um grupo chamou a sua atenção. A intensidade com a qual as crianças brincavam impactou a documentarista e inspirou uma pesquisa mais focada nessa brincadeira simbólica. Durante o processo, ela foi se deparando com memórias e lembranças da própria infância, que bateram na porta não só pela identificação, mas, principalmente, pela diferença.
Com outros pesquisadores da cultura da infância, mestres brincantes e sua equipe, buscou observar, escutar e brincar com as diversas crianças que encontrou, convivendo um pouco com elas. Visitou casinhas em quatro regiões diferentes: Médio Vale do Jequitinhonha (Jenipapo de Minas e Coronel Murta); na aldeia Imbirussú, em Carmésia, onde vivem os Pataxó de Minas; em São Sebastião das Águas Claras e em Belo Horizonte (Alto Vera Cruz). Assim, para investigar esse brincar, fez paradas em aldeia indígena, num território de uma comunidade quilombola, numa comunidade sertaneja, na periferia de um grande centro urbano.
Em cada parada, percebia as convergências e especificidades das moradas construídas por meninas e meninos. “A brincadeira é universal no sentido de que todas as crianças brincam e podem brincar de casinha e podem construir seu próprio espaço no mundo. Mas os mundos que cada uma dessas crianças constroem são muito diferentes, porque os territórios são diferentes, as maneiras de habitar esses territórios são diferentes e essa que é a grande riqueza.”
A cineasta não coloca o cinema como uma ferramenta de registro acima da infância. Por isso, para ser bem recebida nas casas, tirou os sapatos e pediu licença. Entendeu que partiria das crianças e das brincadeiras para chegar ao cinema – e não de qualquer ideia pré-estabelecida sobre as representações das crianças, a cena, o roteiro, a montagem, a infância, as brincadeiras. Com a câmera disposta sempre numa altura baixa, ao alcance das mãos das crianças, não quis captar a brincadeira de um ponto de vista adulto. Permitiu com que as crianças interagissem com as lentes e com a equipe num delicado jogo, como se filmar fosse também uma maneira de brincar. E com isso as crianças dispensavam aos equipamentos o mesmo cuidado que nutriam por seus próprios brinquedos.
Entre os galhos, folhas de bananeira e materiais de construção de segunda mão, as casinhas que “Ô de casa” revelam pequenos gestos cotidianos, as vivências e os ambientes dessas crianças. Carregam consigo narrativas domésticas, familiares, escolares. Também tinham visitas indesejadas, bagunça e arrumação, divisão de tarefas ‒ fazer o almoço com as meninas e colher palha com os meninos.
As estruturas dessas casas foram feitas de muito estudo e pesquisa. Sua arquiteta carregou tijolo a tijolo um conhecimento sobre cinema e infância que foi sendo montado, empilhado, solidificado. O trabalho de Clarisse na Universidade Federal de Minas Gerais, onde leciona e coordena Laboratório de Práticas Audiovisuais na Faculdade de Educação, também é de dar o material e ensinar a construir. Na instituição, ela trabalha com estudantes indígenas, do campo e professores, sempre pensando no uso que cada um desses grupos faz do cinema: “A ideia é possibilitar que o cinema esteja mais próximo dessas pessoas, seja uma realidade na vida delas, para se expressar e pesquisar por meio do cinema”. Reboca os pilares com uma metodologia de trabalho que parece simples, mas mostra uma inversão no próprio trabalho com o cinema. Pinta as paredes com a descrença que a infância é um território conhecido, a ser dominado, enquadrado, abrindo janelas para uma arte cinematográfica reinventada em conjunto com as crianças.
Há muito o que aprender ao observar as crianças ou pensar na construção da sua própria casinha. A cineasta destaca as muitas formas de viver, cada lugar a partir dos materiais que têm disponíveis, da sua geografia e ambiente, cada casa de um jeito singular, específico, próprio. “As diferenças entre as casinhas mostram isso. E é uma vida que leva em consideração a natureza, a floresta, os elementos que estão disponíveis ali, é uma vida sustentável, que habita esses espaços sem destruí-los. É interessante pensar como as crianças criam esses espaços sem comprometê-los. Elas fazem um uso muito ecológico desses lugares, acho que isso é algo que podemos aprender olhando para elas e olhando o filme.” A brincadeira pode refletir sobre essa construção, evocar as memórias das nossas casinhas.”
E é essa reflexão que se faz morada na nossa Mostra Itinerante. “Acho importante a iniciativa da Ciranda de Filmes no sentido de reunir esses filmes que dialogam muito uns com os outros e, ao dialogarem, ampliam os sentidos que são produzidos ali. É importante sabermos que existe essa produção no Brasil, que existem pessoas que estão interessadas em pensar a infância e fazendo uso do cinema para isso, abrindo um espaço no cinema para a criança e para a infância”, diz Clarisse.
Assista “Ô de casa” aqui ou na página oficial da diretora.

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A Itinerância da Ciranda

A Ciranda de Filmes é a primeira mostra de cinema do Brasil com foco em infância, juventude e educação. Nasceu do desejo de sensibilizar, provocar e mobilizar educadores, pais e outros interessados em refletir sobre as primeiras etapas do desenvolvimento humano, fundamentando ações em prol do cuidado dessas fases tão fundamentais para o indivíduo e a sociedade.
Apostando na potência do cinema para tocar mentes e corações, ao longo das cinco edições, a Ciranda vem promovendo encontros para inspirar e promover trocas entre pensadores, educadores, artistas, cineastas e o público, enriquecendo e aprofundando a reflexão sobre os temas propostos a cada ano.
A mostra reúne filmes e experiências capazes de emocionar e fortalecer caminhos e utopias, ampliando a percepção de que não estamos sozinhos. Pelos quatro cantos do mundo, pessoas “cirandeiam” juntas, tecendo sonhos e histórias ricas em sentido, aprendizado e beleza.
Em nossa primeira edição itinerante, apostamos numa proposta de retrospectiva para celebrar essa nova jornada a partir dos eixos fundadores da mostra: nascimento e infância, espaços de aprendizagem e movimentos de transformação. Para isso, selecionamos alguns dos filmes que nos marcaram e retomamos as reflexões e os temas propostos nas edições anteriores: família, criança e natureza, protagonismo infantil, mestres, o que te nutre? e música, linguagem da vida.
Estamos muito felizes com a realização dessa primeira mostra itinerante, um importante passo para ampliar o acesso do público de diferentes regiões do país a uma pesquisa que vem sendo construída ao longo desses anos com o intuito de realizar o sonho de compartilhamento de ideias, assim como a troca de saberes.
Ciranda é um poema que se canta junto. Esperamos dar as mãos aos novos amigos que vamos encontrar no caminho e abrir uma grande roda para que juntos tenhamos mais força para emocionar e transformar.
Fica nosso convite para dançarmos juntos essa Ciranda!
Fernanda Heinz e Patrícia Durães


Ciranda de Filmes – Mostra Itinerante
Animação – Longas
As aventuras do avião vermelho – Frederico Pinto, José Maia  (2ª edição, 2015)Animação, Brasil, 2014, 73 min, livreO filme conta a história de Fernandinho, um menino de 8 anos que perdeu a mãe há pouco tempo, tornando-se um garoto solitário, sem amigos e com problemas de relacionamento com o pai e na escola. Sem saber como lidar com a situação, o pai tenta conquistá-lo com presentes. Nada funciona até que ele dá para o filho um livro de sua infância. A bordo do Avião Vermelho e junto com seus brinquedos favoritos, Fernandinho visita lugares inusitados, como a Lua e o fundo do mar, e percorre diferentes territórios. Ao longo dessa jornada, Fernandinho descobre o prazer da leitura, a importância de ter amigos e o amor do pai. Baseado no livro homônimo de Érico Veríssimo. 
Window horses, a poesia de Rosie Ming – Window Horses – Ann Marie Fleming(4ª edição, 2017)Animação, Canadá, 2016, 85 min, livre
Rosie Ming, uma jovem poeta canadense, é convidada para se apresentar em um festival de poesia em Shiraz, no Irã, mas preferiria ir a Paris. Ela vive na casa de seus avós chineses super protetores e nunca foi a nenhum lugar sozinha. Uma vez no Irã, ela se encontra na companhia de poetas e de Persas que contam histórias que a obrigam a confrontar o seu passado: o pai iraniano que ela acha que a abandonou e a natureza da própria poesia. O filme trata de construir pontes entre divisões culturais e geracionais. É um filme sobre ser curioso. Estar aberto. E encontrar a sua própria voz através da magia da poesia. 
Ficção – Longas
A Família Dionti – Alan Minas(4ª edição, 2017)Ficção, Brasil, Inglaterra, 2015, 96 min, livreUm filme emocionante, em que o fantástico e a realidade se equilibram e tecem juntos uma trama envolvente e cheia de surpresas. Nas muitas histórias por trás da história, a mãe apaixona-se, evapora e desaparece; Josué sonha com a volta da mulher a cada chuva, enquanto cria sozinho os dois filhos, Serino, que é seco e chora grãos de areia, e Kelton, que se derrete com a chegada de Sofia, uma garota de circo. “A Família Dionti” retrata de forma especialmente delicada o tema universal do primeiro amor.
Documentário – Longas e médias
Crescer – Grandir – Etienne Moine, Bernard Josse (2ª edição, 2015)Documentário, Equador, 2011, 104 min, livre”Crescer” é um documentário que nos convida a dividir o cotidiano de crianças que, aos poucos, recuperam sua dignidade violentada muito cedo. Redescobrimos com elas a alegria de viver em um ambiente cuidadosamente preparado, que as levará à reintegração familiar e social. “Crescer” nos mostra uma nova relação adulto-criança e nos confirma que é possível crescer de maneiras diferentes. 
Língua mãe – Fernando Weller, Leo Falcão (4ª edição,2017)Documentário, Brasil, 2011, 81 min, livreNaná Vasconcelos, um dos maiores músicos do Brasil e mais atuantes fora do país, sonhava reunir um grupo de crianças e fazer música com elas em sua língua materna: o português. Atravessou três continentes para encontrá-las e daí nasce Língua Mãe, projeto musical realizado em parceria com o maestro Gil Jardim. 
Mitã – Lia Mattos, Alexandre Basso (1ª edição, 2014)Documentário, Brasil, 2013, 52 min, livreMitã. Criança brasileira. O ser humano em sua dimensão criadora transcende o tempo despertando para as possibilidades de um “Mundo Novo”. Uma poética da infância inspirada por Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Lydia Hortélio, trazendo importantes ideias sobre educação, natureza, espiritualidade e a Cultura da Criança. 
Ô de casa – Clarisse Alvarenga (1ª edição, 2014)Documentário, Brasil, 2007, 70 min, LivreCrianças e adolescentes se apropriam de espaços públicos ociosos, no interior ou na capital do estado de Minas Gerais, para brincar de construir casinhas e cabaninhas. Em cada casinha, uma pequena história se passa: a visita indesejada de um menino que tudo bagunça; a possibilidade de fundar um espaço de individualidade recuado em relação ao espaço da família; a preparação do almoço pelas meninas enquanto os meninos vão caçar e colher palha; o desentendimento decorrente da partilha do espaço; e a reconstrução de uma casinha destruída. Fora desses ambientes, é possível entrever um mundo feito do tempo da memória dos que, no passado, brincaram ali naqueles mesmos espaços. 
Pare olhe escute – Kátia Lund(5ª edição, 2019)Documentário, Brasil, 2013, 52 min, livreA música invadiu as ruas e vielas e entrou pela janela das casas, dando cor e melodia a uma rotina, outrora tão opaca, na pequena cidade de Barra Mansa, interior do Rio de Janeiro. Desde que se iniciou o projeto Música nas escolas, promovido pela prefeitura da cidade, Barra Mansa nunca mais foi a mesma. Dirigido por Kátia Lund e produzido por Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, o filme Pare Olhe Escute mostra, com sensibilidade, a rotina de jovens músicos ao realizarem o sonho de sair em turnê com a orquestra da cidade, acompanhada da pianista Simone Leitão, pelas principais salas de música do país. 
Terreiros do brincar – David Reeks, Renata Meirelles (4ª edição, 2017)Documentário, Brasil, 2017, 52 min, livreO filme retrata a participação de crianças em 12 grupos de manifestações populares em 4 estados brasileiros, e a sua relação com um brincar coletivo, intergeracional e sagrado. 
Documentário –  CurtasDisque Quilombola – David Reeks (1ª edição, 2014)Documentário, Brasil, 2012, 13 min, livreCrianças do Espírito Santo conversam de um jeito divertido sobre como é a vida em uma comunidade quilombola e em um morro na cidade de Vitória. Por meio de uma genuína brincadeira infantil, os dois grupos falam de suas raízes e revelam o quanto a infância tem mais semelhanças do que diferenças. 
Meninos e Reis – Gabriela Romeu (3ª edição, 2016)Documentário, Brasil, 2015, 16 min, livreNo reisado, um dos folguedos mais populares do Cariri cearense, o palhaço pinta a cara de preto, crianças aprendem a jogar espada com destreza e meninas crescem como rainhas. Mas Maria, a rainha de um dos reisados mais tradicionais da região, está no último ano de reinado e encara o drama de passar a coroa para a irmã mais nova, vivendo um verdadeiro rito de passagem.
Mbyá Reko Pyguá, a luz das palavras  – Kátia Klock, Cinthia Creatini da Rocha(1ª edição, 2014)Documentário, Brasil, 2012, 18 min, livreA sensibilidade do povo Guarani em educar as crianças permanece viva apesar das influências da sociedade contemporânea. Mas os caminhos e esforços dos líderes espirituais e professores indígenas são marcados por dilemas, buscas, encontros e desencontros. Este registro todo gravado em Guarani na Aldeia Yynn Moroti Wherá, em Biguaçu, Santa Catarina, no sul do Brasil, comprova: espiritualidade, simplicidade e verdade são palavras que traduzem “a luz” dos Guarani no seu processo de educação. Waapa  – David Reeks, Paula Mendonça, Renata Meirelles (4ª edição, 2017)Documentário, Brasil, 2017, 22 min, livreO documentário propõe um mergulho inédito na infância Yudjá (Parque Indígena do Xingu/MT) e os cuidados que acompanham seu crescimento. O brincar, a vida comunitária e as influências de uma relação espiritual com a natureza são revelados como elementos que organizam o corpo-alma dessas crianças. 
Tjamparanjani – Era Uma Vez – Tjamparanjani  – Miko Meloni, Mahiriri Ossuka(3ª edição, 2016)Documentário, Itália, Moçambique, 2016, 34 min, livreDurante o primeiro episódio do programa de rádio Tjamparanjani! (Era uma vez, em língua macua) foram apresentados as poesias e os contos de todos os participantes do novo curso da Oficina de Arte. No bairro Natite, na cidade de Pemba (ao norte de Moçambique), alguns artistas locais dão aulas de arte aos mais jovens. Para incentivá-los, as avós também participam, contando suas fábulas populares: a cada “Tjamparanjani!”, deve-se responder “Shampatteke!”, mantendo o ritmo da contação de história. 
Uma nota só – Laís Bodanzky (5ª edição, 2019)Ficção, Brasil, 2012, 11 min, livreDe forma sutil e poética, a diretora Laís Bodanzky conduz o olhar do espectador por ruas e becos sonoros, onde caminham passos que parecem divergir da própria realidade. Mas esses caminhos, certo dia, não serão mais os mesmos… 

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E assim mais uma Ciranda girou…

Quantos ritmos cabem nesta Ciranda? Foi com essa pergunta-chamamento que as curadoras da Ciranda de Filmes, Patricia Durães e Fernanda Heinz Figueiredo, abriram a mostra de 2019, no Espaço Itaú de Cinema Augusta, em São Paulo. Era um chamado para percorrrer as sonoridades Brasil adentro e mundo afora, ouvindo os sons ao longo do rio Amazonas, os ritmos das quebradeiras de coco, a toada do bumba-meu-boi, as sonoridades dos ciganos em jornada da Índia à Espanha, um músico encantando elefantes em terras tailandesas ou as vozes da natureza nos rincões do planeta.

Ali se iniciavam quatro dias de programação intensa, com filmes, oficinas, vivências, trocas, escutas e reflexões. Já na abertura, uma diversidade de ritmos marcava a telona: “Amazônia Groove” (Bruno Murtinho) inaugurou o encontro com o ecletismo do carimbó ao technobrega, da música clássica à guitarrada. Aliás, guitarrada do mestre Manoel Cordeiro que, se fechou o documentário de Bruno Murtinho com um show, abriu a Ciranda de Filmes com outro. Foi surpreendente sair das salas de cinema e encontrar o músico paraense num coreto de fitas coloridas convidando todos a dançar ritmos de sua terra natal. Era só o começo.

Na quinta-feira, a primeira vivência foi o toré dos Kariri-Xocó. Com chocalhos nos pés e maracas nas mãos, cantaram e dançaram em roda, num ritmo que significa “o que a tristeza significa”, “para poder desabafar, lembrar-se”. Terminada a apresentação, abriram uma rodada de perguntas. Foi uma “maravilha de vozes”, observou um dos espectadores, uma reunião de diferentes timbres que formam uma unidade harmônica. O mestre Wyanã Uia-Thê Kariri-Xocó explicou a inspiração para tal maravilhamento: “Vemos o gesto do passarinho, o som do vento, o som da água. Não nos preocupamos muito em botar muita letra [nas composições], nos preocupamos com a espiritualidade. O sentir, daí nos deixamos levar”.

A potência da música foi reafirmada mais tarde, na exibição de “Vivo por dentro: uma história de música e memória” (Michael Rossato-Bennett), que relata casos de tratamento de Alzheimer a partir da musicalidade – a área do cérebro que responde a estímulos musicais é uma das últimas a ser comprometida. Assim, perguntar a esses pacientes quais suas canções favoritas, aquelas que marcaram suas vidas, ajuda a reavivar memórias. A importância da música na área da saúde entrou ainda mais na roda durante a conversa com o grupo Arte Despertar, que trabalha com sons e histórias em hospitais. Para o musicoterapeuta André Lindenberg, um dos integrantes do grupo, a música é capaz de ressignificar um espaço como o do hospital e de transformar o tempo. Experiências que dilatam o tempo.

Com Lydia Hortélio, a música adentrou o território da infância. “Qual a mais remota lembrança musical dos tempos de criança que vocês têm?”, perguntou a etnomusicóloga que no Brasil abriu caminhos para um cuidadoso olhar para a cultura da infância. Na palestra da educadora que até hoje exercita seu corpo brincante, ela relembrou sua meninice em Serrinha, cidade na Bahia, onde fez um extenso registro dos brinquedos musicais em diferentes décadas do século passado, reunindo mais de 600 cantigas. Numa fala em tom de urgência, falou também do “fosso que separa cidade e campo no país”. Na zona rural, “onde o Brasil está encoberto”, a música acompanha todos os gestos das comunidades que persistem em habitar a natureza. E convocou: “Temos que voltar a cantar”.  

Seguimos cantando e conversando. Ou melhor, seguimos com “O Piano que Conversa” (Marcelo Machado), um filme com muitos diálogos musicais protagonizados pelo instrumento do título, em parceria com o pianista Benjamim Taubkin. Quando perguntado sobre a sua relação com as sonoridades de outras culturas, Taubkin respondeu sobre a música ser “o próximo estágio da humanidade”, em que “quanto mais a pessoa puder ser o que ela é, melhor”. E as prosas desse instrumento continuaram ecoando em outros filmes, como o documentário “Nelson Freire” (João Moreira Salles), o curta “O Afinador” (Fernando Camargo e Matheus Parizi) e a ficção cubana “Esteban” (Jonal Cosculluela).

Na sexta-feira , a educadora Therezita Pagani, da escola Te-Arte, quintal para a vivência plena da infância, participou de um bate-papo após a exibição do filme “Música na Te-Arte” (Fernanda Heinz Figueiredo). Therezita, batizada de “talismã” da mostra por uma integrante da plateia, lançou uma pergunta às mães: “Qual foi o primeiro embalo que cantaram para seus filhos?”. Foi bonito o que elas entoaram em forma de resposta: de composições autorais a canções que há tempos rondam a noite infantil. A música é o primeiro elo para que a criança se entenda, conheça seu ritmo interno, a educadora explicou. Ao final da conversa, um último pedido da educadora: “Vamos continuar sensíveis à música até o fim da vida”.

Já na exibição de “Amazônia Groove” aberta ao público, o diretor Bruno Murtinho nos contou como musicalidade e espiritualidade caminham juntas. Falou das dificuldades de gravar na região Norte, território imenso, onde o deslocamento é oneroso e leva bastante tempo. Da imersão em um mundo desconhecido pelos brasileiros. Do trabalho de entrevistas de cinco anos. Ao final, um resultado que impressiona: “A Amazônia me deu tudo que eu pedi a ela”. Um filme sobre fé, que foi feito a partir de vários pequenos milagres.

Benjamim Taubkin, em parceria com os também músicos João Taubkin e Kabe Pinheiro, voltou a inspirar o público da Ciranda numa outra conversa (intensamente) musical. A partir de três filmes inspiradores para o seu fazer artístico – Encontro com homens notáveis (Peter Brook), Camelos também choram (Byambasuren Davaa, Luigi Falorni) e Todas as manhãs do mundo (Alain Corneau) –, dialogou sobre a potência da música, território imprescindível. Entre uma prosa e outra, ele e os outros músicos criaram na hora composições em sintonia com o que tínhamos acabado de ver e ouvir no cinema, onde um piano marcou todos os dias presença.

O sábado começou com a apresentação da orquestra das crianças da EMIA, que encantou o saguão do cinema com músicas como com Tico-tico no fubá. Para continuar o assunto de ensino musical, uma partilha de experiências se desenrolou com a presença de Claudia Freixedas, Jorge Fofão, Roseli Novak e Teca Alencar de Brito. Papo que rendeu reflexões sobre como entender a música como um jogo aberto, em que cabem inúmeras possibilidades e experimentações. Entendido como manifestação natural do ser humano, território também do brincar. Espaço em que é necessário respeitar a autoria das crianças.

A plateia surgiu com algumas questões a respeito de expressões musicais contemporâneas e como educar as crianças nesse sentido – e o tempo ficou curto para tamanha discussão. Como fechamento, a fala de Fofão emocionou a plateia e destacou a importância de procurar sentido nas letras, nos sons. Eles significam algo. O fazer musical é parte da existência, “a música está na essência do homem, quando ele perde isso, ele está se machucando dentro dele mesmo”.

A exibição de “Ouça o Silêncio” (Mariam Chachia) foi seguida por uma discussão sobre o papel da música no desenvolvimento humano com o médico neurocientista Mauro Muszkat. O ponto principal da conversa girou em torno dos impactos da tecnologia nesse processo. Sobre a velocidade de informação a que os jovens estão expostos e as dificuldades em assimilar todo esse conteúdo, o médico comentou: “Nosso cérebro é plástico, mas não é elástico”. É interessante estimular uma criança a partir de diversas ferramentas e instrumentos, mas perceber se elas estão sincronizadas com esse movimento é essencial. “Quando você escuta uma música, tem que ter tempo para processar”, se as crianças ficam conectadas digitalmente durante muito tempo, esse tempo não é respeitado.

A urgência da musicalidade em nossas vidas permeou muitos territórios. E adentrou as aldeias no bate-papo Cantos da floresta, com a educadora Berenice Almeida e o músico Gabriel Levy. Eles começaram pedindo que o público se levantasse e aquecesse o corpo com um canto Krenak. Relacionar voz, palma e pisada, para muitos, foi difícil e exigiu algumas tentativas. A intenção era justamente conectar a plateia com essa sonoridade tão distinta do que é consumido musicalmente em grande parte do Brasil, influenciado por um padrão cultural europeu. A educadora musical proporcionou uma sensibilização sonora. À medida que apertava o play no computador, pedia para que as pessoas dissessem as imagens e sensações que vinham à cabeça. Chocalho, aves voando, força, terra e fogueira, tudo coube na floresta que foi trazida à sala de cinema.

Sempre presentes no saguão, as crianças vieram para a sessão comKids, com as reações mais diversas para a seleção de filmes. Não faltaram dancinhas nas cadeiras para momentos alegres, choros para os momentos mais obscuros de “O Rapto” (José Luis Jiménez Díaz) e aplausos ao fim de cada filme. Entre um murmúrio e outro, uma menina pergunta à amiga, após assistir ao curta-metragem “Cassiopeia” (Paulina Urreta), obra mais introspectiva: “Mas, afinal, o que esse filme tem a ver com música?”, confusa. A outra lhe responde apenas: “É o silêncio”.

Mais tarde, houve a exibição de “Patrimônio imaterial número 82” (Emma Franz), sobre o baterista australiano Simon Barker em sua jornada por conhecer a música tradicional coreana. O músico encontra Kim Seok-Chul, um importante xamã que estava profundamente doente. O longa documental é permeado pela filosofia coreana, em que os xamãs-artistas se utilizam da música para trazer os espíritos antigos; em que essa linguagem artística se apresenta como uma forma de “comunicar a energia”, sendo energia sinônimo de ritmo. Assim são conhecidos, como xamãs-artistas, pois acreditam que “os músicos são uma ponte espiritual entre o Espírito Santo e as pessoas”.

Tudo isso está profundamente conectado à natureza. Para eles, o “yin” está presente no vale e o “yang”, na montanha. A cachoeira, então, seria o lugar onde esses dois elementos se encontram, um espaço de equilíbrio pleno, da “beleza rústica” da pedra, da água corrente. É onde muitos buscam essa conexão com os ensinamentos da Terra, da mudança, do caminho, do que chamam de “brilhantismo despertado”: “Você pode escolher ser um rio ou um lago”, diz uma voz, no filme, sobre as lições do refúgio no mundo natural.

Após essas reflexões de uma cultura tão distante geograficamente, um convite ao que está perto: Gustavo Gitti ofereceu a vivência TaKeTiNa, com ritmos tradicionais de diversas culturas, inclusive a coreana. O inventor desse método, o austríaco Reinhard Flatischler, aprendeu seus princípios com Kim Seok-Chul, o xamã do filme “Patrimônio imaterial número 82” . Todos, então, se juntaram no saguão do cinema, em uma roda, entoando sons em um mesmo ritmo, uma mesma sintonia. “Boa parte do nosso sofrimento vem da desconexão”, abriu Gustavo Gitti, chamando as pessoas a buscarem essa cura por ritmos arquetípicos, inclusive brasileiros, para trabalhar corpo e mente. A vivência de vinte minutos foi intensa, mas apenas uma amostra do método que costuma durar horas – e que já havia sido experienciada por alguns na oficina que Gitti ofereceu durante os dias da Ciranda.

Tony Berchmanns também encantou o público na exibição do clássico “O Garoto” (Charles Chaplin). Enquanto o filme passava, reproduzido em um projetor cinematográfico analógico 35mm, o pianista improvisava sua trilha sonora ao vivo. Em uma masterclass oferecida um pouco antes, contou algumas de suas técnicas: “A minha partitura é o filme, estou em intenso diálogo com ele”. Por isso, tem um “vocabulário de temas” em sua cabeça, o qual acessa quando está em uma sessão de Cinepiano. Mostrou diferentes variações de harmonia, ritmo, melodia e sonoridades que podem atribuir outros sentidos a uma trilha sonora, mais alegre ou mais triste, mais calma ou mais agitada. Tudo isso como uma construção de clichês que foram construídos durante a história da música. “Meu foco é tentar trazer o que a narrativa quer construir”, disse Berchmanns, aplaudido de pé.

A noite do sábado não findava ali. Marcelo Machado, cineasta consagrado que se especializou em filmes ligados ao tema musical, trouxe também a público histórias de bastidores de seu documentário lançado em 2012,  “Tropicália” – as entrevistas com artistas que participaram desse movimento cultural, pesquisa e montagem do longa, que foi exibido na mostra. Entre as curiosidades, o fato de que o filme foi pensado inicialmente de forma muito diferente. Seria a história de um artista estrangeiro que vem ao Brasil conhecer o tropicalismo, mas temeu que esse personagem externo “eclipsasse” as verdadeiras estrelas do filme, os brasileiros.

Decidiu, então, começar com a pesquisa, um trabalho de garimpo que durou dois anos. Pressionado pela produtora, colocou todo o material em uma linha do tempo e percebeu que já era suficiente. Começou as entrevistas com artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé, sempre em uma “caverna da memória”, espaço escuro e com uma grande tela que organizava especialmente para isso. Lá, mostrava a seus entrevistados “partituras”, trechos de vídeos da época não tão conhecidos, com dez a quinze minutos de duração.

Foi inevitável comparar aquele tempo com o presente, mesmo com diferenças bem marcadas. Isso veio nas perguntas do público, em que o diretor reconheceu as semelhanças. “Por mais que dialogue com o tempo atual, o grande mérito do filme é trazer a memória.” Sobre política, assunto que permeia todo o longa, resumiu: “Quando os tempos são de convulsão, os músicos são antenas como todo artista. Eles [os tropicalistas] viveram seu tempo com grande intensidade”.

Então já era domingo, dia de exibição do filme “Mantra – Sounds into silence”, em que um dos personagens do documentário começa definindo tal prática: man (“mente”), tra (“transcender”). O longa de Georgia Wyss traz o tempo todo essa busca pela calmaria interna, pelo desligamento do excesso de informações que nos cerca, pela liberdade. Sugere caminhos para desviar-se do “kali yuga”, o “tempo das máquinas”, e dedicar mais tempo a nós mesmos. São diferentes perspectivas mostradas no filme, diversas “comunidades sonoras”, incluindo a de presidiários que também estão nessa empreitada de desenvolvimento da espiritualidade e têm contato com o kirtan, um tipo de mantra. Afinal, a espiritualidade permite que qualquer um, de qualquer crença, envolva-se em tais práticas. “Espiritualidade é sobre sabedoria, e não sobre poder.”

Terminada a exibição do filme, fomos convidados a uma rica vivência com Fátima Caldas, do Instituto de Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo. Foi uma experiência de imersão para acessar nossa interioridade por meio da música. Bach, Mozart, Beethoven: suas composições conduziram uma meditação guiada, de acolhimento de si. A proposta era adentrar em diferentes tipos de amor, experimentar estados interiores, tudo por meio da música. Deixar que ela “fale através de você”. “Não importa a cultura, não importa a linguagem musical, precisamos de um lugar que a música acessa com facilidade […], que sempre clama por contato.”

Também fomos marcados por um documentário essencialmente musical que, sem falas ou diálogos, conta a história de migração dos ciganos, do noroeste da Índia à Espanha, trazendo tradições culturais e questões políticas ligadas ao povo. Assim é “Latcho drom” (Tony Gatlif), um dos últimos filmes exibidos na Ciranda de Filmes, seguido por uma conversa com o professor de mitologia Marcos Ferreira-Santos. Ele comparou o modo de vida das populações ciganos ao dos povos afros e indígenas. “Não são sociedades-museu, são sociedades vivas”, lembrou o educador, ao citar semelhanças como a vida em comunidade, a relação intrínseca com a natureza, a tradição oral e uma outra concepção de infância.

“Mais do que aprender a falar, aprendemos a ouvir”, diz, sobre uma “poética da escuta” exercitada pelos povos mencionados. Nessas comunidades, a saúde pessoal corresponde à saúde comunitária. “O ser humano não é essencialmente bom ou essencialmente mau. Ele é doente.” E o que é melhor do que a música para curá-lo? Afinal, “a nossa pátria é a música, a dança e a língua”, conclui.

Após tantas experiências transformadoras, chegou a hora da despedida da 5ª Ciranda de Filmes. O encerramento foi anunciado por uma grande mestra da música, que ressoa até hoje na nossa tradição popular: a fluminense Clementina de Jesus retratada em documentário de Ana Rieper. Considerada o “elo perdido” entre a cultura brasileira e suas raízes africanas, marcou o Brasil e o mundo com sua voz e suas composições, além do extenso repertório de canções africanas.

Era o fim? Ao sair da sala de cinema, ainda movidas pelas histórias e rimas da sambista, as pessoas se depararam com os brincantes do bumba-meu-boi comandados pelo mestre maranhense Tião Carvalho, com a participação do Grupo Cupuaçu. Todos entraram na roda e brincaram junto ao Pai Francisco e à Mãe Catirina, sem poder faltar, é claro, o boi e seus giros que tanto encantaram as crianças. A brincadeira foi tão intensa que transbordou para a rua, em plena Augusta, com os tambores ressoando em meio às buzinas dos carros e ônibus, abastecendo a cidade “de poesia, beleza e coragem”, assim como nos contou a professora Shirley Maria de Oliveira, que disse frequentar a Ciranda como quem “adentra um portal, um lugar de encantamento, encontro e afetos”.

Texto: Gabriela Romeu, Luísa Cortés e Miréia Figueiredo/Estúdio Veredas

Fotos: Samuel Macedo

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De meninos e bois encantados

Desbravador desde sempre, filho do meio de uma família de sete irmãos, as janelas do artista Tião Carvalho se abrem rapidamente em imensas paisagens e profundas sonoridades quando é convidado a falar da infância, tempo marcado pelas imagens potentes da figura altiva da mãe, do povo a trabalhar no roçado, do balanço das fitas coloridas do chapéu do pai, da avó festeira a botar a Festa do Divino nas ruas. Do rio, das águas da lagoa, dos peixes. Da chuva. Do som dos carros de bois. Dos bois, muitos deles. “Os bois sempre foram muito encantados para nós”, diz o mestre de capoeira, também ator, cantor, músico e dançarino, ao se lembrar desse tempo de menino em Cururupu, município do litoral maranhense quase na divisa com o Pará, num Nordeste de ares amazônicos.

Situada em uma rota de antigos quilombos, que passa por Guimarães e Frechal, a cidade que tem hoje pouco mais de 30 mil habitantes carrega um histórico de resistência da população negra, berço de muitas culturas. Tal aspecto revela as raízes e marcas da ancestralidade do artista, fundador do Grupo Cupuaçu, em 1986, e responsável por trazer as festividades e sonoridades populares para São Paulo, onde é convidado especial a encerrar a Ciranda de Filmes 2019.

Curioso em saber o que existia para além da linha do horizonte, o filho de Floriana, Dona Florzinha, e Feliciano, Seu Pepe, não sofreu quando, aos oito anos, deixou a roceira Cururupu e foi morar com a tia materna, Edite (ou Didi), em São Luís. Ao contrário da família de seu pai, no entanto, que há duas gerações já participava e brincava com o boi nas celebrações da comunidade, sua tia Didi não tinha proximidade com essas tradições. Assim, o menino passou uma fase entre a infância e a adolescência um tanto afastado dessas manifestações populares. O encantamento do boi, no menino, ficou um tanto adormecido. Por pouco tempo.

Com mais ou menos 15 anos, o jovem das peladas de futebol conheceu o capoeirista Anselmo Barnabé Rodrigues, o Mestre Sapo, um “segundo pai”. Naquela idade foi decisivo ter a figura de um mestre, um dos primeiros, e ter entrado nesse universo da capoeira permitiu que aos poucos fortalecesse novamente a relação com suas raízes, que, no seu eu mais profundo, sempre estiveram presentes. Outros mestres viriam depois: Marciano, Tabaco, Chicotinha, Papativa, além do músico Arlindo Pipiu e do mestre da dança Klauss Vianna, entre diversos outros.

Nesses encontros com o passado, o multiartista relembra uma história que sua mãe sempre conta. Quando pequeno, ele e seu irmão mais velho imaginavam lugares para conhecer quando crescessem. Tião falava: “Eu vou para capoeira grande maior”. Dona Florzinha testava o filho perguntando se o lugar realmente existia. O menino admitia que não. É que nas brincadeiras de criança cabem outros mundos. Inclusive aqueles que ainda podem ser imaginados e explorados. Assim, já crescido, foi criando novos universos nas artes das ruas, nas rodas de capoeira, no teatro das esquinas, nas festividades populares, como os bois brincantes espalhados pelo bairro Madre de Deus, localizado na capital maranhense.

Aos 24 anos, em uma viagem a Ouro Preto (MG) com seu grupo de teatro, o Laborarte, conheceu o diretor argentino Ilo Krugli, comandante da trupe do lendário Teatro Ventoforte. Terminado o festival teatral nas terras das Gerais, retornou o artista ao Maranhão. Pouco tempo depois, então, recebeu uma carta do diretor do Ventoforte o convidando a participar de um circuito de apresentações nos Estados Unidos. Ficaram 40 dias por lá e, depois, ao chegarem de volta ao Brasil, emendaram um segundo festival, dessa vez, pela Europa. A “capoeira grande maior” do menino já era o mundo e, assim, decidiu se acomodar em São Paulo, mais especificamente, no Morro do Querosene, zona oeste, onde mora até hoje.

Nessas andanças de menino desbravador, Tião nunca deixou de trabalhar com aquilo de que mais gosta, a arte. Fundador do Grupo Cupuaçu, promove festas do bumba-meu-boi no Morro do Querosene e, assim, sempre em diálogo com suas raízes e sua gente, disseminou o brinquedo de sua Cururupu em São Paulo. Deu um pouco de cor ao cinza. É nesse território que o artista trabalha, no terreno do improvável, do surpreendente, onde cabem capoeiras grandes e maiores. “Quero de uma certa forma ocupar um espaço vazio, não quero fazer o que todo mundo está fazendo. Quero fazer diferente”, comenta. E, na junção de artes que permeiam sua vida, qualifica a música como o abre-alas, aquela que desobstrui os caminhos, vai na frente. Gênero musical do boi que também encantou São Paulo.Texto: Gabriela Romeu e Miréia Figueiredo/Estúdio VeredasFotos: Raquel Catão

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Quantas músicas cabem num rio?

Cantos de fiéis fervorosos em barcos rio abaixo, um homem marcando o ritmo de seu búfalo-bumba, uma artista de rua a cantar músicas de sofrência, o treme-treme das gangues do eletro, os sons que se entrelaçam aos cantos dos pássaros e uma diva dos bailes de carimbó amazônico, a entoar versos sobre banzeiros e pororocas, encantarias e especiarias. Essas e outras misturas compõem as sonoridades da floresta no “Amazônia Groove”, longa-metragem documental que abre a Ciranda de Filmes 2019.

Quantas músicas cabem num rio?, indaga um dos personagens do longa. Tal questão se agiganta quando o rio é nada menos do que o caudaloso Amazonas, cujas águas nascem nas montanhas peruanas dos Andes com o nome de Maranhão, é batizado de Solimões ao adentrar o Brasil, correndo até Manaus, onde encontra o rio Negro e passa a ser chamado de Amazonas, rio com sede em direção ao oceano Atlântico, no Delta do Marajó. Nesse longo trajeto, são muitos os aspectos de ancestralidade, fé, mistério, encantamento, memória e identidade banhados nessas águas.

É percorrendo as águas do Amazonas pelas lentes de Bruno Murtinho, também responsável pela direção e pela montagem do filme, que adentramos furos e igarapés, aportamos na agitação do mercado Ver-o-Peso, deslizamos em bailes em que casais dançam juntinho. No percurso, uma diversidade de sons marcam o rio, “nosso altar cultural”, como bem define o poeta e pesquisador da cultura amazônica João de Jesus Paes Loureiro. Nessas águas, “o artista é celebrante e celebrado”, ele completa, em breve aparição.

Com uma fotografia magistral que mergulha nos detalhes de muitas localidades e depois emerge em estonteantes paisagens que esticam horizontes, o filme faz do rio e da floresta, por vezes um teatro ou uma feira, um verdadeiro personagem. O longo plano sequência, silencioso, que abre o filme é um chamado a uma entrega total àquelas águas de muitos ritmos, místicos ou tecnológicos. Parafraseando um dos personagens, que rasga numa festa a quietude da floresta com muita aparelhagem e diz que “Deus é o som”, no filme a imagem é a divindade maior.

Nesse cenário-personagem pelas estradas aquáticas, em seu percurso, vamos conhecendo diversos personagens, anônimos ou não, alguns de raro carisma. É o caso da artista de rua que se apresenta nos arredores do Ver-o-Peso, na capital paraense: Gina Lobrista, filha de pais pernambucanos que migraram para a floresta em busca da fortuna na Serra Pelada. Seguindo a fala da mãe (“Gina, a vida é um palco”), às 6h da manhã, ela já está se arrumando para seguir em direção às ruas de Belém. Ali, com a ajuda de Mister Bacalhau, a cantora de música de corno (com cinco casamentos e outras tantas chifradas, diz ser experiente no assunto) conta vender uns 200 CDs por dia. “Com certeza, sou a artista que mais vende neste Brasil”, dispara, rindo de modo descontraído, sem falsa modéstia.

Outra musa paraense a estrelar o documentário, uma espécie de river movie musical, é Dona Onete, como é conhecida a cantora e compositora Ionete da Silveira Gama, “a diva do carimbo chamegado”. Dona de uma voz melodiosa, que não tem “nem muito açúcar nem muito sal”, ela canta e dança, movimentando o tronco, sentada numa cadeira de rodas. Diz ter uma malemolência amazônica, tal qual “rebujo no remanso”. Hipnotiza quem a ouve com suas encantarias de rio ou da mata, povoados por botos namoradores e protetores como Pena Verde.

A música amazônica, em seus muitos ritmos, com ou sem sotaque, cheia de misticismos, encharcada de gêneros regionais ou mergulhada no universo da sonoridades clássicas, reafirma a identidade de um povo, ou melhor, dos muitos povos que compõem esse pedaço de Brasil feito floresta. Ouvimos ao longo do filme (e também do rio) que este calor amazônico está muito no nosso ritmo, sublinha nossas melhores misturas. Sim, “somos filhos desse ritmo das águas, dessa mãe musical que é a natureza amazônica”.

Texto: Gabriela Romeu/Estúdio Veredas

Fotos: Divulgação

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O toré que move os Kariri-Xocó

“Saímos para poder dar o nome, para saberem que existimos.” A fala de Wyanã Uia-Thê Kariri Xocó, sobre a importância de trazer para zonas urbanas os cantos e as danças do toré, manifestação presente em diversos povos indígenas nordestinos, corta uma manhã barulhenta na cidade de São Paulo. Entre uma buzina de ônibus, uma freada de carro ou o burburinho do próprio lugar, esse mestre dos cantos de seu povo ressalta num falar doce e atento a força dos sons e gestos dessa tradição secular.

“[O toré] significa o que a tristeza significa. Porque tem hora que a pessoa está triste, não sabe lidar com isso. Faz aquela cançãozinha para poder desabafar, lembrar-se. Significa nossa tradição, nossas origens, nosso respeito. Pode não ser um deus, mas é um grande mestre”, explica Wyanã, que, desde pequeno, trabalha com essa tradição de seu povo, habitante da cidade de Porto Real do Colégio, em Alagoas, um grupo há cem anos resistente às invasões do Império brasileiro. Assim como outras etnias indígenas da região, os Kariri-Xocó perderam há tempos os peixes que pescavam no rio, seu território, tiveram subtraída parte de sua língua.

Um século depois, Wyanã segue a tradição de sua família e continua puxando os cantos do toré, ensinados a seus cinco filhos, com quem sonha em gravar em CD. Antes disso, no entanto, é possível ouvir esses cantos e experimentar seus passos na Ciranda de Filmes, no dia 23 de maio, após a exibição do curta-metragem documental “Toré das Crianças”, dirigido por Sandro Egues, que enfoca o poder do canal energético que se cria com os espíritos dos antepassados e da natureza durante tal manifestação.

A cerimônia do toré pode assumir duas formas. A primeira, mais reservada, o ritmo dos cantos é mais profundo, antes até proibidos entre os mais jovens da aldeia. É nela que os rostos são pintados como forma de proteção à essa forte energia espiritual, sua realização está relacionada ao aprendizado e à cura. Nesse chamado “toré espiritual”, as canções são  elaboradas ao vivo, a partir da frequência dos participantes. Já o toré que transpõe o território íntimo da aldeia é mais ritmado, com cantos mais leves. Mesmo assim, ainda há muito de cura e de espiritualidade na cantoria puxada por Wyanã, escolhido mestre de cantos pela conexão que carrega com seus ancestrais.

Em ambas as cerimônias, o mestre vai aos poucos lembrando dos cantos que já ouviu de seus antepassados. Entoadas em duas vozes, as músicas da comunidade ou do grupo respondem aos ritmos que ele recupera. “O toré não é você se preocupar com a letra, é também o sentir, ver aquela energia, liberar-se, trazer a sua criança para poder aprender”, explica Wyanã sobre a manifestação, cuja dança simboliza o dia a dia, a caminhada da vida, e o canto, as palavras, sempre puxadas pela maraca. Tal instrumento musical, batizado de “mestra dos cantos”, representa o planeta Terra. É uma verdadeira professora sabedora das mais diversas melodias.

Quando essa cerimônia desembarca em um lugar como a cidade de São Paulo, traz em suas sonoridades e movimentos a cura dos Kariri-Xocó. É um antídoto para se lidar com a solidão e a depressão, tão comuns nos grandes centros urbanos. Outra possibilidade é promover um encontro entre a zona urbana e o povo que até pouco tempo não era sequer reconhecido como tal. Os Kariri-Xocó são formados por dois povos indígenas, que viviam em lados opostos do rio São Francisco. Quando a terra dos Xocó, na ilha fluvial de São Pedro, em Sergipe, foi invadida pelo Império, parte deles buscou refúgio junto ao povo que vivia ao outro lado do rio. No entanto, a denominação só foi reconhecida num passado recente, após a criação da Funai, em 1967.

Ou seja, assim como nos diz Wyanã no início de nossa conversa: é, sim, preciso cantar e dançar para mostrar o quanto esse povo (re)existe, resiste.

Texto: Luísa Cortés/Estúdio VeredasFoto: Divulgação

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Música: comunicação que transcende a língua

Influenciados em grande parte por referências artísticas europeias e sob um olhar etnocêntrico característico da época, diversos viajantes, cronistas e pesquisadores, dos séculos XVI ao início do XX, classificaram de forma pejorativa as manifestações culturais indígenas. 

Sobre a música dos Botocudo (grupo chamado de Krenak ou Borum, hoje em dia, mais concentrado em Minas Gerais), por exemplo, o naturalista e etnólogo alemão Maximilian zu Wied-Neuwied registrou no início de 1800: “[…] nos homens, o canto se assemelha a um ruído desarticulado, que oscila entre três ou quatro notas, ora subindo, ora descendo, e parece provir do mais fundo do peito […] tudo pareceu-me um simples vozear sem palavras”. Ainda hoje se faz necessário despir-se dessa visão etnocêntrica. Compreender as sonoridades indígenas significa ampliar uma escuta sensível, como explicam as musicistas Magda Pucci e Berenice de Almeida no livro Cantos da floresta – Iniciação ao universo musical indígena, publicado pela editora Peirópolis.

Nesse sentido, um ouvido acostumado, exclusivamente, às músicas originárias dos padrões estéticos centro-europeus e a perceber, muitas vezes, a música como distração, a exemplo do que acontece com a população urbana-ocidental, encontra dificuldades em entender o significado dessa expressão para os povos indígenas. Os povos indígenas, resguardando as particularidades de cada um, compartilham uma relação comum a essa prática: “A música é geralmente considerada parte fundamental da vida, e não complemento ou simples entretenimento, ela quase sempre está imbricada em um caldeirão cultural, no qual todos os saberes estão muito conectados”, comenta a educadora musical Berenice de Almeida. O que para muitos é grito, para os Guarani, é japukaí,o canto forte e estridente da voz aguda das crianças. O que para os mais distraídos aparenta ser silêncio na floresta, para os Kaingang, é a natureza e seus espíritos produzindo som e, assim, afirmando estarem vivos.

A diversidade da música indígena se faz no detalhe. O exótico não tem riqueza musical, é visto como massa amorfa. Reiteração de preconceitos. No território brasileiro, existem mais de 250 povos indígenas, que, juntos, somam cerca 900 mil habitantes, cada um com sua história, seus ritos e sua forma de viver o cotidiano, as suas histórias e sua própria música. Reunir todos em uma categoria de “música indígena” é reduzir um conjunto plural e ignorar as especificidades de cada grupo. Definir a cultura musical dos indígenas como o tocar de tambores oculta a variedade de instrumentos utilizados, que incluem maracás e diversos tipos de sopro. Só reforça estereótipos.

Assim, ao ouvirmos as músicas das muitas etnias brasileiras, podemos refletir que  expressar-se musicalmente é universal, mas cada expressão sonora tem sua singularidade. “Se você não está muito versado nos códigos daquela música, você pode criar estranhamento, achar que não está entendendo. Não é só pela língua, mas pela questão musical propriamente dita”, aponta a etnomusicóloga Magda Pucci, diretora artística do grupo Mawaca. Mas, se existe uma forma de comunicação que transcende a língua, esta se dá pela língua da música. Como quando em períodos pré-históricos, do bater de duas pedras faiscava algum lampejo comunicacional, rítmico, anterior, até mesmo à fala.

A cantora Tikuna Djuena pode, enfim, esclarecer um desses vários entrelaçamentos entre música, experiência e linguagem: “A música para nós, povos indígenas, é nativa, tanto quanto o mais velho ancião. É nativa porque nasce conosco, tem cheiro de fumaça, gosto de mapati e é pintada de urucum e jenipapo. Há música no canto da parteira que acalma a mãe que vai parir e, do lado de fora da maloca, o pajé, ao som do maracá, entoa seus cânticos sagrados para afastar o mal e acalantar os espíritos. O canto faz parte do nosso cotidiano. Cantamos quando nascemos e quando morremos. Há cantoria para botar roça, para pescar e para caçar. Quando chove ou faz sol. Cantamos nos rituais de paz e de guerra. Celebramos a vida através do canto”, diz a cantora, em trecho do inspirador livro Cantos da floresta.

Texto: Miréia Figueiredo

Fotos: Renato Soares e Davi Boarato/Facebook Cantos da Floresta – A Floresta Canta – livros

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Os sons que vêm do sertão

inda na madrugada de Bodocó, no sertão pernambucano, vários pássaros cabeças-vermelhas cantam escondido no meio de um umbuzeiro. Por ser época de umbu, eles acordam e se juntam para comer o fruto, fazendo uma festa enquanto o dia vem raiando. No nascer da manhã registrado no projeto Sonário do Sertão, a orquestra de sonoridades é tão bonita quanto a paisagem que se apresenta aos olhos – e que se apresentará nas instalações da Ciranda de Filmes 2019.

Tal sonário é um acervo de sons gravados pelo interior do país, trazendo três territórios do semiárido nordestino brasileiro: Várzea Nova (Jacobina, Bahia), Várzea Queimada (Caém, Bahia) e Bodocó (Pernambuco). O projeto começa com a técnica e desenhista de som Camila Machado ministrando oficinas de captação de áudio para crianças e adolescentes dessas regiões. Os sons captados depois se tornaram material para a oficina de edição de som e, então, expostas em instalações artísticas que envolveram toda a comunidade. Nesses encontros, surgiram maneiras diversas de escuta e produção de sons. Renderam uma colheita de mil registros sonoros que, aos poucos, vêm sendo classificados e indexados no site.
A inspiração para o projeto tem origem nas narrativas da tradição oral, aquelas passadas dos mais velhos aos mais novos: “As histórias têm no universo sonoro um ponto importante na transmissão de saber e também na criação do imaginário das populações sertanejas”. Em parceria com o Movimento dos Pequenos Agricultores,o qual promove uma luta pela permanência do camponês e suas histórias em suas terras, esse acervo de sons valoriza o patrimônio imaterial do sertão, contribuindo com essa luta. É por meio da cultura musical, dos relatos e da memória, das festas e da paisagem sonora que sertanejos e sertanejas afirmam sua identidade.
Assim, no atento registro do cotidiano do semiárido brasileiro, o sertão ecoa no canto dos pássaros, no som de carroças em movimento, nas sonoridades do entardecer, no cacarejar do galinheiro, nas orações de noitinha, nos cantos de trabalho, nas melodias assoviadas durante a plantação da mandioca e nas festas religiosas. As histórias narradas pelas anciãs e pelos anciãos sinalizam o quanto o contar e o cantar tornam-se uma coisa só nesses territórios. Tudo registrado por seus próprios protagonistas no projeto, que valorizou a participação da comunidade,principalmente, crianças e jovens, na construção de sua própria memória sonora.
E da memória, muitos sons ecoaram. “Seu Joaquim é um senhor cego, morador e fundador de Várzea Queimada que lembra de todos os versos e toda a história de sua comunidade. É por conta de sua memória que se conseguiu o registro de comunidade remanescente quilombola, pois sua cabeça e suas histórias são mais fortes do que papelada de cartório”, conta Camila. São palavras e vozes que trazem “a história da região, com detalhes que permitem que a gente imagine a vida toda”.  

O registro dessa pluralidade de representações sonoras do patrimônio imaterial do sertão revela a memória coletiva de uma comunidade, permitindo, “desde as subjetividades individuais e suas intersecções com as respectivas culturas, construir coleções capazes de expressar esses universos”. Por conta de sua divulgação emmeio virtual, há uma valorização além daquela dentro da própria comunidade,permitindo que esses registros sonoros naveguem por outros locais e encontrem ouvidos de fora do sertão, sensibilizados pela sonoridade sertaneja.
Uma escuta atenta que permita ouvir essas paisagens e entender suas riquezas exige tempo, e há sons que nos convidam a entrar no tempo deles: “O que podemos fazer é aceitar esse convite e baixar a velocidade do cotidiano para poder escutar os sons ao nosso redor e nos conectarmos com eles. O tempo da escuta é um tempo de conexão, de união e encontro”. Respeitar esses encontros é fundamental para identificar as riquezas sonoras, entendê-las e valorizá-las – e, depois, saber dedicar seu tempo ouvindo o entardecer, os grilos, o vento nas palhas do coqueiro…
Texto: Carolina Tiemi/Estúdio VeredasFoto e sons: Sonário do Sertão