{"id":12727,"date":"2026-07-28T18:51:17","date_gmt":"2026-07-28T21:51:17","guid":{"rendered":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/?p=12727"},"modified":"2026-08-20T10:37:58","modified_gmt":"2026-08-20T13:37:58","slug":"a-curadoria-como-cartografia-viva-uma-investigacao-em-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cirandadefilmes.com.br\/2023\/a-curadoria-como-cartografia-viva-uma-investigacao-em-movimento\/","title":{"rendered":"A curadoria como cartografia viva: uma investiga\u00e7\u00e3o em movimento"},"content":{"rendered":"<p>Por: Fernanda Heinz Figueiredo<\/p>\n<p>O modo como os adultos aprendem a escutar e a olhar para as crian\u00e7as e para os jovens molda tudo o que constroem para elas. As escolas, as pol\u00edticas, as cidades, os v\u00ednculos, o tempo, os cuidados. Ampliar a escuta e formar esse olhar, no entanto, raramente \u00e9 visto como prioridade. Foi dessa constata\u00e7\u00e3o, que nasceu a Ciranda de Filmes: n\u00e3o uma mostra de cinema voltada \u00e0s crian\u00e7as, mas um espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o, sensibiliza\u00e7\u00e3o e aprofundamento para quem j\u00e1 atua, ou deseja atuar, em favor das inf\u00e2ncias e das juventudes: educadoras e educadores, gestores escolares, estudantes de pedagogia e educa\u00e7\u00e3o, artistas, cineastas, profissionais da sa\u00fade infantil e juvenil, entre tantos outros que hoje comp\u00f5em esse p\u00fablico plural e intergeracional. Somos, desde ent\u00e3o, a primeira e \u00fanica mostra de cinema no Brasil dedicada a esse prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Mas antes de tudo, a Ciranda de Filmes nasceu de uma investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante os sete anos em que dirigi e produzi o document\u00e1rio Sementes do Nosso Quintal, retornei, como ex-aluna e acompanhei de perto, como m\u00e3e e documentarista, a experi\u00eancia da inf\u00e2ncia na Te-Arte, uma escola quintal, espa\u00e7o para a criatividade infantil, criada em S\u00e3o Paulo pela educadora capixaba Therezita Pagani na d\u00e9cada de 1970. A realiza\u00e7\u00e3o do filme me permitiu desenvolver um olhar mais atento para o crescimento das minhas filhas, para as crian\u00e7as e para o desenvolvimento humano nos seus primeiros anos, e me aproximou de outras pr\u00e1ticas educativas, de diferentes percep\u00e7\u00f5es sobre a crian\u00e7a e a inf\u00e2ncia e de uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica que raramente encontrava espa\u00e7o nos circuitos de exibi\u00e7\u00e3o. Filmes que permitiam pensar a educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da escola e coloc\u00e1-la em rela\u00e7\u00e3o com a cultura, a natureza, as artes, a vida comunit\u00e1ria e as quest\u00f5es sociais do nosso tempo.<\/p>\n<p>Quando o document\u00e1rio ficou pronto, compreendi que lan\u00e7\u00e1-lo isoladamente n\u00e3o seria suficiente. Queria compartilhar a minha investiga\u00e7\u00e3o e desejava que ele pudesse conversar com outras obras e experi\u00eancias, encontrar diferentes p\u00fablicos e suscitar reflex\u00f5es que n\u00e3o se encerrassem com o fim da sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi desse desejo e do encontro com Patr\u00edcia Dur\u00e3es, educadora, musicista e exibidora com ampla trajet\u00f3ria na forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablicos, na articula\u00e7\u00e3o entre cinema e educa\u00e7\u00e3o e na difus\u00e3o de filmes para crian\u00e7as e jovens, que nasceu, em 2014, a primeira edi\u00e7\u00e3o da Ciranda de Filmes.<\/p>\n<p>O encontro reuniu trajet\u00f3rias bastante complementares. De um lado, uma pesquisa derivada da realiza\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio que buscava compreender melhor as crian\u00e7as e as rela\u00e7\u00f5es entre elas, com o brincar, a natureza, as artes, a cultura popular, os processos de desenvolvimento e aprendizagem. De outro, uma longa experi\u00eancia dedicada \u00e0 circula\u00e7\u00e3o das obras, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de espectadores, ao di\u00e1logo com cineastas e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os permanentes de encontro entre filmes e p\u00fablicos diversos.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a mostra se tornou um espa\u00e7o continuado de investiga\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre cinema, inf\u00e2ncia, juventudes e educa\u00e7\u00e3o. Nesse percurso, fomos compreendendo a curadoria n\u00e3o s\u00f3 como uma etapa necess\u00e1ria \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de uma mostra, mas como um m\u00e9todo de pesquisa, articula\u00e7\u00e3o de pessoas e experi\u00eancias e cria\u00e7\u00e3o de encontros.<\/p>\n<p>A palavra <strong>&#8220;curadoria&#8221;<\/strong> tem origem no latim curare: cuidar, zelar, tratar. Com o tempo, passou a designar pr\u00e1ticas distintas nas artes, na museologia, nas bibliotecas, na comunica\u00e7\u00e3o e na ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o. Em todas essas \u00e1reas, no entanto, a curadoria pode ultrapassar o trabalho de reunir ou organizar conte\u00fados e constituir uma cria\u00e7\u00e3o orientada por uma vis\u00e3o, uma pesquisa e determinadas escolhas.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia da Ciranda, curar \u00e9 pesquisar, escutar, olhar sob outros \u00e2ngulos, formular perguntas e perceber rela\u00e7\u00f5es que nem sempre est\u00e3o evidentes. \u00c9 acompanhar festivais e a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica com esse foco do mundo todo. Assistir a muitos filmes, conhecer realizadores e experi\u00eancias de diferentes lugares, conversar com distribuidores, educadores, pesquisadores, artistas e institui\u00e7\u00f5es e refletir sobre o encontro que cada obra poder\u00e1 estabelecer com o p\u00fablico. A sele\u00e7\u00e3o dos filmes \u00e9 essencial, mas \u00e9 apenas o come\u00e7o do processo.<\/p>\n<p>A curadoria tamb\u00e9m envolve pensar como as obras se aproximam, em que ordem ser\u00e3o apresentadas, que contrastes ou continuidades surgem entre elas, quais perspectivas est\u00e3o presentes e quais ainda precisam ser procuradas. Envolve buscar um equil\u00edbrio entre linguagens, gera\u00e7\u00f5es, pa\u00edses, dura\u00e7\u00f5es e formas de realiza\u00e7\u00e3o, sem transformar a diversidade em uma soma de representa\u00e7\u00f5es ou em simples cumprimento de categorias.<\/p>\n<p>Trata-se de compor um percurso.<\/p>\n<p>Na Ciranda, procuramos filmes com for\u00e7a est\u00e9tica e narrativa, mas tamb\u00e9m obras que desloquem o olhar, introduzam perguntas e nos permitam perceber de outra maneira a crian\u00e7a, as inf\u00e2ncias, as juventudes, os processos educativos e os desafios do passado e do presente.<\/p>\n<p>Nos interessa o filme, a narrativa que n\u00e3o toma a crian\u00e7a apenas como assunto, personagem ou p\u00fablico. Buscamos filmes que reconhe\u00e7am crian\u00e7as e jovens como sujeitos que j\u00e1 s\u00e3o, que possuem experi\u00eancias, imagina\u00e7\u00e3o, pensamento e cultura singular.<\/p>\n<p>E isso exige aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas ao que \u00e9 narrado, mas ao modo como cada filme constr\u00f3i seu olhar e percebe a crian\u00e7a. A partir de que perspectivas se olha para uma crian\u00e7a? Quanto espa\u00e7o existe para sua voz, seus gestos, suas escolhas, linguagens, necessidades e seu tempo? Ela aparece apenas explicada pelos adultos ou \u00e9 reconhecida como algu\u00e9m capaz de interpretar o mundo e de produzir sentidos pr\u00f3prios?<\/p>\n<p>Ao assistir a filmes que nos permitem imers\u00f5es por diferentes culturas e olhares, aprendemos tamb\u00e9m que a inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 um per\u00edodo da vida e que as diversas inf\u00e2ncias s\u00e3o atravessadas por m\u00faltiplas e complexas quest\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas, ambientais, afetivas&#8230; Da mesma forma, existem maneiras muito distintas de ensinar, aprender, cuidar, brincar, se relacionar com a vida, viver em comunidade.<\/p>\n<p>Cada filme traz consigo uma paisagem, uma mem\u00f3ria, uma experi\u00eancia e uma forma de compreender a vida. Por isso, um filme nunca chega sozinho.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 colocado ao lado de outras obras, de uma conversa, de uma oficina, de uma viv\u00eancia ou de um convidado, novas rela\u00e7\u00f5es podem surgir. Uma hist\u00f3ria \u00edntima pode iluminar uma quest\u00e3o coletiva. Uma experi\u00eancia realizada em uma pequena comunidade pode dialogar com problemas vividos nas grandes cidades. Uma pr\u00e1tica antiga pode oferecer elementos para pensar o presente.<\/p>\n<p>O trabalho curatorial consiste tamb\u00e9m em criar condi\u00e7\u00f5es para que essas aproxima\u00e7\u00f5es aconte\u00e7am, evitando a pretens\u00e3o de determinar previamente o que o p\u00fablico dever\u00e1 compreender.<\/p>\n<p>Existe uma diferen\u00e7a importante entre oferecer refer\u00eancias e fechar uma interpreta\u00e7\u00e3o. A curadoria pode sugerir percursos, apresentar contextos e tornar vis\u00edveis certas rela\u00e7\u00f5es, mas precisa preservar aquilo que a experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica tem de aberto, amb\u00edguo e singular. Cuidar de um filme \u00e9 tamb\u00e9m evitar que ele seja reduzido ao tema da sess\u00e3o ou utilizado apenas como ilustra\u00e7\u00e3o de uma ideia.<\/p>\n<p>Cada edi\u00e7\u00e3o da Ciranda nasce de uma pergunta, ou de um conjunto delas, que orienta meses de pesquisa, visionamentos, conversas e reflex\u00f5es. A partir delas, organizamos os filmes e, tamb\u00e9m, as rodas de conversa, os debates, as oficinas, as viv\u00eancias, os convidados e os demais elementos da programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao olhar para as edi\u00e7\u00f5es j\u00e1 realizadas, podemos perceber ou entender a Ciranda como uma sequ\u00eancia de perguntas que se desdobram umas nas outras.<\/p>\n<p>Em 2014, partimos das rela\u00e7\u00f5es entre inf\u00e2ncia, espa\u00e7os de aprendizagem e transforma\u00e7\u00e3o, que se tornaram nossos eixos de pesquisa. Na edi\u00e7\u00e3o seguinte, aproximamo-nos das fam\u00edlias, da natureza e do protagonismo infantil. Para este intermin\u00e1vel per\u00edodo de incertezas, fomos em busca de mestres e refer\u00eancias. Depois, perguntamos o que nos nutre e direcionamos a nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e0s po\u00e9ticas, \u00e0s humanidades e \u00e0s subjetividades.<\/p>\n<p>Em 2019, investigamos a m\u00fasica como linguagem da vida. Durante a pandemia, quando os encontros presenciais foram interrompidos, buscamos oferecer atrav\u00e9s do cinema infantil, na primeira edi\u00e7\u00e3o da Ciranda cirandinha de Filmes, um &#8220;sonh\u00e1rio da gente&#8221;, espa\u00e7o poss\u00edvel para a imagina\u00e7\u00e3o e o fortalecimento dos v\u00ednculos. Em seguida, inspirados na obra freireana, perguntamo-nos como esperan\u00e7ar de maneira ativa e coletiva. Em 2023, refletimos sobre os cuidados singulares e suas rela\u00e7\u00f5es com as comunidades e os ecossistemas.<\/p>\n<p>Esses temas nunca foram compartimentos isolados. Cada edi\u00e7\u00e3o retomou quest\u00f5es anteriores e acrescentou novas camadas \u00e0 pesquisa.<\/p>\n<p>Foi em uma experi\u00eancia, realizada durante a quinta edi\u00e7\u00e3o, que esse modo de trabalhar se tornou vis\u00edvel de uma forma muito especial.<\/p>\n<p>A partir de uma proposta da jornalista, escritora e documentarista Gabriela Romeu, que naquele momento integrava a equipe de comunica\u00e7\u00e3o da mostra, criamos uma <strong>Cartografia Cirandeira<\/strong>. Ao inv\u00e9s de apresentar os filmes apenas como uma grade de sess\u00f5es, a cartografia os distribuiu por diferentes trilhas: inf\u00e2ncia, mestres, resist\u00eancia, identidade, natureza, cura, escuta e experimenta\u00e7\u00f5es, e os relacionou a livros, m\u00fasicas, exposi\u00e7\u00f5es, espa\u00e7os culturais, projetos, obras visuais e conte\u00fados digitais.<\/p>\n<p>Foi um convite para que a experi\u00eancia cirandeira transbordasse as salas de cinema.<\/p>\n<p>Depois dos filmes, das oficinas, das conversas e das rodas musicais, cada pessoa poderia escolher uma rota e continuar o percurso: ler um livro, ouvir uma can\u00e7\u00e3o, visitar uma exposi\u00e7\u00e3o, acessar um projeto, revisitar uma refer\u00eancia ou descobrir outra. O mapa n\u00e3o indicava uma dire\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Oferecia caminhos poss\u00edveis e permitia que cada visitante montasse seu pr\u00f3prio itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>A cartografia nos ajudou a compreender melhor o que a Ciranda j\u00e1 vinha tentando realizar desde sua origem.<\/p>\n<p>Uma mostra de cinema pode ser mais do que um conjunto de sess\u00f5es. Pode funcionar como ponto de partida para outras descobertas e como lugar de aproxima\u00e7\u00e3o entre obras, repert\u00f3rios, pessoas e saberes. Pode convidar o p\u00fablico n\u00e3o apenas a assistir, mas a continuar procurando, ouvindo, lendo, conversando e experimentando.<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o ampliou tamb\u00e9m nosso modo de pensar a curadoria. Uma programa\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ser constru\u00edda como uma linha \u00fanica, com come\u00e7o, meio e fim definidos. Ela pode se organizar como um mapa composto por caminhos que se cruzam, se afastam e voltam a se encontrar.<\/p>\n<p>E o melhor disso, claro, \u00e9 que cada pessoa percorrem a Ciranda da uma maneira singular.<\/p>\n<p>Uma educadora pode chegar por uma quest\u00e3o pedag\u00f3gica e encontrar uma obra de arte. Uma crian\u00e7a pode ser atra\u00edda por uma anima\u00e7\u00e3o e descobrir uma m\u00fasica de outro pa\u00eds. Uma pesquisadora pode comparecer a uma conversa e se aproximar de um filme que n\u00e3o conhecia. Um familiar pode entrar na sala por causa de uma hist\u00f3ria e sair interessado em uma experi\u00eancia educativa, em uma pr\u00e1tica comunit\u00e1ria ou em outra forma de rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<\/p>\n<p>A curadoria tem a capacidade de oferecer novos caminhos e ajudar a realizar essas passagens.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, aproximamos o cinema da educa\u00e7\u00e3o, da m\u00fasica, da literatura, da filosofia, da sa\u00fade, da ci\u00eancia, da ecologia, das artes, das culturas tradicionais&#8230; N\u00e3o para transformar os filmes em materiais explicativos, mas porque a experi\u00eancia art\u00edstica pode revelar aspectos da realidade que nem sempre se apresentam da mesma forma em uma palestra, um estudo ou uma exposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>O filme preserva sua linguagem, seu ritmo e sua liberdade. Os outros saberes chegam para ampliar a conversa, n\u00e3o para encerr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Foi esse percurso que nos conduziu ao tema da nona edi\u00e7\u00e3o: <strong>&#8220;Inf\u00e2ncia: for\u00e7a regeneradora da vida \u2014 despertar sonhos, cultivar o comum e regenerar nossa forma de estar no mundo&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p>A pergunta que orienta esta nova pesquisa re\u00fane muitas das inquieta\u00e7\u00f5es das edi\u00e7\u00f5es anteriores. O que as crian\u00e7as podem nos ensinar sobre outras maneiras de viver, aprender, criar v\u00ednculos e cuidar do mundo? O que acontece quando deixamos de pensar a crian\u00e7a como algu\u00e9m que precisa ser preparada para o futuro e passamos a reconhec\u00ea-la como presen\u00e7a capaz de interrogar o mundo e nos transformar? Que capacidades humanas, t\u00e3o vis\u00edveis na inf\u00e2ncia, precisamos relembrar, preservar ou reaprender ao longo da vida?<\/p>\n<p>Em tempos marcados por crises ambientais, in\u00fameros conflitos, desigualdades, enfraquecimento dos v\u00ednculos comunit\u00e1rios, desesperan\u00e7a e dificuldade de imaginar futuros comuns, interessa-nos olhar para a inf\u00e2ncia n\u00e3o como promessa abstrata nem como solu\u00e7\u00e3o idealizada para os problemas produzidos pelos adultos.<\/p>\n<p>Precisamos ter muito cuidado: n\u00e3o cabe \u00e0s crian\u00e7as e aos jovens reparar o mundo que receberam!<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, reconhecer a crian\u00e7a como sujeito que \u00e9, e n\u00e3o como salvadora do mundo, nem como t\u00e1bula rasa a ser preenchida por respostas prontas, \u00e9 uma escolha pol\u00edtica concreta. E os filmes, mais do que o discurso, t\u00eam uma capacidade rara de sustentar essa escolha pois n\u00e3o explicam a crian\u00e7a, mas a colocam em cena, com toda a sua complexidade, e nos obrigam a olhar de outro lugar.<\/p>\n<p>O que buscamos \u00e9 ajudar a sustentar a percep\u00e7\u00e3o de que algumas capacidades fundamentais \u00e0 vida se manifestam com particular intensidade na inf\u00e2ncia: a curiosidade, a imagina\u00e7\u00e3o, a disponibilidade para o encontro e o v\u00ednculo, a inven\u00e7\u00e3o de linguagens, o brincar, a cria\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es inesperadas e a possibilidade de ver como aquilo que os adultos n\u00e3o enxergam ou muitas vezes j\u00e1 naturalizaram.<\/p>\n<p>Como cuidar dessas pot\u00eancias sem querer control\u00e1-las nem as aprisionar? O que uma sociedade revela sobre si mesma pela forma como acolhe e escuta suas crian\u00e7as? Que modos de educar favorecem a autonomia, a conviv\u00eancia e as atitudes colaborativas? E o que podemos aprender com diferentes pr\u00e1ticas e culturas que n\u00e3o separam de forma t\u00e3o r\u00edgida inf\u00e2ncia e vida comunit\u00e1ria, conhecimento e experi\u00eancia, seres humanos e natureza? Como permanecer em estado de indigna\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, cultivar a esperan\u00e7a ativa diante de tantas viol\u00eancias e mundos desmoronando?<\/p>\n<p>A curadoria da nova edi\u00e7\u00e3o procura reunir filmes que nos ajudem a permanecer e aprofundar essas perguntas. Obras que apresentem as inf\u00e2ncias em sua diversidade e complexidade, de g\u00eanero, ra\u00e7a, cultura, ancestralidade, que n\u00e3o as idealizem nem as diminuam, que nos aproximem de experi\u00eancias de aprendizagem, cuidado, resist\u00eancia, resili\u00eancia, cura, pertencimento e transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais de dez anos depois da primeira edi\u00e7\u00e3o, seguimos acreditando que o cinema n\u00e3o transforma o mundo sozinho. Mas ele pode sim alterar nossa percep\u00e7\u00e3o, nos colocando no lugar do outro, aproximando experi\u00eancias que pareciam distantes e tornando vis\u00edvel aquilo que deixamos de observar e escutar, al\u00e9m de nos mobilizar para tomar atitudes concretas.<\/p>\n<p>Ao longo desses dez anos, j\u00e1 foram mais de 400 filmes exibidos e mais de 96 atividades formativas oferecidas, entre rodas de conversa, viv\u00eancias l\u00fadicas, oficinas cinematogr\u00e1ficas, reunindo mais de 39 mil pessoas, de diferentes idades e lugares. N\u00fameros que n\u00e3o substituem o que aconteceu em cada sess\u00e3o, em cada encontro, mas ajudam a medir a extens\u00e3o de um percurso que come\u00e7ou pequeno e n\u00e3o pretende de se espalhar.<\/p>\n<p>A curadoria pressup\u00f5e exerc\u00edcios de presen\u00e7a e aten\u00e7\u00e3o demorada.<\/p>\n<p>Olhar e escutar demoradamente uma obra, buscar compreender o que ela carrega e imaginar as rela\u00e7\u00f5es que podem acontecer a partir dela. Criar caminhos entre um filme e outro, entre uma sess\u00e3o e uma conversa, entre uma pergunta e uma experi\u00eancia. Saber desapegar de um filme ou a\u00e7\u00e3o que imaginamos. Se abrir para novas novas refer\u00eancias.<\/p>\n<p>A Ciranda continuar\u00e1 certamente se construindo e se refazendo, como um percurso que percorremos em espiral.<\/p>\n<p>A cada edi\u00e7\u00e3o, alguns caminhos se tornam mais n\u00edtidos, outros se abrem e novas perguntas aparecem. Os filmes s\u00e3o pontos de partida. As conversas, oficinas, viv\u00eancias e as novas refer\u00eancias que surgem nos ajudam a manter em movimento. E cada pessoa segue levando consigo aquilo que viu, ouviu e descobriu, dando continuidade \u00e0 Ciranda por trajetos que n\u00e3o podemos prever.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 educadora, educador, familiar, profissional da cultura, da sa\u00fade, pesquisador, cineasta, ou apenas algu\u00e9m que tamb\u00e9m inquieto com respostas f\u00e1ceis sobre inf\u00e2ncia, este \u00e9 um convite: caminhe com a Ciranda de Filmes. Na 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o, e nas que ainda est\u00e3o por vir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Fernanda Heinz Figueiredo, documentarista e diretora da Ciranda de Filmes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12718,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,97],"tags":[],"class_list":["post-12727","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-olhares","category-olhares-2026"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A curadoria como cartografia viva: uma investiga\u00e7\u00e3o em movimento - Ciranda de Filmes 2023<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" 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